Tolstói, Arendt e a “banalização do mal”

Liev Tolstói  legou-nos um conto precioso, em que os princípios da “banalização do mal”, encontrados por Hanna Arendt no caso Eichmann, foram por ele descritos com sessenta anos de antecedência. O conto chama-se Nicolas Palkine (Nicolas refere-se ao Czar russo, Nicolau I e o termo Palkine advém de palka, que em russo significa vara, normalmente com ponta de metal, utilizada em açoites e espancamentos).

Nicolas Palkine sinaliza com clareza meridiana as principais conclusões de Hanna Arendt, traçando o perfil do executor de tortura e massacres e o ambiente que torna propício o surgimento desses indivíduos.

A história desenvolve-se a partir de um diálogo que o narrador mantém com um velho suboficial, que servira primeiramente sob as ordens do Czar Alexandre I e, a posteriori, sob o mando de seu filho, Nicolau I.

O velho declara que estava carregado de pecados e o que mais desejava antes da morte era arrepender-se e comungar, livrando-se do castigo divino! São tantos os seus pecados, pergunta-lhe o narrador, ao que ele responde: “ Não sabeis que servi sob Nicolau? Comecei o serviço sob Alexandre; os soldados o elogiavam, diziam que ele era muito bom…”

Ao que o narrador retruca: “Lembro-me dos últimos tempos do reinado de Alexandre, quando vinte por cento dos soldados convocados para o exército apanhava até morrer; como deveria ser com Nicolau se o tempo de Alexandre era tido como muito bom?”

Bastou esse início de conversa para que o velhinho se abrisse, dizendo que para cincoenta açoitadas, nem mesmo a calça se tirava; davam-se duzentos, trezentos golpes… espancava-se até matar. Ao empolgar-se, o soldado falava com desgosto e horror, mas não sem orgulho da antiga bravura…

“Entre nós, chamávamos o Imperador de Nicolau Palkine, ao invés de Paulovitch”. Quando se lembra desses tempos é que surgem os pecados de consciência! Por exemplo, condenava-se  um soldado por má conduta a cento e cincoenta golpes de vara “e nós aplicávamos duzentos”; mas isso ainda não bastava aos oficiais, “batíamos para valer nos jovens soldados, com a coronha, com os punhos, no peito, na cabeça; o soldado morria e nem ao menos sofríamos uma repreensão”.

“Morria porque apanhava e as autoridades escreviam no prontuário: morreu pela vontade de Deus”.

O narrador solicita ao velho que descreva a aplicação do tipo de tortura por varas: o homem tem cada uma das mãos amarradas a um fuzil; é então empurrado entre duas filas de soldados e os oficiais gritam “bata mais forte, mais forte”. O velho pronunciava estas palavras com voz imperiosa, lembrando-se delas com evidente satisfação e imitando o tom de bravura autoritária.

O pecado, o inferno e a necessidade do perdão cristão advêm, para o velho, do fato de não haver cumprido apenas o ordenado pelos superiores, mesmo que o resultado também conduzisse o supliciado à morte, pois, enfim, somente cumpria ordens. O “pecado” estava em que se excedia no cumprimento do “dever”.

Contava essas minúcias sem nenhum remorso, como se tratasse de bois destinados ao matadouro. Lembrava-se perfeitamente de como o homem ferido resiste e depois cai; percebem-se os sulcos sangrentos; o sangue que corre; a carne que se desfaz em pedaços, até expor os ossos. O infeliz grita, depois urra surdamente a cada pancada e, por fim, se cala, já não tem mais forças. Chega o médico-inspetor, examina o pulso do supliciado e decide se pode continuar a bater nesse homem sem matá-lo ou se é preferível esperar que ele se cure para recomeçar o castigo e acabar de lhe dar a quantidade de pancadas a que os animais ferozes, chefiados por Nicolau Palkine, decidiram submetê-lo.

O doutor emprega toda sua ciência para impedir que o homem morra antes de sofrer todos os suplícios que um corpo possa suportar. Recorda-se o velho daqueles soldados que eram recolhidos em macas e transportados ao hospital para depois voltarem à tortura e de como imploravam pela morte! E o crime dos mesmos era haverem fugido do Regimento, terem tido o atrevimento e a ousadia de protestar contra a má qualidade da alimentação ou por falarem que os chefes roubavam.

Ao terminar a narrativa, o velho se revolta contra o intento de o narrador buscar nele o arrependimento: “Era a lei, estava certa, pois era executada depois de um julgamento, de que posso ser culpado?”

Estava tranquilo em tudo aquilo em que se ativera a uma Lei. Somente seus atos, que considerava  pessoais, o afligiam como haver, por conta própria, aumentado o sofrimento de homens.

