Espaço Literário

Marcel Proust

Redes sociais

  • White Facebook Icon

© 2019 por Carlos Russo Jr.

Todos os direitos reservados

“Uma Introdução à Leitura de Em busca do Tempo Perdido”

VIII. As insatisfações do amor

No mundo proustiano o amor que sentimos por uma pessoa é quase uma obra exclusiva nossa. O acaso nos faz encontrar uma pessoa que espelhará esse afeto e cuja personalidade se moldará ao nosso amor; mas esse processo ocorre exclusivamente em nosso próprio espírito. Na impossibilidade de o amor ser compartilhado, comportamo-nos tal qual Narciso e amamos a ninfa Ecco, fruto do próprio ego.

Isso, entretanto, não impede que os personagens proustianos sejam constantemente arrastados pelo torvelinho de suas paixões, veladas ou declaradas; paixões em que  o amor se manifesta nas suas diferentes formas, entrelaça-se entre os diferentes e no mesmo sexo, muitas vezes de modo platônico, outras, requerendo os prazeres do gozo, não raro envoltos nos mantos da escuridão e do sado-masoquismo.

 

1. O desabrochar do amor

O amor para se deixar florescer “precisa-se acreditar que um ser participa de uma vida ignorada por nós, na qual o amor nos faria penetrar, isso é tudo quanto ele exige para, nascendo, nos prender.”

É, na essência, um amar que aprisiona e não liberta: “É necessário que, fruto de uma força centrípeta, um homem esteja voltado para si mesmo, que deseje um cantinho ao lado da lareira e um leito compartilhado, um Adão friorento à procura de uma Eva sedentária naquele mundo de diferentes.”

 “Quando queremos nos lembrar de que modo principiamos a amar já estamos amando aquela pessoa; dos devaneios de antes nós dizíamos: é o prelúdio de um amor, mas eles avançam tão depressa e de surpresa, de tal modo que mal são notados por nós. Então, nós imaginamos que o amor possua por objeto um ente que pode estar a nossos pés, encerrado em um corpo. Ai de nós, ele é a extensão desse ente a todos os pontos do espaço e do tempo que essa pessoa já ocupou e ainda ocupará.”

A conquista ocorre sob “as asas cintilantes da liberdade que as mulheres fazem zumbir nos passeios, nos bailes, nos teatros, que dão a beleza ao mundo.” Foram elas que deram à Albertine a essência de sua beleza. Foi por vê-la primeiro como um pássaro misterioso, depois como uma grande atriz da praia, desejada, possuída talvez, que Marcel a achara tão maravilhosa. “E eis que de repente, temos a mulher cujo rosto permanece diante de nós mais constantemente do que a própria luz, pois mesmo de olhos fechados não deixamos um só instante de adorar seus belos olhos, seu lindo nariz, de usar de todos os meios para revê-los.”

O fato de amarmos determinada pessoa não é exclusivamente uma obra do acaso. Existe um conjunto de circunstâncias que nos conduzem à paixão. É verdade que se aquelas circunstâncias  se  modificassem, esse amor poderia até dirigir-se a outro ser.

 “Quando amamos cremos sempre amar a uma mulher em especial. Especial, eu disse, jamais única, pois ela é inumerável, mesmo porque possui tantas facetas diferentes.  Apenas depois entendemos que essa mulher não fez mais que suscitar-nos, por uma espécie de apelo mágico, mil elementos de ternura existentes em nós mesmos, em estado fragmentário e que ela ajuntou, uniu, eliminando lacunas entre eles; fomos nós que, dando-lhe seus traços, fornecemos toda matéria representada pela pessoa amada.”

Comumente os personagens proustianos se apaixonam por pessoas que lhes são espiritualmente diferentes. “Existem aqueles cujo coração, não estando diretamente em causa, imaginam que somos livres para escolher a quem iremos amar. Eles não percebem o milagre delicioso que só o amor projeta e que envolve tão inteira e unicamente a pessoa de quem estamos enamorados, que a “tolice” que um homem faz desposando uma cozinheira ou a amante de seu melhor amigo é, ou pode ser, o melhor ato poético do decurso de sua existência.”

Eles somente amam o que lhes é diferente. “Não é obra do acaso se os homens intelectuais e sensíveis se dão sempre a mulheres insensíveis e inferiores, apegando-se a elas de tal maneira, que a prova de que não são amados não os cura absolutamente do hábito de sacrificar tudo para conservar junto a eles tal mulher.”

