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Marcel Proust

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“Uma Introdução à Leitura de Em busca do Tempo Perdido”

III. As personagens proustianas num roteiro primoroso

Muitos leitores se decepcionam num primeiro contato com a obra de Proust porque estão acostumados a encontrar numa leitura tradicional a lógica de cada personagem. Acontece que a lógica das personagens proustianas é estritamente psíquica, preservam uma lógica interna como um fio condutor da psiquê, dentro da “multiplicidade de seus eus”. Somente permitindo-se envolver nesse universo psicológico é possível deleitar-se com os atores de “Em Busca do Tempo Perdido”.

Outro aspecto que vale a pena ser ressaltado é que as personagens possuem seus “Vícios e Virtudes”, e o leitor jamais poderá cair na tentação de considerar que qualquer um deles seja representativo de determinados vícios ou de certas virtudes relacionados ao mal ou ao bem. É por isso que teremos personagens ciumentas, mas que não encarnam o ciúme; assim como outras que serão homossexuais, sem serem protótipos do homossexualismo; outras ainda, más, porém com algumas atitudes de solidariedade humana. Esse é mais um motivo pelo qual poderão parecer estranhos, pois estamos acostumados aos romances tradicionais, em que cada ator é praticamente o protótipo de uma virtude ou um vício.

No seu “rememorar”, Marcel abandona completamente a ordem cronológica com que estamos tão acostumados, o que leva a uma composição relatada por blocos, iluminados por flashs da memória. É claro que não existem separações arbitrárias que diferenciem a infância da adolescência e, mesmo, esta, da juventude. Proust, que descreve cada uma de suas personagens à exaustão, jamais chega a defini-las, nem determina com clareza suas faixas etárias. O menino Marcel não é bem uma criança; ele, adolescente, já é admitido em círculos somente destinados a adultos, tendo onipresença garantida em todos os círculos sociais; suas paixões, quando ocorrem, fazem-no num tempo que é mais psicológico que biológico.

No sempre minucioso detalhamento das características físicas de seus atores, determinados sinais corporais agrupam-se e a eles o Narrador faz corresponder determinados tipos de comportamento; como tudo se altera e deteriora no decorrer do tempo, as “máscaras” que cada personagem social “vestirá” importará em modificações tanto fisionômicas como comportamentais e psicológicas. Como o próprio Montaigne dizia: “Nada é mais verossímil que a conformidade do corpo ao espírito e as relações entre eles.” Sem dúvida, Proust era um adepto do fisignomismo.

Praticamente todas as personagens de “Em Busca do Tempo Perdido” possuem projeções da alma do artista que “sonha”, um sonho que Carpeaux chama de “artificial”, pois são sonhos deliberadamente imaginados, dos dias em que em recolhimento Proust “rememorou” o período do final do século XIX até 1922 fundando o Simbolismo Mágico. O próprio Proust sempre afirmou que para cada personagem do romance havia muitos modelos da vida real. Um havia “pousado com o chapéu, outro com a gravata, outro com a fala, etc.”, de tal modo que a pessoa que mais pousara que oferecera inúmeros figurinos, vistos como reflexos do real na imaginação e na memória do autor, fora ele mesmo, Marcel Proust. E, perante diversas tentativas de identificação de suas personagens com pessoas de vida real, o escritor fez questão de ressaltar que onde existem “cem chaves para identificar uma personagem, na verdade não existe nenhuma”.

Uma passagem narrada por André Maurois, o principal biógrafo de Proust, ocorreu já estando o grande mestre impossibilitado de deixar o seu leito de enfermo. Ele pediu que seu amigo, o músico Reynaldo Hahn tocasse ao piano Schubert, Mozart e um fragmento dos Mestres Cantores. Por volta das quatro da madrugada Proust reclamou que faltava a “frasezinha”. Quando um dos outros amigos presentes perguntou a Reynaldo do que se tratava, ele disse: “É uma passagem da sonata em ré menor de Saint- Saens, tingida pelo espírito de Marcel com reminiscências franckianas, faureanas e até wagnerianas.” Logo, não somente as personagens, mas até mesmo a famosa “Sonata de Vinteuil” é uma criação do espírito de Proust, realizada com a ajuda de Reynaldo, para a qual pousaram diferentes autores e diversas composições musicais.

O Narrador e seus familiares

A vida rememorada inicia-se com a frase “durante muito tempo, deitava-me cedo”, o que indica um tempo passado e indefinido. Contrariamente ao que se poderia presumir, esse hábito não ocorria em Paris, onde residia Marcel com os pais, mas na casa onde sua família passava férias, no vilarejo de “Combray”, pertencente à sua tia Leonie. A casa possuía um lindo jardim com todas as flores de verão, e portões por aonde se ia por um dos dois caminhos: o que conduzia a Tansoville, onde estão as flores dos jardins de Swann, e o outro que conduzia para os lados de Guermantes. Como num prelúdio temos a ansiedade, fruto do apego do Narrador à sua mãe, reflexo da necessidade vital por carinho e atenção, que o acompanharão por toda a sua vida.

Tia Leonie, a proprietária da casa, é a típica representante da burguesia provinciana, alheia a tudo o que não correspondesse ao seu restrito mundinho. Exatamente por isso, possuía uma absoluta necessidade de manter sob controle não somente os hábitos domésticos da família, como o de todos os habitantes do vilarejo. Desde que seu marido morrera, ela optara por auto isolar-se fisicamente da sociedade e todo o seu espaço caseiro reduziu-se a apenas dois aposentos, de onde, entretanto, mantinha um ponto privilegiado de observação da vizinhança, a ampla janela de seu quarto, sua abertura para o mundo. Somente duas coisas lhe interessavam manter à mão: remédios para a saúde precária e os missais para a alma. Conhecia perfeitamente os horários de cada obrigação e dizia que dormia muito pouco, o que talvez até fosse verdade. Ao mesmo tempo em que se recolhia, foi deixando de receber visitas, e as notícias do mundo lhe chegavam por meio de Françoise e Eulalie, atual e antiga serviçais. De certa forma, esse comportamento prenunciará, num tempo ainda muito distante, o isolamento a que se imporá o próprio Narrador, quando decide dedicar-se a escrever o seu livro. Marcel desvencilha-se primeiro dos compromissos sociais, depois evita receber os amigos; como a tia, deixará de ocupar até mesmo a totalidade do apartamento onde residia, restringindo-se aos seus quartos, onde se isolará com sua enfermidade, fotos, livros e recordações, e, por que não, com a insônia. Podemos ver que, desde o princípio, as partes conectam o passado ao futuro no caminhar de “sonho” de nossas personagens.

Em Combray, o pequeno Marcel estará sempre circundado pelos cuidados da avó e da mãe, atento aos conceitos e a certas imposições de seu avô e de seu pai. Ainda teremos a presença de mais duas tias-avós e de um tio, Alphonse. O nosso pequeno Narrador será motivado à literatura e sonhará em um dia tornar-se escritor, graças à influência da mãe e da avó, grandes leitoras especialmente das memórias das madames de Sèvigné e de Lafaiete.

Marcel era psicologicamente feito da matéria-prima de que eram compostas a mãe e a avó. Quando Marcel diz que o amor presente em sua avó era absorvido por ele num desejo de conservação e acréscimo da sua própria vida; quando diz que os seus próprios pensamentos tinham na avó o seu prolongamento, porque passavam de seu espírito para o dela sem mudar de meio e mesmo de pessoa, temos descrita uma espécie de simbiose psíquica. Desta simbiose resulta claro que a importância do gênero masculino não foi tão marcante na formação do jovem. Pode-se mesmo dizer que o papel desenvolvido pelo pai e pelo avô de Marcel seja secundário em toda a trama. Quando o Narrador torna-se jovem, seu pai decide pelo direcionamento da carreira diplomática do filho.  Mas terminará, com até certa facilidade, por abrir mão dessa vontade, contentando-se com a esperança em um filho escritor.

Outro familiar que virá a influir na personalidade do futuro Narrador é o tio Alphonse. Ele foge aos padrões morais severos do restante da família, e será na casa parisiense desse velho rico e considerado “libertino” que o jovem Marcel conhecerá a dama de vestido cor-de-rosa, Odette, uma cocote que o frequentava, como tantas outras.

“Em Busca do Tempo Perdido” dedica páginas e mais páginas às pessoas que prestam serviço à família de Marcel. Sobretudo Françoise, uma pessoa do povo, camponesa na sua origem.  Após a morte de tia Leonie, a quem servia com fidelidade canina, ela tornar-se-á empregada da família do Narrador, jamais dele se desligando, quer nas estações de veraneio no balneário de Balbec, cidade da costa normanda, quer nos passeios pelos Champs Elisées. Após a morte da avó, quando a mãe de Marcel afasta-se da convivência com o Narrador, Françoise permanecerá como guardiã e empregada, algoz e amiga. Mesmo quando Marcel transforma uma namorada, Albertine, em sua prisioneira, lá estará Françoise a servi-lo e a odiar a intrusa. De qualquer modo, será ela a pessoa que realizará a ponte entre Combray, Balbec e Paris, estando presente em todas as fases da vida relembrada.

Odette, Charles Swann e Gilberte

Tempos após a visita à casa de tio Alphonse, Marcel irá reencontrar a “dama cor- de- rosa” na figura da mãe de Gilberte, esposa de Swann, vizinho da casa de tia Leonie, em Combray. Ao revê-la, ele realiza uma interessantíssima descrição fisionômica em que os olhos negros transformam-se na sua memória em azuis, contrastantes com os cabelos loiros, numa alusão à multifacetária personalidade de Odette. Expressará o profundo do interior feminino, a cor irradiante de toda a feminilidade que Odette possuía e utilizava no seu grau máximo.

Estando em Balbec, ao visitar o estúdio do pintor Elstir, Marcel voltará a se encontrar com aqueles olhos negros que o marcaram como o ferro rubro, pois Odette, provável amante de Elstir, pousara para o pintor tempos atrás. Quando Marcel observa detidamente a pintura, ele se dá conta de que traços de ambiguidade surgiam como um elemento estético. E então, sobre essa personagem, a atriz que desempenhara o papel de “Miss Sacripanta”, o Narrador identifica certa indeterminação sexual, quando o mesmo rosto que à primeira vista parecia ser o de uma rapariga um pouco virilizada, visto por outro ângulo, a ideia sugerida era a de um jovem efeminado e sonhador. Afinal, tudo era uma encenação teatral.

Voltemos à história de Odette que, quando menina fora vendida pela mãe a um senhor inglês. Deste pedófilo ela somente herdara o anglicismo que usava amiúde, crendo-se, com isso, “chique”. Ainda jovem, após deixar o inglês que a pervertera, desposou um homem muito mais velho de sobrenome Crecy, da pequena nobreza da costa normanda, a quem explorará e deixará na mais triste miséria. Crecy seria apenas o primeiro de toda uma longa série, na qual todos os homens com quem ela se relacionará serão usados e traídos.  Odette de Crecy, após largar seu marido, irá se ligar ao clã Verdurin, do qual será uma das “Graças”. Aprenderá com a Sra. Verdurin a arte de construção de um salão burguês assim como todos os maneirismos da condução mundana. E será por seu intermédio que Swann, frequentador da mais fina nata aristocrática, tomará contato com o Salão dos Verdurin, e por ele será influenciado.

Charles de Swann, apresentado a Odette por seu amigo o barão de Charlus, nela, inicialmente, não encontra nada que a fizesse ser desejável. Mas Odette fará de tudo para preencher-lhe a vida, conquistá-lo. Ele terminará por se apaixonar, não pela Odette de carne e osso, mas pela imagem que forma dela a partir de um quadro de Boticelli. Odette encarnará para ele a filha de Jétero, surgindo da espuma da água fluida como uma “Vênus”, tendo a orquídea como símbolo. A orquídea, do gênero botânico “orchis”, que em sua origem grega significa testículos.  A haste que surge dos seus grãos e os tubérculos irão embelezar-lhe os seios. A Odette de incontáveis amantes, depois de muita insistência, conseguirá que Swann a admita em sua vida.

Mas se Odette, após conquistá-lo, muito fez com que Swann sofresse foi porque descobriu ser esse o modo de prendê-lo e escravizá-lo. “Talvez os olhos negros denunciassem já a princípio uma volúpia amorosa, que mesmo sendo intensa era planejada; se Marcel os enxerga com os olhos de sua alma como azuis é graças, sem dúvida, à multiplicidade do caráter da mulher, que sempre se comportará delicadamente para com ele, como a princípio o fizera com Swann.”

