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Marcel Proust

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“Uma Introdução à Leitura de Em busca do Tempo Perdido”

VI. Multiplicidade de nossos eus e seus sentires

Um dos assuntos que Proust se dedica a explorar com profundidade são as diferentes facetas que o “eu” apresenta, a dissociação dos estados da alma, a independência dos elementos que compõem a vida interior, e, em decorrência disso, a multiplicidade da personalidade.

Para o autor, o homem é o ser que se dissipa e dissocia. Nada permanece estável e uniforme nem mesmo aquilo em que se toca. Tudo se move e decompõe incessantemente, resultando a precariedade da realidade: “O relativo para mim é o absoluto e quaisquer valores permanentes ou supremos perderam seus sentidos, quer se trate de valores sociais quer psicológicos.”

O que se chama experiência não passa da revelação a nossos próprios olhos, um traço de nosso caráter que reaparece naturalmente, e o faz com tanto mais força quanto o havíamos revelado a nós mesmos uma vez, de tal modo que mesmo um movimento espontâneo se encontra reforçado por todas as sugestões da lembrança.

“Marcel pondera que talvez nele, e em muitas outras pessoas, o segundo homem em que se tornara, o seu duplo, fosse simplesmente uma faceta do primeiro, exaltado e sensível ao lado de si próprio, daquele Marcel ajuizado.” A dúvida é em qual deles Marcel desejaria se transformar? Ou não seria o caso de transformação e como a deusa das duas faces dos romanos, cada uma delas virada para o lado oposto à outra, ele apresentaria socialmente  a que mais lhe agradasse a cada momento. Essa capacidade de multiplicidade transforma o homem em um ser sempre múltiplo, complexo e dificilmente acessível.

É importante assinalar que, diferentemente de Pirandello, tanto a multiplicidade quanto a dissociabilidade do eu mantêm como paradigma a permanência de um elo que Proust caracteriza como a matéria essencial de todo o ser. Ela permanece sendo a mesma e única até a morte, dando consistência àquelas diferentes facetas da personalidade. “Em muitos seres há diversas facetas que não se assemelham; conhece-se uma, depois a outra, mas no dia seguinte a ordem se inverteu, mas é e será sempre o mesmo ser, em sua essência.”

“Podemos nos entregar, à nossa escolha, a uma ou outra de duas forças: uma se ergue de nós mesmos, emana de nossas impressões profundas; a outra nos vem de fora. Acredito que trabalhamos a todo instante para dar uma forma à nossa vida, mas copiando, malgrado nosso, como um desenho, os traços da pessoa que somos e não daquela que nos agradaria ser.” Isso de certa forma desenvolve em nosso íntimo uma certeza de nossa incapacidade de nos transformarmos, como se perseguíssemos uma sombra sem jamais conseguir tocá-la.

O Tempo transforma nosso “eu”. O narrador utiliza como exemplo um livro que já lemos, uma música que ouvimos no passado, que se associaram tão fielmente ao que éramos então, que só podem ser sentidos e repensados pela pessoa que éramos naquele tempo. “Mas não nos afligimos de nos havermos tornado outro devido à passagem do tempo mais do que nos afligiríamos em certa época por termos sido, alternativamente, indivíduos contraditórios. O malvado, o sensível, o delicado, o patife, o desinteressado, o ambicioso, como alternativamente o somos também todos os dias.”

“Alguns desejam apaixonadamente que haja uma outra vida, onde seriam iguais ao que idealizariam para si nesse mundo. Mas não é necessário esperar pela outra vida; nesta daqui mesmo, ao fim de alguns anos, tornamo-nos infiéis ao que fomos, ao que desejaríamos imortalmente permanecer. Ainda sem supor que a morte nos modifique mais do que essas mudanças que se dão no curso da vida, se nessa outra vida encontrássemos o eu que já fomos, desviar-nos-íamos de nós mesmos, como dessas pessoas com quem já não nos damos há tanto tempo. Sonha-se muito com o paraíso, ou antes, com inúmeros paraísos sucessivos, mas são todos, ainda antes que se morra, paraísos perdidos e onde a gente se sentiria, por sua vez, perdido.”