O conto vai além e o velho soldado recordava da invasão da Polônia, falava da matança de crianças, de prisioneiros que deixavam morrer de fome ou frio, de um jovem assassinado a golpes de baioneta de encontro a uma árvore, e nesses casos, em absoluto demonstrava qualquer tormento de consciência, pois o genocídio do qual participara fazia parte da guerra: tudo dentro da Lei, pelo Imperador e pela Pátria.

Haver saqueado, assassinado mulheres e crianças inocentes, açoitado até a morte os infelizes que levou ao hospital para novamente torturá-los, nada disso lhe perturbava o espírito, a consciência. Para ele, não eram atos que dependessem dele e mesmo lhe parecia ter sido outro e não ele o autor disto tudo. Apenas e tão somente porque “era a Lei”, mandaram-no fazer! O velho soldado passou a vida a torturar e a massacrar outros homens e “ele não se acreditava culpado de todas as terríveis coisas que praticou”.

“ Que teria pensado esse velhinho se compreendesse que entre sua consciência e Deus não há nem pode haver intermediários, e que também não deveria existir nenhum intermediário que o forçasse a torturar e a matar homens?” O narrador se pergunta se vale a pena atormentá-lo, buscar despertar nele a consciência das perversões genocidas praticadas. Afinal, ele está moribundo e para que “lembrar o que passou?” Mas a doença não passa, pois é uma doença que somente se modifica, penetra mais fundo nos ossos, na carne. A doença que faz homens dóceis, comuns, praticarem crueldades terríveis sem saber por que e com que finalidade!

“Muitos dizem que esse tempo, o de Nicolau I é passado, já passou. No tempo de Nicolau se disse o mesmo de Alexandre; no tempo de Alexandre, o mesmo de Paulo, o mesmo de Catarina, dos furores de sua depravação, da loucura de seus amantes; no tempo de Catarina se disse o mesmo de Pedro, o Grande… Em todos os tempos houve coisas das quais nos lembramos com horror, indignação. Lemos descrições das fogueiras para hereges, de torturas, açoites, suplícios de varas e sentimos horror pela crueldade de que é capaz o ser humano. E declaramos, tudo isso passou…”

Concluindo, o narrador pergunta: “Onde estão nossas salas de torturas, nossa escravatura, nossos açoites? Temos a impressão que desapareceram, que não mais existem, mas eles apenas estão acobertados”. “Existem os mesmos atos e os mesmos horrores, simplesmente não os vemos, assim como nossos antepassados não viam os de seu tempo… Contudo, isso não passa de aparência. Trezentos mil homens estão fechados nas prisões, em redutos estreitos, fétidos, morrendo física e moralmente. Suas mulheres e seus filhos, sozinhos definhando de fome. Guardam-se esses homens em cavernas de depravação, nas prisões e esta reclusão só é útil aos guardas e aos diretores, senhores absolutos desses escravos.”

Por outro lado, Hanna Arendt, sessenta anos após, analisando o caso do criminoso de guerra Eichmann, caminha absolutamente no mesmo sentido do velho soldado descrito pelo escritor russo:

1. O nazista Eichmann carecia inteiramente do senso de ser, tal qual o velho soldado;

2. Ficava perturbado com temas emocionais de agressão, tal qual o suboficial quando o narrador questionava-o sobre os massacres por ele praticados;

3. O que  importava ao nazista era reduzir toda a vida à ordem, ao não movimento, à não emoção, de modo a que toda a vida pudesse ser controlada. Tal e qual o velho suboficial, era um funcionário calmo, “bem equilibrado”, imperturbável, desempenhando  seu trabalho de forma burocrática, às vezes com pequenos deslizes de ordem sádica.

4. Sentiam ambos profundo respeito pelo sistema, pela lei e pela ordem, funcionários fiéis de um grande Estado.

5. Não possuiam remorsos e eram “mentalmente sãos”e bem adaptados.

6. O foco real na vida de um destruidor talvez não seja a destruição como tal, mas a imposição da ordem e a uniformidade em tudo.

Tolstói ainda antes que Arendt, deixa claro que o genocídio é um tema do presente, do passado e do futuro. É o tema que revela a natureza real de nossa espécie, capaz do trabalho mais vil que pode sair de mãos humanas: matar outros seres sem defesa. É espantoso para uma imaginação solidária e moral que haja incontáveis indivíduos prontos para cometer o mal intolerável: torturar e matar outros homens!

Como vimos em Nicolas Palkine, os genocidas racionalizam e atenuam seus atos, de modo que, com grande sinceridade, acreditam que estão agindo em defesa deste ou daquele tipo de Lei, de País, de autoridade.

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