O ciúme, o sofrimento e o tempo fizeram com que Swann, finalmente, deixasse de amá-la. Mas Odette conseguirá engravidar e passará a atormentá-lo com chantagens utilizando-se da filha Gilberte para tal, até conseguir desposá-lo, o que na realidade, desde o princípio de sua relação, constituía o seu objetivo. E somente se casando com Swann ela se libertará dos Verdurin e organizará o seu próprio salão, o qual com o tempo rivalizaria com o da sua “antiga patroa”. Odette, para os seus “tea party” procurou um artista que o decorasse. O mais importante deles foi o escritor Bergotte. As pessoas que frequentavam o seu salão ficavam convencidas em pouco tempo de que ela, íntima de Bergotte, havia até mesmo colaborado nas suas obras e julgavam-na mil vezes mais inteligente que muitas das mulheres mais notáveis do faubourg Saint- Germain, o lado aristocrático.

Entretanto, pese toda a sua ascensão social, Odette de Swann, ex-Crecy, não escapava à memória sempre atenta e à língua afiada do senhor de Charlus. Afinal, fora ele quem a apresentara a Swann e a ele ela jamais conseguiria possuir “olhos azuis”. Um dos comentários interessantes feitos por Charlus para o Narrador foi: ”Eu estava com uns companheiros de clube e tínhamos voltado para casa com uma mulher e, embora o meu corpo só pedisse um bom sono, afirmaram as más línguas que eu dormira com a Odette. Ela aproveitou-se disso para andar me procurando e eu tratei de me descartar da amolação apresentando-a a Swann. Ela não sabia uma palavra de ortografia e era eu quem escrevia as cartas dela, e depois fui eu o encarregado de passear com ela”. Ainda confidencializa: “Ela sempre me obrigava a arranjar farras tremendas em comum com cinco a seis pessoas”.

Independentemente dos comentários de Charlus, houve apenas dois círculos de relacionamento que não se abriram à faceirice de Odette de Swann. Um deles o da própria família do Narrador; o outro, enquanto Swann ainda esteve vivo, o da mais alta aristocracia, a dos Guermantes.

Com relação à família do Narrador, a mãe de Marcel ainda não abrira mão de certos valores tradicionais, em função dos quais jamais permitiria que Swann a apresentasse à Odette, ou se fizesse por ela acompanhar em suas visitas. Em relação aos Guermantes, círculo no qual durante toda a vida Charles de Swann tentara introduzi-la assim como à filha Gilberte, ele somente será franqueado às duas mulheres após a sua morte. Os motivos?  Primeiro à posição social dintinguida pelo dinheiro recebido como herança, que, então, falará mais alto que as origens sociais. O outro motivo era o próprio esnobismo de Oriane de Guermantes, considerada por Swann sua melhor amiga e vice-versa e que perdera o sentido de existir, pois já que Swann estava morto, como esnobar a um amigo?

Odette viúva torna-se uma mulher riquíssima e, além do luxo a desfrutar, seu objetivo de vida é ser absorvida pela aristocracia. Seu antigo amante, o arruinado marquês de Forcheville, irá desposá-la. Complementando o quadro de ascensão social, um tio de Swann deixara uma enorme fortuna à filha Gilberte, tornando-a a mais rica herdeira da França. Ambas se tornaram excelentes partidos e, logo a seguir, viraram aristocratas por casamentos.

A Odete, o título e as relações aristocráticas custaram-lhe muito dinheiro. Forcheville se encarregou de dilapidar quase toda a sua fortuna. O passar do tempo encarregou-se de propiciar a deserção dos admiradores. Desejava todos os dias ter um novo colar, mas sua fortuna já era pequena e Forcheville devorava quase tudo. “Restava-lhe a filha, mas qual ascendente israelita governaria Gilberte nisso? – a filha era terrivelmente avara.”

Mas seu faro de caçadora de escol terminaria por encontrar um protetor. E ele seria nada mais nada menos, que o seu próprio genro, Robert de Saint-Loup que desposara Gilberte. Ela encarregou-se de suavizar as relações entre Robert e Gilberte, para que ele, seu genro, desfrutasse mais confortavelmente o sexo com um violinista, o seu amante querido. Deste modo, uma joia sempre lhe seria ofertada. “Assim, Odette entrara no período da castidade final por volta dos 50 anos e nunca fora tão elegante.”

O tempo passa. Quando Marcel retorna após quinze anos de ausência social, a aparência de Odette era uma exceção em todo o grupo de seus conhecidos; se não a reconhecera de imediato é porque não envelhecera. Marcel a reencontra bela e, além disso, tornara-se infinitamente simpática, o que não era no passado, pois as marcas que o tempo nos traz não ocorrem igualmente e na mesma velocidade para todas as pessoas.

Por uma dessas ironias da vida, apesar da beleza, Odette era agora traída pelo universo inteiro; e tornara-se tão débil que, trocando-se os papéis, já não ousava defender-se contra os homens. Ela, de repente, voltou a reencarnar a “dama cor- de-rosa” aos olhos do Narrador, quando para sua enorme surpresa lhe faz uma confissão: “No fim passei uma vida muito solitária, enclausurada, pois só tive grandes amores por homens incrivelmente ciumentos. Não falo de Forcheville, pois na realidade era um sujeito medíocre e eu nunca pude amar de fato senão homens inteligentes. No caso de Swann eu me privava de tudo por amá-lo loucamente. Pobre Charles, ele era tão inteligente, tão sedutor, exatamente o tipo de quem eu gostava.” Estaria sendo sincera?  Se sim, ela teria passado a amar Swann justamente quando ele descobrira que Odette “nem era seu tipo”, não a amava mais e possuía uma amante. Contraditório? E o que não o é na vida e no amor?

Falemos um pouco mais de Charles de Swann. Ele tinha um gosto refinado pelos prazeres da vida. Ao sair, ele sempre escolhia uma flor para guarnecer-lhe a botoeira, adequada a cada ocasião, aliás, um costume do jovem Proust. Swann pensava na admiração das pessoas com a moda, para a qual ele era a palavra suprema. Neste homem ainda se aliava uma personalidade muito sensível à arte. Mas essa sensibilidade, entretanto, não lhe conferiu uma atitude criativa, e ele não se tornou um artista. Sua personalidade sensível, voltada para a arte e para os valores do espírito experimenta uma profunda transformação, quando permite que lhe enfraqueçam as crenças intelectuais que trazia de família, o que ocorre ao ser absorvido pelos valores da aristocracia mundana.

Essa absorção é, no entanto, gradual e não ocorre sem algum sofrimento. Ele começa por pensar que os objetos de nossos gostos não têm em si um valor absoluto, mas que tudo é uma questão de época, de classe, consistindo em modas, e que as mais vulgares valem tanto quanto as que passam por serem as mais distintas. Ele e a princesa de Guermantes terminam por possuir uma analogia bem grande no modo de se expressar e até na maneira de pronunciar as palavras. Apesar de que, quanto às coisas importantes, Swann e a princesa não concordassem sobre quase nada, ele buscava não explicitar essas divergências; é o que acontece, por exemplo, no caso Dreyfus, em que Swann, que no íntimo era contra a punição imposta ao oficial judeu, mas se negou a apoiá-lo publicamente, por receio de romper com os conceitos antissemitas da aristocracia.

Voltemos ao caso de amor de Swann com Odette. Ele a conhece por meio de Charlus finge para ele mesmo nada saber de seu passado de coquete e de mulher mantida, não se importa com o seu semi-analfabetismo tão contrastante com o seu próprio nível cultural, e, finalmente, como confessará posteriormente, “nem seu tipo físico ela fazia”. Entretanto ao compará-la à “Séfora” de Boticelli ele começa a se interessar e termina por se apaixonar por uma imagem que o pintor renascentista lhe trazia à mente, ou seja, apaixona-se por uma ilusão estética.

Existiu um segundo fator que também influenciou Swann e tornou-o um apaixonado. Swann sentia a vida vazia e necessitava preenchê-la de alguma forma. A sonata do desconhecido Vinteuil, ao ser apresentada num sarau, produzira-lhe volúpias especiais que nunca imaginara antes ter sentido. Era uma determinada frase ou a harmonia, que a repetir lhe abria a alma mais largamente. Por baixo da linha melódica do violino, tênue, resistente, densa e dominadora, “eleva-se como um marulho líquido, a massa da parte do piano, que o luar encanta e bemoliza”. “A Sonata faz com que seu amor por Odette se amplie, atuando como um fermento em sua busca de um objetivo ideal, de tal forma que ele transformará aquela música no hino nacional de seu amor.” 

Charles Swann nem ao menos tentava fazer com que Odette reduzisse sua vulgaridade, mudasse seu conceito do chique, que era nela um símbolo do mau gosto; por estar atravessando um período de mudança de valores, e pensando que o seu conhecimento não era o mais verdadeiro, que poderia ser tão imbecil quanto o dela, pois desprovido de importância, não sentia nenhum interesse em instruir a amante. Sabia também, perfeitamente, que se ela era esperta, não era inteligente. O que Swann procura fazer era com que ela se sentisse agradavelmente em sua companhia, sem contrariar as suas ideias vulgares e o seu mau gosto.

Houve mesmo um momento em que ele percebera que para muitos homens Odette parecia uma mulher encantadora e desejável. Então até mesmo o encanto de seu corpo lhe despertou a necessidade dolorosa de admirá-lo inteiramente nas partes mais íntimas de seu coração. Assim como as orquídeas haviam sido as flores do desejo, o crisântemo, que no princípio da relação Odette lhe atirara, transforma-se no símbolo do amor doloroso. As catléias se foram, mas o crisântemo murcho, Charles o guarda na sua escrivaninha. “Que ela frequentasse cafetinas, se entregasse a orgias com mulheres, levasse a vida crapulosa das criaturas abjetas”. O que lhe importava? Com esta flor, sua “prisioneira”, Swann preenche o vazio de seu amor traído.

Swann viveu permanentemente preso ao ciúme, enquanto Odette saía com quem melhor lhe aprouvesse, e sempre a mentir-lhe mesmo correndo o risco de poder ser quase sempre desmentida por uma ou outra evidência. Mas o tempo começou o seu trabalho curativo e justamente quando Swann conseguiu desprender-se de Odette, ela engravida e ao dar-lhe uma filha, ao mesmo tempo lhe propicia um novo motivo para preencher o vazio de sua existência. Casou-se.

Mas uma pergunta permanece sem resposta: por que ele só se casou depois que deixou de amá-la, quando já estava morto aquele ser que ele tinha dentro de si e que tanto desejara?  “É... às vezes, o autor de aspectos de nossa vida é alguém muito inferior a cada um de nós, é a criatura mais medíocre, mas foi aquela que o acaso nos colocou no caminho, determinando dessa maneira a vida que temos levado, excluindo mesmo as criaturas que, quem pode saber, em seu lugar poderíamos ter tido.”

Após o casamento, Odette e Charles tornam-se bons pais para Gilberte, constituindo uma típica família burguesa rica; Swann com uma amante e Odette com os seus. Entretanto, nenhum deles possuía o ciúme a atormentá-los e Swann pode, em família, viver um período de tranquilidade. É neste momento da vida harmoniosa do casal que Marcel, encantado com Odette e “apaixonado” por Gilberte, passa a frequentá-los.

O momento do declínio de Swann coincide com o da ascensão de Odette. Ele sofria da “constipação dos profetas”, herdada de seus ancestrais judeus; sua face se abate, seu rosto é coberto de “pontinhos azul de Prússia”, augúrios de que em breve ele já não pertenceria ao mundo dos vivos. Seu nariz de Polichinelo, por muito tempo absorvido em um rosto agradável, parecia agora enorme, tumefato, avermelhado, antes de tudo o nariz de um velho hebreu. Aliás, talvez que nele, a raça, naqueles derradeiros dias, fizesse transparecer mais o tipo físico que a caracteriza; de alguma forma o obrigava a uma solidariedade moral para com os outros judeus, solidariedade que Swann parecia haver se esquecido durante toda a vida.

Swann era uma personalidade artística e intelectual notável; e, embora nada tivesse “produzido”, “que mesmo jamais se livrara do remorso de ter limitado sua vida às relações mundanas e às conversas”, teve, contudo, a sorte de durar um pouco mais. E aquele Charles Swann, conhecido por Marcel já tão perto do túmulo, nosso Narrador “fará dele um herói de um romance e com isso, talvez, Swann sobreviva, numa outra dimensão, que é a da obra-de-arte.”

O primeiro amor de Marcel foi Gilberte de Swann. Tudo começa com a misteriosa menina a brincar pelos jardins de Swann, em Combray. Marcel cresce e será em Paris, nos Champs- Elisées, que ele voltará a encontrar a moça, na adolescência. O encontro de Marcel com a ruiva, jogadora de peteca, permite que ele estabeleça a possibilidade de aproximação com Odette, por quem ficara “caído” desde a visita à casa de tio Alphonse, assim como aproximação com Sr. Swann, que era considerado quase como um herói por ele. Marcel que nesta época buscava ser introduzido na alta roda social sabia que Charles Swann seria um ótimo trampolim. Ele, que para seu desgosto, desde o “casamento desigual” com Odette não mais fora recebido na casa de seus familiares. A ligação teria que ser via Gilberte, por quem Marcel termina por julgar-se apaixonado.

