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Marcel Proust

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“Uma Introdução à Leitura de Em busca do Tempo Perdido”

VII. Sonhos, o mágico e o inconsciente

“Em Busca do Tempo Perdido”, ao lado da memória involuntária de que é tecido, traz a marca indelével dos sonhos e dos pesadelos de seu Narrador, e, naturalmente, a de seu criador. Nesse sentido, talvez nada expresse melhor “Em Busca do Tempo Perdido” que uma frase de Shakespeare em “A Tempestade”: “somos feitos da mesma matéria de que são compostos os sonhos”. Na obra de Proust a vida se assemelha a um sonho e o sonho, à vida.

Para Proust, o fato que o mundo do sono não seja o da vigília, não se segue que o mundo da vigília seja menos verdadeiro, ao contrário. Os estados do sonho e o da vigília são ambos verdadeiros, mantêm suas próprias identidades, comunicam-se sem jamais se fundirem. “Metaforicamente podemos pensar nossas vidas transcorrendo em um apartamento de dois quartos. O sono localiza-se no segundo quarto que possuímos, e onde, abandonando o primeiro, caminhamos para dormir. Ele tem seus criados, visitantes particulares que nos convidam para sair; a raça que o habita, tal qual o primeiro humano, é andrógena, pois um homem aparece, ao cabo de um instante, sob o aspecto de uma mulher e as coisas têm tendência a se metamorfosearem em pessoas, e os homens, como avatares, em nossos amigos e inimigos.”

Trata-se de um sonhar de andarilho, dessas espécies de viagens das quais demoramos como que uma eternidade para nos livrar e conseguir despertar e que quando retornamos ao mundo real, damo-nos conta de que o sonho ainda não terminou, pois nosso universo, tal qual um sonho, segue dentro de nós.

Sonhamos com sombras, sim, mas quantas vezes despertos, também não lidamos com sombras? E o que se pode dizer das diferentes máscaras que os outros e nós mesmos usamos quando estamos acordados? Conseguimos discernir consistência por trás das mesmas? “Alguns sonhos, que foram harmoniosamente claros enquanto dormimos, ao despertarmos se tornam irreconhecíveis e não os tendo reconhecido, só podemos nos apressar em devolvê-los à terra do esquecimento... Talvez isso ocorra porque sonhamos não com pessoas, mas com sombras, com máscaras vazias, porque as figuras nada têm por detrás, tão somente nosso inconsciente.”

“Alguém escreveu que os sonhos são símbolos que sobem os rios na contracorrente e que conseguem subir os degraus do cais. Você fica parado no ancoradouro, até conversa com os mesmos, pois os sonhos sabem muitas coisas, só não sabem de onde eles mesmos vêm.”

O Narrador se questiona se o tempo para aquele que dorme não seria diferente do que transcorre para o homem acordado, ou seja, um momento especial, no qual o tempo perderia sua estrutura cartesiana. “Então, desses sonos profundos, a gente desperta sem saber quem é, novo, pronto para tudo, esvaziado o cérebro desse passado que até então constituía a vida.”

Proust, este psicólogo do inconsciente, confidencia-nos  que Marcel  em muitos de seus sonhos  sabe que está sonhando e que gostaria de interrompê-los e conseguir acordar. “Quando desperto recordo-me desses sonhos, e, interessante, tenho a clara consciência da sucessividade dos eventos... Se isso ocorre, então, talvez o Tempo esteja presente da forma como dele temos consciência, de tal forma que ele submeteria o sonho, restando-nos uma única dimensão do Tempo.”

“Mas por outro lado, talvez todo o sonho seja um mecanismo interno e toda a sequência que imaginamos existir, nada mais seria que mera ilusão que acontece ao nível de nosso consciente”, portanto, num mecanismo que desenvolvemos “a posteriori”, quando acordados.

“Sem dúvida, complexa e apaixonante e é devido ao seu extraordinário jogo com o Tempo que o sonho sempre me fascinou. Cheguei mesmo a imaginar, erroneamente, que os sonhos seriam uma das maneiras de recuperar o Tempo Perdido.” Somente posteriormente ele encontraria o caminho para esta restauração: “o da memória involuntária”.