O próprio amor é uma espécie de criação de um indivíduo suplementar, um dos nossos múltipos “eus”. É esse o terrível engano que o amor nos prepararia, que nos faz brincar com uma pessoa não do mundo exterior, mas com uma boneca no interior do nosso cérebro, a única, aliás, que poderemos ter sempre à nossa disposição, a única que possuiremos, que o arbítrio da lembrança, quase tão absoluto como o da imaginação, pode também ter feito diferente da mulher real; criação fictícia à qual, pouco a pouco, para nosso sofrimento, forçaremos a mulher real a se assemelhar. “Essa boneca não é Ecco a correr pelas montanhas, mas uma imagem interna, à qual tentaremos, como um escultor, modelar a criatura de carne e osso.”

Quando se ama tamanho é o amor que ele não cabe em nós: irradia para a pessoa amada, onde topa com uma superfície que lhe corta a passagem e o faz voltar para o ponto de partida; e essa ternura que nos devolve o choque, ternura que é a nossa, é o que denominamos de o sentimento do outro.”  É devido a isso que os amores de todas as demais pessoas nos são incompreensíveis. Para Proust, os amores são pedaços da própria alma, mais duráveis que outros “eus” que morrem sucessivamente em nós, e que por egoísmo desejaríamos retê-los, e assim o fazendo, reter aquela parcela que contenha o nosso amor.

“O importante nesta vida não é aquilo em que se põe o amor, mas sentir o amor. As demarcações tão estreitas que traçamos ao redor do amor são fruto de nossa grande ignorância pela vida”.

No entanto, pese a diferença no momento da conquista, a submissão completa de um ser a outro torna-os semelhantes entre si, mesmo à custa da destruição da personalidade de um ou dos dois parceiros. Daí, no decorrer da convivência, a perda de interesse naquele que se nos assemelhará tanto conosco “ao olharmos no espelho”.  “Não desconfiamos inicialmente das mulheres que não são do “nosso tipo”, dado que elas pouco nos conheceriam. Já uma mulher do “nosso tipo” raramente é perigosa, pois, ou nos repele, ou nos satisfaz e nos deixa logo, sem se instalar na nossa vida; e o perigo e desgostos estão não na mulher em si mesma, mas na sua presença diária, na curiosidade pelo que ela faz em todos os momentos; não está na mulher, mas no hábito que a sua presença cria.”

 

2. Posse, ciúme e mentira

O sentimento de posse do e pelo ser amado é obsessivo em todo o rememorar proustiano: “O amor necessita apenas que o nosso gosto por alguém se torne exclusivo. E semelhante condição se realiza quando- no momento em que ela nos faz falta- a busca de prazeres que sua convivência nos trazia é de repente substituída em nós por uma necessidade angustiosa, que tem por objeto essa mesma pessoa.”

“A ante-sala da posse é a luta contra os concorrentes à mesma pessoa. Se soubéssemos analisar melhor nossos amores, haveríamos de ver que muitas vezes as mulheres só nos atraem por causa da concorrência com outros homens a quem temos que disputá-las, embora soframos mil mortes exatamente por ter de fazê-lo; suprimida a concorrência, desaparece o encanto da mulher.” Quando o amor de Marcel começa a dissolver-se, só o desejo que Albertine excitava nos outros fazia-o  recomeçar a sofrer e  querer disputá-la.

O ciúme, decorrente da posse ou do desejo da posse, com as torturas e aflições que enseja nos personagens, funciona como uma ideia fixa, conduz o amante a procurar mentiras e traições em quaisquer atitudes, torna o amor um sofrer poucas vezes apaziguado. Quem ama dificilmente escapa de um dos círculos do Inferno de Dante que ele próprio traça.

Os personagens de Proust são confinados em mundos solitários, onde as paixões sempre se transformam em tormentos, em um inferno em que só se é capaz de amar o que não se possui ou o que se teme perder; qualquer atitude ou um “pensamento” presumido desperta nos apaixonados o ciúme, que é o veneno a corroer o amor e a alma de quem ama. A paz, então, somente pode ser alcançada no esquecimento e no sonho, ou ainda na fuga para novos amores em que  os ciclos serão recriados.

Os casos de amor relatados entre Charles Swann e Odette, e entre Marcel e Albertine são patognômicos de uma síndrome composta pela posse, ciúme e mentiras, e por isso vamos rapidamente descrevê-los.

