“Uma Introdução à Leitura de Em busca do Tempo Perdido”

V. Ambientação e crítica social

1. Ambientação do romance

Os franceses atravessaram tantas revoluções, golpes e contragolpes de Estado em menos de um século que se pode afirmar, que nos tempos da infância e juventude de Proust, a classe média à qual pertencia respirava a política com certo enfado. “Temos tido muitas revoluções desde 1789! A nossa experiência nos revela que as revoluções terminaram sempre em tiranias, que os Partidos se dissolvem que as divergências são esquecidas e que os adversários de hoje serão os aliados amanhã. O adversário político, que apesar de raciocínios e provas, considerava como traidor o sectário da doutrina oposta, chega a compartilhar das detestadas convicções quando já não interessam àquele que antes tentava inutilmente difundi-las. Esta costuma ser a fortaleza das convicções dos nossos políticos”.

A França teve a muitas vezes centenária Monarquia dos Bourbons derrubada pela grande Revolução Francesa, que instituiu a Primeira República, e com ela a fundação de um primeiro Estado Nacional.  Em 1793 a Revolução viveu sua fase conhecida como a do Terror e, logo a seguir, adveio a derrocada dos jacobinos. Bonaparte, então, ganhou destaque no âmbito da Primeira República Francesa. Em 1799, liderou um golpe de Estado e instalou-se como primeiro cônsul, sendo que cinco anos após, fez-se proclamar Imperador. Fruto de uma política imperialista, os franceses guerrearam contra praticamente todas as potências europeias nas chamadas Guerras Napoleônicas. Com a derrota na frente russa, Napoleão I é derrubado e, em 1815, assassinado.

As elites mais reacionárias de toda a Europa uniram-se na Santa Aliança e restauraram na França a monarquia absolutista dos velhos Bourbons. Quinze anos após, em 1830, uma sublevação burguesa, sob o monopólio do capital financeiro, torna a derrubá-los, e instaura-se uma Monarquia Constitucional, sob o reinado de Luís Felipe. Apenas dezoito anos transcorrem e uma Revolução Popular, a de 1848, instaurará uma Segunda República. Três anos após, será sufocada por um golpe de Estado, comandado pelo presidente eleito da República, Luís Napoleão, sobrinho do primeiro, que restaurará o Império, com o título de Napoleão III. Vinte anos após, em 1870, Napoleão III declara guerra à Prússia visando à expansão do imperialismo francês. A carnificina da guerra franco-prussiana de 1870 levará à derrota das tropas francesa.

Uma das mais importantes experiências de regimes comunitários — a Comuna de Paris — veio no bojo da insurreição popular de 18 de março de 1871, comandada pelo proletariado parisiense.  A Assembléia Nacional Francesa era favorável à capitulação ante a Prússia. A população de Paris, no entanto, opunha-se a essa política. Os insurretos forçaram o governo a fugir de Paris onde o Comitê Central dos soldados e dos operários passou a exercer sua autoridade. A Comuna de Paris — considerada a primeira república proletária da História — adotou uma política de caráter socialista, baseada nos princípios da Primeira Internacional dos Trabalhadores.

Proust nasceu nesse momento histórico, numa pequena localidade próxima a Paris, em casa de seu tio-avô, enquanto a capital vivenciava os momentos da Comuna revoltosa e estava sob o cerco das tropas do império prussiano, quando o poder socialista manteve-se durante cerca de quarenta dias, enfrentando não só o invasor alemão como também as tropas francesas.

O esmagamento da Comuna revestiu-se de extrema crueldade. Mais de 20.000 “communards”, homens, mulheres e crianças, após sua rendição foram sumariamente executados pelas forças da reação apoiadas pelos prussianos. Após a vitória da direita, instala-se, sob o controle de burgueses e monarquistas convertidos, a Terceira República, que de uma forma ou outra, manter-se-á no poder até a invasão nazista em 1940.

A Terceira República terá um histórico absolutamente conturbado por assassinatos de líderes políticos, de enormes escândalos de corrupção, de alianças e traições que se sucederão, somente alcançando certa estabilidade por volta da primeira década do século XX. Vivenciava-se uma crise permanente, em que tudo parecia transitório, os valores de um passado recente já não eram mais válidos e os novos valores eram contestados.

O narrador de “Em Busca do Tempo Perdido” reflete sobre esse panorama: “A política penetra nos poros de todo francês, em particular dos parisienses. E sempre temos caminhado à frente, pois enquanto alguns países descobrem agora o espírito republicano, nós já tivemos não uma, mas três repúblicas, sendo governados ora pelos republicanos, ora pelos conservadores, ora pelos radicais e até mesmo pelos socialistas. Eu não tenho gênio e nem inclinação para partidarismos e é verdade que busco possuir amizades em quase todos os lados da batalha política, que ora possui o Sr. X de um lado e o Y de outro, no momento seguinte. Quando trago para o meu livro uma personagem “política” eu o faço como “modelo” de um ser humano, é bem verdade, de um modelo assaz especial.”

Também a corrupção dos agentes públicos, os golpes aplicados por companhias de investimentos e as aventuras nas bolsas de valores foram uma tônica em toda a segunda metade do século XIX. O próprio pai de Proust, o médico Adrien Proust, por volta de 1892, perdeu quase um ano dos ganhos de seu trabalho por aplicar suas economias na construção do canal marítimo do Panamá. A quebra da empresa francesa que possuía fundos públicos foi um dos maiores escândalos do final do século, pois ao falir levou consigo as economias de milhares de franceses. Mais de cem deputados, senadores, ministros e ex-ministros estiveram envolvidos nas trapaças e nas desonestidades da empresa. A falência arrastou consigo a honra de até mesmo pessoas antes consideradas ilibadas como Ferdinand de Lesseps- o construtor do Canal de Suez, assim como o de Gustave Eiffel, o responsável pela monumental torre de Paris.