Enquanto o Narrador sentia ferver em seu peito um encanto juvenil pela ruiva, a transposição da necessidade de carinho e absorção, o interesse que Gilberte deixava transparecer por Marcel era simplesmente de amizade na interpretação do Narrador; isso, entretanto, não impedia que se divertissem juntos e que se tornassem muito íntimos. O Narrador, por sua vez, possuía um duplo sentimento de paixão. Acreditava sinceramente estar amando Gilberte, mas, enquanto se divertia, nos diversos folguedos junto às jovens que a cercavam, em seu íntimo era a Sra. Swann que ele sempre gostaria de rever, e esperava que ela por ele passasse nas alamedas e boulevares; entretanto, emocionava-se como se tratasse de ver Gilberte, cujos pais, impregnados do encanto com tudo o que a rodeava, excitavam no Narrador o seu amor.  Na verdade, Marcel projeta o seu interesse por Odette, inconscientemente, na filha.

Marcel descreve Gilberte como ruiva. Tempos depois, ele se dá conta de que certos detalhes fisionômicos da amiga, tal como produzidos por um clarão azul, tornavam-na loira. E conclui que se ela não tivesse olhos tão negros- o que chocava tanto quem a via pela primeira vez- talvez ele não tivesse se apaixonado. O ponto é que existiam pelo menos duas Gilbertes. “As duas naturezas, a do pai e a da mãe, não se limitavam a misturar-se nela; na verdade, disputavam-na, e faria supor que uma terceira Gilberte sofria nesse tempo por ser presa das outras duas.” “Ora, Gilberte era alternativamente uma e outra, e, em cada ocasião, apenas uma, e, portanto, incapaz quando era má, de sofrer por isso, pois a melhor Gilberte não podia então verificar o quanto a primeira era decaída, pelo fato de estar momentaneamente ausente.” Assim, a menos nobre das duas estava livre para desfrutar os prazeres pouco nobres. “Quando, então, a outra falava com o coração do pai, tinha vistas largas, sentíamos a sua vontade de construir um empreendimento benéfico, mas no momento em que se iria chegar a um acordo, o coração da mãe já retomara o seu lugar e era ele quem respondia.”

Marcel consegue tornar-se presença constante em todas as recepções que Gilberte oferece a seus amigos. Posteriormente, ele logra transformar-se numa pessoa da intimidade do casal Swann, opinando até mesmo a respeito do vestuário que Odette usaria em seus passeios em família. O ciúme, que já transparece no jovem Narrador, ditará a necessidade de estar sempre presente a cada passo de Gilberte; isso forçará que no decorrer do tempo ela deixe de sentir prazer na sua companhia.

Após muito querer Gilberte, Marcel ao vê-la caminhar animadamente, com os braços dados com outro rapaz, que, na verdade descobrirá mais tarde, tratar-se de uma mulher, da artista Léa, vesuviana travestida de homem, iniciará o processo de distanciamento e de esquecimento. Mas essa separação não afasta o Narrador da convivência com os Swann, pois Marcel gastará fortunas enviando, diariamente, buquês de orquídeas a Odette, a ponto de ouvi-la dizer que seus pais deveriam colocar um “curador” para cuidar de seus gastos.

Existem dois momentos que, como arcos botantes de uma catedral, unirão o presente ao futuro, o interno ao externo. O primeiro é que Gilberte tenha sido a primeira pessoa a falar ao Narrador a respeito de uma menina, colega de escola, chamada Albertine. Já o segundo, trata-se de um bilhete que Marcel recebe assinado por Gilberte, dona de uma caligrafia rebuscada, em que o “G” e o “i” se fecham e o corte do “t” é solto. O Narrador tem dificuldade em identificar a assinatura e lê um “A”. Quando em Veneza, num longínquo futuro, recebe uma carta de Gilberte anunciando o seu iminente casamento, a carta será interpretada por Marcel como vinda de Albertine, a qual havia falecido.

Swann tinha um amor extremado por Gilberte, no que ele se julgava mais que recompensado pelos carinhos da filha. Quando em determinado momento, a conversação transcorre a respeito da filha de Vinteuil, Gilberte faz questão de dizer que jamais admitiria conhecê-la, pois soubera que ela fizera muito mal ao próprio pai, “Pois como se pode esquecer quem se amou desde sempre?”. Ora, ela mesma reproduzirá, sob outro formato, o desprezo da filha de Ventuil pelo pai, após a morte de Swann. Quando o pai morreu, Gilberte transformou-se em uma herdeira riquíssima. Suas juras de amor pelo pai defunto não resistem por muito tempo à ânsia de ascensão social. Após a mãe casar-se com um antigo amante e fidalgo arruinado Forcheville, Gilberte também atinge rapidamente a posição em que sempre desejara estar: dentro da aristocracia! Gilberte envergonha-se de sua origem judaica e tenta, primeiramente, dar ao próprio sobrenome a corruptela germânica: Swan, com apenas um “n”. Percebe que a emenda iria sair-lhe pior do que o soneto na sociedade parisiense; depois, ao transformar-se em Forcheville, graças à mãe, nem mesmo permitiu que o nome do falecido pai fosse pronunciado em sua presença.

Gilberte tornar-se-á uma Guermantes graças ao casamento com Robert de Saint- Loup. Tempos após, a amizade entre Marcel e Gilberte é refeita, e permanece durante o casamento dela com Saint-Loup, e mesmo após a morte deste em combate na guerra. Então, Gilberte e o Narrador retomarão seus longos passeios pelos arredores de Combray; ele confessará o quanto a havia amado no passado e para sua enorme surpresa descobre que o sentimento fora mútuo, que Gilberte também o amara e que desejara ter tido relações sexuais com ele. Tanto sofrimento, ansiedade e amargura que poderiam ser poupados caso ele fosse mais perspicaz.

Os Verdurins e seus convivas

O casal Verdurin é a personificação mais acabada da burguesia parasitária, que vive de rendas, despida de quaisquer valores tradicionais, que organiza sua vida em torno do seu salão de recepções. A avó do Narrador descreve o Sr. Verdurin como um homem insignificante, beberrão, mas fabulosamente rico. Já no rosto estreito e proeminente da senhora Verdurin, Marcel lê um coração empedernido.

Os Verdurins não tinham preocupação alguma com o que quisesse dizer moral ou ética. O que lhes importava era a manutenção de seu círculo de confrades, em que o marido e a mulher reinavam da forma mais despótica possível. Somente mantinham suas relações enquanto tinham interesse na distração ou na distinção que determinado frequentador lhes oferecesse. Era nesse sentido que a Sra. Verdurin dizia a todos que frequentavam seu salão que ela, como a imperatriz romana, era o único general a quem sua legião deveria obedecer. Marcel relata que os Verdurins não ficavam escandalizados se uma mulher tivesse um ou mais amantes, mas só o permitiriam que ela os tivesse na casa deles, amasse-os por meio deles, e nunca os preferissem a eles.

Centraremos nossa análise na figura atemporal da Sra. Verdurin. “Para evitar novos “deslocamentos de mandíbula”, o que ocorrera devido a suas vulgares gargalhadas, ela apenas dava risinhos e fechava completamente os olhos de pássaro que uma catarata começava a cegar.” No mesmo jantar em que esse fato é relatado por um narrador onisciente, Forcheville comenta que ela “não deveria ter sido feia”, mas que “começava a virar uma pipa”. Acontece que esses acontecimentos teriam ocorrido antes do nascimento do Narrador; na sua atemporariedade, a Sra. Verdurin estará presente e firme até o último encontro com o Marcel no palácio dos Guermantes, pelo menos quarenta anos após esse jantar. A Sra. Verdurin possui o tempo do “Tempo Relembrado”. Frise-se ainda que antes mesmo do Narrador existir, ela possuía relações sociais com o pai de seu avô, do qual se recordava por sua avareza hebréia.

Deixando ao largo esta onipresença, ela não adquirira os conhecimentos e menos ainda a sensibilidade que o marido possuía sobre a pintura e a arte; em determinado momento da narrativa, tem suas “têmporas transformadas em duas esferas incandescentes”, provavelmente sob a ação de inúmeras nevralgias que a música de Bach, de Wagner e de Debussy lhe provocavam. A sátira, assim como a vulgaridade, é evidente neste relato. O seu propalado “bom gosto” musical é apenas um adorno e uma mentira de esnobe. Marcel chega a flagrá-la diversas vezes com a cabeça debruçada e os olhos fechados durante exibições musicais. Concentração, torpor, ou, o mais provável, o sono.

A senhora Verdurin, como a maioria dos burgueses excluídos dos salões aristocráticos, a eles se referiam como compostos por pessoas maçantes e insuportáveis. É claro que esse julgamento nada mais era que despeito e que nenhum deles desperdiçaria qualquer oportunidade para adentrar no pouco permeável mundo da aristocracia. O primeiro passo dado pela Sra. Verdurin consistiu em atrair um Guermantes para o seu salão, no caso, o Sr. de Charlus. Ele permite que seu relacionamento seja usado para atrair um grupo de aristocratas a uma recepção em sua residência. Organiza-se o encontro, sob a coordenação do barão. Mas ele ainda se acreditava um todo poderoso, pois não percebera que o mando já havia mudado de mãos, que se transformara de principal ator num coadjuvante social e esse encontro estava determinado a ser, para Charlus, uma verdadeira tragédia. A festa em si foi um fracasso para os seus objetivos e a Sra. Verdurin teria que ainda esperar um pouco mais até possuir o seu salão aristocrático.

O Narrador, tendo estado anos afastado do convívio social, quando de seu retorno à sociedade, soube com surpresa que Marie Gilbert, a lindíssima princesa de Guermantes, havia morrido e que seu marido, o príncipe Gilbert, velho e falido graças à guerra, casara-se com a viúva Verdurin, que, assim, transformara-se em uma nova e “enorme” princesa de Guermantes, justamente ela, que nada em comum possuía com aquela que, em vida, tanto seduzira a Marcel por sua delicadeza e refinamento. “Como a sucessão ao nome é triste, aliás, como todas as sucessões, como todas as usurpações da propriedade! De tal modo que sempre, sem cessar, surgiriam à maneira de vagas, novas princesas de Guermantes, que por sua vez seriam substituídas a cada geração por uma mulher diferente, a quem, depois de morta se despojaria da identidade e de todos os seus bens; e quem hoje os desfrutava era uma pessoa muito inferior à Marie Gilbert, morta.”

Legrandin

Legrandin é um excelente exemplar do burguês mais tradicional, que exerce uma profissão de alto mérito, que apesar disso mal dissimula a vontade de penetrar no mundanismo da aristocracia, mesmo que fosse utilizando, como cobertura, o ardil de suas palavras anti-aristocráticas. Pois, finalmente, quando conseguir ser recebido pela alta sociedade, suas antigas opiniões mudarão radicalmente, como da noite para o dia.

O Narrador trava conhecimento com Legrandin ainda em sua adolescência, em Combray e, naquela época, entusiasma-se por sua distinção e brilhantismo, o que era compartilhado por todos os seus familiares. O senhor Legrandin era um destes homens que, além de uma carreira científica na qual, aliás, conseguiu êxito brilhante, possuía uma cultura bem diferente, literária, artística, que profissionalmente não a utiliza, mas que faz valer durante uma conversação. Mais letrado que muitos escritores, ele julgava que a vida que levava não era a que lhe convinha, o que lhe traz uma despreocupação recheada por certo desprezo e amargura.     

Vale lembrar que ele foi a primeira pessoa a encantar o Narrador com as maravilhas de Balbec e depois de o haver convencido a conhecê-las, negou-se por puro pedantismo, a enviar alguma recomendação à irmã, casada com um fidalgo da Normandia, para não comprometer-se apresentando “uma pessoa inferior”.

Apenas a avó de Marcel, ao contrário dos outros familiares, jamais se fiara inteiramente no seu caráter. Censurava-lhe o falar bem demais, um pouco como um livro, de não empregar uma linguagem natural, assim como se espantava também com suas tiradas contra a aristocracia, a vida mundana e o esnobismo.

Legrandin enquadra-se em um conjunto onde estão a família do Narrador, ele próprio e Swann simbolizando em diferentes graus, valores da antiga burguesia. Swann e Legrandin realizam a transição entre os valores antigos e os modernos, mas de maneira diversa. De certa forma, Swann ainda manterá um pé no passado. Já Legrandin, assim que consegue estar junto aos aristocratas, despe-se radicalmente da vestimenta com que exibia os seus “antigos” valores.