Swann, ao final da vida, confidencia a Marcel que  quando se é um pouco ciumento isto não chega a ser de todo desagradável. Mas isso é só no início do mal, ou quando a cura está quase completa. No intervalo vive-se o maior dos suplícios. Quando Swann achava que Odette era desejada por todos os homens e que ela mesma os desejaria, ele em todo homem que via enxergava um possível amante para Odette. E assim o ciúme de Swann alterava-lhe o caráter e transformava-o por completo. E no entanto, esta Odette de quem lhe vinha todo este mal não lhe era menos cara; muito pelo contrário, era mais preciosa, como se à medida que o sofrimento aumentasse também subisse o valor do calmante  que só esta mulher possuía.

Quando Odette se convence de que Swann a ama, de que ele é também ciumento e possessivo, ela compreende que ele estava em suas mãos. Desenvolve para melhor envolvê-lo essas novas formas de ser: indiferente, distraída, irritável, e que certamente o faziam sofrer. Porém, ele não tinha conhecimento dessa estratégia.

Quanto à mentira, Swann a reconhecia nas palavras de Odette quando lhe interrogava por que e com quem saíra. Claro que se Odette acabava de fazer algo que não desejava revelar, escondia-o no fundo de si mesma.

Na medida em que Odette deixava de ser para Swann uma criatura ausente, desejada, imaginária, mas apenas uma forma de afeição e reconhecimento, ele pressentia que os atos da vida de Odette lhe pareciam pouco interessantes em si mesmos, como já diversas vezes o suspeitara.

“Considerando seu mal com tanta sagacidade, como se o tivesse inoculado a si próprio para estudá-lo, dizia consigo que quando estivesse curado seria indiferente ao que Odette pudesse fazer. Mas no íntimo tinha medo, como à morte, dessa cura que de fato seria a morte de tudo o que ele era neste momento. Swann talvez não o soubesse, mas ninguém consegue a cura para um sofrimento sem antes experimentá-lo integralmente.”

Se o ciúme de Swann tinha como alvo  os possíveis amantes do sexo masculino de Odette, cujo perfil traçado é claramente feminino,  quando observamos a relação amorosa entre o  Narrador e  Albertine, toda a enxurrada de ciúme sentido por Marcel concentra-se nas possíveis relações homoafetivas da jovem e ele somente se apaixona quando a crê uma venusiana “a la Baudelaire”.

“O amor se aprofunda com o ciúme e a curiosidade pelo desconhecido”. Nos tempos em que Marcel e Albertine eram tão somente  bons camaradas, Albertine dizia-lhe: ”Acho estúpido deixar ver que se ama, eu faço o contrário:  assim que uma pessoa me agrada, finjo não prestar atenção a ela. Assim ninguém descobre nada.” A partir da descoberta do interesse mais profundo de Marcel ela passaria a esconder-lhe tudo, pois uma coisa que ela jamais faria seria confessar-lhe algo, pois no fundo Albertine sempre o  sentira ciumento e um juiz.

Marcel descobrirá que uma vez pressentido o ciúme passa a ser considerado por aquela que é objeto dele como uma desconfiança que a autoriza enganar. Aliás, é para poder saber alguma que nós mesmos  tomamos a iniciativa de mentir, iludir. “O ciúme pertence a essa família de dúvidas doentias que cedem mais à energia de uma afirmação do que à sua verossimilhança.” O ciúme nascia por imagens, em virtude do sofrimento, e nunca segundo uma probabilidade. De qualquer forma, o círculo que o ciúme cria para o ciumento é invencível.

Em “Albertine Prisioneira”, Marcel confessa que não sabia ser ele ou ela “o prisioneiro”. Numa relação em que a sua essência é composta pelo conflito da  posse que sufoca toda a liberdade e a espontaneidade não existem criaturas libertas para o amor, apenas aprisionadas, asfixiadas, prisioneiras e carcereiros. Como carcereiro, Marcel sabia que  os deveres e os encargos de um senhor fazem parte do domínio, e o definem; constituem uma provação tanto quanto seus direitos. Por ser mais senhor de Albertine do que julgara, também era mais escravo que sua posse. Para Marcel, Albertine era um tesouro que ele possuía em casa, em troca do qual ele alienara a própria liberdade, a solidão e o pensamento.

