“Uma Introdução à Leitura de Em busca do Tempo Perdido”

XII. O tempo e o ser

“Em Busca do Tempo Perdido” é uma aventura espiritual em que o Tempo, com sua seta sempre a apontar o futuro é guia que prospera circularmente, em que a própria gênese se repete e, como num mito, a vida e a natureza se recriam. Todo o conjunto da obra literária é uma aventura anímica que se caracteriza tanto como busca, quanto ascese. Uma forma de o leitor vivenciar o processo criativo, por meio da obra arte!

Não por acaso, já no principio diz o Narrador, Marcel: “Um homem que dorme tem em volta de si, em ciclo, o fio das horas, a ordem dos anos e dos mundos.” “Em Busca do Tempo Perdido” principia ao final do último parágrafo do suspiro derradeiro da obra, ou seja, chegamos ao primeiro livro, “A Caminho de Swann” através do último capítulo do “Tempo Recuperado”.

Diversas são as passagens que tentam transferir o Ser do presente, que já se transformou em passado, para um futuro. Conforme o narrador nos assegura “não se trata de nos transportarmos metafisicamente para um momento futuro, mas, algumas vezes, o futuro habita em nós sem que o saibamos, e as nossas palavras, que muitos julgam mentir, delineiam na verdade uma realidade próxima”. Isso porque “parece-me que os acontecimentos são mais vastos do que apenas o momento em que ocorrem e não conseguem caber neles por inteiro. Decerto, transbordam para o futuro pela memória que deles guardamos, mas pedem também um lugar ao tempo que os precede.”

Talvez o futuro ainda não realizado, que só existe em nosso pensamento, pareça-nos, então, modificável pela intervenção “in extremis” de nossa vontade. Mesmo os momentos do passado não seriam imóveis, dado que conservamos em nossa memória o movimento que os transportava para o futuro- um futuro que se tornou também passado, arrastando-nos igualmente a nós mesmos. “Imaginamos muitas vezes o futuro como um reflexo do presente projetado num espaço vazio, esquecendo-nos de que ele é frequentemente, o resultado muito próximo das causas que o mais das vezes nos escapam”.

Pese essas considerações, em todo o trabalho de Proust, o Ser jamais está situado fora das contingências do tempo, mas, sim, submetido às suas leis. E a principal contingência com que nos deparamos é a inflexibilidade do Tempo. Um eterno devir ao qual todos estamos condenados.

 

1. O tempo interior

O conceito de um “tempo interior” proustiano é uma forma de escape psíquico das contingências a que o viver nos submete. Vamos a um exemplo: as imagens que trazemos do passado comumente nos assaltam num momento presente, que, inexoravelmente começa, no mesmo instante, a se transformar em passado, e o futuro, sem que o percebamos, já é presencial.

Ao criarmos o nosso tempo interior, buscamos resistir à passagem inevitável do mesmo e conseguimos mesmo que seja, por instantes, uma espécie de “supressão” do Tempo, tornando, ilusoriamente, seu caminhar mais lento ou mais apressado. Marcel diz que: “Há dias acidentados e penosos que a gente leva um tempo infinito a transpor, e dias em declive, que se deixam descer a toda velocidade, cantando. Elástico é o tempo de que dispomos cada dia; as paixões que sentimos o dilatam, as que inspiramos o encurtam e o hábito, o enche”.

É essa sensação subjetiva do Tempo que leva a gravarmos em nossa memória os sentimentos que o dilata e as dificuldades que transpusemos. Já as delícias que sorvemos, essas passam tão rapidamente que adquirem registros mais compactos, num tempo vivido mais “ligeiro”. Além do mais, a velocidade em que o tempo escoa é diferente em cada Ser, por um único motivo: o Tempo psicológico não é contínuo, pese que sua passagem seja inexorável.

