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Marcel Proust

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“Uma Introdução à Leitura de Em busca do Tempo Perdido”

IX. Sodoma e Gomorra

Proust foi um dos primeiros grandes romancistas que ousou atribuir à homossexualidade a importância que hoje ocupa claramente nas sociedades modernas. Antes dele, somente Balzac havia desenvolvido uma imagem aberta sobre o homossexualismo masculino nas páginas denominadas  “o ciclo de Vautrin” e sobre o homossexualismo feminino no livro “A menina dos olhos de ouro”, ambos parcelas da “Comédia Humana”.

O nosso escritor era um balzaquiano apaixonado; entre amigos, comentou sobre sua admiração pela audácia daquele que meio século antes já chamava a seus invertidos maduros de “tias”. No entanto, foi Proust quem aprofundou a análise psicológica da forma de amor que aproxima homens de outros homens e mulheres  de mulheres, relações que na época desafiavam a vida social, política e espiritual. E, conhecedor da extensão que o homossexualismo reprimido alcançava já nos primórdios do século XX, referiu-se a ele como  uma espécie de “maçonaria Universal mais unida que o Grande Oriente”.

Tocar nesse tema proibido ou relegado às partes mais escuras das bibliotecas comportava riscos, mesmo físicos, para um escritor. No entanto, a seriedade da obra e a beleza da linguagem proustianas seriam os ingredientes a protegê-lo. Este constituiu um dos motivos pelos quais “Em Busca do Tempo Perdido” é permeado de anteparos e metáforas, a maior parte delas voltadas para o sexo e para a inversão sexual. Diz Proust em carta a um amigo: “Meu caro, do ponto de vista moral, é absolutamente indiferente que alguém encontre o seu prazer com um homem ou com uma mulher. É muito natural e humano que se procure o amor onde ele possa ser encontrado”. E ainda: “O fenômeno da inversão sexual, tão mal compreendido, tão inutilmente censurado, somente amplia ainda mais a possibilidade do amor”.

“Desta forma, o leitor não deve ficar ofendido se o invertido confere a suas heroínas uma fisionomia masculina, ou feminina” e é com esse sentido que as personagens de Proust são ambíguas. Ao mesmo tempo vários vegetais são transformados em mulheres e vice-versa e o sexo em evidência nas flores humaniza-se; homens são metamorfoseados em flores e nos besouros que as polinizam e plantas hermafroditas “tornam-se” pessoas que buscam em si mesmas o solitário prazer; o pólen que se desprende e se esvai com o vento é onanismo puro.

“Sim, diz Proust, fui obrigado a desbastar a coisa e a mentir, mas não é só um universo, são milhões de universos que despertam todas as manhãs, quase tão numerosos quantas são as pupilas e inteligências humanas”. Assim também o são as formas do amor.

Se os  personagens proustianos são vítimas de seus desejos e impulsos e vivem em um mundo que Proust crê impuro, eles, em contrapartida, não possuem falso pudor pelo que fazem, “pois tanto em sexo, quanto em tantas outras coisas na vida, não existe o certo e o errado”. “Apenas a prepotência e a onipotência humana ousam classificá-los como parcelas do bem ou do mal”. “O universo é verdadeiro para nós e diferente para cada um de nós”.

“Todo leitor é o leitor de si mesmo e o reconhecimento em si mesmo, pelo leitor, do que o livro diz é a prova da realidade deste e vice-versa. Além disso, um livro pode ser até muito sábio, mas  parecer obscuro demais para um leitor ingênuo; algumas peculiaridades, como a inversão, talvez requeiram uma certa maneira de ler, talvez com o auxílio de uma ou outra lente”.

Um invertido não nasce se reconhecendo como tal, assim como não pode saber que será um poeta, nem um esnobe ou um mau caráter. “O homem  é a princípio um ser centrífugo, que se desconhece a si mesmo, tenta fugir, entrega-se à contemplação de seus sonhos e acredita que o impulso homossexual lhe vem do exterior e não da intimidade de sua alma”. Somente quando triunfa a revolução do pensamento em torno de seu “eu”  é que a inteligência do homem, saindo de si mesma,  mira-o  desde fora e diz: eu sou homossexual.