Portanto, o ciúme para os personagens de Proust é como uma enfermidade em que nada é perdoado. Se o nosso fígado é intoxicado pelo álcool, basta que lhe propiciemos algum sossego e ele refaz seus hepatócitos e com isso volta a nos prestar seus excelentes e vitais serviços. Mas  o ciúme  busca até mesmo no passado da criatura amada seu “pecado original”. “Em Busca do Tempo Perdido” os verdadeiros dramas dispensam o veneno e os punhais, dado que os duelos ocorrem dentro do coração das personagens e nem a morte da pessoa amada encontra o bálsamo adequado para estancar o sofrer.

Se o que alimenta o amor é a busca  de algo inacessível ou que não se conheça, então não existe lugar para que, numa relação, se confie no parceiro e que tão pouco ocorram possibilidades de troca e de crescimento emotivo mútuo. As personagens proustianas enquanto amam sempre mentem como forma de manter o parceiro-aranha prisioneiro em suas próprias teias do ciúme, pois o amor é antes de mais nada uma prisão. A busca de uma verdade, da qual sempre se desconfiará  é obsessiva, mas é a única chama capaz de manter viva o que se poderia chamar de “paixão”.

 

3. Prazeres do amor

Dizia Goethe que todo ser humano leva consigo um segredo, que se conhecido, torná-lo-ia odioso aos outros. Em mais de um episódio, Marcel demonstra o prazer associado ao ciúme, num sexualismo que se satisfaz ao observar o que lhe seria oculto. “Em muitos ciumentos, o ciúme não causa somente dor; existe neste sentir uma dose de certa sofreguidão, um bocado de prazer.”

O voyeurismo como forma de aprendizado sexual e de prazer nos é relatado por Marcel. O Narrador relata-nos sua iniciação na homossexualidade quando adolescente. Assistiu, escondido atrás de uma janela, a uma relação entre duas amigas, na casa do compositor Vinteuil. Posteriormente, quando jovem, consegue também escutar a relação entre outras duas mulheres. Através de uma parede que fazia conecção com o pátio de sua casa, ouve  a relação do Sr. de Charlus com seu amigo, o inseparável Jupien.

Neste teatro, que não se restringe a esses três atos, está claro que o aprendizado e o prazer do voyeur estender-se-ia à relação com Albertine, pois Marcel, após a morte de sua amante, paga para ouvir os sons de uma relação entre duas lavadeiras, novamente tendo por anteparo  uma cortina de bordel. Ao fim, nosso herói descobre que para ele as únicas mulheres que o atraíam seriam aquelas que interessariam sexualmente à Albertine, ou que a recordavam.

“Já nos demos conta de que doce vida nos privamos devido a essa indomável teimosia de negarmos nossos próprios  prazeres, de não possuirmos a coragem de simplesmente gozá-los? Muitas vezes  sublimamos o prazer sensual pela ideia de penetrar na vida sexual, impedindo-nos de reconhecer o prazer real, de sentir seu verdadeiro gosto, de restringi-lo a seus limites. Ora, despojar da vida os prazeres, sublimá-los, é reduzi-los a si mesmos, ou seja, a um nada.”

“O adultério introduz o espírito na letra que muitas vezes o casamento teria deixado morta. Afinal, cada um tem a sua própria maneira de ser traído, como tem sua própria maneira de gripar-se. A literatura, a obra de arte, espelha esses nossos receios de assumirmos nossa real identidade por um lado, e, por outro,  assume a responsabilidade de libertar-nos de nossos medos e preconceitos ao denunciar o sofrimento por não  assumirmos o mundo e nós mesmos como realmente o somos.”

 

4. A força do hábito, a morte do amor e o esquecimento

Uma relação que extrai do sofrimento mútuo seu gozo, seu deleite, é uma relação fechada e essencialmente masoquista; somente a ruptura poderá trazer sossego à alma. Mas a calmaria para um amante como Marcel somente se manteria até a eclosão de um novo amor ou, então, como fruto de uma reclusão voluntária que o afastasse de um novo ciclo amoroso. Marcel tinha clara essa  escolha: ou cessar de sofrer ou cessar de amar. “Dado que no início é o amor formado pelo desejo, mais tarde, somente se mantém pela ansiedade dolorosa que ele propicia. Ora, o amor na ansiedade dolorosa, como no desejo feliz, é a exigência de um todo. Só nasce , só subsiste, se resta uma parte por conquistar, pois não amamos senão o que não possuímos inteiramente.”

