Espaço Literário

Marcel Proust

Redes sociais

  • White Facebook Icon

© 2019 por Carlos Russo Jr.

Todos os direitos reservados

“Uma Introdução à Leitura de Em busca do Tempo Perdido”

X. A obra de arte e a memória

Marcel Proust sempre acreditou que uma literatura que desenvolvesse teorias  seria como um objeto que presenteamos e que trouxesse colada uma etiqueta com o preço. Para ele o vocabulário filosófico por ser muito abstrato, de certa forma separa o pensamento do mundo. Mesmo declarando-se devedor dos filósofos clássicos e de outros seus contemporâneos, como Bergson, ele tratou de “filosofar dentro de reflexões sobre obra de arte, no processo mesmo de escrever e de criar.” Na obra “Em Busca do Tempo Perdido” as ideias são dispostas de uma forma simbólica, utilizando sujeitos, situações e objetos concretos.

   A obra de arte é, antes de qualquer coisa, a busca da interpretação dos sinais. Proust procura incansavelmente interpretar as sensações produzidas como simbologias a partir de regras naturais e de ideias, na tentativa de formulá-las, isto é, “tirar da sombra o que apenas se percebera” e converter o que se absorveu num componente espiritual, racional e sensível. É da leitura de seu livro interior, como o famoso sabor do biscoito com chá, que o escritor faz seu ato de criação e descoberta. E nesse ato de descoberta é que ocorre a aplicação da inteligência à análise de todas as ilusões dos sentidos e dos raciocínios.

Dizia Nietzsche que “nenhum artista tolera o real”, mas ao mesmo tempo, dele não pode prescindir, sob  pena de criar tão somente uma arte meramente formal, desligada do mundo, da realidade. Quando Proust fala “nas ilusões e na lógica dos sentidos” ele admite a existência de uma realidade não ilusória, aquela que nos provoca as ilusões, a realidade que não obstante necessária, não é, de modo algum, completamente previsível, como pensavam em sua época aqueles que se denominavam “naturalistas”. “Quando eu digo que o fundamental está no espírito e não no objeto, isto é perfeito, desde que jamais a gente se esqueça de que o objeto encontra-se ali”.

“Portanto, mais além de nossas impressões, das sombras que vemos e sentimos,  existe o mundo que “deve” ser compreendido. Assumo a sua existência, mas veja que eu disse também “deve”, pois para mim, Proust, esse mundo exterior não é passível  de compreensão, na medida em que o mundo dos possíveis sempre me foi mais aberto que o das contingências reais. O campo infinito dos possíveis estende-se, mas, de qualquer modo, os acontecimentos ocorridos são os únicos conhecidos”. Portanto, a percepção significa interpretar as sombras que nos chegam dos homens e dos corpos e tratar de reconstruir, com a inteligência, os objetos invisíveis que lhes deram origem.

 Ademais do mundo que nos rodeia, temos também o mundo interior dos homens, esse sim, susceptível de entendimento; o problema, recorda-nos Proust, é que ele nos escorre sem cessar pelos dedos, como a fluidez da água, porque o íntimo de cada pessoa muda com o decorrer do Tempo. Entretanto, mesmo nessa permanente mudança, algo permanece dos indivíduos e das coisas, e é essa a base inicial por meio da qual chegaremos à Essência, à unidade de um universo que ele considera próprio do escritor.

A Essência é uma ideia que habita o nosso mundo e, diferentemente do que Platão acreditava só o nosso mundo terreno. Para Proust não existem verdades últimas a serem descobertas, presumidas; apenas essências as quais aguardam nos corpos para serem traduzidas.

“A única forma de eternidade na qual acredito é a da obra de arte e, veja,  não porque ela seja imperecível, embora seja certo  que os poetas sobrevivam aos políticos, às instituições, assim como a música se subtrai ao tempo e até mesmo as ruínas possuem sua própria voz. A arte também é perecível, mas eternal dentro do Tempo humano”.

Chegamos, agora, aos escaninhos da Memória. O nosso mundo interior não é criado de uma vez por todas; ele vai, no decorrer da vida, acrescentando coisas, “serezinhos” de quem nem suspeitávamos. “Quando quase nada subsiste de um passado antigo, depois da morte de nossos amigos, depois da destruição das coisas, aqueles “serezinhos” permanecem sozinhos, incrustados em nossa Memória Inconsciente; muito frágeis, porém mais vivazes, imateriais, persistentes e mais fiéis que as outras sensações percebidas”.

Proust nos propõe uma segmentação da Memória, ou seja, uma Memória em que procuramos os fatos do passado através da ação intencional de busca, que podemos denominá-la ”Memória Inteligente” e aquela que ocupa um espaço muito maior no nosso cérebro, mas que não pode ser acionada voluntariamente, a “Memória Sensível ou Inconsciente”. Se o primeiro compartimento é mais facilmente corrompido pelo Tempo, o segundo, apesar de encerrar sensações que “se encobrem, protegem,” pese sua maior resistência, também sofre a mesma ação deletéria temporal.

Ele se utiliza de uma analogia entre uma antiga crença céltica e as recordações que permanecem ocultas dentro de nós. Os celtas diziam que as almas das pessoas que perdemos se mantêm cativas em algum ser inferior, quer seja em um animal, num vegetal, ou mesmo em alguma coisa inanimada. Permaneceriam perdidas até o dia em que a pessoa estivesse ao alcance da tal “prisão”. Então, as almas queridas nos chamariam, “e tão logo as tenhamos reconhecido, dar-se-ia a maravilha da quebra do encantamento”. Libertadas, as almas venceriam a morte e permaneceriam conosco. Nosso cérebro seria tal qual esses seres e materiais onde se escondem nossas recordações.