Esse mesmo Legrandin, o “intelectual humanista”, será aquele que se arrojará aos pés da primeira aristocrata que lhe dê chance de fazê-lo, pois toda sua postura anti-aristocrata era apenas uma máscara, sob a qual se escondia outra, a verdadeira face, feita de despeito e inveja. Isto transparece para o Narrador ao encontrá-lo casualmente no salão da Sra. de Villaparisis, tia dos duques de Guermantes: encontra um Legrandin subserviente. E conclui que o Legrandin que conhecera em Combray, não precisaria lembrar tão amiúde que pertencia a outro mundo, quando todos os seus movimentos compulsivos de cólera ou de amabilidade eram governados unicamente pelo desejo de obter uma boa posição social neste, o aristocrático.

No futuro, inclusive, Legrandin forjará para si mesmo um título falso, o de conde de Méséglise, que a aristocracia houve por bem não contestar. O seu nome transformar-se-á em “Le Grandin de Méséglise”.

A imagem que o Narrador adolescente fazia do engenheiro era de um homem alto, de bonito porte, bigodes finos e louros, olhos azuis. Quando, entretanto, após algum tempo, volta a encontrá-lo, “nota que jamais supusera que as ancas de Lengrandin fossem tão carnudas”, o que despertou no mesmo a possibilidade de uma pessoa inteiramente diferente do que conhecera. “Talvez os olhos azuis espelhassem unicamente a frieza daquela pessoa, e as ancas um indício de que Legrandin fosse sexualmente um invertido...”

A inversão sexual de Legrandin também é outro fator que o diferencia de Swann. Ainda mais tarde, Marcel contemplará a transformação operada pelo Tempo naquele esnobe livresco e arrivista. A supressão do tom róseo das faces, os lábios adelgaçados e descoloridos conferiam-lhe, naquele então, uma aparência acinzentada e a precisão escultural da pedra, cinzelando as feições compridas e tristonhas à maneira de certos deuses egípcios. Deuses? Antes fantasmas.

Elstir

Praticamente tudo o que Marcel sabia sobre o artista Elstir lhe fora revelado por Swann. Em um restaurante em Balbec ele trava relações com o artista, um homem de elevada estatura, robusto, traços regulares, barba grisalha, olhar pensativo e fixo, que convida o Narrador a visitá-lo, pois residia em seu próprio estúdio, nos arredores da cidadezinha. Elstir, desde que rompera com o mundanismo dos Verdurins para dedicar-se à arte, vivia no isolamento com sua mulher, num comportamento que a sociedade alcunhava de má educação, de loucura, de egoísmo ou de orgulho.

Na história composta pela memória do Narrador, diversos artistas, pintores e, sem dúvida, o próprio Proust formataram o personagem social “Elstir”. Ele que a princípio associara a solidão ao prazer de criar e de dar um valor mais alto para si mesmo; no entanto, a prática da solidão lhe trouxera o amor pela mesma. 

O Narrador deslumbra-se ao penetrar na simplicidade do ateliê do artista. É penetrado pela sensação de estar em um laboratório onde uma nova espécie de mundo era gerado a cada pincelada. “Do caos, em que se situam todas as coisas que vemos, Elstir havia tirado seus elementos, pintando-os sobre diversos retângulos de tela que se achavam colocados em todos os sentidos: aqui uma vaga colérica batendo contra a areia a sua espuma lilás, acolá um jovem de linho branco, apoiado no convés de um barco. O casaco do jovem e a vaga espumante tinham adquirido uma dignidade nova pelo fato de que continuavam a existir embora já não fossem aquilo em que aparentemente consistiam, visto que a vaga não poderia molhar, nem o casaco vestir ninguém. Podia-se distinguir que o encanto de cada marinha consistia em uma espécie de metamorfose das coisas representadas, análoga à que, em poesia se chama metáfora e que se Deus pai havia criado as coisas nomeando-as, era tirando-lhes o nome ou dando-lhes outro, que Elstir as recriava.”

“O esforço que fazia Elstir por despojar-se, em presença da realidade, de todas as noções de inteligência era tanto mais admirável porque este homem - que antes de pintar tornara-se ignorante e somente esquecia-se de tudo por probidade, pois o que se sabe veio até nós de fora, não é da gente - possuía uma inteligência especialmente cultivada.” “Ele sabia que um artista não tem a necessidade de expressar seu pensamento em sua obra para que ela lhe reflita a qualidade; pode-se até dizer que o louvor mais alto de Deus está na negação do ateu, que acha a criação perfeita o bastante para prescindir de um criador.”      

Os Guermantes

A família Guermantes simboliza a vertente mais importante da antiga aristocracia. Tal qual uma velha árvore, ela estende a portentosa fronde por todos os tempos do passado e do presente; e possuindo ramos em que se abrigam marqueses, duques, príncipes, barões, dos mais diversos nomes. Destacaremos apenas as personagens de maior importância no enredo: os duques de Guermantes (o casal de primos Basin e Oriane); o marquês de Saint-Loup, seu sobrinho; os príncipes de Guermantes (Marie e Gilbert), primos dos duques; o barão de Charlus, irmão de Basin de Guermantes, e, finalmente, a velha marquesa de Villeparisis, tia de todos eles.

Os duques de Guermantes

Os duques de Guermantes possuíam o salão mais refinado e exclusivista de toda aristocracia. Poucos eram os privilegiados mundanos que tinham acento a uma das poltronas da sala de jantar do casal. Amigos íntimos de Swann, graças a seus dotes intelectuais e a sua postura mundana, essa amizade será aos poucos substituída por mais um burguês culto, o próprio Narrador, que, como Charles Swann, tudo fizera para vivenciar esse ambiente mundano.

A segunda paixão platônica de Marcel foi a duquesa Oriane de Guermantes; todos os seus traços são cuidadosamente elaborados a formatar, neste período, um perfil de nobreza, refinamento e inteligência, numa mulher de deslumbrante beleza, com seus cabelos loiros e abundantes, toalete delicada e de extremo bom gosto; os olhos azuis, o nariz altivo, que, posteriormente, ganhará o formato de “bico de falcão”. Seus olhos penetrantes, que não eram exclusivos de Oriane, mas característicos de todos os Guermantes, pareciam ser o toque que preservavam uma raça tão particular no mundo. ““ Talvez conservassem uma glória divinamente ornitológica”, quem sabe surgida nos tempos mitológicos da união de uma deusa com um pássaro.” Em Paris, quando passa a residir com seus pais numa ala do Palácio dos Guermantes, Marcel se postava apaixonado pelos caminhos em que a duquesa saía a passear e para ele o que desfilava era todo um poema de elegância, o mais requintado adereço, a mais preciosa flor do bom tempo.

Acontece que o seu amor não se ligava àquelas partes mutantes de carne e de tecido que podiam se modificar e renovar quase que inteiramente. O que ele amava em Oriane era a pessoa invisível que punha em movimento todo um mundo, cuja aproximação o perturbava, mas cuja vida desejaria captar e dela até mesmo expulsar todos os seus amigos. Será no salão da Sra. de Villeparis que o Narrador começará a tão ansiada aproximação com Oriane; e ao conhecê-la ele se dá conta de que já não se encontra mais por ela apaixonado. Inclusive, o convite recebido para jantar no palácio dos duques de Guermantes pareceu-lhe como “empreender uma viagem há tanto tempo desejada, que se assemelhava mais a um sonho que à realidade, mas sem o que a beleza onírica lhe emprestara.”

A partir da participação nesse primeiro encontro social com os Guermantes, que “Em Busca do Tempo Perdido” ocupa pelo menos cem páginas, que todo um castelo de cartas construído ao longo dos anos começa a desfazer-se. Marcel admitido no meio tanto ansiado começa dar-se conta do formalismo vazio do mesmo, da comédia da polidez, da ilusão da bondade, da desonestidade intrínseca e disfarçada em bons modos. O Narrador compreende que a grandeza de alma não era nada mais que uma forma de disfarce do esnobismo, e que a simplicidade escondia um orgulho supremo; finalmente percebe que a tão decantada inteligência aristocrática superior era somente sofrível. Enfim, todos os “altos atributos” da sociedade eram máscaras, tais quais as utilizadas em teatro, no teatro da própria vida.

O primeiro jantar com os Guermantes é descrito como se fosse um teatro de marionetes habilmente montado, em que, a um sinal do duque, toda uma engrenagem engenhosa, opulenta, uma verdadeira relojoaria mecânica e humana se punha em ação. As máscaras sociais da aristocracia começam a ser exibidas em seu próprio meio e Marcel se sente, por um lado, privilegiado, pois ali se encontrava como um “adorno” social, e, por outro, deslocado em um meio ao qual tanto sonhara alcançar, mas que, gradualmente, principia por decepcioná-lo.

Ele se confrontará com uma Oriane cuja dureza mescla-se à amabilidade formal, resultando em uma pessoa, na essência, tão sem princípios morais quanto seu marido, o brutal Basin. Então, assomam ao espírito do Narrador ”os olhos à flor do rosto” que Oriane possuía, denotando uma inteligência limitada, o enrubescimento das faces, como reflexos de certa vulgaridade e o inigualável brilho dos olhos azuis, agora, representando uma frieza de caráter. 

Mas como toda personagem do enredo, Oriane de Guermantes possuía também outras facetas. O gênero de espírito da duquesa se nada tinha em comum com uma elevada inteligência, era pelo menos hábil em utilizar diferentes formas de sintaxe. Traduzindo melhor, expressava-se no bom francês com o sotaque do interior que a aristocracia prezava em manter e que tão bem soava aos ouvidos do Narrador.

A verdade é que Oriane tinha passado a juventude num ambiente um pouco diverso que o da maior parte de seus parentes, menos fútil e mais rico culturalmente que o daquele em que hoje vivia. “Nela ainda se poderia notar a graça francesa pura, que praticamente não se encontra mais nem na fala e tão pouco na literatura.” O vocabulário que sempre encantou o Narrador, assim como um modo de expressão na velha linguagem, na verdadeira pronúncia das palavras, Marcel somente encontrava nas conversas com Oriane ou com sua empregada vinda do campo, Françoise. Mas a duquesa, diferentemente daquela que possuía a pureza da simplicidade, colocava certa afetação ao mostrá-lo.

Oriane, não colocava “a inteligência acima de tudo”, mas, sim, o “espírito” como sua forma superior, pois segundo ela, “forma mais rara, mais requintada da inteligência, que chega a ser uma variedade real de talento”. O espírito nada mais é, entretanto, que a inteligência domesticada, polida, inteligência e cultura de ostentação, despida de toda originalidade e profundidade. A cultura para ser exibida nos salões.

Suas relações com os homens, como que estragadas pela nulidade da vida mundana, eram instáveis demais para que, nela, a repulsa não se sucedesse bem rápido ao entusiasmo, e para que o encanto que achara em um homem generoso não mudasse rapidamente se ele a frequentasse bastante. E as variações de julgamento da duquesa em relação ao sexo oposto não poupavam ninguém, exceto o próprio marido. Somente que esse, ao contrário de outros homens que a haviam amado, não a tinha amado jamais. Nele ela sentira sempre um caráter de ferro, indiferente aos caprichos que ela pudesse ter, desdenhoso de sua beleza, violento, de uma vontade que jamais se dobrava. Se também sob o aspecto sexual ele poderia ser considerado um mau marido devido a suas amantes, ele era seu comparsa a toda a prova no fundamental, no funcionamento de seu salão, na formalidade social.

Para Basin de Guermantes os escrúpulos de consciência, o domínio das afeições e da moralidade eram simples questões de formalidade. Extraordinariamente rico, num mundo em que as pessoas o são cada vez menos, assimilara à sua pessoa a noção dessa grande fortuna e, portanto, a vaidade do grande-senhor era nele duplicada pela do homem endinheirado. Heterossexual, encarnava uma exceção na família, feita de homens voltados ao homossexualismo, ou que mantendo a preferência por homens, buscavam algum prazer e se casavam com mulheres. Tão logo deixava uma mulher retornava à Oriane, sua esposa, sua companhia duradoura, que ele sabia que toda a sociedade considerava a mais bela, a mais virtuosa, a mais inteligente e a mais instruída da aristocracia. E, invariavelmente, as aventuras sexuais de Basin terminavam no colo de Oriane, dado que a duquesa não opusera resistência a que as amantes que ele fazia penetrassem em sua casa; sabia que em mais de uma encontraria uma aliada, graças a qual obteria mil coisas que desejara e que o Sr. de Guermantes se recusaria implacavelmente a dar-lhe, se não estivesse apaixonado por outra.              

Se por um lado, a devassidão de Basin de Guermantes era evidente, Marcel, por muito tempo, acreditou na pureza de Oriane, como um contraponto à libertinagem do marido. Mas a realidade se encarregaria de mais uma vez decepcioná-lo e isso ocorreu pela língua do cunhado de Basin, o Sr. de Charlus, um amante e conhecedor de todos os mexericos e aventuras, que afirmava que a vida sexual de Oriane era composta por um número incalculável de aventuras, só que, ao contrário do marido, eram todas elas habilmente dissimuladas.

