Voltaire, “Cândido”: a Inquisição e o terremoto de Lisboa.

A vida é estúpida, o mundo é estúpido, mas tudo vale à pena ser vivido.


A adorável narrativa em velocidade de “Sputnik” de “Cândido” cria e recria um mundo de horrores, nosso mundo, mas que no narrar de Voltaire nem nos excita e nem horroriza.

Um terremoto abalou Portugal às 9,40 hs do dia primeiro de novembro de 1755. Matou entre 30 e 60 mil pessoas. Lisboa foi quase toda destruída, tanto pelo abalo quanto pelo fogaréu que se espalhou.

Aquela imensa catástrofe abalou o sistema de crenças europeu, tanto do lado do dogmatismo católico-inquisitorial, quanto do protestantismo puritanista.

Voltaire, uma das mais importantes cabeças do Iluminismo europeu, consultou vários relatos e testemunhos pessoais para compor o seu “Cândido”, quatro anos após a destruição de Lisboa.

Em uma de suas cartas escreve: “Esta é de fato uma cruel peça da filosofia natural! Seria difícil explicar como as leis do movimento podem produzir tão terríveis desastres no melhor de todos os mundos possíveis, quando 100 mil formigas, nossos vizinhos, são esmagados até a morte em questão de segundos num de nossos formigueiros, a metade deles sem dúvidas sofrendo agonias indescritíveis no momento da morte, soterrados por destroços de sob os quais era impossível retirá-los; por toda a Europa, famílias reduzidas à mendicância, e até mesmo fortunas de mercadores engolidas nas ruínas de Lisboa.”

E também: “Que lance do acaso é a vida humana! O que irão dizer os pregadores da fé religiosa agora- especialmente se o Palácio da Inquisição nem tiver ficado de pé! Meu consolo é que estes reverendos padres, bispos, os inquisidores tenham sido esmagados como todo o mundo; o que deveria ensinar os homens a não perseguirem os homens, pois enquanto um punhado de santarrões hipócritas queima na fogueira um punhado de fanáticos, a terra se abre para engolir a todos.”

Ainda escreve: “Como vós, lamento pelos portugueses; mas os homens podem causar um mal maior a si próprios que aqueles que a natureza pode causar a eles! Mais homens tiveram suas gargantas cortadas nas guerras do que aqueles que foram engolidos pelos terremotos”.


“Cândido, ou o Otimismo”.

“Eu respeito o seu Deus, mas amo o Universo”.

O Capítulo V, o Terremoto, descreve a chegada à cidade de Lisboa, de Cândido, de seu mestre Pangloss e do Marujo que os trouxera em seu barco. Sentem o solo tremer sob os seus pés; o mar, furioso, galga o porto e despedaça os navios que ali me acham ancorados.

“Turbilhões de chama e cinza cobrem as ruas e praças públicas; as casas desabam; abatem-se os tetos sobre os alicerces que se abalam; trinta mil habitantes são esmagados sob as ruínas”.

- “Qual poderá ser a razão suficiente deste fenômeno”, indagava Pangloss.

- “Chegou o último dia do mundo!” exclamava Cândido. O Marinheiro que os transportara corre imediatamente para o meio dos destroços, “afronta a morte em busca de dinheiro, acha-o, embriaga-se; depois de cozinhar a bebedeira, compra os favores da primeira rapariga de boa vontade que encontra sobre as ruínas das casas e em meio dos mortos e moribundos”.

Enquanto isto, Pangloss puxava o Marujo pela manga. – “Meu amigo – lhe dizia, - isto não está direito, ofendes a razão universal, empregas muito mal o teu tempo”.

– “Com os diabos! - responde o outro, - sou marinheiro e nasci em Batávia; marchei quatro vezes sobre o crucifixo, em quatro viagens que fiz ao Japão; e ainda me vens com a razão universal!”

Alguns estilhaços de pedra tinham ferido Cândido, que se achava estendido no meio da rua e coberto de destroços. – “Este terremoto não é novidade nenhuma“– lhe diz Pangloss. – “A cidade de Lima experimentou os mesmos tremores de terra no ano passado; iguais causas, iguais efeitos: há com certeza uma corrente subterrânea de enxofre, desde Lima até Lisboa”.

