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Marcel Proust

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“Uma Introdução à Leitura de Em busca do Tempo Perdido”

XI. A morte da morte

Pensar a morte é sempre um assunto por demais difícil. Shoppenhauer invejava de certa forma o animal que vive sem conhecer a morte e só tem a “consciência de si” como um ser sem fim. Mas a natureza ao trazer para o homem o conhecimento da morte, criou mecanismos psíquicos para que as pessoas não acreditassem em sua própria morte, julgando que sua individualidade iria, de alguma forma, perpetuar-se.

A doença real ou psíquica de que o Narrador e o próprio autor eram acometidos e que os “levavam” a permanecer dias e dias na cama, traem as diversas faces da morte. Marcel expressa que “crer na própria morte como um evento mais do que possível, absolutamente inapelável, apenas sem o seu Tempo definido, constituiria o pior dos pesadelos para a maioria da humanidade.” Inclusive para ele mesmo, o Narrador. Ele  cita o exemplo do soldado da linha de frente da batalha. “Ele está convencido de que tem diante de si um espaço de tempo infinitamente adiável antes que o matem; o ladrão, antes que o prendam; o homem, em geral, antes que o arrebate a morte. Este é o amuleto que preserva os indivíduos- e às vezes, os povos- não do perigo, mas do medo do perigo.”

Proust tentaria buscar na literatura um antídoto contra a morte.

 “Sempre dizemos que a hora da morte é incerta, mas, quando falamos isso afiguramos essa hora como situada num espaço vago e longínquo, não imaginamos que tenha uma correlação qualquer com o dia começado, e possa significar que a morte- ou sua primeira posse parcial de nós, após a qual não nos larga mais – poderá ocorrer nessa mesma tarde”. “A gente se empenha em cumprir os nossos compromissos, o dia está inteiro para nós, gostaríamos que amanhã fizesse um bom tempo para visitarmos um amigo e não desconfiamos que a morte, que caminhava entre nós em outro plano, escolheu precisamente aquele dia para entrar em cena.”

Acompanhando a doença que terminará por levar à morte a sua avó, Marcel percebe após o primeiro ataque de apoplexia que “mesmo este primeiro contato com a morte não costuma nos assustar, pois ela se reveste de uma aparência conhecida, familiar, cotidiana, não tanto pelos sofrimentos que provoca, mas  pela estranha novidade de restrições que impõe à vida.”

Na verdade já estamos morrendo, não no momento próprio da morte, porém meses e até anos antes, “desde que ela veio morar conosco.” “A própria vida é como se fosse uma amante que pressionamos, que suspeitamos que está a ponto de nos trair; embora sintamos que já não é a mesma, ainda acreditamos nela, pelo menos ficamos em dúvida até o dia em que ela enfim nos abandona de vez.” Como autodefesa, o nosso corpo como que enclausura o espírito numa fortaleza; mas em breve esta fortaleza é assediada por todos os lados e, por fim, será necessário que o espírito se renda.

A morte de um ser próximo é sempre incrível e paradoxal, uma impossibilidade que se transforma em realidade, no dizer de Goethe. Ela nos choca como um castigo, um erro, uma irrealidade. Em sua narrativa, Marcel descreve a morte próxima como a única a se revestir de um caráter real, que mesmo o sofrer chega a ser ainda maior quando nossos entes queridos permanecem ”insepultos”. “Saber que nada mais se tem a esperar não impede que se continue a esperá-los. Vive-se à espreita, à escuta: mães, cujos filhos embarcaram em perigosa expedição, imaginam a cada instante que chegarão miraculosamente salvos e em boa saúde. E esta espera ou as ajuda a atravessar os anos ao fim dos quais suportarão que os filhos não mais existam, ou então, matam-nas.”

Marcel rememora o processo da morte da avó: “Jamais poderia apagar aquela contração de sua face e aquela dor de seu coração; pois como os mortos não existem a não ser em nós, é a nós mesmos que batemos sem trégua quando nos obstinamos em recordar os golpes que lhes assentamos. Por mais cruéis que fossem essas dores, eu ligava-me a elas com todas as minhas forças, pois bem sentia que eram o efeito da lembrança de minha avó, a prova de que essas lembranças que eu tinha estavam em presentes em mim”.

O nosso duplo, aquele que tem o conhecimento da própria morte é o anjo, com o qual, no momento extremo, encontramo-nos face a face. “Eu sempre preferi acreditar mais na alegoria do anjo da morte que na do anjo da guarda. Enfim, a cada momento de nossa vida sempre buscamos um apoio ou um consolo no imaginário que mais nos convenha.”

