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Marcel Proust

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“Uma Introdução à Leitura de Em busca do Tempo Perdido”

I. Introdução.

“O problema de escrever: o escritor, como diz Proust, inventa na língua uma nova língua, uma língua de algum modo estrangeira. Ele traz à luz novas potências gramaticais ou sintáticas. Arrasta a língua para fora de seus sulcos costumeiros, leva-a a delirar.” (Gilles Deleuze)

“Os belos livros estão escritos numa espécie de língua estrangeira.” (Proust)

 

Praticamente cem anos nos separam da primeira parte da publicação de “Em Busca do Tempo Perdido”, livro inicialmente recusado por editoras, inclusive de vanguarda.  Marcel Proust não somente pagou do próprio bolso a impressão de “A Caminho de Swann” como realizou, em elegantes pacotes, a primeira distribuição a amigos e conhecidos. Ao impacto inicial causado pelo absolutamente novo seguiram-se tanto o sucesso e o reconhecimento devidos, quanto reações de desconforto e de repulsa provocadas nas mentes mais conservadoras e convencionais.

De todo modo, “A Caminho de Swann” rompeu as fronteiras da França, conquistou as Américas e parcela da intelectualidade européia. De tal forma que poucos anos após a morte de seu autor, o século XX considerou Marcel Proust um dos maiores romancistas da modernidade e, mesmo, de todos os tempos. E, talvez, exatamente por ser moderno e diferente “Em Busca do Tempo Perdido”, é, em comparação a outros romances considerados clássicos, um dos menos lidos.  É uma leitura inicialmente difícil, graças ao ritmo lento de um texto composto por frases longuíssimas, com excesso de vírgulas, poucos pontos finais, ordem inversa, uma narrativa repleta de adjetivações.  Além disso, a intercorrência de raciocínios colocados entre parênteses faz o leitor, inevitavelmente, sempre retornar para não perder a meada da narrativa. É necessário que se desenvolva o espírito crítico na leitura de uma obra possuidora de inigualável beleza, mas, também, permeada por uma enorme melancolia. Ler Proust é um profundo mergulho no conjunto da criação do espírito humano!

                 “Em Busca do Tempo Perdido” insere-se numa corrente artística modernista: o Impressionismo.  Proust tinha três anos de idade quando Claude Monet, em 1874, expôs uma pintura “Impression, Soleil Levant”. Nela, surgia uma nova forma de simbolizar objetos, homens e natureza a partir do ponto de vista da percepção causada em seu autor. Uma manifestação insólita de um grupo de pintores, que, rompendo com o tradicional, opôs-se ao academicismo oficial, negando-se a considerar os objetos da pintura como imutáveis. Os homens, as paisagens e a natureza perdiam para eles o colorido e a materialidade intrínsecos, variando em função do tempo e da luz incidente. As formas antes padronizadas e estáticas tornavam-se mutantes e dinâmicas.

                Para Proust e outros artistas, incluindo músicos como Debussy, o impressionismo não constituía tão somente uma técnica pictórica, seus conceitos centrais poder-se-iam estender a outros campos de expressão artística, como a literatura e a música. Proust, que tinha convicção da transitoriedade das associações entre os homens, de suas personalidades e das intermitências de nossos corações, no desenvolvimento de sua obra lançou mão dessa técnica, e por meio dela descrevia ou rememorava justamente os instantes a serem figurados por meio da escrita, num universo físico e psicológico sempre em mudança. De tal maneira que, pela primeira vez, para a compreensão de uma obra de arte, tornava-se necessário que o leitor se sentisse por ela penetrado e possuído, caminhasse com o narrador, ou, no dizer de Proust, transformasse-se em o “leitor de si mesmo”.               