Novamente levemos em conta o passar do tempo que a tudo corrói. Anos após, quando Marcel retorna da clínica de tratamento, descobre que todo o brilho do salão dos duques de Guermantes tinha se esvaído. Marcel encontra uma Oriane mais velha, porém ainda atraente, mas a quem as novas gerações devotavam pouco valor. Para sua sorte ela sentira, ao final da vida, o despertar de novas curiosidades, quando a sociedade nada mais tinha a lhe oferecer. Ela havia se tornado amiga de atores e de atrizes, como que realizando uma inversão de papéis com a Sra. Verdurin. De tal modo que, desconhecida dos jovens, seus contatos com políticos e artistas faziam que lhe dessem ainda algum valor social.

“Já o velho duque era assaltado por ondas de dor, revoltando-se com a ameaçadora morte; seu rosto, corroído como um bloco de pedra, ainda conservava o estilo, o garbo que Marcel sempre lhe admirara; estava, no entanto, carcomido como uma dessas belas cabeças antigas por demais arruinadas.” Tornara-se amante de Odette e, praticamente, já não mais procurava Oriane. Odette aproveitava do seu dinheiro, o que não a impedia de estar sempre voltada para admiradores mais jovens. Pois ao mesmo tempo em que ela o enganava, também dele cuidava, sem charme, nem grandeza. “Odette era medíocre nesse papel, aliás, como em todos os demais. Não que a vida lhe houvesse negado alguns excelentes, mas ela não soubera representá-los.”

Robert de Saint-Loup e seus amores

Robert de Saint-Loup, filho da influente viscondessa de Marsantes, pertence à fina flor da aristocracia, foi o maior amigo de Marcel; ele o descreve como alto, de uma magreza atlética, fino de pescoço, cabeça orgulhosamente lançada para trás, olhar penetrante da cor do mar, pele dourada e um cabelo tão loiro como se houvesse absorvido todo o ouro do sol. Surpreso ficou o Narrador ao saber que o jovem aristocrata, vestido como quem faz a moda, com ares de extremo esnobismo, era muito lido destoando nisso de seus parentes, com exceção de seu tio, o barão de Charlus.  

Aquele jovem marquês de Saint-Loup, quando entra em relações com Marcel, com seu aspecto de aristocrata e esportista desdenhoso, não sentia curiosidade nem estima senão pelas coisas da inteligência, especialmente, pelas manifestações modernistas da literatura e da arte; de resto, estava imbuído do que sua tia chamava de declamações socialistas. A verdade é que, possuído de grande desprezo pela casta, passava horas inteiras estudando Nietzsche ou Proudhon. No entanto, se julgava todas as coisas pelo peso da inteligência que contêm, ele não possuía grande capacidade imaginativa, não percebia encantos propiciados pela imaginação que encerram tantas coisas que ele julgava frívolas. “Saint-Loup era de uma sinceridade e desinteresse absolutos; possuía grande pureza moral, que não podia satisfazer-se inteiramente com um sentimento egoísta como o amor; não se via na impossibilidade de encontrar um alimento espiritual fora de si, e isto era o que o tornava tão capaz da amizade.”

Na época da grande amizade entre eles, o marquês estava apaixonado por Raquel, uma moça morena de olhos escuros, que já fora oferecida a Marcel em um prostíbulo.  É interessante o momento em que se deu esse conhecimento, pois era a primeira vez que o Narrador frequentava um rendez-vous onde ele, em sua imaginação, esperava encontrar uma reprodução fantástica das lindas odaliscas de Moreau, com suas pérolas, flores, serpentes a tornearem pernas nuas; encontrará apenas pobres moças despidas ou semi-despidas a oferecerem-se por ninharia. A alcoviteira, vendo-lhe certo desinteresse, oferece-lhe o que seria a cereja da casa, alguém que deveria ser “tremenda”: uma judia! Essa judia morena, com ar inteligente, magra, face alongada, apelidada pelo Narrador de “Raquel quando do senhor”, viria a ser a amante de Robert. 

Raquel era uma atriz iniciante, que se mantinha com o dinheiro que obtinha da prostituição; isso até deparar-se com o “deus acaso” que a jogara ao encontro de Robert. O “deus” se manifestara durante uma apresentação teatral, quando a atriz encarnava uma de suas “personnas”; nesse momento, as faces de Raquel erguiam-se como um crescente lunar, com um nariz tão fino, tão puro, que Robert desejou tornar-se objeto de sua atenção e possuí-la junto a si.

Em troca dos míseros francos que Raquel obtinha no bordel, Robert lhe fornecia quantias mil vezes maiores, sob forma de presentes e mesadas. O amante, então, foi por ela introduzido na vida artística e isso o levou a achar tediosa a companhia das mulheres da sociedade e a considerar um aborrecimento ter de frequentar qualquer recepção mundana. “E a amante de Robert, como os primeiros monges da Idade Média da Cristandade, ensinara a ele sentimentos maiores, como, por exemplo, a piedade para com os animais e o respeito pela natureza.” Portanto, a relação com Raquel preservara Saint- Loup do esnobismo e o havia “curado” da frivolidade.

No entanto, quando Raquel se sente amada por Robert, ela passa a dominá-lo por meio do ciúme. “Marcel sentia que para Saint–Loup a inquietação, o tormento e o amor haviam se amplificado, até que essas sensações se transformassem em sofrimentos infinitos, tendo como prêmio a própria existência.” Compreendia que muitas mulheres por quem os homens vivem, sofrem, matam-se, podem ser em si mesmas, ou para os outros, o que Raquel era para Marcel, nada. Mas um ciumento amoroso muitas vezes prefere como Édipo, arrancar de suas próprias órbitas os olhos para não enxergar a realidade que a todos se escancara. 

Não era a “Raquel quando do senhor” que parecia insignificante. Era a potência da imaginação humana, a ilusão sobre a qual pousavam as dores do amor que o Narrador julgava grandes. Robert já percebera a certa distância tanto a Raquel putinha quanto a Raquel verdadeira, supondo que a putinha fosse mais real que a outra. Mas Robert talvez só tenha tido a ideia daquele inferno em que vivia, quando se viu premido pela necessidade de arrumar um matrimônio rico, em que a venda de seu nome lhe permitisse poder continuar dando cem mil francos por ano a Raquel.

Mas Raquel, que podia desfrutar das fabulosas somas de dinheiro que dele recebia, lutava, fazia de tudo para destruir tal relação. E terminará por destruí-la, voltando-se para os seus amigos artistas e atores. Fora justamente Raquel que dera ao fidalgo o suporte para o humanismo que ele esgrimia. No entanto, ao final desse romance, o verdadeiro Robert volta a se apresentar à sociedade, e posto que o amor de Robert às letras e pelas questões sociais nada possuía de profundo, não emanava de sua verdadeira natureza e era nada mais do que um derivado de seu amor por Raquel, o Robert mundano, o Guermantes retoma o seu lugar. A partir de então a admiração do Narrador por Saint-Loup pouco a pouco se esvai, com Robert perdendo para Marcel o halo de virtuosidade. Ao mesmo tempo, uma nova faceta de Saint-Loup lentamente se apresentará e o Narrador se dará conta de que a doença ancestral dos Guermantes, a inversão sexual, também atingira seu amigo Robert. 

Foi no retorno de uma viagem a Veneza, em companhia de sua mãe, que o Narrador tomou conhecimento de que Gilberte de Forcheville se casaria com Robert de Saint-Loup, numa união altamente vantajosa para ambos. Ela tornar-se-ia uma Guermantes e ele, parceiro de uma enorme fortuna. Apesar de o casamento ser realizado por interesses, Gilberte ama por algum tempo o esposo. “Acontece que esses consórcios, que podem parecer infamantes para alguns, são geralmente os mais estimáveis de todos, porque implicam o sacrifício de uma posição mais ou menos lisonjeira a uma aventura puramente íntima (e não se pode considerar infamante um casamento por dinheiro, pois não há exemplo de um casal em que um dos dois não se haja vendido).” E Gilberte engravida, e desta relação nascerá a senhorita de Saint-Loup, símbolo da união que interligaria os Caminhos de Swann e de Guermantes.

Mas o idílio, se houve, durou pouco. Gilberte se julgava infeliz, enganada por Robert, mas não da maneira como todo mundo pensava, e que talvez ela própria pensasse. “O amor-próprio, o desejo de iludir os outros, de iludir-se, o conhecimento imperfeito das traições é o território comum de todas as criaturas enganadas.” Robert, por seu lado, como verdadeiro sobrinho de Charlus, mostrava-se na companhia de mulheres para que Gilberte e a sociedade as tomassem por suas amantes. Na verdade, todas as mulheres com que Robert se exibia constituíam apenas uma cortina-de-fumaça. Sua amante chamava-se Morel, o violinista, que trocara o senhor de Charlus pelo sobrinho mais jovem e mais bonito e que nas cartas a Robert endereçadas fazia chamar-se “Babette”.

O Narrador conclui que Robert somente enquanto amou as mulheres é que foi verdadeiramente capaz de sentir amizades; depois disso, aos homens que não lhe interessavam diretamente passou a demonstrar indiferença.

Marcel voltará a encontrar Robert antes de sua morte heroica na guerra. Robert herdara de sua consanguinidade a coragem guerreira. E esse Guermantes, ao morrer no campo de batalha, morrera mais ele mesmo, como ficou simbolicamente claro em seu enterro, na igreja de Saint- Hilário, em Combray, toda forrada de preto, onde se destacava em vermelho, sob a coroa fechada, sem iniciais de pré-nomes e títulos, o G de Guermantes que, pela morte, ele voltara a ser.

Os príncipes de Guermantes- Bavière

Os príncipes de Guermantes, originários de um ramo germânico da família, são tão ricos e socialmente importantes quanto os duques de Guermantes. Destacaria três momentos em que eles assumem importância no enredo. O primeiro deles na cena de teatro em que pela primeira vez Marcel descreve a princesa e a compara com Oriane de Guermantes; a segunda, quando o Narrador é convidado de maneira inesperada para uma reunião social no palácio dos príncipes; e, finalmente, um terceiro episódio que ocorrerá quando, após muitos anos de ausência, Marcel comparecerá a um baile no Palácio, não mais dirigido pela doce e linda princesa que conhecera, mas pela dura senhora Verdurin, transformada em princesa.

Principiemos pelo teatro. Marcel descreve a princesa Marie como ligeira e bela tal qual Diana, arrastando atrás de si, em direção ao seu camarote, uma capa incomparável. E desde lá dirigia, como uma grande deusa, toda a sua corte de suseranos. Seu pescoço e colo eram repletos de conchinhas do mar e pérolas, suas plumas e corolas que desciam pelos seus cabelos, somente poderiam encontrar rival na beleza de sua convidada, a prima Oriane de Guermantes, que comparecia ao teatro com uma toalete deslumbrante, porém mais sóbria, fazendo que sobre ela, ao contrário da prima, doçura e encanto se irradiassem.

No segundo evento o Narrador recebe um convite para uma recepção oferecida pelos príncipes. Fica surpreso e debate-se na tortura de saber se fora mesmo convidado ou se o convite seria troça de algum inimigo. Por fim, decide se arriscar e comparecer. É durante esse evento que Marcel consegue traçar algumas diferenças entre o príncipe Gilbert e seu primo, o duque Basin. Talvez, devido ao seu homossexualismo encoberto, o príncipe possuía uma sensibilidade muito superior à do primo, assim como uma posição política mais ponderada, menos militarista, a que se alinhavam antigos preceitos éticos de honra e palavra.

Finalmente, no terceiro momento, nós temos primeiramente o Narrador a sós na biblioteca do palácio, aguardando o final de um Concerto que ocorria no salão de recepções, onde uma recordação involuntária, que se soma a outras que acabavam de ocorrer, conduzem-no a um estado de repleta felicidade, que terminam por lhe impor “recuperar o tempo perdido” e mergulhar no trabalho de criação artística, abandonando todo o mundanismo dispersivo. Quando as portas do salão dos príncipes de Guermantes se abrem, Marcel penetra no local do baile, naquilo que ele descreve como “o baile de máscaras”, onde terá enorme dificuldade em descobrir, por trás das máscaras produzidas pelo Tempo em cada personagem, quem seriam os seus conhecidos no passado. Tudo simbolizava um novo tempo em que novos figurantes já se preparavam para substituir os antigos atores.

O Barão de Charlus e Morel

Personagem multifacetário, complexo, irmão do duque de Guermantes, o barão Palamédes de Charlus, título por ele mesmo escolhido dentre tantos pertencentes à família Guermantes, surge com toda sua imponência morena junto ao jovem Marcel apresentado por sua tia, marquesa de Villaparisis, durante uma estação de águas em Balbec.