Marcel detalha o trabalho de escultor que este anjo da morte desenvolvera na face de sua avó: “Suas feições, como nas sessões de modelagem, pareciam conformá-la a um certo modelo que nós não conhecíamos. Esse trabalho de estatuário chegava ao fim e, se o rosto de minha avó havia diminuído, ela igualmente endurecera. As veias que a atravessavam pareciam, não de mármore, mas de uma pedra mais rugosa.” E, finalmente, quando o anjo completou o seu trabalho e junto com a vida se retirou, as desilusões da existência terminaram também de ser carregadas por aquela que havia sido a avó de Marcel. Ele comenta: “Um sorriso parecia pousado sobre os lábios de minha avó. Sobre aquele leito fúnebre, a morte, como o escultor da Idade Média, deitara-a, finalmente, sob uma aparência de mocinha”.

Mas os nossos mortos continuam vivendo em nós. “Nesse sentido que se pode dizer que a morte não é inútil, que o morto continua a atuar em nós. E nesse culto da dor por nossos mortos votamos uma idolatria ao que eles amaram.” “Se o dia nos recorda a morte de um ente querido, então o sofrimento consiste em uma comparação mais viva com o passado, ilusoriamente tão feliz.”

Por outro lado, de que modo nos atinge a morte de seres distantes? “A morte de milhões de desconhecidos apenas nos causa um arrepio, aliás, menos desagradável do que o provocado por uma corrente de ar. Rapidamente as tragédias que não nos atingem são sucedidas por outras e jamais nos recordamos daquelas em que tantos morreram.”

No reencontro que Marcel tem com a sociedade, após anos de tratamento de saúde e de ausência, tendo todos os seus amigos e conhecidos se transformado em velhos, observa que, para as pessoas da mesma idade e do mesmo ambiente a morte havia perdido seu significado estranho, pois ela se multiplicava, tornando-se mais  e mais incerta entre os idosos.

Marcel, a seu modo, parafraseia Baudelaire: “ acredito que, na minha agonia, quando todos os meus outros “eus” estiverem mortos, se vier a brilhar um raio de sol quando eu estiver a dar  os últimos suspiros, a personagenzinha barométrica sentir-se-á bem contente e dirá: “até que enfim um dia bonito”.

Proust defende claramente a liberdade humana em seu ato mais extremo, o suicídio, aquele que para Dostoievsky como negação do limite da espécie é o teste absoluto da libertação. A família de Marcel havia impedido que a avó, no extremo sofrer, mas ainda com forças para uma atitude lúcida, exercesse a liberdade de reduzir, através do suicídio, o seu sofrer. Marcel narra um episódio semelhante ocorrido em Balbec, num dia em que as pessoas haviam salvado contra a vontade, uma viúva que estava para se atirar de uma ponte ao mar. A avó do Narrador dissera que não conhecia maldade maior que arrancar uma desesperada à morte que ela desejara e fazê-la regressar a seu martírio. “Neste momento, o gesto de liberdade permite que, de um golpe, superemos este limite, quando buscamos, voluntariamente, abreviar nossos sofrimentos.”

Quer seja por egoísmo, quer por preconceito ou mesmo pela melhor das boas intenções, primeiro os familiares de Marcel e depois desconhecidos haviam afugentado aquele que para as desesperadas seria o seu anjo salvador. “É difícil aceitar, mas muitas vezes o pensamento do agonizante se volta para o lado real, doloroso, obscuro, visceral, para esse inverso da morte que é precisamente o lado que ela lhe mostra, que ela rudemente faz com que sinta e que se assemelha bem mais a um fardo que o esmaga, a uma dificuldade de respirar, a uma necessidade de beber, do que aquilo a que chamamos simplesmente de morte.”

Oscar Wilde, na prisão da Inglaterra vitoriana, condenado a trabalhos forçados por um caso de relação homossexual, deixa-nos uma pérola, ou melhor, “lágrimas na pétala de uma rosa”: “A sociedade, tal como a constituímos, não terá mais lugar para mim, nem me oferecerá nenhum. Mas a Natureza, cujas chuvas tão doces caem tanto sobre os justos quanto sobre os injustos, terá nas rochas algum esconderijo onde possa me ocultar, e me oferecerá vales secretos em cujo silêncio poderei chorar sem que me perturbem. Ela fará resplandecer as estrelas na escuridão para que eu não tropece nas trevas; fará soprar o vento sobre o rastro de meus passos, para que ninguém me persiga na morte; lavar-me-á com suas abundantes águas, e curar-me-á com suas ervas amargas.”

Feuerbach sintetiza o tema: “A morte é a morte da morte.”

Marcel não se conforma com a morte de Albertine. Ele gostaria de acreditar que a morte não faz mais do que riscar o que existe e que é capaz de deixar o resto intacto; mas “a morte da morte” para Marcel é muito complicada, pois significa a morte de cada uma das diferentes personalidades assumidas dentro dele por Albertine. Não a supressão de um sofrimento, mas um sofrimento desconhecido, o de saber que ela não mais voltaria. Para que a morte de Albertine pudesse suprimir os seus sofrimentos, seria necessário que o acidente a tivesse matado não em Turaine, mas dentro dele mesmo! E lá, ela nunca estivera mais viva. “Para me consolar, não era uma, mas inumeráveis Albertines que eu deveria esquecer. Quando chegasse a suportar o desgosto de ter perdido essa, era o caso de ter de recomeçar com outra, com cem outras.”