 

1. Insônia, sonhos e pesadelos

Proust possuía enorme dificuldade, tanto na indução do sono quanto na continuidade do mesmo, vítima que era da insônia. “Sempre disse - e experimentei - que o mais poderoso dos hipnóticos é o próprio sono.” “No entanto, o sono, sendo divino, é muito pouco estável; o mais leve choque torna-o volátil... O sono é assemelhado à mocidade e aos amores, por esse motivo, durante a noite se o perdemos não o achamos mais. Existem aqueles que têm dificuldade em adormecer, ou que adquirem esta dificuldade por sua neurastenia, sua ansiedade ou devido às intermitências do coração, o que também é o meu caso. Então essas pessoas procuram, antes de tudo, sair do nosso mundo quando tomam um hipnótico. Mas só o fazem depois de terem desesperadamente, durante horas com os olhos fechados, resolvido pensamentos semelhantes aos que teriam tido de olhos abertos.”

Consumidor contumaz de Veronal, recém sintetizado pelo químico alemão Bayer, Marcel Proust considerava os hipnóticos uma grande ajuda, mesmo à custa da redução de sua memória para as coisas do dia a dia. Muitas vezes, utilizando-se do recurso químico, Marcel descreve o que denomina de “a magia do adormecer”: “Subitamente adormecia e caía nesse sono pesado em que se desvendam para nós o regresso à juventude, a retomada dos anos passados, sentimentos perdidos, a desencarnação, a transmigração das almas, a evocação dos mortos, as ilusões da loucura, a regressão aos reinos mais elementares da Natureza, enfim, todos esses mistérios que julgamos não conhecer e nos quais somos iniciados quase todas as noites.”

Marcel lamenta que os sonhos que nos dão prazer não possam ser incluídos nas contas de nossa existência: por serem fugazes, deles nos esquecemos rapidamente. “Quando sentimos prazeres nos sonhos, não os fazemos figurar na conta daqueles experimentados no curso da existência, e, portanto, são como uma fortuna perdida. A sensação é que o prazer aconteceu numa outra vida que não a nossa. Ou seja, também os prazeres são apenas máscaras vazias.”

Entretanto, além dos sonhos prazerosos, existem os desagradáveis, os pesadelos. Para o Narrador, precisamente é esse tipo de sonho que permite ao pensador aliviar-se da tensão ao despertar. “Foram os pesadelos que sugeriram a Vitor Hugo a metáfora dos “cavalos negros da noite”, tomando dos ingleses por empréstimo o seu intrigante “nightmare”, a égua noturna desenfreada, assustadora, reveladora de medos e aflições libertos pelo ato de dormir, mergulhados na inconsciência, que perdem os grilhões que nossa vigília lhes impõe.”

Ele confere aos pesadelos uma determinada capacidade de “libertação psíquica”. Marcel quando sofre por não ser correspondido em seu amor por Gilberte tem um pesadelo que o liberta do sofrer. “O pesadelo ajudou-o a se tranquilizar, como tudo o que nos penetra no espírito por intermédio de um sonho, que pouco a pouco se dissipa, na medida em que a coisa alguma é dada permanecer, durar, nem sequer à dor.”

Tangenciando mesmo as teorias de seu contemporâneo vienense, Freud, Proust afirma: “enquanto a pessoa desviar o espírito de seus sonhos, ela não os conhecerá, e será o joguete de mil aparências, porque não compreendeu a verdadeira natureza do seu sonhar. Se um pouco de sonho é perigoso, não é menos sonho que há de curá-lo, e sim mais sonho, todo o sonho. É preciso conhecer inteiramente nossos sonhos para não sofrer mais com eles.”

Os sonhos nos dizem muito quando interrogados. Acontece que muitas vezes não os entendemos ou esquecemos aquilo que nos é comunicado, pois ao modo dos antigos profetas, chegam-nos como parábolas.

Na “Odisseia”,  disse a discreta Penélope ao forasteiro (Orestes disfarçado em mendigo): “Há sonhos inescrutáveis e de linguagem obscura, e o que eles anunciam aos homens não se realiza. Eis porque existem duas portas para os sonhos: uma feita de chifre, outra, de marfim. Os sonhos que chegam através do brunido do marfim nos enganam, trazendo-nos palavras sem finalidade; as que saem pelo polido chifre anunciam aos mortais coisas que realmente irão acontecer.” Entretanto, Homero não explica qual é o brunido do marfim e como distingui-lo do troar do chifre, pois como se poderia prever algo que ainda não aconteceu? Conclui Proust: “os sonhos nada podem prever porque o futuro ainda não foi vivido, está no devir.”

