Safo de Lesbos, primeira Musa homossexual da civilização ocidental.

Safo viveu no século VII a.C. e fundou em Mitilene, na ilha de Lesbos, uma espécie de confraria dedicada a mulheres a à deusa Afrodite, a qual denominou: “Residência das Discípulas das Musas”.


Mitilene era a principal cidade da ilha de Lesbos, situada no mar Egeu, sob domínio da antiga civilização eólica desde o século XII a.de C..

Povo independente, amigo do vinho e dos prazeres, estes eólios transformaram sua ilha num “território livre”, algo totalmente diferente daquilo que ocorria no restante da Grécia, colonizada pelos patriarcais dóricos.

A importância da mulher no antigo matriarcado da civilização minoica, o contato permanente com Egito onde a mulher sabidamente gozava da alta consideração, trouxeram para os habitantes de Lesbos o respeito às mulheres, assim como o amor ao luxo, à vida social e intelectual e, em consequência, uma grande liberdade nos costumes.

Pois a representante maior desse sensualismo e desse momento de libertação da mulher grega foi a poetiza Safo.


Lá se ensinava a música instrumental, o canto, a poesia, assim como o culto à beleza corporal. A beleza, a graça e os encantos femininos, a conquista de amores, o culto a Eros, a preparação das nubentes para, no casamento, amarem e se fazerem amadas! A tudo isso se dedicava a “Residência”.

E nesta comunidade em que a cultura era ingrediente indispensável para a beleza, a vida comunitária transcorria entre festas, cerimônias e banquetes!


Imagine-se o impacto sofrido pelas sociedades machistas e patriarcais de quase toda a restante da Grécia! Nela as mulheres eram mantidas no semianalfabetíssimo, passando o tempo a cuidar do lar, dos filhos, a tecer e a fiar! Os prazeres e o contato com as Musas, seus maridos os obtinham com escravas, concubinas e hetairas!

Por isto tudo, a iniciativa de Safo foi mais que arrojada, revolucionária para seu tempo!

E graças a esta empreendedora, Lesbos transformou-se num clube de mulheres, para onde confluíam as melhores e mais libertas cabeças femininas da toda a Hélade!


Tanto a sociedade machista de seu tempo, quanto aquelas que viriam no futuro, jamais a perdoariam!

Chegaram até nós muitos poemas que aviltaram Safo! Por exemplo, Ovídio, poeta romano, envolvido em todas as fofocas das cortes imperiais, dedicou uma de suas “Metamorfoses” para transformar Safo em uma mulher que se suicida após ser recusada por um velho barqueiro, transformado em jovem por um bálsamo divino!

E por séculos e séculos depois sua morte, a irreverência revolucionária de Safo não pode ser esquecida pelos reacionários e pela sociedade machista!

Muito menos! Poetas “oficiais” como Ovídio não podiam aceitar que a cultuadora da beleza e do intelecto era uma autêntica homossexual feminista e que amara ardentemente diversas de suas alunas!


Nos poemas de Safo, o amor sempre a despedaça. Um Eros que, na falta de asas, até mesmo rasteja.

Para ela paixão é tesão! O amor é sempre o corpo que arde por outro e nele a alma não entra e nem habita.

“Atis, há muito tempo que já eu te amava,

Tu não eras para mim senão uma criança pequena e sem graça.”


Um dia, a amante se muda para outra escola de mulheres, uma concorrente da daquela fundada por Safo.

“Eros novamente arranca-me os membros e me atormenta.

Eros amargo e doce, monstro invencível, ó Atis:

Tu, farta de mim, tu te foste, voaste para Andrômaca”.


Eros, em Safo, nada tem de sua forma mística, nem mesmo chega a ter forma, é assim como uma força obscura que se insinua nos membros e nos desfaz, pois a paixão pode até enlouquecer.

“Escuta a tua voz tão suave

E esse riso encantador

Que enlouquece em meu peito o coração.”


Do Objeto amado basta a percepção mais fluída, a do som ou de uma imagem entrevista para desencadear a paixão em toda a sua extensão. A ausência de sua amiga Atis torna-se em seu poetar, presença.

Ah, gostaria de contemplar o seu andar arrebatador

E o brilho deslumbrante de seu rosto.”


Eros de Safo jamais é exclusivo. Arignota, Atis, discípulas, e Safo se amam. Arignota parte para se casar e a poetiza solta um grito que percorre o mundo dos sonhos, pois é neste elemento que seu queixume paira, uma forma consciente de desligar-se da tortura física imposta por Eros na ausência.

“Muitas vezes, na longínqua Sardes,

O pensamento da querida Arignota, ó Atis,

Vem procurar-nos aqui, a ti e a mim.

No tempo em que vivíamos juntas,

Tu foste verdadeiramente para ela uma deusa,

E do teu canto ela fazia suas delícias.”


Eros é soberano! O desejo é numinoso mas também fere, esgota, consome. E Safo sente e conta-nos os golpes recebidos.

“Igual aos deuses me parece

Aquele que, face a face,

Sentado junto a ti,

Escuta a tua voz tão suave,

E esse riso tão encantador que, juro,

Enlouquece no meu peito o coração.

Mal te vejo, um instante que seja,

Nem sequer um som me passa aos lábios,

Mas minha língua se resseca,

Um fogo sútil de súbito me corre a pele,

Os meus olhos deixam de ver,

Meus ouvidos zumbem...

E parece que vou morrer.”


A Natureza sempre está presente em todos os versos de Safo. Ela une o mundo exterior aos sentimentos e nisto, antecipando-se em quase vinte séculos ao seu tempo, Safo de Lesbos é moderna!

O poeta Homero também amara a natureza, mas era uma natureza povoada por deuses e impenetrável para os homens.

Safo, não. A natureza em Safo é absolutamente despovoada de figuras míticas, sendo prenhe da presença feminina, sempre mulheres na flor da idade e sensíveis aos movimentos das almas.

Safo sabe, séculos antes do homem moderno, que a consciência humana e a natureza física são uma e só coisa em sua essência.

“A lua pôs-se e as plêiades iluminam o céu...

E eu durmo só.

As estrelas em redor da lua radiosa,

Velam de novo o seu claro rosto”.


Safo teve uma filha a quem também muito amava e um pequeno trecho de um poema que lhe dedica chegou até nós.

“Tenho uma filha linda, semelhante

A um ramo de flores de ouro, minha Cleia amada,

Que eu não daria nem por toda a Lídia,

Nem pela amável...”

“Hoje ninguém mais se lembra

De Anatólia ausente.

Ah! Gostaria de contemplar o seu andar arrebatador

E o brilho deslumbrante de seu rosto.”


Ao final, Safo nunca está realmente só. A presença da noite, das estrelas, das flores e do canto das aves, as macias e doces carnes de suas discípulas e amigas, num mundo florido onde Eros nunca está ausente e sua presença adornada por flores tem até mesmo a maldade que lhe é intrínseca, adornada.


Não há nada nos movimentos da paixão que não seja sensível aos fenômenos do Universo. Toda a beleza criada comove o desejo de Safo.

“Amo a flor da juventude...

Coube-me em sorte um amor,

É o brilho do sol, é a beleza.”

Afinal, Eros, monstro invencível, é a mesma força imperiosa que caminha nos rastros de Safo e só se dá a conhecer àqueles a quem derruba e submete.

E Eros é a vida!

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