Logo, para Proust, sossego e paz não podem coexistir com o amor, pois o que se obtém é sempre um ponto de partida para desejar ainda mais. O que nos dá felicidade é a presença no coração de certa instabilidade, que perpetuamente procuramos equilibrar e  que quase não nos apercebemos senão quando é deslocada. Na realidade, há no amor um sofrimento permanente, que a alegria neutraliza, torna virtual e adia. “E a esse respeito pode-se afirmar quanto ao amor, e acrescentemos ademais do amor carnal, o amor à vida, o amor à glória,  visto que parece haver pessoas que conhecem somente esses dois últimos sentimentos, que não deveríamos agir como aqueles que contra o barulho, em vez de implorar que ele cesse, tapam os próprios ouvidos para não  o ouvir.”

“Sentimos que se a vida não ocasiona mudança em nossos amores, nós mesmos nos encarregamos de ocasioná-las ou de simulá-las e de falar em separação, de tal modo que todos os amores e todas as relações evoluem para o adeus.”

Voltando a Swann quando se julgava incompreendido por Odette, ele agia como morfinômanos ou cocainômanos, que normalmente são convencidos de que foram detidos por um acontecimento exterior, justo no momento em que iriam se livrar de seu hábito inveterado. “Ser duro e caviloso com quem amamos é tão natural! Quando amamos, o próximo nos é indiferente e a indiferença não nos induz à maldade.” “Depois de certa idade, por amor-próprio e por sagacidade, o que mais cobiçamos é o que fingimos desdenhar. Não  se precisa de sinceridade e nem mesmo habilidade na mentira para  ser amado, mesmo porque chamo aqui de amor aquilo que não passa de  uma tortura recíproca.”         

Quando Albertine praticamente se rende à servidão que lhe é imposta, Marcel sente-se feliz. Inofensiva, privada do aguilhão do ciúme que fere o coração, ele se permitia admirá-la, afagá-la com o olhar, pois prendendo Albertine ele se sentia restituindo ao universo todas aquelas asas da tentação. O curioso é que, após o tempo da reclusão, quando “as belezas restituídas do mundo se desfazem”, o destino transforma a moça de Balbec numa enfadonha e dócil cativa. Fora-se pouco a pouco a beleza, deixando-a convertida numa desbotada prisioneira, reduzida ao seu eu sem brilho, e a única forma de Marcel conseguir restituir-lhe as cores era através de relâmpagos em que a recordava em seu passado.

Nesse processo insere-se a força do hábito.  “A força do hábito é muito mais poderosa e acovardizante do que podemos imaginar.” Mumificada pelo hábito, a vida penosa do Narrador tornara-se suportável, preservada pela certeza de que o dia seguinte, ainda que fosse cruel, conteria a presença da criatura afeiçoada.

Existe um momento, entretanto, em que a ruptura torna-se inevitável. “É quando, decididamente, somos forçados a nos privar da força do hábito e dando ao dia presente uma força excepcional, destacamo-lo dos dias contíguos e ele flutua sem raízes como num dia de partida: a nossa imaginação não sendo mais paralisada pelo hábito, desperta, acrescentamos de repente ao nosso amor cotidiano devaneios sentimentais que o engrandecem enormemente,  tornam-nos indispensável uma presença com a qual não temos certeza de contar.”

Desse jogo nos tornamos vítimas, “recomeçamos a sofrer porque fizemos algo de novo, de inusitado, que acontece assemelhar-se assim àqueles tratamentos que devem curar mais tarde a doença de que sofremos, mas cujos primeiros efeitos são os de agravá-la. Essa é a sintomatologia da perda de estabilidade, quando uma espécie de “caos” pede abrigo em nossa morada.”

Numa separação, se houve realmente amor, pelo menos de uma das partes, não constitui uma atitude simples, de poucas consequências. “Creio que, normalmente, mesmo as separações mais civilizadas embutem toques de clarins, seguidos por cargas de cavalaria, avanços e recuos, sempre sob os campos minados do ressentimento.” “É muito raro que a gente se separe bem, pois se estivéssemos bem, não nos separaríamos. Na separação, mesmo um homem que não tivesse a princípio senão motivos de pouca importância para zangar-se, exalta-se com os efeitos da própria voz e se deixa arrebatar por uma fúria engendrada não pelas razões da queixa, mas pela própria cólera em via de crescimento. Mas o tempo se encarregará de clarear a tempestade e, então, reconquistamos a serenidade do sorriso.”