Em Proust, graças a uma forte influência da mãe e da avó judias, em diversas passagens de sua obra evidenciam-se conceitos sionistas, e destes, o do gueto, local onde eram confinados os diferentes. As cidades de Sodoma e de Gomorra “eram nada mais do que guetos onde as tribos de Israel agrupavam os cananeus homossexuais, os malditos pela Lei de Moisés. Locais que serviram de campos de concentração dos diferentes, que haviam sido condenados ao extermínio pelo Deus da vingança, através do fogo e do enxofre, uma arma química de extermínio em massa por excelência”.

 

1. Sodoma

Proust utiliza de uma maneira absolutamente genial e provocativa ações atribuídas, na Bíblia, ao Senhor: “A destruição de Sodoma e Gomorra constitui uma prova irrefutável de uma ação mal planejada de parte do Divino. Deus colocou dois anjos às portas de Sodoma para ver se seus habitantes- e assim o diz o Gênesis- tinham feito todas aquelas coisas cujo clamor se elevara até o Empíreo. Mas aqueles anjos da morte haviam sido, coisa de que não pode a gente deixar de se alegrar, muito mal escolhidos pelo senhor, o qual não deveria haver designado para a tarefa senão a um sodomita, pois este saberia reconhecer seus semelhantes. Os anjos assexuados foram um desastre, eu até mesmo diria, um desastre total”.

Marcel nos alerta a respeito de um “erro bíblico”, pois somente os sodomitas que se assumiam claramente, que eram uma minoria, permaneceram na cidade que teria sido destruída pelo fogo e pelo enxofre, “tal qual em fornos exterminadores sagrados implacáveis, de tal maneira que, de acordo com a  lei divina, nenhum vestígio deixassem sobre a terra. Deste genocídio restaram somente as cinzas”. 

Mas foi a incúria dos anjos assexuados nos portões da cidade que permitiu que fugissem todos os sodomitas envergonhados, mesmo aqueles que quando viam um jovem voltavam-lhe a cabeça, tal como o fez a mulher de Lot, sem que por isso virassem estátuas de sal. “Também não conseguiram impedir a fuga daqueles que, perante as flamejantes espadas empunhadas pelos lindos mancebos às portas das cidades, diziam serem até mesmo pais de dois filhos  e homens que mantinham duas mulheres, mas escondendo dos enviados divinos, que as noites mais quentes as passavam com os pastores de rebanhos”.

Marcel atribui à inabilidade do Divino ter permitido “que fugitivos dessa raça tivessem numerosa posteridade, na qual um gesto se tornou habitual, parecido à gestuária das mulheres vadias, que enquanto fingem olhar calçados numa vitrine, voltam a cabeça para um estudante. Esses descendentes dos sodomitas tornaram-se tão numerosos como “os grãos do pó da terra”; fugindo do extermínio, eles se estabeleceram em todos os  países, em todas as classes sociais, deles não escapou nenhuma profissão”.

“Criaram mesmo uma tal facilidade para penetrar nos círculos mais fechados da sociedade, que, quando algum sodomita não é admitido neles, as bolas pretas são na maior parte de outros sodomitas, mas que têm o cuidado de incriminar a sodomia como herança daquela mentira dita aos anjos de espadas flamantes, a mesma que permitiu que seus antepassados fugissem do gueto maldito”.

Marcel  nos diz que teria havido entre os invertidos quem pensasse em refundar uma nova Sodoma, mas que fora necessário prevenir o erro funesto em este consistiria: “Porque mal chegassem, os sodomitas abandonariam a cidade para não parecer pertencentes a ela, tomariam mulher, sustentariam amantes em outras cidades e somente iriam à Sodoma em dias de extrema necessidade, quando esta cidade estivesse deserta, em épocas em que a fome faz o lobo sair do bosque. Isto aconteceria naqueles momentos em que os invertidos, em busca de um macho, contentam-se amiúde com um invertido tão afeminado quanto eles”.