As sucessivas “personnas” que terminamos sendo, entretanto, interagem e dependem da nossa vontade.“Vejo a vontade como uma serva perseverante e imutável de nossas personalidades sucessivas; ela oculta-se na sombra, mesmo que desdenhada, mas incansavelmente fiel, trabalhando sem cessar e sem preocupar-se com as variações de nosso eu, para que não lhe falte nada do que necessite. Tudo quanto tem de mutáveis a sensibilidade e a inteligência, tem-no ela firme; mas como é calada e não expõe seus motivos, quase parece que não existe, e as partes restantes do nosso eu obedecem às decisões da vontade sem dar por isso, ao passo que, por outro lado, percebem muito bem suas próprias incertezas.”

Mesmo a imagem que possuímos das pessoas está em nós mesmos e não naquela que se encontra em frente da gente. “Nossos leitores devem saber que descobrir a verdadeira vida do próximo, o universo real que subexiste sob o universo aparente,  causa-nos  tanta surpresa como visitar uma casa de boa aparência  e encontrá-la cheia de tesouros, cadáveres e ferramentas; e não é menor a surpresa quando, em vez da imagem que havíamos formado de nós mesmos, graças ao que dizem da gente,  certificamo-nos pelo que essas pessoas dizem quando estamos ausentes da imagem inteiramente diversa que guardam de nós e da nossa vida.”

  1. A esperança de ser feliz e a impossibilidade psicológica da felicidade

Apesar de o Narrador (Marcel) buscar ansiosamente pela felicidade, Proust  nos confidencia  que a felicidade é algo dificilmente realizável,  pois a cada momento, no derradeiro momento de sermos felizes, ela, como a água, escorre, escapa-nos. A infelicidade assume o lugar de um sentir natural o que, por sua vez, torna a felicidade um sentimento anti-natura.

“Mesmo que as circunstâncias estejam sob nosso controle, a própria Natureza transporta a luta de fora para dentro de nós mesmos, e pouco a pouco vai fazendo mudar o nosso coração até que ele deseje uma realidade diferente do que se queria possuir... Se foi tão rápida a peripécia que nosso coração não teve tempo de mudar, nem por isso perde a Natureza a esperança de vencer-nos, na verdade, de maneira sutil e eficaz. Então, no derradeiro momento, a posse da felicidade nos escapa, ou melhor, a essa mesma posse encarrega a Natureza com argúcia diabólica de destruir, pois vendo-se vencida nos campos dos fatos e da vida, ela cria agora uma impossibilidade final: a impossibilidade psicológica da felicidade.”

Apesar disso ou por esse motivo somos muitas vezes assaltados pela sensação da felicidade perdida, aquela que poderíamos ter sentido no passado, a que chega quando já não a podemos desfrutar, quando já não resta amor. “Só há uma pessoa capaz de resolver essa questão, a da felicidade cuja falta tanto nos fez sofrer outrora: é o nosso eu daquele tempo; mas esse já não existe”. Somos incapazes de ressuscitar a nós mesmo, de ressuscitar o eu de antigamente.

Na realidade é a nossa previsão, nossa esperança de acontecimentos felizes, que nos enche de uma alegria que atribuímos a outras causas, e que quando a esperança termina, nos deixa recair no desgosto, pois  já não temos tanta certeza de que se realizará aquilo que desejamos. Apesar disso, é sempre a crença invisível na esperança  que sustenta o edifício de nosso mundo sensitivo e sem a qual ele oscilaria. Da mesma maneira nos dá a possibilidade de suportar um desgosto que nos parece medíocre, sobretudo porque estamos convencidos de que irá se findar. Ou seja, a esperança da felicidade nunca nos abandona.

“E constitui esta busca incansável pelo frescor dos momento felizes o que nos proporciona o desejo de viver,  que em nós renasce a cada vez que recuperamos a consciência da felicidade e da beleza.” Para Proust a felicidade ocorre, acolhe-nos, mas é como um fim que se esgota por si mesmo.

