Espaço Literário

Marcel Proust

Redes sociais

  • White Facebook Icon

© 2019 por Carlos Russo Jr.

Todos os direitos reservados

Sonhos de cárcere, capítulo XIII de “Memórias de um subversivo”.

“Porém dentro de seus limites, minha capacidade de sofrimento também marcará um termo às minhas dores, além do qual o padecimento não poderá prolongar-se, sendo como é, limitado. Tu me pintas o prazer e a dor como incomensuráveis, mas exageras, porque nenhum dos dois ultrapassa a capacidade humana”. ( Thomas Mann, “José e seus irmãos”)

Sonho primeiro (durante a greve de fome na Penitenciária do Estado).

Quando eu caminhava pela mata e perseguia alguma presa me sentia livre, no entanto, o coelho pulsava no meu coração. Quando fugia dos meus bestiais predadores, os caçadores, me sentia livre, e um homem pulsava em meu coração.

Mas um dia, na louca disputa para me alimentar, sentei numa armadilha e me dei conta de que era uma armadilha para raposas. Só então me ocorreu ser uma raposa; enrodilhado na malha contorci-me até o desespero e de meu coração desapareceram tanto o coelho quanto o homem.

Com o tempo fui me adaptando à prisão e a perda da liberdade deixou de me pesar. Sei que vivi um longo tempo na armadilha. Até que um instinto, nada mais que um instinto obrigou-me a lutar contra a teia que me recobria naquele tipo de vida. Lutei, então, com todas as minhas forças na tentativa de escapulir, mas os nós bem arranjados da malha não o permitiram. Como prêmio por meus esforços, tive um bocado de pele dilacerada.

Aquela mata, meu pedaço de chão estranhou-me. Senti muito frio, talvez todo o inverno do mundo tenha estado presente naquele canto de prisão.

Desejei novamente escapar, fugir da armadilha ou ao menos arrumar uma manta emprestada, pois a pele perdida na tortura não tornara a crescer, tosada todo o tempo pelas infindáveis culpas que só o conhece aquele que já teve tanto um coração de lebre quanto um de homem caçador.

Não fugi da armadilha, mas ela se abriu e eu saí. Novamente solto na mata, perdera, entretanto, a habilidade de construir uma toca, um abrigo onde pudesse me esquentar. Busquei sim uma pele, mesmo que fosse um arremedo, para enfrentar o frio de minha alma. Vasculhei todos os cantos e por um acaso, somente por sorte, me deparei com uma toca vazia. Acreditei que, finalmente, estaria livre e iria me aquecer.

Tomei-a como meu lar. Tratei de decorá-la de tal forma que se transformasse no recanto mais aprazível do mundo, pois só é capaz de aquilatar a importância de um verdadeiro refúgio aquele esteve dentro de uma arapuca por quase toda a vida.

Mas aí eu quis respirar outra vez o ar puro da mata.

Como poderia imaginar que a nova toca era nada menos que outra armadilha? Não pude escapar, não pude voltar a respirar o ar puro, não antes que minha perna fosse amputada pela mola que travava a saída. Senti o coelho se soerguer ainda por um momento, em seguida o caçador abandonou-me, no derradeiro momento em que meu coração sangrou.

Sonho segundo (durante o período de interrogatório e tortura no DOI-CODI). 

Todo homem desvalorizado, todo homem que não é reconhecido como homem, perde o direito à sobrevivência. Ao perder a liberdade, o prisioneiro perde também sua alma.

A tortura da morte é uma espécie de síntese horrível entre o desejo de negar e o de humilhar o outro, em que o torturador encontra o gozo conjugado do assassinato e da escravidão. A confissão que se busca arrancar por meio da tortura é o reconhecimento do torturador como um rei, o torturado, como lixo. É seu próprio nada, a própria podridão que o torturado é forçado a reconhecer, assoberbando assim a divindade absoluta do torturador. Ao paroxismo provocado pela decomposição de um cadáver, corresponde o paroxismo da volúpia provocada pela decomposição do torturado.

Ele fora derrotado. Lutara pela vida, contra a escravidão a que queriam submeter sua liberdade, revoltara-se e perdera. Perdera?

Agora está nas mãos do inimigo que já o amarrava para a tortura.  Não escaparia a não ser pelo caminho da morte. Mas a morte estava distante, antes dela provaria da loucura.

O homem olha para seus algozes, são dois. O mais magro, o chefe, afasta num gesto o outro brutamontes e tal qual o Inquisidor  encara-o e pergunta ao aprisionado: “Por quê, para quê?”