                Anos antes de iniciar sua obra, Proust havia enveredado pela crítica literária, quer como jornalista, quer na preparação de um tratado de crítica ao mestre de sua época: Saint-Beuve. Pois bem, todo o conhecimento adquirido em anos de leitura, anotações e pesquisas, ele o transpôs para “Em Busca do Tempo Perdido”. De tal modo que a leitura de Proust nos encaminha para uma visão panorâmica da literatura, do teatro e das correntes filosóficas francesas do século XVII ao XX.  Ao mesmo tempo ele não descuida nem dos clássicos e muito menos de seus contemporâneos de outras nacionalidades como alemães, eslavos, nórdicos, e os seus favoritos, aqueles escritores de fala inglesa. Mais de uma centena de trabalhos são por ele citados, de tal modo que nos sentimos como percorrendo uma enorme biblioteca, onde possuem seu lugar o poeta, o fabulista, o teatrólogo, o comediante, o memorialista, o novelista e o romancista; livros enobrecidos, suas molduras e margens são diferentes correntes filosóficas. Quem dentre tantos poderiam ser citados nesta introdução?  Talvez apenas aqueles que mais tenham influenciado seu pensar: os franceses Balzac, Stendhal, Racine, Baudelaire, Méllarmé, Nerval, Flaubert, senhora de Sevigné, Bergson e Pascal; os alemães Nietzsche, Shoppenhauer, Kant, Schiller e Goethe; os russos Tolstoy e Dostoievski; nórdicos como Ibsen e aqueles dos países baixos, como Spinoza; ingleses como Ruskin, Shakespeare, Hardy, Huxley e Eliot, e norte-americanos como Emerson e Poe.

                No entanto, a profunda erudição de Proust não se restringia à literatura, ao teatro e à filosofia, envolvia também a historiografia musical.  Em seu trabalho são dedicadas páginas e mais páginas à análise da música wagneriana, assim como aos “poemas musicais”.  As páginas de seu livro são recheadas por concertos, sonatas, balés, óperas, sinfonias e músicas sacras, que se iniciam na Contrarreforma simbolizada por Palestrina, caminham pelo Barroco com Scarlatti e Bach, passam pelo rococó de Rameau, chegam ao Classicismo de Mozart, de Mendelssohn, e ao tradicionalismo do folclore nacional de Mussorgsky, Borodin e Lizst, percorrem o Romantismo de Beethoven, Schumann, Schubert, Chopin e Verdi, chegando ao neo-romantismo de Wagner, de Frank e Fauré, ao poema sinfônico de Saenz, e, finalmente, aportam ao Modernismo de Debussy, dos balés russos e de Stravinsky.

                Apreciador e conhecedor da pintura, sua obra guarda profunda influência do simbolismo de um Moreau e do psiquismo de um Rembrandt. A cada página sentimo-nos caminhar por uma maravilhosa Galeria de Arte, onde os góticos como Fra Angélico e Giotto precedem os renascentistas como Durer, Bellini, Boticelli, Carpaccio, Fra Bartolomeu, Da Vinci, Giorgioni, Rafael, Veronese, Ticiano, Michelangelo, Mantegna. A esses se sucedem o maneirismo de um El Greco, Tintoretto, Bruegel, Hals. Na ala dedicada aos barrocos encontramos Rembrandt, Chardin, Mignard, Rubens, Velazquez, Veermer; a esses seguem os rococós de Boucher, Fragonard, Tiepolo e Watteau. Por um corredor lateral chegamos aos românticos, e temos Turner, Delacroix, Gerard, Goya. Subimos um lance de escada e nos deparamos com os classicistas David, Decamps, Reynolds e Poussin. Seguimos ainda e nos defrontamos com o realismo de Corot, Fromentin e Millet. Novo corredor e lá estão Chaplin, Ingrès e Cot, os academicistas. Finalmente, em uma ala especial, encontramos os simbolistas e dentre eles, Moreau e Rousseau; os impressionistas e pós- impressionistas: Degas, Fantin-Latour, Tissot, Manet, Monet, Renoir e Whistler; Rossetti, Guys e Redon.