Marcel inicialmente impressiona-se com aquele indivíduo corpulento que a tudo e a todos julgava. Sente que o seu olhar o atravessa com a rapidez do relâmpago, dissimulado como um olhar neutro que finge nada ter visto, o olhar que se limita a expressar a satisfação de sentir-se envolto nas pestanas que entreabre com redondez beatífica; “o mesmo olhar devoto e derretido de certos hipócritas ou se quisermos, o olhar estúpido de certos tolos.”

De Charlus se interessa vivamente pelo Narrador. Oferece-lhe um livro de Bergotte, cuja encadernação possuía um ramo de miosótis a enfeitá-la. Marcel não se dá conta do significado implícito do belo enfeite, ao que Charlus lhe diz: “Bem vejo que não é mais entendido em flores do que em estilos, nem sequer reconheceu na encadernação do livro de Bergotte o ramo de miosótis da igreja de Balbec. Haveria maneira mais límpida de dizer: não me esqueça?” Miosótis na língua bretã, chama-se “forget-me-not”. Uma clara, embora sofisticada tentativa de recrutamento do Narrador para a irmandade de Sodoma.

Mas Marcel via naquele rosto reflexos de algum engenho bélico interior, de uma máquina alarmante até para aquele que o carregava dentro de si sem a dominar, em estado de equilíbrio instável e sempre prestes a explodir. “Despertava na mente de quem o observasse, ideias de um incógnito, de um homem poderoso que estivesse em perigo e que se disfarçasse, ou pelo menos de um indivíduo perigoso, porém trágico.”

Ademais de altivo de Charlus era muito melindroso e dado a mexericos. “Dir-se-ia um Apolo envelhecido, que, porém, possuía uma escuma olivácea, hepática, sempre a ponto de escorrer da boca ruim.” Por mais que algumas belas palavras colorissem todos os seus ódios, sentia-se que aquele homem era capaz de assassinar e de provar, à força de lógica e de hábeis palavras, que tivera razão em fazê-lo, ainda que em seu discurso houvesse ora orgulho ofendido, ora um amor decepcionado, ou rancor, sadismo, ou somente impertinência.

O Sr. de Charlus é uma das complexa personagens sociais da obra. Tinha saber artístico, refinamento intelectual, além do profundo conhecimento da heráldica. E a tudo isso ainda se combinava um perfeito mundanismo. Sem dúvida, ao contrário de seu irmão, o Sr. de Charlus era possuidor de uma fina inteligência e profunda formação, além de talentos estéticos. Ainda possuía outros recursos, não só da eloquência, mas também da audácia.

Um tipo sanguíneo que quando tomado de raiva contra alguém, “fazia-o embuchar de desprezo e proferir as palavras mais cruéis, perante os circundantes escandalizados e que nunca tinham pensado que se pudesse ir tão longe.” Acalorava-se, agitava-se em verdadeiras crises nervosas, que faziam tremer toda gente, sendo, no julgamento de Marcel, um “pseudo bravo” e mesmo um “pseudo mau”: as pessoas que odiava, odiava-as porque se considerava menosprezado por elas; se elas se tivessem mostrado simpáticas com ele, em vez de inflamarem sua cólera, tê-las-ia abraçado.

No Faubourg Saint-Germain não se falava de seus costumes homossexuais, que eram ignorados pela maioria, objeto de dúvida de outros, que acreditavam antes em amizades exaltadas, mas platônicas. Enfim, os únicos informados dissimulavam cuidadosamente, davam de ombros quando algum cruel arriscava uma insinuação. Esses costumes, conhecidos apenas por íntimos, eram, pelo contrário, diariamente criticados longe do meio em que ele vivia o que levava a uma determinada redução de seu poder junto à sociedade que frequentava.

A vida social e amorosa de de Charlus sofre uma reviravolta no famoso trem que percorria as cercanias de Balbec. Quando esperava pelo transporte, conheceu o violinista Charlie Morel, filho de um servidor da casa do tio de Marcel, Alphonse. A paixão que nutriu pelo moço moreno, cabelos encaracolados, foi à primeira vista; na reunião seguinte do clã dos Verdurin, o barão o levou a tiracolo, e a sua inversão sexual começou a torna-se clara para todos.

 Morel, por seu lado, a quem Charlus nada negava, era um ser absolutamente desprovido de qualquer ética, moral, ou o que quer fosse parecido com isto. Apenas buscava aproveitar-se do dinheiro farto e das relações sociais que o barão lhe propiciava, enquanto que o amor de Charlus por ele, esse sim, era verdadeiro. Infelizmente para o barão, a sua falta de bom senso, talvez a castidade que quiças mantivesse em relação a Morel, fizeram-no cumular o violinista de estranhas gentilezas que esse não podia compreender e a que a sua natureza, doida a seu modo, mas ingrata e mesquinha, não podia corresponder senão com uma secura ou uma violência cada vez maior, e que mergulhavam o Sr. de Charlus- outrora tão altivo e agora cheio de timidez- em acessos de verdadeiros desespero.

Será Morel que devido ao seu mau caráter predispôs-se, a pedido dos Verdurins, a dramatizar uma cena de rompimento com o barão, seu protetor, acusando-o de tentar corrompê-lo sexualmente. E isso aconteceu ao final da mesma noitada, quando somente o pequeno grupo da “seita” estava presente. Quando ocorreu o rompimento entre de Charlus e os Verdurins, esses o acusaram de que estava fora de moda; na verdade eles eram acima de tudo ingratos, pois o Sr. de Charlus era de algum modo o poeta de seu clã, aquele que soubera tirar da mundanidade uma espécie de poesia, na qual cabiam a história, a beleza, o pitoresco, o aspecto cômico e a elegância frívola. Somente o consideravam “démodé” porque nunca haviam compreendido seu raro valor intelectual e porque aqueles que adotam como critério de mérito alheio o que esteja na moda, não penetram nem superficialmente nos homens de mérito de uma geração.

Acontece que o rompimento de Morel com Charlus arrasou a este de tal forma que precipitou a decadência social que já se prenunciava. E esse amor despedaçado o precipitará nos “infernos de Sodoma”, como mais para frente veremos.

Desde esse escândalo passou a sobressair a mulher que um erro da natureza colocara no corpo do Sr. de Charlus. Esse engano, por certo que o barão havia duramente penado para dissimulá-lo, assumindo uma aparência masculina e até mesmo uma atitude antipática a qualquer tipo de afeminamento. “Pouco a pouco, entretanto, sua estrutura psíquica de mulher foi fazendo com que pensasse as coisas sociais no feminino e, sem se dar conta, pois não é à força de mentir para si mesmo, que a gente deixa de transparecer o que lhe ocorre na intimidade.”

“A revolução interna de um espírito, ignorante a princípio da anomalia que trazia em si; apavorado depois ao reconhecê-la; enfim familiarizado com ela a ponto de não perceber que não se pode sem perigo confessar a outros o que acabou por confessar sem pudor a si mesmo”, haviam sido eficazes para libertar o Sr. de Charlus dos últimos entraves sociais.”

De Charlus procurava novas performances, e, enfastiado dos desconhecidos que encontrava, passara ao polo oposto, justamente àquele que julgava que detestaria. As portas do Inferno abrir-se-ão para Charlus na forma do prostíbulo masculino do qual Jupien era encarregado. Um inferno do tipo que, se não possuía cérberos na entrada, tem seus brutamontes produzidos pela guerra e pelo vício, na saída. 

De Charlus é um dos personagens mais complexos de todo o livro. Dentre os seus múltiplos “eus”, também existia um ser muito compassivo, que se sentia mal ante a ideia de um vencido e que então defendia sempre o mais fraco. “Frise-se que durante a guerra, dentre toda a aristocracia, somente o Sr. de Charlus transformou o seu palacete em um hospital militar, cedendo, portanto, menos aos impulsos de sua imaginação, que ao seu coração generoso.”

De Charlus não podia suportar a presença dos franceses belicistas, que com a guerra estando praticamente vencida pela França e por seus aliados, queriam o aniquilamento da Alemanha. De todo modo, os belicistas eram pessoas consideradas por ele como pertencentes a mais baixa estirpe francesa.

De tal modo, que a cada instante, havia sempre dois de Charlus, sem contar os outros.  O intelectual passava o tempo a se queixar de que estava ficando afásico; mas sempre que isso acontecia, acorria o outro, o subconsciente, o qual tanto desejava ser invejado, quanto o primeiro lastimado.

Após quinze ou vinte anos afastado da sociedade, Marcel, a caminho do Palácio do Príncipe de Guermantes, repara em um homem de olhos fixos, o talhe curvo, antes colocado que sentado ao fundo de um carro, que realizava para se aprumar esforços parecidos aos de uma criança a quem tivessem recomendado juízo. Seu chapéu de palha deixava que se observasse uma floresta indômita de cabelos inteiramente brancos; uma barba branca, “igual a que a neve faz nas estátuas, escorria-lhe do queixo lembrando uma imagem do Rei Lear, abandonado pelas filhas à loucura e à morte, mas este Lear estava mais para o cômico que para o trágico.”

Assim o Tempo havia operado. Aquele era o Sr. de Charlus, convalescente de um ataque de apoplexia. Talvez ainda houvesse nos movimentos do barão essa desorganização consecutiva às perturbações da memória e do cérebro, e seus gestos lhe excedessem a intenção. Marcel, entretanto, vê nesse comportamento uma espécie de doçura quase física, de desapego às realidades da vida tão impressionantes naqueles que a morte já fez entrar em sua sombra. Era uma criança, sem o orgulho delas, aquele ser em que o poderoso, o altivo, o orgulhoso e o definitivo barão de Charlus havia se transformado.“Num dia não muito longínquo, o viajante que nos confins da Borgonha parar na aldeiazinha de Charlus para visitar sua igreja, se não for muito estudioso ou estiver muito apressado para examinar as pedras tumulares, há de ignorar que aquele nome de Charlus foi o de um homem que se igualou aos maiores de seu tempo.”

De todo o imenso elenco de personagens que passa pelas peripécias do livro, Morel é um dos mais imorais e arrivistas pequenos burgueses que buscava a qualquer custo a ascensão social. Esse jovem que, por qualquer dinheiro teria feito o que quer que fosse, servia-se tanto da prostituição masculina, quanto da feminina, daquilo que lhe rendesse mais. O único conceito social que lhe importava preservar era aquele que possuía entre seus colegas de música, pois dentro de toda a maldade de que era capaz, possuía uma única faceta virtuosa, era um extraordinário violinista.

Morel é claramente um neurótico. Muitas vezes bastava uma estranha contrariedade para levá-lo até a super excitação nervosa, e teria cometido qualquer devaneio, se nisso achasse implicado o seu interesse. Dizia-se filho da “velhacaria universal”. É verdade que esse jovem punha o dinheiro acima de tudo, acima dos mais naturais sentimentos de simples humanidade. “Na realidade, sua natureza era verdadeiramente um papel em que fizeram tantas dobras em todos os sentidos que é impossível destrinchar qualquer coisa. Parecia ter princípios elevados e, numa caligrafia magnífica, passava horas a escrever ao irmão, corrigindo-o porque esse havia agido mal.” No entanto, era capaz de roubar até seus próprios protetores.

Foi sucessivamente amante do Sr. de Charlus e de seu sobrinho Saint-Loup, assim como de todo aquele que pudesse pagar-lhe cinquenta francos. “A maneira como Morel se comportava como um rufião - tanto quanto Marcel pôde sabê-lo - era que ele amava assaz as mulheres e os homens para dar prazer a cada sexo com o auxílio do que havia experimentado com o outro.” Era expansivo, amigável, pois tinha qualidades de caráter encantadoras. Nem por isso Marcel deixou de concluir que a sua natureza deveria ser muito vil, não recuava quando julgava ser preciso, nem diante de nenhuma baixeza e que ignorava a palavra gratidão. “Nisso, não por ser rufião, mas por se assemelhar ao comum dos homens.”

Charlus tentou fazer dele o marido da sobrinha de seu inseparável Jupien, uma costureira que se apaixonara pelo violinista. Esse ato seria, antes de tudo, uma forma capaz de amarrá-lo em sua relação com o próprio barão. Como longe de sua arte era de uma incompreensível preguiça, a necessidade de ser mantido por alguém se impunha, e ele preferia sê-lo pela sobrinha de Jupien do que diretamente pelo próprio Charlus. Morel torna-se, então, noivo da moça, mas num rompante de neurastenia decide romper o noivado. Tudo isso foram episódios que ocorreram antes do rompimento de Morel com o Sr. de Charlus, maquinado pelos Verdurins.

A covardia de Morel levou-o a fugir da convocação para lutar no front da guerra, mas uma vez preso pela deserção não lhe restou alternativa a não ser bater-se contra os alemães na guerra; por algum motivo, possivelmente pelo beneplácito de algum superior uraniano, logrou voltar condecorado. Marcel, quando todo conflito termina, depara-se com outra personalidade social do moreno Morel. Este se casara dois anos após abandonar o barão, e na falta de honra ou de interesse, sua mulher lhe inculcara certo respeito humano, que, entretanto, não modificara a tendência à fanfarronada e à ostentação de apregoar que todo dinheiro do mundo lhe era indiferente quando oferecido sob certas condições. Vivia por e pelo dinheiro.