 

2. O Safismo

Após viajarmos por Sodoma, chegou o momento de caminharmos até sua cidade-irmã e vizinha:  Gomorra. Lá encontraremos diversas heroínas perfiladas como num panteão erguido na ilha de Lesbos. Eis que nos deparamos com madame Bovary, filha dileta de Flaubert, mulher desejável em seu belo corpo, mas pelo que tem de mais enérgico em seu comportamento e pelos seus sonhos mais profundos, damo-nos conta de estarmos frente a um homem habitando um corpo feminino. Ao olharmos para seu lado direito, surpresa das surpresas, sentimo-nos superiores a Ulisses, pois Palas Athenas, filha dileta nascida da cabeça de Zeus, nos permite visualizar-lhe a própria sombra, o encanto das curvas do corpo da divindade, com o poder e a força  da alma masculina. Mais ao fundo encontramos Safo, parida em Lesbos, entoando seu hino ao amor, enlaçada à sua querida e amada Atis. À sua direita, duas bravas, Pentisileia e seu arco retesado, rainha das Valquírias e sua irmã guerreira, Hipólita.

São tantas e tantas que quase nos passam despercebidas as Marquesa de San-Real e sua amada Paquita, a dos Olhos de Ouro, musas balzaquianas e sempre presentes em “Em Busca do Tempo Perdido”.

“As mulheres que se originaram em Gomorra são ao mesmo tempo bastante raras e bastante numerosas para que, em qualquer multidão, umas  não passem despercebidas  das outras. E então, o entendimento entre elas é fácil, muito fácil”. Marcel nos diz que “muitas vezes, na sala do cassino de Balbec, quando duas raparigas se desejavam, tudo se passava como que um fenômeno luminoso, uma espécie de rastilho florescente que ia de uma a outra. Um olhar de uma logo é imediatamente compreendido pela outra, que se aproxima como esfaimada”.

Mas se encontramos as doces e delicadas como Safo, também nos deparamos com as masculinizadas que se trajam como homens, justamente aquelas com a alma de Palas Atenas, a da armadura guerreira.

“Entretanto, poucas dentre elas, dedicam-se como o Sr. de Charlus, em seu vício,  ao safismo como um sacerdócio”. Até mesmo Safo, após amar tantas mulheres das quais fora a mestra nas artes de Eros, de a elas haver dedicado imortais poemas, hinos sagradores, não consegue se manter fiel ao sacerdócio do qual fora a grã-sacerdotiza e “encontra no mar a morte, mais doce que a dor pela ausência do amado que lhe nega o carinho masculino, justamente quando ela, que tantas amantes tivera, acontecera de apaixonar-se por um homem”.

A maioria das gomorrianas, como Safo, também se deixam tocar pelo sexo oposto, como  Albertine o fizera ao submeter-se a Marcel. O Narrador comenta que “Albertine o fazia tanto devido à sua humanidade mais profunda, quanto ao fato de que não pertencia à humanidade comum, mas a uma raça estranha que com ela se mistura, nela se esconde e não se funde jamais”. Por outro lado, “é um fato incontroverso que os uranianos (os homossexuais masculinos) desenvolvem uma enorme atração pelas filhas de Safo”.

Para Proust, em sexo não existe nenhuma moral a ser seguida, embora os comportamentos humanos são moldados tanto pelas paixões quanto pelos padrões sociais. O escritor, dentro de sua extrema perspicácia, explicita os preconceitos e atitudes ligadas ao sexo, abandonando a hipocrisia social. Nesse sentido, os personagens proustianos expõem suas facetas sexuais como algumas plantas que sagazmente abrem seus órgãos genitais aos insetos polinizadores, sem pudor, sem vergonha, mas com receio da punição pela culpa desenvolvida, graças aos disfarces e formas de que se cercou a hossexualidade quando não assumida.