                Esse é o universo de um escritor único, detentor de uma sensibilidade refinada, de erudição e memórias privilegiadas e que possuiu o dom de transformar seu romance numa verdadeira epopeia da alma; em suas páginas viajaremos pelos mais diversos oceanos da existência, mesmo porque por todos Proust navega: temos o Proust romancista, o moralista, o naturalista, o crítico de arte, o filósofo, o poeta, o memorialista, o caricaturista e o crítico social. Como poucos, sob todas essas “personnas”, Proust é um subversivo, um revoltado com o meio esnobe que frequentara um dia, revoltado para consigo mesmo e para com a realidade em que vivia. Utiliza, entretanto, nessa revolta, um perigoso gênio cômico, empregado a destruir uma a uma, todas as máximas e preconceitos sociais de seu tempo e que, em seu cerne, compõem a mesma humanidade da qual fazemos parte, em que antigos preconceitos ou se transformaram ou assumiram novas roupagens.

Este ensaio é fruto de alguns anos de trabalho, de deleite, de autoconhecimento a que ele me conduziu. Estar com Proust significa penetrar no tempo que nos marca a cada dia, nos constrói, nos desconstrói; significa permitir que nossa memória afetiva nos devolva sensações que constituíram “o paraíso perdido” do passado de cada um de nós, reencontradas ao acaso, no tempo presente; significa alcançar por meio da arte a beleza estética que a vida nos oferece a cada instante.

                Assim, o objetivo deste ensaio é servir como guia aos futuros leitores de Proust, ou aqueles que do mestre busquem uma síntese; além disso, pretende abrandar a barreira que o estilo do grande escritor oferece e, finalmente, mostrar ao leitor a riqueza e a atualidade que ele pode encontrar no imenso tesouro que Marcel Proust legou à posteridade e que este ensaio apenas ousa levantar a cortina de um primeiro ato.

                Capítulo I – “Entrevista com Proust”- André Jammes é um personagem fictício, por mim criado, um misto de crítico literário e repórter, cuja função será entrevistar o autor sobre os aspectos mais relevantes de “Em Busca do Tempo Perdido”. Na formatação do diálogo entre entrevistado/entrevistador, a linguagem proustiana, assim como o seu estilo, sofreu exclusivamente alterações que seriam naturais numa conversação. Meu personagem, por sua vez, também se expressa de tal forma que os leitores tenham, por meio da contextualização, a possibilidade de vivenciar os tempos de Proust, que são justamente aqueles que partem da “dècadence” e conduzem à “belle époche”.

                Capítulo II- “Os personagens proustianos, dentro de um roteiro primoroso”- os principais personagens são apresentados ao leitor com suas máscaras sociais, suas diferentes e múltiplas personalidades e como essas se transformam no decorrer do Tempo. Suas ações se encadeiam em complexas redes, que são planejadas e construídas com toda a precisão e rigor arquitetural necessários para o erguimento de uma catedral gótica.

Capítulo III- “Ambientação e Crítica Social”- Apresentação dos panoramas político-sociais em que os personagens proustianos atuam e os conflitos entre eles se arrastam: uma burguesia arrivista e parasitária marcada pela derrocada dos velhos valores burgueses herdados das revoluções e uma aristocracia decadente e parasitária sem vinculação com a produção e o comércio. Ademais é o tempo de grandes progressos e descobertas científicas e tecnológicas antes jamais imaginadas, que são acompanhadas pelo acirramento de conflitos sociais e de nacionalidades, pelo aumento da intolerância racial, e, afinal, pelo desencadear da hecatombe da primeira Guerra Mundial.

Ademais desses, outros capítulos breves se sucedem, são temáticos e dedicados às principais discussões introduzidas pelo autor em sua obra, que são de extrema importância não só para a compreensão de Proust, mas também para que “cada leitor se torne um leitor de si mesmo”:

Capítulo IV- “A multiplicidade de nossos eus

Capítulo V- “Os Sonhos e o Inconsciente

Capítulo VI - “As Insatisfações do Amor

Capítulo VII- “Sodoma e Gomorra

Capítulo VIII- “A obra de arte e a memória”

Capítulo IX- “A morte da morte”

Capítulo X- “O tempo e o ser”

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