Morel simbolizará também, por sua vez, outra fonte social do anti-semitismo, o da pequena burguesia em ascensão e sem princípios. Devedor que era da família judia Block, ao não querer saldar sua dívida e para evitar ser chamado de caloteiro, torna-se um eminente e ativo inimigo dos judeus. Assim, com o tempo, Morel passou a ser considerado no círculo da alta burguesia um homem da mais perfeita moralidade, defensor dos princípios, um patriota, que um dia tinha sido ofendido por um pervertido, um tal de Charlus.

A marquesa de Villeparisis

A marquesa de Villeparisis é uma personalidade à parte. Culta, altamente refinada, razoável pintora, também trabalha por registrar a memória social sem, contudo, abdicar do convívio em sociedade. A marquesa, que nascera em uma casa gloriosa, já não desfrutava de uma grande posição. Seu salão era frequentado apenas pelos seus parentes mais próximos, como os duques de Guermantes e algumas amigas mais íntimas.

Marcel, como outros mundanos, muito especulou para conhecer a verdadeira causa da “decadência social” da marquesa. Falava-se, por exemplo, da ligação entre ela e o amante, Sr. Norpois, o embaixador, relacionamento de mais de quinze anos; no entanto, em uma sociedade em que as mulheres exibiam amantes muito menos respeitáveis, essa não poderia ser a causa. Outros comentavam que a “má língua” lhe teria angariado inimigos no passado e ainda outros diziam que ela tivera durante a mocidade tantos amantes quantos levara à falência. Mas a sua velhice apaziguada, recolhida, bondosa e cheia de piedade, entretanto, não pressupunha grandes aventuras ou escândalos amorosos na juventude.

De qualquer modo, o Narrador encontrará na marquesa uma inteligência e uma sensibilidade que fugiam totalmente aos padrões da classe social a que ela pertencia. Literata pedante, talvez a Sra. de Villeparisis o tivesse sido em sua juventude. Ébria do saber, não soubera conter contra pessoas da sociedade menos inteligentes e instruídas que ela os ditos mordazes que os atingidos jamais esquecem. E, conclui o nosso Narrador, houvesse ou não, na vida da Sra. de Villeparisis qualquer escândalo ou outra causa que concorrera para apagar o brilho de seu nome, foi na realidade essa inteligência, uma inteligência quase de escritor, certamente, a causa de sua decadência mundana. Marcel e sua avó surpreendem-se ao saberem que a Sra. de Villeparisis era uma defensora da República e sua posição quanto ao anti-clericalismo de diversos republicanos resumia-se a que acharia mal que a proibissem de ir a uma missa que um dia desejasse ir. Defensora da liberdade religiosa, do desligamento do Estado e da religião e mesmo de que se tivesse a liberdade de não se ter qualquer religião, também tinha conceitos sociais muito avançados como: “Um homem que não trabalha não vale nada” e “A nobreza hoje em dia não vale quase nada”.

A marquesa forma, como numa peça teatral, um contraponto ao reacionarismo de muitos de seus parentes como os Guermantes e os Courvoisiers, consciência que vinda de seu bom coração fora cultivada pelo intelecto, não apenas por meio de suas leituras, mas também por haver convivido com escritores como Chateaubriand, Balzac e Victor Hugo, que frequentavam a casa de seus pais.

Por meio dessa personagem Proust introduz na leitura do romance uma forma ligeira de crítica literária. A marquesa possui tintas de Saint- Simon, o memorialista da antiga aristocracia e muitas pinceladas de Sante-Beuve, o crítico de arte do final do século XIX. Proust, que contestava Sante-Beuve pela demasiada confiança aplicada à “inteligência” dos escritores, enquanto para ele, “a essência de uma obra de arte, de uma poesia, é alguma coisa de secreto, oculto dentro do mais fundo poço da consciência do escritor.” Também critica a confusão que era corrente entre um escritor, sua vida, seus vícios e seus defeitos, e a comunicação em sociedade com a sua obra. Ou seja, Sante-Beuve e a Sra. de Villeparisis não compreenderam que o “eu” de um escritor encontra-se sempre dissimulado dentro de uma obra de arte. Que um crítico deva examinar aquilo que existe dentro de uma obra de arte e não o que acontece em seu entorno. Devido a esses desvios de critério, a marquesa, a exemplo de Sante-Beuve, considerava Baudelaire e Nerval poetas menores e desconheciam a importância e genialidade de um Stendhal, de um Hugo e de Balzac. 

As raparigas em flor

O Narrador encontrava-se em frente ao Grande Hotel de Balbec quando da extremidade do dique move-se uma estranha mancha, que ao se aproximar demonstra ser composta por cinco ou seis mocinhas diferentes no aspecto e nas maneiras; chegavam como um bando de gaivotas que nem se importavam com os banhistas e, quando necessário, divertiam-se até mesmo saltando sobre pessoas. Atrás da mais alta que vinha à frente do bando, uma delas empurrava sua bicicleta, outras duas empunhavam tacos de golfe e todas trajavam indumentária especial para os esportes.

Desde o momento em que as avista, o Narrador dispõe-se a fazer qualquer sacrifício para se tornar amigo de pelo menos uma delas, o que lhe franquearia aquela sociedade rejuvenescedora em que reinavam a saúde, a inconsciência, a volúpia, a crueldade, a antiintectualidade e a alegria. Nem dentre as atrizes, as camponesas, ou as moças do pensionato religioso, ele vira nada de tão belo, impregnado de tal essência desconhecida, tão inestimavelmente precioso, tão verossimilmente inacessível. Enfim, Marcel ansiava por estabelecer contato com aquelas bacantes, aquelas deusas.

Elstir lhe apresentará Albertine e ela, o restante de suas companheiras. Marcel imediatamente se apaixona não por uma, mas por todas as “raparigas em flor”; e, contudo, um possível encontro com o grupo passou a ser o elemento delicioso a perfumar os seus dias, a única façanha para a qual desafiaria todos os obstáculos. Após as apresentações, todas ganharam nomes e sobrenomes, como Andrée, Gisèle e Rosamunde, moças de uma pequena burguesia muito rica, exceção feita à órfã Albertine. E ele raciocina: “Os velhos burgueses avarentos de quem tinham saído aquelas Dianas e aquelas ninfas me pareciam os maiores artífices de estátuas do mundo”. De qualquer modo, elas continuavam sendo suas deusas, mas agora possível de serem tocadas.

A primeira flor que Marcel tenta colher possui a pele de um gerânio: é a pequena e loira Gisèle, mas ela deixa o grupo, viajando para Paris. Marcel tenta acompanhá-la, mas um desvio do trem faz com que eles se desencontrem. Volta-se ele, então, para as outras raparigas, ou seja, Albertine, Andrée e Rosemunde, sem que soubesse dizer qual delas lhe tornava mais preciosos aqueles lugares e brincadeiras e qual lhe provocava mais desejos de amar.  Mas, afinal, quem se decide por amá-lo é Albertine.

Albertine

Albertine será o terceiro caso de amor da vida do Narrador, aliás, o único em que ele chegará a uma relação sexual completa. Quando a conhece, ela talvez, “justamente porque era morena”, desperta mais a sua curiosidade. Seus olhos escuros, as maçãs salientes do rosto, o nariz curvo e levantado não lhe “faziam o gosto”, como a plagiar Swann. No entanto, apesar de um encanto maior produzido em Marcel por Andreé, será com Albertine que ele, enfim, se envolverá sentimentalmente. 

Marcel sempre imaginou que todas as mulheres que amara nunca lhe haviam correspondido com o mesmo sentimento. Esse amor juvenil que ele sentia era verdadeiro, visto que subordinava todas as coisas à função de vê-las, de conservar todas as “raparigas em flor” unicamente para si. Quando ele as via, quando as ouvia, não lhes achava nada que se assemelhasse ao seu amor, isto é, a potência capaz de dirigir todos os seus atos e causar todos os seus sofrimentos.

“Para ele (Marcel) ligar-se à Albertine era como uma tomada de contato com o desconhecido, senão com o impossível, mas um exercício tão incômodo como domar um cavalo, tão complicado como criar abelhas ou cultivar rosas.” Albertine, por seu turno era muito inteligente e, nas coisas bobas que ela dizia, a tolice não era sua, mas do seu ambiente e de sua idade. “Acontecia que sua tez variava entre o róseo violáceo e o ciclame, e aquele riso evocava também as carnações róseas, as paredes perfumadas, contra as quais parecia que acabara de esfregar-se e que, acre, sensual e revelador como um perfume de gerânio, ela transportava consigo partículas irritantes e secretas”.

Inicialmente a relação com a moça afinal não passaria de um namoro de verão. Após as férias, entretanto, de volta a Paris, ele é surpreendido com uma visita intempestiva de Albertine. Descobre, então, novidades que o atraem; ele sentia na mocinha bonita que acabava de sentar-se junto à sua cama algo diverso, e nas feições do rosto uma mudança de aspecto como se tivessem sido destruídas as resistências que ela chegara a lhe oferecer em Balbec. Em Paris, ela se entrega, concedendo-lhe de modo tão doce o que havia negado no passado.

No entanto, as relações entre Marcel e Albertine se tornarão fortes quando de uma segunda estada do Narrador em Balbec, após o falecimento de sua avó. A relação afetiva é prazerosa, exatamente por não trazer nenhum tipo de compromisso futuro e Albertine surpreende-o sempre, no seu constante evoluir cultural. Diante de uma bela igreja, ela torna-se pensativa e após observá-la diz: “Não me agrada, é restaurada”. Albertine sabia reconhecer imediatamente uma restauração, ela que aprendera com Elstir a apreciar a inimitável beleza das velhas pedras.

Mas o ciúme estava à espreita, observando o Narrador até dele se acercar e jamais abandoná-lo. Numa das paradas do trenzinho de Balbec, Marcel leva o doutor Cottard até um pequeno cassino onde por falta de rapazes moças dançavam com moças. Andrée e Albertine se enlaçavam enlevadas, o que é traduzido pelo doutor como uma excitação recíproca entre as moças. O esporão do ciúme e da curiosidade dá sua primeira estocada no Narrador.

Esse é apenas o prelúdio. Estando Marcel e Albertine a conversar no mesmo trenzinho, a moça sem nenhum propósito específico que não fosse mostrar certo envolvimento com as artes conta a Marcel ser amiga da Srta. Venteuil e que, órfã, praticamente, fora educada por sua amiga. Ora, ainda garoto, num remoto entardecer em Montjouvain, Marcel, oculto por trás das folhagens, adquirira a chave do saber ao presenciar a relação sexual entre duas mulheres que eram justamente as amigas, agora declaradas, de Albertine. Esse fato, aos seus olhos, tornava Albertine praticamente uma gomorriana. Marcel confessa: “Era uma terra terrível a que eu acabava de aterrar, uma fase nova de sofrimentos insuspeitados que se abria”.

O fato de Albertine ligar-se ao safismo torna-a indispensável a Marcel. Sentindo-se apaixonado decide torná-la sua “prisioneira”, deixando Balbec e partindo imediatamente para Paris, após comunicar à mãe seu desejo de casar-se com Albertine. Desde o princípio ocorre ao Narrador na sua relação com Albertine a comparação com o amor de Swann por Odette. E isso o atormentava como o atormentava o ciúme, a necessidade de controlar cada movimento e, depois, cada pensamento de sua “prisioneira.”

Mas havia um abismo entre Albertine, moça que apesar de órfã e pobre, pertencia a uma rica família burguesa, e Odette, cocote que fora vendida pela mãe na infância. A palavra de uma não podia ser comparada com a da outra. Aliás, Albertine não tinha em mentir o mesmo interesse que Odette para com Swann. Sem dúvida, conscientemente, Marcel declara que seria “uma loucura julgar Albertine por Odette ou Raquel”. Mas não era ela e sim os sentimentos dele próprio que lhe inspiravam o ciúme e o faziam substimar-se em demasia.

A Albertine “prisioneira”, na medida em que a convivência com Marcel avança, adquire ora um olhar azul, ora negro, e, sobretudo um tom azul-negro. Ela será ao mesmo tempo inteligente com suas sobrancelhas em arco e tola com o nariz arrebitado, malvada quando vista de perfil e bondosa quando de frente. Desde que passaram a viver juntos, ele fazia todos os dias mil reflexões a seu respeito. Mantinha com o que ele chamava Albertine todo um diálogo interior em que lhe inspirava perguntas e respostas, pensamentos e ações e esse diálogo continuava na série indefinida de Albertines imaginadas que se sucediam em seu espírito de hora em hora.

