The New Yorker: “Memórias Póstumas”, um dos livros mais inteligentes jamais escritos!

Atualizado: Set 21

Durante a pandemia, a edição americana de 5.000 livros de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” esgotou-se em um único dia!

“É um dos livros mais espirituosos, divertidos e, portanto, mais vivos e sem idade, já escritos. É uma história de amor - muitas histórias de amor, na verdade - e é uma comédia de classe, boas maneiras e ego, e é uma reflexão sobre uma nação e uma época, e um olhar inflexível sobre a mortalidade”, descreve o jornalista Dave Eggers, no “The New Yorker”.

Acontece que “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, uma das obras mais revolucionárias e inovadoras da literatura brasileira, é antes de tudo uma sátira social, política e de costumes, muito bem definida como precursora do realismo fantástico.

O romance tem como pano de fundo a sociedade escravocrata de meados dos anos mil e oitocentos, com foco em 1840-1850, tempos em que a oligarquia do café sentia-se segura econômica e politicamente, representada ora pelo Partido Conservador, ora pelo Liberal, que se alternavam no sistema de parlamentar do Império.

São filhos, parentes ou os próprios latifundiários que se fazem representar na Corte. Uma vez nela ou nas Províncias, seus membros exercem a política baseada no compadrio e na corrupção, ou apenas nada fazem na vida, exceto flanar.

O trabalho real na sociedade ou é escravo, ou é exercido por agregados, em situações de submissão clientelista. Esta é a centralidade do enredo de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”.

Nesse romance não existe uma única frase que não tenha uma segunda intenção ou um propósito espirituoso e se nos colocarmos a certa distância do texto, fica simples entrever as grandes linhas da estrutura social de classes e são essas que dão a terceira dimensão ou integridade ao romance, segredos da obra de um gênio.

Um morto se dirige aos vivos para criticar a realidade humana! A leitura do romance também deve levar em conta esta dupla condição do protagonista: um Brás vivo e um Brás morto!

O Brás vivo tem a existência marcada por futilidades sociais, pelo desprezo que manifesta por todos aqueles que não pertençam à sua classe, à elite. Já o Brás morto é o narrador capaz de expor sem nenhum pudor os defeitos próprios e alheios: um morto não pode ser atingido pela ira de seus contemporâneos, e a com a sepultura, o “defunto narrador” ganhou alguma sabedoria para perceber o próprio modo de agir seu e de seus semelhantes, mesmo seguindo ideologicamente o padrão de sua classe quando vivia.

Como sátira, a estridência e os artifícios são numerosos, o que prende a atenção do leitor desde a primeira à última linha. “É obra de finado. Escrevia-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio… se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus”.

O humor machadiano irá decompor as atitudes “nobres” ou apenas convencionais pondo a nu as razões do insaciável amor-próprio, das quais a vaidade é o paradigma e a futilidade o sinônimo. Humor que mescla a convenção e o sarcasmo como um paradoxo de vida.

Assinala A. Bosi que o humor machadiano oscila entre a móvel jocosidade na superfície das palavras e um sombrio negativismo no cerne dos juízos. Humor que mal disfarça a certeza monótona do nada que espreita a viagem que o homem empreende desde o nascimento até a morte. “Humor que parodia as doutrinas do século, positivismo e evolucionismo, sob o nome de Humanitarismo, e as coloca na boca de um mendigo aluado”.

O tempo histórico do romance ocorre na contramão. Inicia-se em 1805, com o nascimento e finaliza com morte do narrador, 1869.

Roberto Schwartz enumera algumas das referências históricas mais evidentes presentes no livro, comentadas de maneira não conformista, ainda que prudentemente cifradas e reservadas sempre a um pequeno grupo de leitores “muito atentos”:

O nascimento de Brás em 1805, (mesmo ano do falecimento de Schiller, que tanto influenciara a fase romântica de Machado de Assis, cuja ruptura ocorre com “Memórias Póstumas”), acontece nos últimos anos do Brasil colônia, antes da vinda da família real portuguesa (1808).

Sua educação na infância é prototípica dos filhos dos oligarcas, em que se aprende a não conhecer normas e obedecer somente aos próprios caprichos, o que coincide com o tempo do estabelecimento Reino Unido Brasil- Portugal, assim como com o enorme afluxo e baixo valor do escravo. “Dessa terra e desse estrume, nasceu esta flor”, expressão sarcástica sobre a formação dos filhos de senhores de escravos.