Na economia, entretanto, um novo ciclo de expansão e desenvolvimento ocorreria na transição para o século XX, quando a aristocracia decadente seria absorvida pela alta burguesia. O clima também inclui grandes superações e descobertas científicas e inovações tecnológicas, que propiciaram mudanças revolucionárias nos mais diferentes aspectos da vida humana. “Em Busca do Tempo Perdido” é recheado dessas descobertas que estabelecem panos de fundo para os ambientes em que os seus personagens se relacionam.

As estradas de ferro que caminham de Paris às províncias tornam viáveis os balneários da costa normanda; a invenção da bicicleta e a nova cultura do esporte e do fisiculturismo incitam a uma maior liberdade e também uma nova forma de ocupação do tempo ocioso; o processo de liberação das mulheres é refletido pelo primeiro Congresso Feminista Mundial que acontece na França. Surgiram novos meios revolucionários de transporte como o automóvel e o aeroplano. A iluminação elétrica tornou possível a escrita noturna e a ida aos teatros sem risco de tantos incêndios; a telefonia criou as “deusas da escuta” e a fotografia, “mais um instrumento a serviço da memória”.

Numa época de tão profundas transformações, entrecortadas por crises econômicas, políticas e sociais, as pessoas sentem a falta do ar e têm pressa de alcançar uma saída. A permanente ansiedade é o clima que se refletirá tanto na filosofia quanto nas artes.

Ressurge, então, com vigor a busca pela vida direta com a natureza, nua, crua e irracional. A razão, o equilíbrio, a lógica formal cedem espaço para certo irracionalismo; o instinto e a intuição conduzem ao aprofundamento da psicologia humana, à busca do inconsciente e do “eu profundo”.

Nas artes, muitos buscam o rompimento com o realismo formal, procurando na espontaneidade, na leveza de traços e no efeito, uma arte que expressasse a impressão da realidade, o simbolismo, o subjetivismo do artista.

E, finalmente, dentro do ambiente em que os conflitos se arrastam, surge lado a lado a intolerância racial, a luta por novas conquistas coloniais, o patriotismo seguido pelo seu filhote bastardo, o militarismo, as divisões da sociedade em ideologias que cada vez mais determinam atitudes. Até a enorme tragédia da Primeira Guerra Mundial que cobrará mais de dez milhões de mortos.

Dentro deste panorama geral nasceu “Em Busca do Tempo Perdido”!

 

2. Mundanismo e consumismo

Proust descreve diferentes “nichos” da alta sociedade, as formas de “ocupação social” em que os burgueses e os aristocratas empregam sua energia, dentre eles os denominados de “Salões de Recepção” e os Teatros, locais onde se desenvolverá o mundanismo e apresentará toda a sua exuberância. O personagem- narrador denomina o mundanismo de “o reino do nada”. “O mundano vive socialmente prisioneiro de um perpétuo receber e ser recebido, ornamentado pelo falatório vazio que preenche o tempo de espíritos superficiais. O esnobismo no falar, no vestir, no relacionar-se, configura antes de mais nada o consumismo puro e desenfreado.”

Marcel Proust, na sua juventude, foi parte desse mundo descrito. O narrador-personagem Marcel relata que nessa etapa de sua vida possuía a elegância no trajar e dinheiro que provinha da família e não de seu trabalho direto, mas enfatiza que “todas estas facilidades nunca me conduziram à afetação, defeito este que jamais ostentei; tão pouco fui possuído pelo esnobismo, pois nunca me importou muito me fazer ostentar, mas sim, sempre fui impelido a ser gentil com todos, sem diferenciar classes sociais.” Confessa-nos mais: “O meu desejo de ver, de buscar a essência das coisas e de conhecer sempre constituiu o objeto primeiro da participação no mundanismo”

Quando Marcel procura no isolamento pessoal o espaço para relatar “as suas memórias”, ele pouco se reconhece no “flâneur” dos tempos passados: “É natural que não mais reconheçamos a imagem do que fomos num período de nossa vida, principalmente caso ele se nos afigure, nos dias de hoje, desagradável. Mas não há que renegá-la, porque é um testemunho que temos vivido de acordo com as leis da vida e do espírito e que, dos elementos comuns da vida – quer seja daquela vivida nos ateliês, nos grupinhos artísticos ou nos salões-, tiramos alguma coisa de superior a tudo isto.”

Ao deter-se na vida rememorada nos salões mundanos, ele os descreve em três níveis de importância, que, entretanto, mudarão em conformidade com o tempo. Um primeiro que reuniria a “crèma de la crèma” da aristocracia antiga, mas ao qual o acesso de determinadas pessoas fora de sua origem fidalga por “méritos do espírito” seria permitido. Um segundo tipo seria aquele, também aristocrático, mas mais aberto, pois dentro da própria aristocracia existe uma escala heráldica, em que a presença dos frequentadores do primeiro nível é quase implorada por aqueles que somente possam frequentar o segundo. Finalmente, um terceiro tipo, o burguês, que serão justamente aqueles que ao final de seu romance mais se expandirão e se transformarão em elementos centrais do mundanismo.

Na sua essência, todos os salões da alta roda praticavam o mesmo tipo de vivência, em que os burgueses imitavam os aristocratas mesmo que procurassem dar a impressão de que destes buscavam se distanciar quer pela liberdade, quer pela liberalidade concedida aos seus membros. “As pessoas necessitam descobrir o caráter fictício da amabilidade aristocrática, aquilo que chamam ser “bem-educados”. Acreditar real a amabilidade já é sinal de uma certa má educação. Pois um esnobe representa, para aqueles que ele considera seus iguais e tão somente para eles, a comédia da polidez, da bondade, da honestidade e largueza de alma, simplicidade e inteligência. Mas todos os partícipes dessa roda sabem tratar-se perfeitamente de uma representação teatral.”