A maior parte das obras de arte também se nutrem de emoções e essas não são necessariamente as felizes. Na  Odisseia, Homero já dizia que os deuses deram desventuras aos homens para que eles pudessem cantá-las, ou seja, as mazelas criando a estética, a essência da obra de arte. Talvez por isso mesmo, um artista possui certo gozo no sofrimento, e ele mesmo torna-se parte essencial da criação estética. “Acredito que aquele que consegue criar uma obra de arte extrai do sofrer certo deleite. Há momentos na vida em que uma espécie de beleza nasce justamente da multiplicidade de aborrecimentos que nos assaltam, entrecruzados, como o são os motivos wagnerianos. Não é somente a arte que dá encanto e mistério às coisas mais insignificantes; esse mesmo poder de relacioná-las intimamente conosco também é atribuído à dor, pois a dor é poderosa transformadora da realidade.”

  1. Hábitos e mudanças

O Imperador Adriano, na voz de Yourcenar, predicava que sua vida oscilava entre as delícias do caos e a paz da estabilidade. Encontrar o equilíbrio entre as forças do hábito, da verdade, do intelecto, enfim nas suas fontes apolíneas, e as forças das mudanças, do caos, das loucuras, nas forças do tirso dionísico, seria, no sentido proustiano, uma das chaves da felicidade e do autêntico equilíbrio da psiquê.

“O hábito, a estabilidade são essas mil raízes, esses inumeráveis fios que são as lembranças do serão da véspera, as esperanças da manhã do dia seguinte, é essa trama contínua de hábitos, dos quais não nos podemos libertar. Assim como há avarentos que economizam por generosidade, somos perdulários que gastamos por avareza.”

“Creio que a ansiedade normalmente é criada pelo hábito. Muitas vezes achamos que nossa felicidade depende de determinada pessoa: na realidade, depende exclusivamente do fim de nossa ansiedade.. . Ah, o hábito! É uma arrumadeira hábil mas bastante morosa e que principia por deixar sofrer nosso espírito durante semanas numa instalação provisória; mas que, apesar de tudo, a gente se sente feliz por encontrá-la, pois sem o hábito e reduzido a seus próprios meios, seria nosso espírito impotente para tornar habitável qualquer aposento. No entanto, estamos a modificar incansavelmente a morada ao redor de nós, e, à medida que o hábito nos dispensa de sentir, suprimimos os elementos nocivos de dor, de dimensão, e de odor que objetivavam o nosso mal-estar.”

Sem livrar-se do hábito, como provar as delícias do inusitado? “Erguendo uma ponta do pesado véu do hábito, - hábito embrutecedor que, durante toda a nossa vida, sob sua etiqueta inalterada, substitui os mais perigosos e inebriantes venenos da vida por algo de anódino.” “Ocorre-me se não fosse a força do hábito, possivelmente a vida deveria parecer deliciosa aos seres que estivessem ameaçados de morrer a todo instante, isto é, a todos os seres humanos.”

Mas a ruptura do hábito geralmente conduz o Narrador a um enorme estado de angústia, e, como  decorrência, a costumeira busca por calmantes. O mais poderoso que ele encontra é o esquecimento. Para Proust, é como se possuíssemos certos “eus” de reserva para substituir aquele que foi terrivelmente contaminado pelo sofrer. “Nossos “eus” de reserva, são soldados disciplinados e prontos para seguir ao front de combate, acalentando-nos, socorrendo-nos e, de certo modo, preparando-nos para  nossas novas ilusões.”

 “Esta substituição por outro de nós é realizada de tempos em tempos mas à qual só prestamos atenção se nosso antigo eu carregava uma grande dor, que nos surpreendemos de não encontrar mais, pois nos transformamos em outra criatura para a qual, o sofrimento da predecessor não passa de sofrimento de outrem, da qual poderá falar com piedade, pois não o sente mais.”

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