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"Textos e Contextos de Dostoiévski à Geração Sacrificada"

Prefácio

“Textos e Contextos, de Dostoievski à Geração Sacrificada” se destina a penetrar na vida intelectual, política e social da Rússia em seu período de maior riqueza criativa, quando se dará o nascimento e a maturidade da modernidade, propiciando um amplo leque de descobertas e dissidências, contradições e ambiguidades, repleta de pensamentos e atitudes libertadoras e revolucionárias, que modificarão radicalmente tanto estruturas quanto superestruturas sociais  petrificadas por quase três séculos de feudalismo e de autocracia dos Romanov.

Dizia o Zaratustra de Nietzsche que “todo aquele que quiser ser criativo no bem e no mal deverá antes ser um aniquilador e destruir valores”. Pois os povos russos destruíram e construíram valores com violência que só encontra paralelo na própria brutalidade com que o czarismo imperara por tanto tempo e que se entranhara no cerne do camponês russo. 

Queremos nesse prefácio pontuar que o entendimento do processo artístico, literário e político russo passam necessariamente pela compreensão da modernidade que, aflorando em meados do século XIX, adquire força irresistível nas primeiras décadas do século XX. Marx, um pensador moderno, que era ambiguamente entusiasta e temeroso da própria vida moderna, foi prometeico ao expressar: “Todas as relações fixas, enrijecidas... foram banidas: todas as novas relações se tornaram antiquadas antes que chegassem a se ossificar. Tudo o que é sólido desmancha no ar, tudo o que é sagrado é profanado, e os homens são levados a enfrentar... as reais condições de suas vidas e das relações com outros homens”.

Este livro principia no tempo do czarismo absolutista e inquisitorial de Nicolau I, atravessa as reformas de Alexandre II e o crescer da revolta em setores intelectualizados da baixa aristocracia, visita o surgimento do anarquismo e do terrorismo, passa pelo obscurantismo de Alexandre III e de Nicolau II chegando até a Revolução de 1905, depois a Primeira Grande Guerra e o desmoronamento do czarismo.  Caminha, então, até a Revolução Soviética de 1917 e a terrível guerra civil que a ela se seguiu, terminando na consolidação da primeira sociedade socialista, sob o total isolamento de um mundo que lhe era hostil.

A primeira sociedade socialista da história teve que enfrentar todos os incríveis desafios de construção do novo, daquilo que somente se escrevera e discutira tendo em vista o capitalismo evoluído, dentro daquilo que os marxistas haviam previsto como uma revolução mundial. E esta experiência inédita na humanidade ocorreu em uma sociedade que, sob o czarismo, jamais respirara ares minimamente democráticos, em que as contradições e até mesmo simples reivindicações eram tratadas pela chibata, pela prisão, pelo exílio e até mesmo pelo extermínio.

“Textos e Contextos, de Dostoiévski à Geração Sacrificada” parte de meados do século XIX e chega a 1930. Nesse trabalho a literatura russa é vista desde a incrível geração herdeira de Gogol e Puchkin, que surpreendeu e surpreende o mundo com gênios que somente a Rússia torturada se permitiria brindar, cada um deles a seu modo um desbravador de novos caminhos literários e construtores da alma moderna: Dostoiévski, Tolstói, Turgueniêv, Lescov e Tchekhov.

Avançaremos pela literatura contestadora e vanguardista de Máximo Gorki, fundador daquilo que se denominou “literatura proletária” e chegaremos ao jornalismo de guerra de John Reed com os “Dez dias que abalaram o mundo”; enfocaremos os ícones que deram suporte superestrutural à Revolução de 1917 e visitaremos Moscou pelo olhar de Walter Benjamin, no ano de 1926.

A seguir nosso foco será a última grande geração de talentos russos, que ajudaram a construir a Revolução Socialista e que, de um modo ou de outro foram, por seus pensares inovadores e contestadores, alijados do processo quando a revolução se consolidou. Falamos daqueles homens e mulheres nascidos nos anos de 1880 e 1890, que comungariam com um Flaubert para quem “o único meio de suportar a existência era despojar-se na literatura como numa orgia perpétua”. E enfrentando todos os riscos, foram os últimos artistas realmente criativos e modernos da sociedade soviética. Nossos destaques serão para Ossip Mandelstam, o instigador da “revolução da palavra”; para o modernismo de duas poetizas Marina e Ariadna Efron; Isaac Babel e seu jornalismo literário da “Cavalaria Vermelha”; Vladmir Maiakoviski, o “poeta de revolução” e E. Meyerhold, parceiros em “O Percevejo”; Boris Pasternak e seu epopeico “Dr. Jivago” e, finalmente, Mikhail Bulgákov, o grande simbolista, autor de “O Mestre e a Margarida”.

Procuramos ser fiéis ao desenvolvimento dos fatos históricos e das visões de mundo que os embasaram; quase que à maneira de um repórter jornalístico, procuramos mostrar de que modo a vida se envolveu e foi influenciada pela literatura e pela arte poética, uma das mais  instigantes do todo o primeiro período do modernismo mundial, as poesias e escritas russas.

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