Se atentarmos para o fato de que os mundanos descritos no mundo proustiano não possuem vínculos com o modo de produção, encontraremos os aristocratas como senhores feudais sem feudo e os burgueses que não possuem compromissos com a produção industrial ou com a produção de serviços, dado que quando exercem alguma função econômica, ela é exclusivamente especulativa.  Alternativamente, tantos os burgueses como os aristocratas nadam tranquilamente na burocracia do Estado, o que lhes permite dedicarem-se de corpo e alma ao consumismo e ao esnobismo social mais desenfreado. Os seres “práticos” são criaturas de ações minúsculas, microscópicas. Essas criaturas, as de alguma ação, possuem sempre o espírito estafado pela atenção do que vai acontecer na próxima meia hora; elas confiam bem poucas coisas à memória, pois como mundanos são distraídas e esquecidas. Como só pensam em viver o momento, esquecem depressa o que não pensam com profundidade, o que foi dito pela imitação, pelas paixões que as cercam.

A atitude do esnobe não é outra coisa que a contemplação da vida coerente, organizada e militante do ponto de vista daquilo que Marcel denominou “o consumidor puro”. O consumismo para se manter precisa fazer com que as coisas pareçam novas, ainda que sejam antigas, é preciso que se inventem nomes novos. “E cada um é capaz de consumir o que a sua sensibilidade pessoal lhe permita”.

Nessa sociedade “polida” quase não se encontram romancistas, poetas, todas essas criaturas divinas que falam o que não se deve dizer, pois o esnobismo social é altamente contagioso. Afeta até mesmo homens inteligentes e cultos com Swann. “Não pense, entretanto, que o esnobismo atinja apenas as camadas da alta sociedade. Ele, como uma praga, medra por todas as classes sociais.”

A vida mundana apresenta-se como um teatro. Nos palcos os atores perdem gradualmente a capacidade de saberem o que são, pois escolhem parecer o que seus grupos sociais gostariam que fossem. Vestem suas máscaras, mas se esquecem de que ao final de todo ato as cortinas se fecham e que aquilo que vestiam que eram somente máscaras terminam por incorporar-se ao que será a sua personalidade social. Corre-se o risco de incorporar a máscara social como sendo a própria personalidade, mas a um preço muito alto, despersonalizando-se. Uma vez que esse fenômeno ocorra, não apenas uma, mas várias máscaras se sobreporão à primeira.

“Mesmo do ponto de vista das coisas mais insignificantes da vida nós não somos um todo materialmente constituído, idêntico para todas as pessoas, pois nossa personalidade pessoal é uma criação do pensamento alheio. Até o ato simples a que chamamos “ver uma pessoa a quem conhecemos” é em parte uma ação intelectual. Preenchemos a aparência física do ser que vemos com todas as noções que temos a seu respeito, e, para o aspecto global que representamos, tais noções certamente entram com a maior parte. Assim, só depois de haver reconhecido, não sem hesitações, os erros de óptica do princípio, é que se pode chegar ao conhecimento exato da criatura, se é que esse reconhecimento seja possível. Mas não o é, pois enquanto se retifica a visão que temos, ele próprio, que não é um objeto inerte, muda por sua conta; pensamos apanhá-lo, ele se desloca; e julgando vê-lo enfim claramente, apenas as imagens antigas que havíamos tomado é que conseguimos aclarar, mas essas imagens já não o representam mais.”

 

3. A Fusão das Elites

A aristocracia, uma vez perdidas as suas propriedades feudais, terminará sendo absorvida pela burguesia ascendente, dentro do modo de produção capitalista. Entretanto, na obra “Em Busca do Tempo Perdido” a descrição realizada é de uma absorção ao revés. A burguesia perdulária seria absorvida pela aristocracia decadente, comprando títulos de nobreza ou produzindo a união de seus membros endinheirados com nobres depauperados, mudando-se com seus títulos para castelos comprados e redecorados.

O que realmente importa para Proust é o processo que se desenvolve no plano psicológico, na alma e na “personalidade social”. Como exemplo, no volume “A Caminho de Swann”, Marcel indica metaforicamente os dois caminhos que levavam, por um lado à Méséglise, onde se localizava a casa de Swann, o lado burguês, por outro lado o caminho até o Castelo dos Guermantes, o da aristocracia. Eles, na juventude do Narrador, sempre haviam parecido ser opostos; aquele que levava à burguesia em transição era facilmente percorrível e o outro, o da aristocracia, muito mais distante e, devido “às dificuldades do caminho”, jamais fora alcançado nos passeios realizados pela família de Marcel. Com o passar dos anos, tendo a absorção da burguesia pela aristocracia já se concretizado, Gilberte, filha de Swann e casada com um aristocrata, diz ao Narrador: “Se quiser, poderemos sair uma tarde dessas e ir então a Guermantes, seguindo por Méséglise, esse é o caminho mais bonito”. Os dois lados não eram, em absoluto, irreconciliáveis e estavam muito mais próximos do que o Narrador supunha no passado.

Como outro exemplo, durante a Primeira Grande Guerra, a Sra. Verdurin (simbolizando a burguesia em ascensão), agora viúva, e a Sra.Bontemps, esposa de um antigo chefe de gabinete ministerial, agora Ministro (milionários graças à corrupção política), são elevadas à categoria social de “as rainhas de Paris”, desbancando de sua “pole position” a própria duquesa de Guermantes. Quando a guerra terminar, a viúva Verdurin transformar-se-á na Princesa de Guermantes, esposada por um velho aristocrata arruinado. “No período do pós-guerra, em todos os grandes hotéis, podiam ser vistas judias americanas de camisolas, apertando nos seios envelhecidos o colar de pérolas que lhes permitiria  casarem-se com um duque arruinado. O hotel Ritz, neste sentido, assemelhava-se à bolsa de valores.”

Finalmente, o nascimento da senhorita de Saint-Loup, filha de Gilberte Swann e Robert de Saint- Loup, um Guermantes, tornará  emblemática a fusão das elites sociais. A moça será o símbolo da confluência e junção das altas classes sociais, o encontro definitivo dos “Caminhos de Swann e de Guermantes.”