A cura das separações, quando não acontece um recomeço, está no esquecimento. A luta pela morte de um amor que nos faz sofrer só reconhece esse inimigo, o esquecimento, que poderá derrotá-lo. O tempo nos transforma,  modifica-nos ao ponto de nem mesmo reconhecer, num futuro,  quem chegamos  a amar loucamente no passado. Isso ocorreu entre  Marcel e Gilberte. É difícil que criaturas que desempenharam um papel importante em nossas vidas saiam dela, de repente, de modo definitivo. Voltam a pousar nela por instantes (a ponto de alguns ingênuos até acreditarem  num recomeço do amor) antes de deixá-la para sempre. 

Um dos efeitos do esquecimento era precisamente o de fornecer ao Narrador a imagem sumária daquela que amara, embelezada de todo o amor que ele sentira, um dia, por outras. Sob essa forma particular,o esquecimento, que no entanto, trabalhava para habituá-lo à separação, fazia ao mostrar-lhe a amante mais doce, mais bonita, desejar ainda mais a sua volta. É a contradição em que a dialética do esquecimento se bate, até encontrar a sua síntese na mudança do eu.

Em Proust nos inserimos numa plataforma psíquica circular:  ciúme, ansiedade dolorosa, desconfiança, mentira, posse, aprisionamento, perda do amor, esquecimento e busca de novo amor que também engrendrará nosso ciúme. Dentro deste círculo vicioso Marcel chama o amor de “a tortura recíproca”, do qual nos salvamos apenas pelo esquecimento. Mas como um diretor de cena que comanda seus personagens no teatro que é a própria vida, ele também nos diz que tão somente o amor e o ciúme, com suas dores,  abrem-nos as portas da inteligência. Se a felicidade é saudável para o corpo, é a dor e a doença que permitem ao espírito alçar-se sobre si próprio. “Devemos muito mais aos que nos fazem sofrer do que aqueles que nos fazem felizes. Nosso potencial de humanidade e capacidade artística somente atingem seu máximo de evolução abaixo do sofrer de uma paixão.”

 

5. As mulheres do romance de Proust

As mulheres no romance são figuras compostas predominantemente pelo elemento água. Outros elementos como o fogo, a terra ou o ar constituem apenas adereços. Oriane de Guermantes é uma duquesa de fenomenal beleza, concebida junto ao rio Vivonne; a Srta. Vinteuil e a amiga abrigam-se na casa do pai junto ao pântano de Montjouvain para fazer amor; Albertine e as “moças em flor” são criaturas do mar e  sobreveem sempre alguma tempestade em seus passeios;  à Albertine,  Marcel prometera um iate que se  chamaria - O Cisne-; Marcel esperava amar  uma nova namorada no lago do Bois de Boulogne;  Andrée  casa-se com um recordista em corridas de iate; Odette de Swann foi seduzida pela Sra. Verdurin às margens de um lago; o quadro pintado por Elstir tendo Odette como Miss Sacripant não era um óleo sobre tela ou madeira, mas sim, uma aquarela. A água, dentre os elementos primordiais, é aquele que mais simboliza a metamorfose, a transformação, o perpétuo renovar e o refazer-se em formas e em cores.

Proust confessou a amigos jamais haver estado em toda a sua vida com mulheres. Todas as suas relações foram homossexuais. Na obra “Em Busca do Tempo Perdido”, um romance semi-autobiográfico, os homens de Proust, como a água, podem metamorfosear-se, assumindo formas femininas. “As mulheres, ou em quem possua num corpo de homem a cabeça de uma mulher, terão como elemento primordial a água, e este constitui o motivo de serem muito volúveis e quando pensamos tê-las à mão sobra-nos apenas o perfume diáfano de suas presenças.”

“Consigo ver claramente meu horizonte, e nele as coisas que ocupam o meu pensamento, mas me empenho em descrever as que estão além deste. É preciso  ter coragem para conhecer-se tal como se é e não como dever-se-ia ser.  Por isso mesmo digo que amo mais a verdade que a própria felicidade e jamais acredito nesta sem a verdade.”

Este site não possui patrocinadores, contamos com doações espontâneas para sua continuidade.