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Tolstói, um anarquista cristão

Os primeiros anos do século XX  viram surgir o livro “Os Anarquistas”, do historiador alemão Paul Eltzbacher. Nele são expostos comparativamente os pensamentos dos grandes expoentes do anarquismo mundial, a começar por Godwin, Stiner, chegando a Proudhon e Bakunin, Tucker e Kroptkin. E, logicamente, Tolstói. O grande épico russo teve acesso ao trabalho de Eltzbacher e considerou-o absolutamente de acordo com suas doutrinas. Para chegar a esse despretencioso estudo “Tolstói, um anarquista cristão”, tomo por base “Os Anarquistas” e “A Insubmissão”.

“A propriedade é, hoje em dia, a raiz de todo o mal. Ela causa o sofrimento dos que a possuem e dos que não a possuem… O perigo de conflitos entre os que dispõem do supérfluo e os que vivem na pobreza é inevitável. O Estado sempre defende o princípio da propriedade privada.”  Sendo o Estado, na Rússia nos primórdios do século XX, o grande esteio do latifúndio, ele assume a responsabilidade por toda uma injusta organização social; transformou-se num criminoso que estabeleceu um sistema de violências com numerosas malhas, leis, homens da lei, prisões, juízes, policiais, políticos, exércitos.

O Estado, salienta Tolstói, não se perpetua somente pela força, mas também por uma espécie de encantamento: “Graças a uma organização das mais artificiais, inteiramente forjada em favor do aperfeiçoamento científico e propagandístico, que faz com que os homens estejam sob um encanto do qual não podem se libertar”. Tolstói define quatro pilares como vigas-mestras desse encantamento:

1. “A Hipnotização do Povo”: é disseminada a opinião segundo a qual o estado atual das coisas é imutável e que deve ser mantido; na realidade, ele só é imutável precisamente por ser mantido. A hipnotização do povo faz-se por meio de superstições, sendo as mais importantes a religião e o patriotismo.

2. “A Corrupção”: é a ação de retirar a riqueza das classes que trabalham por meio de impostos e taxas, e distrubuí-las a funcionários, de forma legal ou ilegal, de tal forma que eles perpetuem a subjugação do povo. “O homem cristão não deve tentar tirar proveito das instituições do Estado, nem procurar enriquecer sob sua égide ou fazer carreira sob sua proteção”. Somente no anarquista “puro” é possível encontrar o “verdadeiro homem cristão”, dado que ele deve negar e viver fora dessa instituição corruptora, o Estado.

3. “A Intimidação”: representa a ordem dirigente do Estado – quer seja o mais liberal, o republicano ou o despótico- como algo saudável e imutável, que ameaça com os castigos mais atrozes aqueles que se negam a obedecê-la ou mudá-la.

4. “O Exército”: para Tolstói, a instituição do serviço militar obrigatório constitui um crime de lesa-humanidade, que foi organizada pela primeira vez na história pelo Estado Prussiano, estendendo-se posteriormente a todo mundo. A conscrição militar obrigatória embrutece os jovens mais pobres da população, que serão adestrados através de procedimentos dos mais autoritários e bestializadores. Os conscritos transformam-se, nas mãos do Estado, em instrumentos sem qualquer vontade, prontos a cometer todas as brutalidades e crueldades que seus superiores lhes ordenem.

Eis o círculo da violência formado: a hipnose, a intimidação e a corrupção conduzem os homens a fazerem-se soldados ou policiais. “Os soldados, por sua vez, tornam possível o fato de punir os homens, pilhar os seus bens, corromper os funcionários com esse dinheiro, hipnotizando a massa e fazendo delas novos soldados, que por sua vez fornecerão os meios para cometer todos esses crimes”.

O anarquismo de Tolstói é consequente. Quando ele fala do insubmisso, do revoltado, este é para ele  “o homem cristão”. Mas sua referência do cristianismo é de uma religiosidade de foro íntimo, em que todos os dogmas e a liturgia da Igreja, quer da ocidental, quer da ortodoxa são abolidos. Ele vê em Jesus a figura ideal, “o maior homem que a humanidade já produziu”. Considera como o maior mandamento, quiçá o único, “ama ao próximo como a ti mesmo”.

O Jesus de Tolstói já não é mais o Filho de Deus, mas o homem- mártir, aquele que foi exemplar e morreu por seus ideais.

Ele rompe com o conservadorismo da Igreja e esta por seu lado, transforma-o em seu inimigo e, logo, o excomunga. A Igreja pede ao Czar que o faça prender ou que, pelo menos, envie-o recluso a algum mosteiro na Sibéria. Mas o Czar Nicolau II vacila; como prender o maior escritor russo vivo, o autor da maior epopeia do povo russo, “Guerra e Paz”? O que dirão dele os países europeus onde Tolstói representa quase um ícone vivo de sua Pátria?

De qualquer forma Tolstói não é constituído de matéria espiritual que se intimide. Ele segue publicando  seus artigos, que muitas vezes são distribuídos apenas manuscritos, impedida a impressão pela censura.  Contra a guerra na Manchúria ele declara em bom tom que para construir uma sociedade fraterna o homem deveria considerar a própria guerra, o patriotismo, as nacionalidades, o ódio entre raças e os preconceitos étnicos, assim como a política e o militarismo, a lei que autoriza a violência e a exploração, como ramos da árvore do mau, portanto, do pecado.

Se a terra é um bem comum, ele deve pertencer a todos. Seu ideal econômico é uma espécie de  comunismo agrário- anarquista. Para ele, o progresso civilizatório isola os homens uns dos outros e da mãe terra, provocando um processo de degeneração física e espiritual.