 

4. Os humildes e os serviçais

Proust possui uma visão peculiar dos operários, dos prestadores de serviço, dos pequenos comerciantes e dos serviçais que trabalham diretamente para a aristocracia e para a burguesia. Ele não hesita em reconhecer a poesia dos ignorantes ao lado da ignorância de tantos poetas, assim como da falta de elegância em tantos elegantes. “Para mim as classes de espírito nada têm a ver com as classes sociais. Toda condição social tem seu interesse e pode ser tão curioso para um artista mostrar os modos de uma rainha quanto os de uma costureira.

O Narrador descreve uma intensa relação com os serviçais das altas classes onde vivia e circulava. Uma das mais importantes figuras é Françoise, que serve sua família desde tempos muito antigos. Vale a pena que a tomemos como paradigma na análise.

Françoise absorve características do francês do campo, pouco influenciado pela metrópole; os seus afetos familiares são irrestritos; a sua forma de falar no “pataquá” através do qual se expressa junto aos que considera seus semelhantes. Como toda personagem, Françoise não poderia fugir da multiplicidade de seus eus, incorporando inclusive alguns aspectos de submissão e revolta contida, como herança dos tempos do feudalismo. “O perfil que traço para  Françoise realmente tem a ver com o camponês, com o que existe de profundo no interior da França. Por exemplo, ela para a filha e para os seus sobrinhos teria dado a vida sem uma queixa; mas, entretanto, era de uma dureza singular para com todos os outros seres que a cercavam.” “Para com as pessoas próximas ela não possuía qualquer tipo de compaixão ou solidariedade. Aliás, nisso assemelhando-se a tantos humanistas que são capazes de adorar a humanidade no geral, mas incapazes de solidarizar-se com o ser humano sofredor que esteja ao seu lado”.

Françoise, como governanta  jamais permitia que nenhum dos outro criados pudesse criar raízes na casa em que trabalhava. Recorria mesmo aos meios mais infames se necessário. Um exemplo deste tipo de comportamento é a tortura a que ela submete a sua ajudante de cozinha, na qual Swann identificava a expressão facial da “Caridade” de Giotto. Essa ajudante, estando grávida, teve seu parto cercado de grande sofrimento, pois Françoise se negara a permitir a assistência de uma parteira. Após o nascimento, o ódio pela mesma pessoa se agudiza, “dada a incapacidade de trabalho da parturiente”. Como não pode espancá-la, Françoise descarrega sua raiva em um frango que tem que matar, o que o faz do modo mais brutal e insensível, chamando-o de ”bicho imundo”.

Já em suas relações com os patrões, ela reproduzia, como muitas pessoas que chegaram a viver sob o feudalismo, aspectos de submissão travestidos de “amor ao senhor”, assim como a incorporação de valores já então arcaicos. Para Françoise, a riqueza era uma condição necessária da virtude, cuja falta faria a virtude ser destituída de mérito e de encanto. Ou seja, a riqueza dos senhores era o principal critério acima de qualquer propalada virtude. Françoise, enquanto cuidava de tia Leonie, a quem considerava sua real patroa, vivia sob o medo de suas cóleras, sob suas palavras amargas e suspeitas. Toda essa agressão tinha desenvolvido nela um sentimento que as pessoas tomavam por ódio, mas que na verdade era veneração e amor pelo superior.

Segundo o seu “código” de honra, desejar a morte de um inimigo, matá-lo mesmo, não é proibido, mas é horrível não cumprir pequenos deveres, não retribuir uma gentileza, partir como uma “grosseira sem dizer adeus a uma governanta de hotel”. Trata-se ainda aqui de uma absorção da moral e do formalismo de seus senhores ancestrais, facilmente comparáveis, em outra escala, ao dos aristocratas.

Mas toda essa submissão contém determinados limites. “Em Françoise o culto da nobreza é misturado e acomodado a certo espírito de revolta contra ela, hereditariamente bebido nas glebas da França e que fora tão intenso como no seio do próprio povo.”

Marcel se insurge contra a exclusão das pessoas humildes dos processos educativos que tornariam seus destinos menos injustos: “Eu me pergunto se não há entre os nossos irmãos humildes, os camponeses, criaturas que são seres humanos superiores, num mundo dos simples de espírito, que foram condenados por um destino injusto a jamais poderem ter acesso ao mundo das ideias; foram privados de luz, e no entanto, são naturalmente mais aparentados com as naturezas de escol do que a maioria das pessoas instruídas. Françoise possuía claridade no olhar, o traçado delicado do nariz e dos lábios, todos esses testemunhos que muitas pessoas cultas não possuíam”. Apenas para encerrarmos este tópico, quando um Elstir pintava um quadro mitológico ele tomava como modelo de Vênus ou de Ceres raparigas do povo que exercem as profissões mais humildes, acrescentando-lhes, ou melhor, restituindo-lhes os diversos atributos de beleza dos quais estavam despojadas por suas ocupações.

 

5. Os seres “políticos”

Dentre os argumentos de “em Busca do Tempo Perdido” encontra-se a “política”. Não se trata da prática partidária dado que nem Proust, nem o Narrador jamais buscaram qualquer tipo de engajamento formal.  Trata-se da análise de um tipo humano especial: o político.  Marcel comenta ainda a esse respeito: “Para compreender um político é sempre necessário ler na entrelinha do que dizem”. “Como exemplo, jamais eles chegam a ser exonerados dos altos postos- talvez porque deveriam ter que responderem pelos seus erros- eles sempre pedem suas demissões.”

Quando vemos de perto os seres políticos esta tal “estática” é muitíssimo mais dinâmica que, por exemplo, nas tendências literárias, pois eles mudam rápida e frequentemente de modo de ação e de grupamento de ideias. É um dinamismo que varre os conservadores, os radicais e os republicanos. “É preciso ter visto antes o político que passa por ser o mais íntegro, o mais intransigente, o mais inabordável desde que tenha se instalado no poder. É preciso tê-lo visto no tempo de sua desgraça, mendigar timidamente, com um sorriso radiante e amoroso a saudação altiva de um jornalista anônimo, participar de toda e qualquer atividade que lhe desse visibilidade e emitir os sinais de energia que o creditassem como empreendedor.”