“Seria trabalho perdido procurar os fatos submersos em nosso inconsciente e evocá-los, porque todos os esforços de nossa inteligência seriam inúteis”. O passado estaria escondido fora do “noous”, do nosso conhecimento e de seu alcance; mas, no entanto, poderia ser “ressuscitado” por algum objeto material, ou circunstância, pela sensação de retorno que eles nos propiciariam. Mas tal objeto, tal corpo, tal circunstância, dependeriam apenas do acaso para serem reencontrados, pois sua descoberta não pode ser “encomendada”.

O narrador, Marcel, cita diferentes objetos, circunstâncias, sensações que lhe evocaram reminiscências escondidas no subconsciente. Por exemplo, já penetrado na velhice, após um longo afastamento social, quase sofre um tombo em virtude da desigualdade do pavimento ao atravessar uma rua, e ao mesmo tempo ouve o soar da buzina do bonde a passar, quase o atropelando. Naquele instante, uma onda de felicidade o invade, pois o desnível das lajotas trouxera o retorno de sensações que vivenciara em Veneza ao lado de sua amada mãe; ao mesmo tempo, a buzina do bonde lhe faz recordar o ruído da campainha no portão da casa de sua tia, onde, ainda criança, passava as férias com a família.

Diversos eventos também ocorrem simultaneamente, quando lhe servem um chá com biscoitos. O ruído do pires tocado por uma colher; depois, o toque em seus lábios de um guardanapo engomado com que seca os lábios, após servir-se de um biscoito molhado no chá. Enquanto o ruído do talher o transporta à lembrança das sensações recolhidas na juventude, quando um empregado utilizava um martelo para consertar uma das rodas do trem que fazia o trajeto até Balbec, onde ele conheceria as “raparigas em flor”, o toque no guardanapo engomado lhe vivifica a impressão sentida quando ao tentar enxugar-se no Hotel de Balbec, dera-se conta de que a toalha não absorvia a água. O biscoito molhado no chá, em si, transporta-o para a sensação de delícia, acolhimento e segurança propiciada pelo prazer das “madelaines” molhadas em infusão de tílias que lhe servia, em criança, a sua tia Leonie.

Essas sensações produziram no Narrador uma corrente de bem-estar, trazendo-lhe as emoções vivenciadas no passado, fazendo-as permear o presente a ponto de torná-lo hesitante, sem saber em qual dos dois momentos se encontrava: “na verdade, a criatura que então saboreava essa impressão, saboreava-a no que ela tinha de comum entre um dia antigo e o atual, no que a sensação possuía de uma espécie de extratemporalidade, permitindo-lhe um desfrute da essência das coisas, numa fração de tempo efêmera”.

Este conjunto de fenômenos revividos por acaso possuía o poder de fazê-lo reencontrar os dias antigos, o Tempo Perdido ante o qual os esforços da memória consciente e da inteligência já haviam fracassado. No presente, no Tempo Reencontrado, o abalo efetivo de seus sentidos pelo ruído, pelo sabor, pelo toque, acrescentara aos devaneios da imaginação aquilo de que eles são habitualmente destituídos: a ideia da existência! “E graças a tal subterfúgio, permitiram-lhe obter, isolar e imobilizar, na duração de um relâmpago, o que jamais ele obtivera antes: uma fração de tempo em estado puro!”

“A maior parte de nossa memória está fora do alcance de nosso consciente; fora de nós, entretanto, em nós; para melhor dizer, oculta de nossos próprios olhares, num esquecimento mais ou menos prolongado. Em toda parte, tudo aquilo que fora tocado apenas pela nossa afetividade constituía a última reserva do passado, a melhor, aquela que, quando todas as nossas lágrimas parecem estancadas,  ainda ressurge no presente e sabe nos fazer chorar: esta permanece no nosso inconsciente”. 

 Marcel, em uma de suas reflexões a respeito da Memória Intelectiva, ou se quisermos, Voluntária, diz que compreendia melhor a contradição que existe em procurar a realidade nos quadros da memória consciente, aos quais sempre faltaria o encanto que lhes advém da própria Memória. Perambular através da memória inteligente é como  folhear um álbum de fotos. “A recordação de certa imagem não é mais que a saudade de certo instante; e as casas, os caminhos, as avenidas, infelizmente, são fugitivos como os anos”.

A Memória não  nos apresenta habitualmente as recordações na ordem cronológica com que foram registradas, mas um reflexo em que está alterada a ordem das partes. “Colocamos  muito de nós mesmos em toda parte, onde tudo é fecundo e perigoso, e onde também podemos fazer preciosas descobertas. É escusado que mudemos de ambiente, de gênero de vida, pois nossa memória, retendo o fio de nossa personalidade sempre igual, prende a ela, em épocas sucessivas, a lembrança dos meios em que vivemos, de que, ainda passados quarenta anos nos recordaremos”.

Para encerrarmos esse aspecto de nosso ensaio, traremos uma frase com que Proust conclui com singeleza as relações do Ser, da Memória e do Tempo: “Já o Tempo é como o cupim na madeira; começa por realizar perfurações e deixa todas as nossas recordações como um rendilhado de conteúdo semi-destruído. A Memória, sempre presente aos nossos olhos,  trazendo-nos os diversos acontecimentos de nossa vida, é antes um abismo em que, por um momento, por uma similitude de impressões e sensações, permite-nos sacar ressuscitadas reminiscências extintas; mas há mil pequeninos fatos que não caíram nessa virtualidade da memória e que escaparão para sempre à nossa verificação. Isso faz com que as imagens escolhidas pela recordação sejam tão arbitrárias, tão estreitas, tão inacessíveis, como as que formaram a imaginação que nos é própria do que passou”.

Este site não possui patrocinadores, contamos com doações espontâneas para sua continuidade.