Tolstói é um revolucionário que prega um retorno à natureza, a uma vida simples e humilde, onde os homens possuam laços estreitos de fraternidade e paz interior. Nesse sentido, na alvorada do século XX, talvez ele seja o primeiro escritor a possuir uma clara visão da necessidade de preservação ecológica do meio ambiente.

À medida que amadureciam suas premissas filosóficas, Tolstói também transformava a sua vida. O autor de Guerra e Paz e Anna Karenina abriu, a partir de 1871, mão de todos os seus direitos autorais. Seus livros poderiam ser reproduzidos aos milhares para que todos os lessem. Conde de nascimento e rico proprietário de terras, Tolstói libertou seus servos antes mesmo da reforma czarista, tendo, entretanto, ido muito mais além, dividindo suas próprias glebas, onde organizou uma cooperativa de camponeses. Reservou para si um pedaço da terra que herdara, o qual lavrou pessoalmente; também abandonou a caça, hábito que adorava, por respeito à natureza e mais tarde tonou-se vegetariano, pois comer carne pressupunha “a matança de seres vivos”.

Ele sabia que os homens somente podem se libertar, transformarem-se de “vulgos” em cidadãos, por meio da educação: construiu em Yasnaia Polyana, nas terras da cooperativa agrícola, uma escola destinada aos filhos dos mujiques; contratou professores, tanto para as crianças, quanto para a alfabetização dos adultos.

Fez mais, muito mais. Distribuiu seu próprio dinheiro aos mais necessitados que acorressem à sua propriedade; ao final de sua vida leiloou até mesmo suas roupas sociais, cujo dinheiro distribuiu aos pobres.

Tolstói também nunca negou apoio a movimentos intelectuais ou populares que contestassem as injustiças sociais, mas peregrino da resistência pacífica, jamais auxiliou os revolucionários e “regicidas” que utilizassem a violência dos atentados pessoais, tão em voga em sua época. Queria um movimento de emancipação realizado pelo povo e para o povo, sem violência.

Em 1895 a Rússia foi agitada pela ação de um grupo de cristãos contestadores denominados “dukhobors”, os “lutadores do espírito”. O grupo negava a propriedade privada, o governo, o Estado, o dinheiro, a Igreja e a Bíblia como fontes de revelação; praticava um estilo de vida comunitário em convívio com a natureza, estritamente democrático e despojado, em que até mesmo o consumo de carne fora banido. Pregava também a paz e recusava-se a servir o Exército.

Logo, alguns de seus líderes foram presos e banidos para a Sibéria. Em protesto contra as prisões, milhares de “dukhobors” queimaram todas as armas de autodefesa que possuíam, proclamando a recusa em participar de qualquer ato de violência. Os cossacos enviados para reprimi-los submeteram-nos a espancamentos por mais de quatro horas. Expulsaram mais de sete mil homens, mulheres e crianças de suas casas, arrasaram suas colheitas e confiscaram suas terras, prendendo ainda outros  líderes.

O grande escritor que já os apoiava e organizara uma rede de denúncias no exterior, ao tomar conhecimento de que mais de quatrocentas pessoas haviam morrido de frio, fome e sede, quando da ação repressora dos cossacos, prestou ao movimento uma solidariedade decisiva. Dedicou todo o seu tempo, por meses, a angariar apoio aos perseguidos. Graças a sua influência, seu representante no Canadá logrou convencer esse país a receber como exilados todo o grupo dos “dukhobors”, dando-lhes uma gleba de terra. Acuado interna e externamente, o Czar recuou e aceitou permitir que mais de duas mil pessoas emigrassem.

No entanto, faltava dinheiro não somente para o transporte, mas principalmente para a instalação e sobrevivência inicial de tanta gente. Tolstói pessoalmente encarregou-se da arrecadação financeira dentre os intelectuais e aristocratas liberais, quer da Rússsia, quer do exterior. Como o dinheiro mesmo assim não bastasse, decidiu cobrar direitos autorais de seu último romance, ainda não impresso, “A Ressurreição”. De toda a Europa surgiram editores dispostos a pagar por direitos, que o próprio escritor dizia serem “exorbitantes”. Ao final, Tolstói conseguiu que todos os “dukhobors” viajassem e se intalassem em seus novos lares.

Quando completou oitenta anos, pouco restara de toda a sua fortuna; Tolstói preocupara-se apenas em reservar à sua esposa, que dele havia se separado “pelo mau uso financeiro que o marido fazia de suas posses”, e treze filhos, um rendimento mensal digno para quando ele morresse, o que viria a ocorrer  dois anos após.

Tolstói faleceu vítima de pneumonia, na estação ferroviária de Astapovo, próximo a Riazan. O governo russo proibiu que trens especiais trouxessem milhares e milhares de pessoas que desejavam despedir-se do grande homem. Isso, entretanto, não impediu que o caixão fosse transportado por mais de três mil camponeses e os restos mortais depositados embaixo de uma árvore, de acordo com seu desejo testamentário, em Yasnaia Polyana. Ainda hoje, um viajante encontrará uma pequena elevação de terra, circundada por uma simples corrente, e uma pequena placa de mármore a assinalar o local de descanso de Liev Tolstói, aquele para quem “todos pensam em mudar o mundo, mas ninguém pensa em mudar a si mesmo”.

É emocionante ler no diário desse grande homem, a resposta a uma pergunta que ele se faz, quase ao final da existência: “Dize-me, Liev Tolstói, vives segundo os princípios de tua doutrina?” E, logo a seguir, a resposta amargurada: “Não, morro de vergonha. Sou um culpado e mereço o desprezo”.

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