Ao contrário do que acontece no mundo artístico, repetir o que todo mundo pensa não é em política sinal de inferioridade, mas de superioridade. O político de sucesso diz sempre o que o povo espera que ele diga nada mais. E jamais responde a qualquer interrupção, isto porque possui neste instante, a habilidade de tornar-se surdo. “Logo, o hábito da política faz com que a calma que todo homem público precisa incorporar se desenvolva como hábito mesmo de conversação.” “Sabendo que conservará o domínio da mesma sempre, deixa o interlocutor agitar-se, esforçar-se, penar à vontade. E disso, o político muitas vezes extrai o que irá dizer que será exatamente o que se queria ouvir do mesmo.”

“Os semi-espíritos são mais ativos que os espíritos superiores, pois têm a necessidade de se complementarem pela ação; agindo assim atraem para si a multidão e criam em volta não somente as reputações exaltadas e os desprezos injustos, mas as guerras civis e as guerras externas, que com um pouco de autocrítica poderiam ser evitadas.” Na humanidade a regra – que comporta exceções naturalmente- é que os duros são débeis rechaçados e que os fortes, sem se preocupar com os que os queiram ou não, são os únicos que têm essa doçura que o vulgo toma por fraqueza.

 “Temos tido muitas revoluções desde 1789. A nossa experiência nos revela que as revoluções terminam sempre em tiranias, que os Partidos se dissolvem que as divergências são esquecidas e que os adversários de hoje serão os aliados amanhã. O adversário político, que, apesar de raciocínios e provas, considerava como traidor o sectário da doutrina oposta, chega a compartilhar das detestadas convicções quando já não interessam àquele que antes tentava inutilmente difundi-las. Esta costuma ser “a fortaleza” das convicções políticas.” “As paixões políticas são como as outras paixões humanas, elas não duram”.

 “Os homens da política se procuram num regime novo a continuação do antigo, fazem-no sob uma forma diferente, que permita às pessoas serem enganadas e acreditarem que não era a mesma sociedade de antes da crise. Um chefe político, por exemplo, é obrigado a admitir ser horrível a mentira, pese que isso obrigue o mais das vezes a mentir ainda mais que os outros, sem retirar, entretanto, a sua máscara de respeitabilidade, sem depor a “personna” augusta da sinceridade.”

O personagem Narrador diz em certo momento que o passar do tempo “formava as aparências contrastantes da vida política, em que  se viam em um mesmo ministério pessoas que se tinham acusado mutuamente de assassinato ou traição, confraternizando-se”. “Toda decadência aceita tem como resultado tornar as pessoas menos exigentes no tocante àqueles espíritos com que se resignaram a conviver, menos exigentes tanto quanto ao espírito como quanto ao resto.”

As diplomacias assim como a política são puros ramos de negócio. Na linguagem diplomática, assim como na política, quando uma pessoa é chamada a conversar sempre o será para algum oferecimento, para uma transação comercial. No romance existe um político de primeira grandeza que se dedica à diplomacia, o Sr. Norpois. Colega de Conselho do pai do Narrador é um constante comensal à mesa de seus pais. “O Sr. Norpois é um exemplar do político profissional. Ele estará sempre aberto a aproveitar todas as ocasiões em que poderá desfrutar de prestígio ou empanturrar-se de comida sem assumir suas custas. Mas nunca se espere nenhum favor de um político, pois ele jamais fará algo por amizade, já que para ele, não existem amigos, apenas correligionários e “contatos”. Os políticos somente entendem o jogo de trocas, apesar de nas aparências colocarem o coração em suas palavras: “meu amigo, meu camarada, meu companheiro de lutas”.

Dado que os políticos são negociantes, os golpes contra o erário público se sucedem na obra de Proust. Marcel fala a respeito de um antigo presidente do Conselho de Ministros, que antes fora objeto de processos criminais, tendo sido execrado pela alta sociedade e pelo povo. Porém, graças à renovação dos indivíduos e das alterações das paixões políticas, ninguém mais se lembrava dele. “Na ocasião de seus tormentos, nada o consolava de ser chamado de “tubarão” pela turba de punhos cerrados quando entrava no “tintureiro da polícia”. Mas com o passar dos anos, resignamo-nos a toda humilhação, sabendo que o tempo tornará nossas culpas invisíveis; isso fizera com que aquele político retornasse à ativa e participasse de um novo gabinete, nomeado pela integridade de seu talento.”

A reação das pessoas mais simples à ação de rapina dos cofres públicos realizada por grande parte dos políticos é refletida no modo de pensar de um mordomo. Uma postura de conformidade do homem humilde, simples, do povo, como se da função pública o roubo fosse o esperável. Marcel diz que “o mordomo estava longe de censurá-lo, não que ele fosse perfeitamente honesto, mas, julgando venais todos os políticos, o crime de concussão lhe parecia menos grave que o mais leve delito de roubo”. O mordomo indaga ao Narrador: “Diga-me, meu amigo, em que época da história da humanidade deixou de haver um homem público tido como santo por seus amigos e que se descobriu ter feito falsificações, roubado o Estado e até mesmo traído a sua Pátria?”

Marcel Proust vai ainda mais longe ao analisar “o ser político”, considerando que a prática da política modifica não apenas a personalidade, mas lhes transfigura a própria aparência. Ao final do romance, ao descrever um amigo, Marcel destaca as mudanças ocorridas naquele que fora seu companheiro durante dez anos, uma pessoa sensível, mas que depois disso se transformara em um político influente. “No passado, aquele ser que na juventude tivera olhos azuis, sempre risonhos, perpetuamente em movimento, em busca de algo desinteressado, sem dúvida a verdade perseguida em constante incerteza, com seu jeito folgazão, era respeitado e respeitador de todos os amigos. Agora, no presente, um político capaz, despótico, os olhos azuis que, aliás, como não haviam encontrado o que procuravam, tinham se imobilizado, o que lhe conferia um olhar agudo, como se saísse debaixo de um sobrecenho franzido. Assim, a expressão de alegria, de abandono e de inocência se transformara num acento de astúcia e dissimulação”. Transformara-se num “ser político”.