“Ao final do tempo, nossa afeição pelos outros não diminui porque estejam mortos, mas porque nós próprios morremos.”

Quando raciocinamos sobre o que ocorrerá após a nossa morte, não será ainda a nossa pessoa viva que, por engano, projetamos nesse momento?

Proust previu que somente após a morte ele seria reconhecido em toda sua genialidade, pois o novo requer tempo para ser reconhecido. Por isso era indispensável que terminasse o “seu livro”. “Com relação aos escritores de gênio, tenho como certo que é somente após a morte que eles se tornem célebres. O esplendor de seu nome detém-se ante a pedra de seu túmulo. Não deixa de haver uma compensação, pois pelo menos o autor falecido se torna ilustre sem se cansar.”

Fora o caso de um de seus personagens, o músico Vinteuil. “Ele morrera havia muitos anos, mas no meio daqueles instrumentos todos que ele animara e dera vida, fora-lhe dado prosseguir, por tempo ilimitado, uma parte ao menos de sua vida. De sua vida de homem apenas? Se a arte não fosse realmente senão um prolongamento da vida, valeria à pena sacrificar-lhe algo?  Não seria ela tão irreal quanto a própria vida?”

“A lembrança dolorosa só existe a que vem dos mortos; ora, esses se extinguem depressa, e já não sobra ao redor de seus próprios túmulos, senão o encanto da natureza, o silêncio e o ar puro. “A morte da morte”, absorvida pela natureza de onde viemos. Mesmo porque o nosso amor pela vida é apenas uma velha ligação da qual não sabemos nos desvencilhar. Sua força está na permanência. Hugo nos diz que “os mortos duram bem pouco... ai de mim tombam em pó no túmulo, menos depressa que em nosso coração!”

“Só a morte, ao romper todas as nossas ligações com a vida e as coisas, é única capaz de nos curar do desejo eterno e onipresente de imortalidade, portanto, oferece-nos a total liberdade.”

Em 1919, Proust anotou ao final de um livro de Senancour, o “Oberman”: “Senancour sou muito eu”. Dizia Senancour : “no mesmo momento em que balbuciamos Eternidade, alimentamo-nos de ruínas, e esta mão que deseja indicar uma morada imortal, ergue-se para bendizer os que irão até a morte nas batalhas. Mortos escreveram nossas histórias, prepararam nossas grandezas, justificaram nosso orgulho na evolução, no progresso e é à própria Morte que  confiamos uma imponente duração.”

 

Marcel Proust faleceu em 19 de novembro de 1922. Proust ao pressentir a proximidade da própria morte, escreveu que “a solidão dos moribundos, que denominamos eufemisticamente de recolhimento para a morte, ocorre com a imensa maioria das pessoas cuja enfermidade ou a idade provecta transforma-os em moribundos, exatamente quando esses já renunciaram à vida.”

E a sua morte foi como que a reprodução do que ele mesmo escrevera a respeito do falecimento do escritor-personagem de seu romance, Bergotte, anexado poucos dias antes à prova tipográfica de “A Albertine Desaparecida”:

O escritor Bergotte, uma das múltiplas facetas do próprio Proust, em seus últimos dias, quando não mais saía de casa, e apenas por educação recebia uns raros amigos, fazia-o todo envolto em xales, mantas, “em tudo com que nos cobrimos no momento de nos expor a um grande frio ou de tomar um trem, embora o frio que sentisse lhe viesse de dentro. Desculpava-se com eles dizendo, ao mesmo tempo em que apontava suas vestes: Que se pode fazer, meu caro? Já disse Anaxágoras: a vida é uma viagem! E Bergotte se preparava para a sua última.”

Externava Proust por intermédio de Marcel: “Claro que nem os dogmas religiosos, nem mesmo as experiências espíritas nos trazem a prova de que a alma continua. Não há prova alguma, em nossas condições de vida neste mundo, de que estejamos obrigados a fazer o bem ou a nos conduzir com delicadeza, nem de que o artista esteja  forçado a  recomeçar vinte vezes uma paisagem capaz de despertar admiração que pouco importará ao seu corpo comido pelos vermes”.

“Enterraram-no (a Bergotte), mas durante toda noite fúnebre, nas vitrines iluminadas, os seus livros, dispostos de três em três, velavam como anjos de asas espalmadas e pareciam, para aquele que já não existia, o símbolo da sua ressurreição.”

A morte da morte, para Proust, está na longa vida de uma verdadeira obra de arte, que sobreviverá sempre à morte de seu autor.

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