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Marcel Proust

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“Uma Introdução à Leitura de Em busca do Tempo Perdido”

IV. Os alicerces de uma Catedral

Proust se propôs a contar uma história em que cada personagem apresenta múltiplas facetas. Construiu um livro vencendo cada obstáculo, criando-o como a um universo, sem deixar de lado estes mistérios que só têm explicações em outros universos e cujo pressentimento é o que mais comove na arte e na vida.

“O Tempo conspira contrariamente à arte e eu, Marcel Proust, não deverei ter todo o tempo que precisaria para terminar algumas sacristias e absides deixadas incompletas nesta igreja que construí. Escrevi “Fim” no meu trabalho, mas não se trata de nenhum final. Apenas logrei fechar os arcos principais de minha construção, estabelecendo as principais conexões e interrelações sobre os quais os alicerces foram consolidados.”

Resumindo essa construção, a senhorita de Saint-Loup, como a maioria dos seres, aliás, representa na vida o mesmo papel que as encruzilhadas, para as quais convergem as estradas vindas a partir dos mais diversos pontos. E acima de tudo, terminavam nela os dois “grandes lados”, ou caminhos, onde Marcel tanto havia passeado e engendrado tantas fantasias. Do lado paterno, Robert, pelo caminho de Guermantes; por Gilberte, sua mãe, o caminho de Méséglise, que era o caminho da casa de Swann.

Um desses caminhos, por meio de Gilberte e os passeios pelos Champs-Élisées, levara o Narrador até Swann e às noites de Combray, ou seja, para o lado de Méséglise; o outro, por intermédio de Robert, o pai da Srta. De Saint-Loup, levara-o às tardes de Balbec, em que o Narrador revia junto ao mar ensolarado. Já se estabeleciam transversais entre essas duas estradas. Esta Balbec real, onde Marcel conhecera Robert, que quisera visitar devido ao que Swann lhe falara a respeito de suas igrejas; por outro lado, por intermédio de Robert, sobrinho da duquesa de Guermantes, Marcel percorrera o Caminho de Guermantes.

Mas a senhorita de Saint-Loup levava o Narrador a vários outros pontos da vida, à dama cor-de- rosa, que era Odette, sua avó, e que Marcel vira um dia em casa de seu tio-avô. Nova transversal aqui, pois o criado de quarto do seu tio-avô era pai do jovem Morel, que não só o Sr. de Sr. Charlus, mas o próprio pai da senhorita de Saint-Loup haviam amado. E não fora justamente o avô da senhorita de Saint-Loup, Swann, o primeiro a falar a Marcel da música de Vinteuil, assim como Gilberte a primeira a falar de Albertine?

Falando da música de Vinteuil, Marcel desenvolvera o seu amor por Albertine graças à grande amizade que ela tinha pela filha do autor, e fora o princípio daquela vida de paixão, posse, reclusão e fuga que a conduzira à morte e que ao Narrador causara tanta mágoa. De resto, fora o pai da senhorita de Saint-Loup que tentou fazer com que Albertine regressasse, e fora com a ajuda dele que se desenvolvera a vida mundana do Narrador, seja em Paris no salão dos Guermantes, seja no extremo oposto, no salão dos Verdurins, e desse modo, fez-se por alinhar, ao lado dos caminhos de Combray, os dos Champs-Élisées e o belo terraço de Raspelière, alugado pelos Verdurins. E os Verdurins ligavam-se a Odette pelo passado desta e a Robert por intermédio de Morel; e, neles todos, que imenso papel desempenharia a música de Vinteuil!

 “Certo, trata-se exclusivamente de nossos corações, teve razão o poeta em falar dos “fios misteriosos” que a vida rompe. Mas é ainda mais verdadeiro que ela os tece sem parar entre as criaturas, entre os acontecimentos que entrecruzam tais fios, que os redobram a fim de reforçar a trama, de modo que entre o menor ponto do nosso passado e todos os demais, uma opulenta rede de lembranças nos dá uma variada escolha de comunicações. E, para melhor fundir todos os tempos passados, a Sra. Verdurin, exatamente como Gilberte, havia desposado um Guermantes. E ao fim e a cabo tudo ao nosso redor eram quadros daquele Elstir, que, afinal, apresentara Marcel a Albertine.”

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