 

6. O caso Dreyfus e o anti-semitismo

Marcel Proust engajou-se na defesa da revisão do caso Dreyfus. Dreyfus era um capitão agregado ao Alto Comando do Exército. Em 1894, foi preso e  acusado de espionagem para os alemães. Como mais tarde se comprovou, o  fulcro da questão consistia em Dreyfus ser judeu, não em haver sido agente dos “boches”, logo sua acusação tinha como pano de fundo o anti-semitismo, já denunciado pelo “Le Figaro” em 1891. Além disso, encobria também toda uma concorrência por cargos e dinheiro na sociedade e nas Forças Armadas. O capitão fora escolhido como o “o bode expiatório de Abraão”.

Proust acreditava que o militarismo e o anti-dreyfusismo se interpenetravam. Seu posicionamento político fica claríssimo no expressar de Marcel: “Acompanhando o desenvolvimento deste “affair” chegaremos, muitas vezes com os mesmos atores, às  vezes em papéis invertidos, às verdades e às contra-verdades que entre si opõem hoje os componentes da Liga da Pátria Francesa- que urgem por soluções militares em todos os conflitos- e os intelectuais e os trabalhadores dos Direitos do Homem, divisão esta que se propaga de fato, desde o alto até as profundezas do povo.”

Proust, filho de mãe judia, tinha consciência de que a questão judaica era diferente na França quando comparada aos países da Europa Central, onde o anti-semitismo era muito mais aguçado. Os judeus franceses haviam sido muito melhor absorvidos pela sociedade.

O caso Dreyfus representou a oportunidade política de ascensão do anti-semitismo e do militarismo na França. De toda forma, passado o impacto dos primeiros anos, já por volta de 1897 e 1898, parcela importante da sociedade, incluindo intelectuais e dentre eles, Emile Zolá com o seu famoso “J’Accuse” e oficiais do Exército como o corajoso coronel Picquart, solidarizaram-se com o capitão injustiçado e exigiram que o caso fosse reaberto e a punição revista.

Não coincidentemente, quase toda a aristocracia e a alta burguesia manifestavam-se a favor do Alto Comando do Exército e pela punição do acusado, que, aliás, fora julgado em tempo recorde, condenado e degredado na Ilha do Diabo. Num trecho da obra, Swann, que era semita por parte de mãe (como o próprio escritor), explica ao Narrador o motivo do anti-dreyfusismo na aristocracia decadente: “primeiro porque toda essa gente é anti-semita... mas enfim, o que quer o senhor, todos eles pertencem a uma outra raça, pois não se tem impunemente mil anos de feudalismo no sangue.”

Ilustra uma das manifestações de anti-semitismo, o trabalho reporta uma exposição do Duque de Guermantes, a respeito da perda de uma eleição à Presidência do Joquey Clube: “Se um francês rouba, assassina, eu não me julgo obrigado, por ele ser francês como eu, a considerá-lo inocente. Os judeus, porém, nunca reconhecerão como traidor um de seus concidadãos, embora saibam muito bem que o é, e pouco se preocupam com as repercussões, donde se deveria expulsar todos os judeus do país.”

Em contra- partida às ações das altas classes, o movimento pela revisão do caso Dreyfus funda em Paris a Liga dos Direitos Humanos, da qual Proust tomou parte, defendendo os princípios de 1789, possuindo a civilização e o progresso como seu lema. Como bandeira de luta encabeça a defesa de Émile Zolá, que estava sendo processado por conta de seu veemente manifesto antimilitarista.

A pressão social aumenta começando pelos intelectuais, incorporando os  sindicatos e mesmo círculos militares cada vez mais extensos, fazendo com que os representantes da aristocracia decadente e da burguesia perdulária tornem-se minoritários. Ao final de 1898, sob grande pressão, o major Henry, forjador confesso das provas contra Dreyfus, suicida-se, comprovando-se que a farsa da espionagem era nada mais que isto, uma farsa anti-semita. E com o perdão presidencial a Dreyfus teve início a reversão de um processo em que os dreyfusistas passaram ao primeiro plano na política. “Em Busca do Tempo Perdido” reflete o que se viveu naquele momento, pois, de repente, na política sobravam apenas os dreyfusistas, visto que tiveram que adotar esse mesmo rótulo todos aqueles que desejavam participar do governo.

Além do “caso Dreyfus” em nenhum momento Marcel Proust enobrece os seus personagens judeus por serem judeus. “Meus personagens, os modelos judeus, são compostos por seres humanos imaginados, tomados a diversos modelos recordados, tais como os outros modelos, os não judeus. Como todos, são humanos... Não enobreço grupo raciais pois somente seremos nós mesmos quando deixamos de pertencer a todo e qualquer grupo. Devo, entretanto, reconhecer que os judeus constituem um raça forte de enorme energia vital e resistência à morte.”

7. A guerra e a paz

Após o movimento pela “revisão do caso Dreyfus”, Proust, que dentre suas amizades contava com a do dirigente socialista e pacifista Jaurés, (assassinado por militaristas no início dos conflitos de 1914), também se engajou no movimento pela paz. “Creio que sempre aqueles que em todos os confrontos buscam alternativas de força como solução nacional têm um prazer insólito em intitularem-se patriotas. É uma forma de acusar de impatriotas e traidores todos aqueles que buscam alternativas no diálogo, na defesa dos direitos do homem, e que insistem em alternativas que permitam aos povos sentirem que as soluções encontradas devam ser justas para ambas as partes, e que existe sempre uma alternativa política e humanista à beligerância.”