 

2. O Tempo como fator desagregador e reorganizador do Ser

Todo indivíduo, submergido no Tempo, desagrega-se; chega mesmo um dia “em que nada sobra daquele homem que antigamente amou e foi capaz, até mesmo, de fazer uma revolução”.

Para Proust nós não vemos o nosso próprio aspecto, nossa própria idade, mas cada um, como um espelho, exibe a dos outros, pois em primeiro lugar acontece com a velhice o mesmo que com a morte: “uns poucos a enfrentam com indiferença, não porque sejam mais corajosos que os outros, mas por terem menos imaginação.”

“No Tempo Recuperado”, Marcel retorna ao convívio social após mais de vinte anos afastado do mesmo. Ele se depara com uma realidade em que o Tempo não só desfizera antigas criaturas, mas tornara possíveis novas associações, antes impensáveis dentre as pessoas.

Assim, o Tempo muda também o aspecto das coisas nesse mundo, o centro dos Impérios, o cadastro das fortunas e a carta dos privilégios, tudo o que parecia definitivo é perpetuamente remanejado, e os olhos de um homem vivido podem contemplar a mais completa mudança, justo onde esta lhe parecia mais impossível, pois é a ação desagregadora do Tempo que cria novas realidades, operando com todo o seu potencial transformador.

Marcel nos diz que não há humilhação por pior que seja a que não devamos facilmente nos resignar, sabendo que ao cabo de alguns anos nossas culpas serão apenas uma invisível poeira sobre a qual vicejará a paz risonha e florida da natureza.

O Tempo também cura as dores e as disputas porque já não se é mais a mesma pessoa, nem aquela que um dia ofendeu, nem a que foi ofendida. “Esquecemos as torpezas que um sujeito nos fez, seus defeitos, a última vez que nos separamos sem apertos de mão e, em compensação, lembramo-nos de um encontro mais antigo, de quando nos dávamos bem”. Mistura de perdão, esquecimento e indiferença, tudo também é efeito do Tempo sobre o Ser.

Por outro lado, a obra proustiana propala um sentimento de angústia por todos os escaninhos do “self”. Do mesmo modo que o Tempo vai mudando o nosso coração durante toda a vida, ele constrói a pior das dores, que é prolongada, que somente se esgota na morte. O sentir transforma-se do mesmo modo como o fazem certos fenômenos da natureza, tão vagarosamente que, “embora possamos verificar de modo sucessivo os seus estados diferentes, em compensação nos foge a própria sensação de mudança”.

Na visão proustiana da “multiplicidade dos eus” que nos habitam e que também se desagregam e alteram com o passar do Tempo, “algo subsiste da essência mesma do homem”. É possível, ainda que necessitemos de óculos especiais para reconhecer essa essência, pese o passar dos anos, mas não há dúvidas de que ela estará lá.

 

3. “Somos feitos de tempo”

A cada momento adicional de nossas vidas  incorporamos mais tempo e quando ele nos abandona morremos.  Marcel nos convoca a perceber que ocupamos um lugar sempre acrescido no Tempo, sendo seres que nos formamos com o passar do mesmo, nas diferentes fases de nossas vidas; somos detentores de Tempo, pois o Tempo incorporado é inseparável do Tempo decorrido.

Somente no momento da morte ocorre “a retirada do Tempo do corpo”.

Toda a monumental obra “Em Busca do Tempo Perdido” chega ao final (não seria mais adequado dizer-se princípio?) com uma frase sintetizadora da relação Tempo e Ser:

 “Pelo menos, se me fosse concedido tempo suficiente para terminar a minha obra, não deixaria eu, primeiro, de nela descrever os homens, o que os faria se assemelharem a criaturas monstruosas, como se ocupassem um lugar tão considerável, ao lado daquele tão restrito que lhes é reservado no espaço, um lugar, ao contrário, prolongado sem medida - visto que atingem simultaneamente, como gigantes mergulhados nos anos, épocas tão distantes vividas por eles, entre as quais tantos dias vieram se colocar - no Tempo.”

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