 

3. O sadismo como estética melodramática

O voyeurismo do Narrador nos propicia um texto de enorme plasticidade em que  o sadismo é tratado numa perspectiva estética, talvez degenerada enquanto motivação sentimental, mas não necessariamente simbolizando o mal. Trata-se da relação sexual entre a filha do então falecido compositor Vinteuil e uma amiga íntima. “Vinteuil amara, passando por cima de todos os seus preconceitos, à sua querida  filha, permitindo, inclusive, a presença de sua amiga na casa onde residiam. Escondia de si mesmo o que a todos era evidente.” Como diz o Narrador: “Os fatos não penetram no mundo em que vivem nossas crenças, não as fizeram nascer, não as destroem”.

A cena teatral se desenvolve, as cortinas se levantam uma vez morto Vinteuil, o compositor e pai. A relação sexual das duas moças ocorre no sofá da casa paterna, ao lado do retrato do falecido e a fotografia recebe uma cusparada da parte da filha querida, induzida pela amiga. Essa é a ação teatral; agora vamos à análise feita por um Marcel ao relembrar.

“Certamente, nos hábitos da senhorita Vinteuil a aparência do mal era tão completa que seria difícil ver a sua realização perfeita, senão numa natureza sádica; é de preferência à luz da ribalta dos teatros do “boulevar”,  sob a lâmpada de uma verdadeira casa de campo, que se pode ver uma moça fazer a amiga cuspir sobre o retrato de um pai que viveu só para ela; e somente o sadismo pode dar um fundamento na vida à estética do melodrama.”

“Na realidade, fora os casos de sadismo, talvez uma moça possa cometer faltas tão cruéis como as da Srta. Venteuil à memória e contra as vontades do pai morto, mas não os resumiria em um ato de simbolismo tão rudimentar, tão ingênuo; o que sua conduta teria de criminoso seria mais velado aos olhos dos outros e até a seus próprios olhos, pois ela faria o mal sem confessá-lo. Mas, para além da aparência, no coração da mesma, o mal ao menos no começo, sem dúvida não era exclusivo.”

As aparências muitas vezes encobrem as espertezas de nosso subconsciente: “Uma sádica como ela é uma artista do mal, o que uma criatura inteiramente má já não poderia ser, pois o mal não lhe seria externo, antes lhe pareceria muito natural. Aliás, não se distinguiria dela; e a virtude, a memória dos mortos, a ternura filial, como não as cultuasse, não sentiria nenhum prazer sacrílego em profaná-las.”

Ela devia sentir, dizia Marcel, no momento em que profanava com a amiga a fotografia do pai, que tudo aquilo era apenas doentio, e não a verdadeira e alegre maldade que a amiga teria desejado. “A ideia de ser aquilo uma simulação de maldade era a única coisa a estragar-lhe o prazer. E essa ideia que ocorreu-lhe mais tarde, minorou-lhe o sofrimento.”

“As sádicas tipo Srta. Venteuil são seres tão puramente sentimentais, tão naturalmente virtuosos que até o prazer sensual lhes parece algo de maldoso, privilégio dos malvados. E quando permitem a si mesmas se entregarem a eles por um momento, é na pele dos maus que tentam se por, e de fazer entrar o seu cúmplice, de modo a ter um instante de ilusão de estarem se evadindo de suas almas escrupulosas e brandas, para um mundo desumano de prazer. Não era o mal que lhe dava a sensação do prazer, que lhe parecia agradável; era o prazer que lhe parecia maligno.”

Caminhemos em seguida para o segundo ato do mesmo melodrama. Saberemos que foi  graças à amiga sádica que a Sinfonia de Vinteuil, que faria a fama póstuma do compositor, teria sido concluída. Vinteuil, segundo diziam, quando morrera só deixara a Sonata (aquela tanto emocionara Swann) e  tudo o que restara de seu trabalho ficara como inexistente, em anotações indecifráveis. Mas que acabaram sendo decifradas, à força de paciência, da inteligência e do respeito, pela única pessoa que convivera bastante com Vinteuil para conhecer-lhe bem a maneira de trabalhar, para lhe adivinhar as indicações de orquestra: a amiga da Srta. Vinteuil.

Portanto, por uma ironia do destino, aquela criatura desalmada que lhe arrebatara a filha e o precipitara de desgosto na morte, trar-lhe-ia a eternidade.

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