O primeiro cativeiro sentimental de Brás é a paixão por Marcela, uma espanhola de vida “alegre”, o que coincide com os festejos da Independência, 1822. “Éramos dois rapazes, o povo e eu; vínhamos da infância com todos os arrebatamentos da juventude.” O paralelo entre “o amanhecer da alma pública” e as primeiras auroras amorosas de Brás tem a clara intenção de chocar o público da época.

Brás ainda gastou trinta dias até chegar ao coração de Marcela, pois tinha um concorrente tuberculoso que a presenteava; estamos no primeiro mês de incertezas pós-independência, o que nos leva a outubro de 1822, quando D. Pedro I é coroado Imperador.

“ Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis”, chegaremos a março de 1824, quando Dom Pedro outorga ao Brasil sua Constituição, encerrando a aventura liberal da Primeira Constituinte, cujo modelo havia sido a “carta espanhola”, desterrando e prendendo opositores. Brás é “detido” por seu pai, interrompendo à força seus amores liberais e enviado à Europa.

Brás vai à Europa “beber” da cultura do tempo. São anos de “romantismo prático e liberalismo teórico”, durante os quais o personagem colhe de todas as coisas “a fraseologia, a casca e o ornamento”. Podemos ver aqui uma alusão ao Primeiro Reinado, ao Imperador e à maneira pela qual o Brasil, recém-saído do confinamento colonial, abraçava as ideias modernas apenas como um ornamento, numa sociedade dirigida pelos “pró-portugueses” conservadores e escravocratas.

O paralelismo dos períodos prossegue; a fase europeia encerra-se com a volta precipitada de Brás ao Brasil após oito anos, com a mãe a morrer; estamos na crise dos anos 1829/30 (falência do Banco do Brasil, por exemplo). Logo morre também o pai e Brás fica órfão, como se dizia do Brasil, com a abdicação de Dom Pedro I.

A etapa seguinte de vida desperdiçada, dissoluta e semi-reclusa de Brás coincide com os anos da Regência.

Com o golpe da Maioridade de Pedro II (aos quatorze anos), em 1840, Brás vem abrilhantar a vida da Corte, é literalmente um vadio, campeão da moda e amante “meio secreto e meio às claras” de uma mulher elegante da época, casada com um forte político, com o qual trava uma amizade interessada.

Em 1855, encontramos Brás como Deputado e aspirante a Ministro. O único discurso proferido por ele, um dia proferido, é sobre as dimensões das barretinas utilizadas nas golas dos uniformes da Guarda Nacional. A conjuntura política era a da “Conciliação” (1853-1857) entre conservadores e liberais, e a futilidade dos antagonismos parlamentares tomava a feição de um programa político, tal qual a questão das barretinas.

Por imposição da Inglaterra, em 1850, o Império proíbe o tráfico negreiro, não seu comércio interno. O progresso financeiro de Cotrim, o cunhado de Brás, como contrabandista de escravos, ocorre entre 1850 e 1860 (após a proibição), até ser beneficiário de suprimentos superfaturados à Marinha, durante a Guerra do Paraguai ( 1865 a 1870), período de grandes negociatas. Machado assinala esteticamente que o tráfico de negros fora substituído por uma imoralidade mais contemporânea, a corrupção com o conluio entre empresários e políticos à custa do erário.

A data de sua morte, 1869, coincide com a evolução capitalista do país e princípio da decadência do Segundo Reinado. Ele mesmo, antes de ser o defunto Brás, começara a interessar-se por colonização, câmbio, vias férreas, e invenções sensacionalistas, estilo norte-americano, como o “Emplasto Cubas”, para o tratamento do mal do século: hipocondria e melancolia.

“Emplasto Brás Cubas. Assim, a minha ideia trazia duas faces, como as medalhas, uma virada para o público, outra para mim. De um lado, filantropia e lucro; de outro lado, sede de nomeada. Digamos: — amor da glória.”


John Gledson levanta uma pergunta muito pertinente: e se “Brás” significasse o Brasil, de quem o nome é as primeiras sílabas? O próprio sobrenome, Cubas, reporta-se a um tanoeiro fazedor de potes, justificado pelo pai de Brás com uma história das arábias, exemplifica a origem nada nobre da elite escravocrata que se dá ares aristocráticos e inventa historietas nobiliárias.

Obs.: Esta é apenas uma parcela de nossa análise dessa obra de Machado de Assis. A completa está inserida no livro de autoria de Carlos Russo Jr., “Textos e Contextos, de Machado de Assis aos Modernistas”, Editora Gramma, 2018.

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