Em outras palavras, Marcel confessa que conhecia várias Albertines ao invés de uma só e parecia-lhe ver muitas outras deitadas ao seu lado. Nesse processo de descobertas, “raças, atavismos, vícios repousavam-lhe nas faces. Cada vez que mexia a cabeça criava uma nova mulher frequentemente não imaginada por mim. Parecia-me que eu possuía não uma, mas inumeráveis Albertines”. Gradualmente, cada vez menos restando a ser descoberto, Albertine acabava por parecer-lhe cada vez menos bonita.

“Eu não era somente um único homem, mas o desfilar, hora a hora, de um exército de compósitos em que havia conforme o instante sujeitos apaixonados, indiferentes, ciumentos - ciumentos dos quais nenhum o era da mesma mulher”.

Como cada um de nós não é apenas um, mas contém numerosas pessoas em si mesmo e nem todas com o mesmo valor moral, se existira a Albertine viciosa, isso não impedia que tivesse havido outras Albertines: a que gostava de conversar sobre Saint-Simon, por exemplo. Então, quando Marcel descobriu isso, não esteve mais sozinho; sentia desaparecer o muro que os separava; a volta da Albertine generosa trouxera-lhe os antídotos para os males que a Albertine sensual lhe causava. Mas a calma que esta Albertine lhe propiciava era mais alívio do sofrimento do que alegria propriamente dita. O Narrador diz literalmente: “Nossas relações eram de uma simplicidade que as tornava repousantes. O vazio mesmo de sua vida dava a Albertine uma espécie de solicitude e de obediência nas únicas coisas que eu reclamava dela. Assim, nesta Albertine enclausurada em minha casa, subsistiam a agitação, a balbúrdia social, a vaidade inquieta e os desejos errantes da vida de banhos de mar.”

Com o passar do tempo ele adquire a sensação de não amá-la mais. Albertine aos seus olhos apresentava os diferentes caracteres de humanidade que o haviam desde sempre decepcionado. Marcel talvez tenha tido uma felicidade e uma desgraça que Swann não havia conhecido, pois justamente o tempo todo em que esse amara Odette e fora tão ciumento mal conseguia vê-la, e só dificilmente podia ir à sua casa. Depois quando a tivera para si, há muito deixara de amá-la.

Marcel, pelo contrário, enquanto sentia tanto ciúme por Albertine sentia-se mais feliz que Swann, pois a tivera em sua casa, à sua disposição como “prisioneira”. Na verdade, havia realizado aquilo que Swann sonhara tantas vezes e que só se realizou quando Odette se lhe tornara indiferente, ou seja, encerrou-a em uma “gaiola dourada”, no caso, por meio do casamento.

Quando Marcel sentiu que já esgotara tudo o que Albertine poderia revelar por si e de si mesma, vê chegado o momento em que se as coisas acontecessem naturalmente uma mulher não serviria senão como transição para outra mulher, pois nada mais de sua natureza restaria a ser descoberta. Percebe que deveriam terminar a relação. No entanto, a iniciativa não parte dele, pois quem realmente cria a coragem da ruptura é a “fugitiva”, Albertine, ao deixá-lo silenciosamente, sem brigas, apenas com a tristeza da noite anterior a amargurar o abandonado.

Para Marcel, que acreditava não mais amá-la, o ciúme traz de volta o sentimento da paixão. Desperta-lhe uma louca busca por amantes reais ou imaginárias da “fugitiva”. Com o intuito de fazê-la retornar à “sua gaiola dourada” dispõe-se até mesmo a se casar. Tudo em vão, pois Albertine não aceita o retorno, dado que decidira viver a vida em liberdade e, como os pássaros livres, sentia-se agora feliz.

Aos poucos Marcel vai conseguindo superar o sentimento de perda e a imagem da amante começa a se esfumaçar. Na sequência ocorre uma fatalidade: a “fugitiva” morre ao cair de um cavalo. Quando ele recebe a notícia da morte prematura de Albertine descobre o quão errado estivera Swann no auge de seu sofrimento ao acreditar que a morte de Odette o libertaria, que a morte não faz mais que riscar o que deixa de existir, deixando o restante intacto. “Como sabemos, bem pouco o que nos vai pelo coração!” “O sofrimento que passa a atormentá-lo é um seu desconhecido. É o sofrer por saber que ela não voltaria mais, um sentimento que era como a sombra de seu amor por ela.”

Todas as moças pelas quais se interessava se pareciam com a ausente e a imagem que ele trazia dentro dele fazia com que a encontrasse por todos os lados. Assim, a saudade que sentia fazia de sua procura por uma amante que fosse de certa forma uma “irmã” de Albertine, e, mesmo seu vício, tornava-se como que uma causa de amor. “É assim que, em um sonho, damos outro rosto e outro nome a uma pessoa, mas a respeito de sua identidade profunda, a verdadeira, jamais nós nos enganamos.”

E Marcel caminhará pela vida como um desses seres anfíbios, que ao mesmo tempo estão mergulhados no passado e na realidade em que vivem. E dentro do túnel negro das lembranças, ele bruscamente era surpreendido pelo esplendor de um raio de sol, de onde surgia Albertine como uma recordação indiferente e cheia de encanto; outras vezes, entretanto, era prisioneiro de uma tristeza cruel ao lembrar-se de quem fora sua “prisioneira”, sofrendo nos intervalos em que nos ocorrem as “intermitências do coração”.

Andrée

Dentre as moças de Balbec, Andrée é uma personagem das mais interessantes, justamente a melhor amiga de Albertine. Aliás, num primeiro momento Marcel crê amar Andrée. No entanto, o dionisismo apregoado por ela, pelo qual o Narrador se apaixonaria, era falso dado ser ela frágil, intelectual, e andava adoentada praticando esportes por recomendação médica. Por estes motivos, Marcel acabará por descartar essa paixão, pois era para ele impossível amar alguém que até mesmo ao espelho se lhe pareceria. Shoppenhauer dizia, com razão, que as pessoas buscam amar as que lhes sejam opostas e complementares.

“As pessoas buscam o seu contrário devido ao seu espírito e ao seu coração, pois a junção de elementos contrários é a lei da vida, assim como o próprio princípio da fecundação que é, em si mesmo, a causa de muitas desgraças. Habitualmente, detestamos aquilo que nos é semelhante, pois os nossos defeitos, vistos de fora, exasperam-nos. Se no princípio da relação com Marcel, Albertine parecia vazia, Andrée estava cheia de qualquer coisa que Marcel já conhecia demasiado bem, ou seja, cheia dele mesmo.”

Num primeiro ato, Andrée assume funções de um anjo protetor que procura fazer com que a relação amorosa de Marcel e Albertine prospere. Após a fuga de Albertine, quando as cortinas do palco são reabertas, Andrée apresenta novas facetas com as quais o Narrador jamais sonhara, fruto provável de sua personalidade neurastênica. Ela decide lhe contar, ou inventar, diversas aventuras sexuais de Albertine, inclusive aventuras sáficas das quais ela, Andrée, participara. Poderiam ou não ser verdade, mas o efeito é que contribuíam para excitar e fazer sofrer o Narrador. Marcel jamais saberia se as histórias que Andrée lhe contava, agora que a amiga havia partido, eram ou não fruto do ciúme ou de seu estado nervoso.

Um vício muito forte em Marcel era o seu voyeurismo sexual. Pergunta a Andrée se ela lhe satisfaria uma grande curiosidade: que o deixasse vê-la - mesmo que se limitasse apenas às carícias que não a constrangessem – praticar as carícias com as amigas de Albertine, que tinham seu mesmo gosto lésbico. Esse é o momento em que Marcel interrompe a narrativa e que se avista no espelho. A semelhança entre ele e Andrée tornara-se assustadora. Se não fosse pela barba, a identidade teria sido completa.

Mas a passagem da morte encarregara-se de tornar tudo de certa forma mais fácil e como sempre, absolutamente inútil. Marcel fazia essas reflexões na hipótese que Andrée fosse verdadeira em suas histórias - o que era possível- e que ela se sentisse impelida à sinceridade precisamente por ter agora relações sexuais com ele. Nesse caso, “era favorecida pelo fato de que a realidade das criaturas sobrevive para nós apenas por breve tempo após a sua morte, e depois de alguns anos são como deuses de religiões abolidas que a gente ofende sem medo, porque deixa de crer em sua existência.”

De qualquer modo, a aventura de Marcel com Andrée é apenas um caso passageiro, um tipo de consolo e acerto de contas, por um lado com a curiosidade mórbida de Marcel após a morte de Albertine, por outro, com as intermitências de seu penar.

Tempos após, Andrée casa-se com um de esportista que conhecera em Balbec, e passa a frequentar a alta sociedade, inclusive, o salão da senhora Verdurin-Guermantes; ela torna-se defensora da proposta estética do marido com relação à modernidade trazida pelos balés russos. Entre o “affaire” com Marcel e a entrada nos Salões da alta sociedade, o Narrador revela-nos mais outra faceta da complexa personalidade de Andrée, em sua irrefreável maldade, quando o já então ex-marido troca-a por Raquel. De tal forma que Andrée estava pronta a amar todas as criaturas sob a condição, porém, de conseguir ela mesma não imaginá-las triunfantes, e, para isso, constituía fato “sine qua non” havê-las previamente humilhado. Não compreendia ser preciso amar até os orgulhosos e vencer o orgulho deles por meio do amor e não por um orgulho ainda mais poderoso.

“Andrée não era fundamentalmente má e, se a sua natureza não aparente, um tanto profunda, não demonstrava a gentileza que a princípio se imaginava em face de suas atenções delicadas, mas sim, orgulho e inveja, sua terceira natureza, mais profunda ainda, a verdadeira, porém não inteiramente realizada, inclinava-se para a bondade e o amor ao próximo.”

A Senhorita de Saint-Loup

Já dedicamos algumas linhas a respeito da filha de Gilberte de Swann e Robert de Saint-Loup, cujo nascimento simbolizou a junção da aristocracia com a burguesia, a prova que os Caminhos de Swann e Guermantes não eram irreconciliáveis, mas que por um se chegaria ao outro. É interessantíssima a descrição que o Narrador faz de seu encontro com a senhorita de Saint-Loup, o que ocorre quando do retorno da clínica onde passara tantos anos.

Marcel diz que “o tempo incolor e intangível se havia, para que eu pudesse, por assim dizer, vê-lo e tocá-lo, materializado nela, moldara-a como a uma obra prima, ao passo que, paralelamente em mim, infelizmente, limitara-se a cumprir a sua obra.” Descreve-a com seus olhos profundos, penetrantes e o nariz encantador que se curvava ligeiramente em forma de bico de pássaro, não como o de Swann, mas como o de Robert. Esvaecera-se a alma daqueles Guermantes, mas os atraentes olhos agudos de pássaro a alçar vôo foram se colocar sobre os ombros da senhorita de Saint-Loup, fazendo longamente devanear os que lhe haviam conhecido o pai.

Além da emblemática confluência entre as elites, ela também o é do processo de perda de posição social, que assim como o de ascensão, jamais se interrompem na sociedade. Esse processo não perdoa aqueles que não se mantenham fiéis aos ditames das regras do esnobismo, do dinheiro e do prestígio social acima de tudo o mais.

“Essa filha, cujo nome e fortuna podiam fazer a mãe esperar que desposasse um príncipe real, casou-se mais tarde com um obscuro literato, pois ela não tinha nenhum esnobismo, e fez cair o nível da família a um ponto ainda inferior do que havia partido. Foi, então, muito difícil fazer as novas gerações acreditarem que os pais desse obscuro casal tinham desfrutado de grande posição social”.

As altas classes sociais não titubeiam em trazer do túmulo os mortos de que necessitam para se reproduzirem socialmente e manterem o seu esnobismo excludente. Dessa forma, os nomes de Swann e de Odette de Crecy ressuscitaram milagrosamente para permitir que as pessoas compreendessem que estavam “enganadas” e que a senhorita de Saint- Loup fizera o melhor casamento possível, com um obscuro literato. Afinal, o casamento dela fora inspirado em teorias como as que tinham podido levar, no século XVIII, grandes fidalgos, discípulos de Rousseau, ou pré-revolucionários, a viver a vida da natureza e a abandonar seus privilégios.

Para resumir, um casamento por amor e por um ideal foi o realizado pela senhorita de Saint-Loup, o que realmente, de um ponto de vista absolutamente inverso ao do mundanismo, podemos considerar como o melhor enlace possível. Ao final do romance, e isto é libertador, pois perante todo um mundo que se desmorona na iniquidade e nos interesses mesquinhos, ela, a senhorita de Saint- Loup, quer pelo amor, quer por não se ligar aos privilégios e ao esnobismo, salva-se da mediocridade e alcança a libertação.

Afinal, como dizia Victor Hugo, é preciso que a relva cresça e que as crianças de hoje morram, para que tudo siga na vida.

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