O revoltado responde-lhe: “Porque ainda acredito em alguma coisa, mas você deveria se fazer a mesma pergunta: Para quê?” “Mas eu não suportarei a tortura, imploro, mate-me”.

O Inquisidor lhe diz que não pode matá-lo. “Tenho ordens, você terá que ser torturado até falar tudo o que queremos saber.”

“Mas falar o que você mesmo já não o saiba? Suplico-lhe, mate-me”.

Neste momento o Inquisidor revolta-se com suas ordens, chama alguém, talvez um médico. Ele se aproxima do amarrado e lhe injeta na perna uma injeção.

O supliciado sente-se hipnotizar e vê quando o outro lhe aplica um golpe com o pé no pescoço, matando-o. O derrotado somente tem uma fração de segundo para dizer àquele que o abate: “Obrigado”.

Só então, na hora da morte, repara que o Inquisidor tem as mesmas feições que ele sempre encontrara ao espelho.

Sonho terceiro (no Presídio Tiradentes).

“Sempre ali onde eu quis dormir, sempre ali onde eu quis morrer, junto de mim veio sentar um infeliz de roupa negra, igual a mim como um irmão”. (Rank, Don Juan)

Estou morto porque me sinto como tal. Vivo num cemitério, mas caminho à luz da lua, através de seus estreitos caminhos. Passam por mim outros que sei também estarem mortos. Mas ninguém parece ver o outro; serei o único a visualizá-los?

Percebo-me cantando e só então me dou conta que todos também cantam. Mas as canções não se compartilham. Os mortos cantam cada um sua música sem se importarem com a dos outros, num ouvir-se sem escutar.

Ao meu lado caminham duas moças, uma delas em farrapos e a outra com uma enorme cicatriz na face. Não encontro seus olhares e percebo que cantam sem moverem os maxilares.

Após uma curva, aproximo-me da capela e lá está minha mãe. Eu a reconheço e me alegro. Ela, muito mais magra que a supunha em vida, mais moça que a imagem que dela eu tinha. Aproximo-me e tento entrelaçar nossas mãos, mas o máximo contato que consigo estabelecer é agarra-lhe um braço e caminhar juntos. Então me dou conta de que ela é totalmente indiferente à minha presença, tão ausente como os demais mortos.

Minha mãe também murmura sua canção que identifico como de ninar. É quando eu sinto um brilho e um calor muito forte. Mas não tenho medo porque justamente ao meu lado a terra se abre acolhedora a me proteger.

Sonho quarto (período de interrogatório e tortura no DOPS- SP)

“Não interrogueis o silêncio, porque ele é mudo; não espereis nada dos deuses fazendo-lhes preces; não pretendais suborná-los com oferendas, é em nós mesmos que devemos buscar a libertação”. (Buda Shakyamuni, séc. V a.C.)

Sei que estou morrendo, o ar já não me basta, sufoco mais e mais; a falta de oxigênio me leva ao delírio e é nele que me ocorrem imagens que valem por toda a vida.

Uma antiga lenda familiar desfila pelos meus olhos como um filme, no qual sou protagonista e espectador. Revejo moribundos queridos, conhecidos ou trazidos à memória através de flashes, que no instante derradeiro da vida são socorridos por um ente querido, pai, mãe ou irmão já mortos, que lhe estende a mão, guia seguro para a longa viagem.

Primeiro surge minha avó e seu filho, meu tio, assassinado há meio século; depois seguem meu avô e seu pai. Finalmente, encontro-me ao lado do catre de meu próprio pai e ele que dizia ver em mim a figura de sua própria mãe a sorrir, enquanto agonizava.

Em meu sonho continuo a sufocar, a falta de ar me mata. Então, por minha vez, sinto a mão forte de meu pai apertar-me o braço. Abro os olhos e encontro o sorriso amigo que sempre esteve junto a mim. Muito além do consolo, o contato me traz esperança de vida, de salvação, de reencontro e de reinício.

Agora já não me afoga a falta de ar. A dor e a ansiedade afiguram-me como um nada, a morte torna-se tão desprovida de sentido quanto a própria vida que se esvai.

Então despertei. Quiçá um dos despertares mais felizes de minha vida, uma sensação de paz com meu pai já falecido, numa relação outrora repleta de tensões, recriminações, amores e ódios.

Quando olhei para a direita de meu catre duro, vi as barras da cela de isolamento.

Obs.: Contos extraídos do livro “As Máscaras de Perséfone”, autoria de Carlos Russo Jr.

1 visualização