Para Marcel, os objetivos imperialistas das elites não se coadunavam com o pensar dos povos: “O povo é de índole pacifista; se é guerreiro, o é instintivamente por ódio, por rancor, e não pelos motivos que movem os estadistas.”

Ainda no início da guerra, Marcel previa a possibilidade de uma hecatombe: “Os civis sempre imaginam que a guerra é como uma gigantesca luta de boxe, à qual podem assistir de longe, graças aos jornais. Mas estão redondamente enganados. A beligerância é como uma doença que quando parece debelada num ponto, reaparece em outro. Nesse sentido, perder o caminho não é nada; o pior é não mais conseguir encontrá-lo.” Um de seus personagens compreendia a extensão dos desastres que  uma guerra em 1914 traria para todos os lados beligerantes, comparativamente às travadas no passado: “Basta pensares no que seria uma guerra hoje. Seria mais catastrófica do que o Dilúvio e o Crepúsculo dos Deuses. Apenas que duraria menos tempo”.

Nos volumes de “Em Busca do Tempo Perdido” escritos no auge da guerra, Marcel confessa: “O que vemos hoje é em cada regimento de retaguarda um oficial francês a preparar os franceses para a carnificina, quer dizer, para a guerra! Estranha e triste época!

“A cada  manhã a guerra é novamente declarada. Portanto, aquele que pretende prossegui-la é tão culpado quanto aquele que a principiou, talvez até mais, pois o primeiro não lhe previa todos os horrores”.

“Entre nós franceses existiu e ainda persiste nestes anos de guerra uma tendência a julgar a Alemanha e os alemães como um povo destituído de humanidade, tal o nível de perversidade, por exemplo, aplicada pelos invasores à Bélgica... O fato é que semelhante perversidade não é absolutamente intrínseca à Alemanha. As atrocidades na Bélgica são reais, mas não nos podemos enganar diante de um mesmo fenômeno, que sempre se faz acompanhar por teorias como a da impossibilidade da raça judia em se naturalizar, do ódio perpétuo da raça alemã contra a latina ou da reabilitação momentânea da raça amarela.”

Dizem que a guerra é uma ciência, que seus movimentos são científicos, previsíveis. Marcel se insurge a respeito dos diversos enfoques sobre o positivismo da “ciência chamada guerra”. “A guerra é, antes de tudo, humana, vivida como um amor ou um ódio... Caso a guerra seja considerada como um tipo qualquer de ciência, que seja catalogada como aquela que destrói homens, seus sonhos e suas realizações, os frutos de seus sonhos de um mundo mais “humano”. A destruição do patrimônio artístico e histórico da humanidade é uma constante em todas as guerras, em todos os tempos. Quantas cidades inteiras já desapareceram e quantas ainda desaparecerão? 

Sobre a paz  estabelecida em 1918 Marcel relatará uma carta recebida do front e escrita pelo seu amigo, oficial Saint-Loup, pouco tempo antes de tombar: ele combatera exemplarmente os alemães, mas jamais homem algum tivera menos que ele ódio a um povo, muito menos ao germanismo e na última visita que fizera ao Narrador, chegara à casa deste cantando uma das “lieds” de Schumann. Em sua carta dizia: “Ora, sabemos que alcançaremos a vitória, e a queremos para ditar uma paz justa, não digo unicamente justa para nós, mas verdadeiramente justa, justa para os franceses, justa para os alemães”.

E numa visão extraordinária sobre os dias futuros em que nova guerra atormentaria o Planeta, Proust escreve por meio de um de seus personagens: “Eu asseguro que se a paz quando chegar não for uma paz justa, mas se o que se estabelecer for o “justo” apenas para o lado vencedor, mas vexatório e injusto para o vencido, uma nova e ainda mais mortífera guerra nos aguardará num futuro próximo. O Sr. de Charlus diz que nossos políticos não conhecem a força da Alemanha, a virtude da raça prussiana. A paz já inaugurará o tempo para um novo desastre!”

Marcel Proust deixa claro que a guerra não afeta as pessoas de um modo idêntico, muito ao contrário. As multidões de desempregados, desocupados, desiludidos  que haviam sido incorporados ao Exército e que, muitas vezes, nem mesmo retornavam das trincheiras foram sempre os mais afetados. Seus corpos lá permaneciam; outros voltavam e a multidão, que antes era formada por pessoas sem emprego, agora disputava espaço com os mutilados. Ao mesmo tempo, nas altas rodas, o desastre que era a guerra apenas suscitava atitudes hipócritas, esnobes e pedantes.

“Comecemos pelos mais destroçados pela máquina humana da morte, os que não morreram e voltavam mutilados, milhares deles, essa era uma realidade que nos estorvava a cada instante, que só eram “lembrados” pelos burgueses e aristocratas nos chás beneficentes: a caridade nas altas esferas era destinada aos mutilados de guerra. “Proliferavam os chás em que se “obrigava” as damas de altos turbantes a permanecerem às mesas de bridge comentando as notícias do front, enquanto nos carros que as esperavam um militar conversava com um lacaio.”  Ou seja, como desvirtuada de sua grandeza humana, até mesmo a caridade aos mutilados  foi transformada em esnobismo social.

À hora do jantar os restaurantes estavam sempre cheios.  Passeando pela rua Marcel via um pobre soldado de licença e prestes a voltar às trincheiras deter os seus olhos por um instante nas vidraças iluminadas. “O soldado sofria mais, pois ele sabia que sua miséria era ainda pior que a dos pobres, mesmo porque ela abrangia todas as misérias, sendo até mesmo mais tocante e mais nobre por ser resignada. Sacudia a cabeça, pronto para retornar à guerra, murmurando ao ver aqueles que, por possuírem um emprego civil e “padrinhos” escapavam do recrutamento e se acotovelavam para obterem lugares às mesas.” “Nem se diria que existe guerra por aqui”,  era tudo o que o pobre soldado resmungava e seguia com o estômago vazio e na boca um travo amargo.