- “Nada mais provável” - respondeu Cândido, - “mas, por amor de Deus, arranja-me óleo e vinho”.

Cândido perdeu os sentidos, e Pangloss trouxe-lhe um pouco de água de uma fonte vizinha.

No dia seguinte, havendo encontrado alguma “provisão de boca” em meio aos escombros, repararam um pouco as suas forças. Em seguida puseram-se a trabalhar como os outros para auxiliar os habitantes escapados à morte.

Pangloss consolava-os, assegurando-lhes que as coisas não poderiam ser de outra maneira: "Pois tudo isto- dizia ele - é o que há de melhor. Pois, se há um vulcão em Lisboa, não poderia estar noutra parte. Pois é impossível que as coisas não estejam onde estão. Pois tudo está bem".

Na narrativa surge um homenzinho de preto, padre participante da Santa Inquisição, que se achava ao lado de Pangloss e disse: - “Pelo visto, o senhor não crê no pecado original; pois, se tudo está o melhor possível, não houve nem queda, nem castigo”.

- “Peço humildemente perdão a Vossa Excelência” - disse Pangloss, - “pois a queda do homem e a maldição entravam necessariamente no melhor dos mundos possíveis”.

O padre fez, então, um sinal de cabeça para o seu lacaio, que lhe servia vinho do Porto.


Avancemos, então, para o Capítulo VI de “Cândido”, que se dedica á realização de “Autos-de-Fé para evitar os terremotos, e de como Cândido foi açoitado”.

“Depois do tremor de terra que destruiu três quartas partes de Lisboa, os “sábios” do país não encontraram meio mais eficaz para prevenir uma ruína total que oferecer ao povo um belo auto-de-fé”, um espetáculo que o distraísse e lhes assegurasse o poder.

Foi decidido pela Universidade de Coimbra (estandarte da Inquisição) que o espetáculo de algumas pessoas queimadas a fogo lento, em grande cerimonial, era um infalível segredo para impedir que a terra se pusesse a tremer.

Tinham, pois, prendido um trabalhador que casara com a própria comadre, e dois portugueses que, ao comer um frango, lhe haviam retirado a gordura.

Vieram, depois do almoço, prender o doutor Pangloss e o seu discípulo Cândido, um por ter falado e o outro por ter escutado uma heresia com ar de aprovação: foram ambos conduzidos em separado “para apartamentos extremamente frescos”, onde nunca se era incomodado pelo sol.

“Oito dias depois vestiram-lhes um sambenito e ornaram-lhes as cabeças com mitras de papel: a mitra e o sambenito de Cândido, eram pintados de chamas invertidas e diabos que não tinham cauda nem garras”, trajes destinados aos que seriam supliciados sem serem mortos.

“Mas os diabos de Pangloss tinham cauda e garras, e as flamas eram verticais”, traje dos condenados. Assim vestidos, marcharam em procissão, e ouviram um sermão muito patético”.

“Cândido foi açoitado enquanto cantavam; o trabalhador e os dois homens que não tinham querido comer gordura foram queimados, e Pangloss enforcado”.

Mas, no mesmo dia, a terra tremeu de novo, com espantoso fragor.

Cândido, em pânico, desvairado, todo ensanguentado e palpitante, dizia consigo: "Se este é o melhor dos mundos possíveis, como não serão os outros!”

“Mas tu, meu querido Pangloss, o maior dos filósofos, ver-te enforcar sem saber por quê!”


“Voltaire era felizardo por ter a história de seu lado, um mundo de atrocidades e vilões visíveis, idiotas aos montes, abrindo caminho para a grande onda de progresso que culminou nas revoluções francesa e americana”, diz Roland Barthes referindo-se ao escritor, ensaísta, e grande filósofo iluminista francês, espírito do grande século XVIII, que traria em seu bojo as Revoluções Americana e a Francesa.

Voltaire, com extremo sentido de humor foi a grande voz a levantar-se na defesa das liberdades civis, religiosa, científica e do livre comércio! Uma das figuras centrais do Iluminismo, tão importante de ser revisitado em tempos de acientificismo, de negacionismos e de dogmatismos reducionistas religiosos, tempos escuros e tristes, que hoje vivemos!

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