Em “O Espectador”, Addison observou que a alma humana quando sonha desligada do corpo é a um só tempo o teatro, os atores e a plateia. Marcel utiliza-se do mesmo raciocino para afirmar: “agora, se considerarmos que o sonhar fosse uma espécie de criação dramática, ele seria o mais antigo dos gêneros literários, inclusive anteriores ao “homo sapiens”, pois os animais também sonham. Todos seriam cada um ao seu modo, dramaturgos noturnos... Digam o que quiserem, podemos perfeitamente, em sonhos, ter a impressão de que o que neles se passa é real.”

Deste modo, o despertar pode ser correlacionado a uma espécie de ressurreição, após esse benéfico acesso de alienação mental que é o sono. “O despertar apenas é sentido mecanicamente e sem consciência. É então que do alto do céu, a deusa Mnemósine se debruça e nos oferta, sob a forma do hábito de “tomar o café”, a esperança da ressurreição. E, quem sabe, talvez a ressurreição da alma após a morte seja concebível apenas como um fenômeno de memória.”

 

2. Os lugares e os nomes num mundo de sonhos

O Narrador-personagem dedica páginas e mais páginas à importância dos lugares, à sua história, aos significados dos nomes, do modo como eles podem povoar a imaginação e transportar-nos a um mundo de sonhos, de tal modo que toda a obra é permeada pelos nomes e os lugares têm significados que mesclam o real, o mágico e o sonho.

Combray e Balbec, que se prendem às personagens decisivas da história, são como locais de um longo e prazeroso sonho. A igreja gótica de Combray tem seus vitrais com elementos mouros e figuras medievais que contam as histórias de cavalaria e de sacrifícios dos fundadores da Normandia, histórias que eram contadas a Marcel pela a avó em sua infância.

Em busca do significado e da magia das “Pedras de Veneza” é o inglês Ruskin que conduz Marcel. “Toda a vida tive uma forte relação de amor com as ruínas, e por isso sempre as visitei. Talvez elas  nos permitam, ainda mais que construções arquitetônicas preservadas, tratá-las na nossa imaginação, voltando  a lhes conferir vida, a vida de nosso espírito.”  “A maior glória de um edifício não depende, portanto, de seu mármore pedra ou de seu ouro, mas sim, do fato de estar relacionado com a sensação profunda de sua expressão. E uma expressão não se reproduz, pois as ideias são inúmeras e diferentes os homens. A restauração é a destruição de um edifício, é mesmo que tentar ressuscitar os mortos. Portanto, é melhor manter uma ruína, preservá-la, do que restaurá-la."       

Com o decorrer dos anos, Proust, assim como o Narrador, torna-se “devorador platônico de guias turísticos”. “Preferi sonhar a viajar, não para um, mas para cem lugares, permanecendo em meu quarto onde minhas recordações, as informações arquitetônicas, a história e, principalmente, minha imaginação, adquirem as asas de Mercúrio e, com toda a agilidade, despertam um número infinito de virtualidades fascinantes, das quais as decepções estão, a priori, descartadas.”

“Não necessitamos viajar para vermos novas paisagens. A viagem por se tornar inútil, é substituída com vantagem pela fantasia sobre os lugares, e pela magia dos próprios nomes dos lugares. Esta magia torna-as muito mais ricas, mais vivas, ganham conteúdo histórico, pois ao invés da aparência das coisas adulteradas pelos homens ou pelo tempo, uma substância criada pelo espírito, dentro da própria alma, já possui a dimensão de uma obra de arte.”

“Não temos espaço suficiente no nosso pensamento para nele guardar os mortos ao lado dos vivos; por sorte, sempre podemos imaginar e sonhar, realizando uma longa viagem em nós mesmos, uma viagem imaginária que nos conduza à nossa verdade, pois quando se trata de escrever somos escrupulosos, verificamos tudo de perto, rejeitamos tudo o que não seja verdade.”

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