Os negócios não sofreram interrupção durante a guerra, apenas mudaram de patamar e de estilo. “As damas nobres e ricas  tanto pelo sentido das conveniências quanto pelo medo dos impostos,  trocavam suas “mousselines” por roupas mais modestas, ao passo que os homens da bolsa de valores não cessavam de adquirir diamantes, não para suas esposas ou amantes, mas como refúgio em uma riqueza palpável.”

O Louvre permaneceu fechado quando os combates se aproximaram de Paris. Quando se lia na manchete de um jornal: “Uma exposição sensacional”, podia-se ter certeza de que se tratava não de uma exposição de quadros, mas de vestidos. “Deste modo, nos tempos de guerra é que voltava a elegância, que na falta das artes, buscava se desculpar no prazer. Assim procediam em 1916 os costureiros, com orgulhosa consciência de artistas e confessavam que, procurar o novo, afastar-se da banalidade, afirmar uma personalidade significava preparar a vitória, libertar uma geração pós-guerra, e que isso era uma nova forma do belo e se empenhavam com toda a alma. A palavra de ordem em seus salões alegres e luminosos era apagar as “pesadas tristezas da ocasião”, embora mantendo a discrição imposta pelas circunstâncias.”

“Assim falavam essa novidade da modernidade, os estilistas da alta moda, banalizadores da carnificina. E quando a possibilidade de vitória é visualizada, agora então toda a moda passa a ser influenciada pela guerra; surgem as túnicas egípcias retas, escuras e ao gosto militar, altos turbantes cilíndricos, sapatos atados por correias, lembrando coturnos, ou longas polainas como a dos combatentes, anéis e braceletes feitos de obuses.”

Proust acreditou sempre na possibilidade de existência de uma sociedade mais democrática e mais igualitária.  “Uma sociedade que fosse verdadeiramente democrática não mais seria secretamente hierarquizada. Acho também que os antigos, aqueles dos tempos clássicos, não amavam menos intensamente o grupamento humano a que se devotavam porque este não excedia os limites da cidade, nem os homens de hoje amam menos a sua Pátria do que aqueles que amarão os Estados Unidos de Toda a Terra.”

 

8. As inovações e as agressões à natureza

O mundo de Proust, principalmente nas duas últimas décadas do século XIX, tornou-se um universo revolucionado pela ciência e pelas inovações tecnológicas. Para Marcel, “todos os frutos da modernidade têm sido incríveis e eles criam costumes outros, libertam as pessoas, deixam o mundo ao alcance das mãos.”

“As raparigas em flor” desfilam com suas bicicletas em Balbec ostentando curtos e ajustados calções, são personagens de um início de ruptura com um preconceito social machista. “Na minha juventude a bicicleta  inaugurou não somente uma era de mais liberdade, da  busca da velocidade, mas também de culto ao físico”.

A fotografia e as câmaras cinematográficas foram de especial importância para um memorialista. “Muitas características físicas e mesmo algumas  psicológicas de meus personagens surgem do estudo de fotos antigas que possuo.” “As fotografias, de um modo único, podem se apoderar de coisas transitórias que têm o direito a algum lugar na memória, como se fossem um objeto de percepção.”

O telefone,  no início de sua invenção,  era um teatrofone. “Que privilégio escutar à distância um concerto ou uma ópera estando em seu lugar de conforto, sem precisar incomodar-se indo a um teatro!”  Quando o uso doméstico do telefone se disseminou, surgiram as “Virgens Vigilantes”, ou seja, as telefonistas, “cuja voz podemos ouvir sem jamais conhecer-lhes o rosto, e que são anjos da guarda nas trevas vertiginosas cujas portas vigiam com ciúmes. São as Todo-Poderosas por fazerem surgir  ao nosso lado a voz dos ausentes; as Danaides do invisível que sem cessar esvaziam, voltam a encher e transmitem as urnas de sons; as irônicas Fúrias, que no momento em que murmuramos uma confidência a uma amiga nos dizem: “Estou ouvindo!” Enfim, as servas sempre irritadas do Mistério, as desconfiadas sacerdotisas do Invisível, as Senhoritas do Telefone!”

O automóvel foi um invento maravilhoso, “um quadriciclo movido a gasolina que tornou a locomoção elegante, cômoda e ainda mais rápida”. “Hoje as pessoas viajam constantemente, as estradas recebem pavimentação ou as ferrovias cortam os caminhos com seus trilhos de aço, conectando até mesmos países diferentes. Sei que somos todos obrigados, para suportar a realidade,  alimentar algumas pequenas  loucuras, mas é o preço a pagar pelo progresso, por tanta novidade.”

Mas Proust coloca seus contrapontos a tantas maravilhas do progresso. O Sr. de Charlus nos diz que tudo o que nos parece imperecível tende à destruição; uma situação mundana, como qualquer outra coisa, não é criada de uma vez para todas, mas exatamente como o poderio de um império, e reconstrói-se a cada instante por uma espécie de recriação contínua, o que explica as aparentes anomalias da história política de meio século. “A criação do mundo não teve lugar num começo; ela ocorre todos os dias.”

E chega a esgrimir uma preocupação ecológica que somente voltaria à baila no final do século XX: “Até onde poderão os negócios humanos explorar recursos desta natureza já um tanto cansada?” Marcel pondera: “As pessoas em geral se entregam a seus prazeres sem jamais pensar que, cessando as influências estiolantes e moderadoras, a proliferação dos infusórios atingiria o seu máximo, ou seja, terminariam tendo destruído todo o oxigênio, todas as substâncias de que vivemos; e que não haveria mais humanidade, nem animais, nem terra; ou sem calcular que uma irremediável e muito verossímil catástofre poderá ser determinada no éter pela atividade frenética e incessante que se oculta sob a aparente imutabilidade do sol: ocupam-se de seus negócios, sem pensar nesses dois mundos, um pequeno demais, outro demasiado grande para que se apercebam das ameaças do cosmos que pairam sobre nós.”

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