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"Textos e Contextos de Dostoiévski à Geração Sacrificada"

O czarismo na primeira metade do século XIX: o surgimento da revolta, na antessala da modernidade

Em 1703, o Império Russo deu um enorme passo para a redução de seu isolamento e atraso secular. O Czar Pedro o Grande, com os olhos voltados para o ocidente, concebeu a construção de uma enorme cidade localizada nos pântanos servidos pelo Rio Neva (que significa lama em russo), abrindo o caminho fluvial rumo ao Mar Báltico. Em três anos, ao custo de mais de cento e cinquenta mil vidas vítimas do impaludismo e de castigos bárbaros, ergueu-se a nova capital de toda a Rússia: Petersburgo!

Enquanto Moscou, simbolizando o anti-iluminismo da época, permanecia como a capital espiritual e centro da ortodoxia, Petersburgo tornou-se, quase que do dia para a noite, a capital política e comercial de todo o Império, uma ponte para o mundo ocidental. E ela foi, no decorrer de todo o século XVIII, decorada e embelezada com a simetria e as perspectivas clássicas ocidentais, chegando mesmo a alcançar as extravagâncias do estilo rococó em muitas edificações. Estas obras foram edificadas por ordem dos descendentes de Pedro: Ana, Elizabeth e Catarina, a Grande. Um dos seus marcos arquitetônicos, o Palácio de Inverno (1754/ 1762), foi a primeira residência permanente dos czares desde então. Outro monumento de destaque foi a enorme estátua equestre de Pedro o Grande, instalada em 1782 na Praça do Senado, a inspiradora de “O Cavaleiro de Bronze” de Pushkin.

Se em 1800, Petersburgo e Moscou tinham praticamente a mesma população, ao redor de duzentos mil habitantes, nos quarenta anos seguintes, enquanto Moscou permanecia praticamente estagnada, Petersburgo alcançava seu primeiro meio milhão de almas, o que já a situava como uma das grandes cidades europeias.

É bem verdade que os sucessivos governos sempre cuidaram com esmero dos locais públicos, principalmente das avenidas e das fachadas de seus belíssimos edifícios. Entretanto, com o crescimento acelerado, os exteriores majestosos e limpos, não raro passaram a esconder cortiços mal cheirosos onde as pessoas se apertavam para sobreviver, tão bem descritos nos “dvorniks” de Dostoiévski.

E Petersburgo ao “ocidentalizar” camadas significativas da aristocracia e dos burocratas do Estado czarista, abriu as portas para diversos aspectos da modernidade que se desenvolvia na Europa. Apenas para termos uma ideia sobre o nível desta influência basta mencionar o fato de que até meados do século XIX, a aristocracia russa, mormente a petersburguense, preferia comunicar-se entre si em francês, utilizando o russo apenas na comunicação com vassalos.

Tudo isso, entretanto, não significou qualquer redução no poderio autocrático do czarismo, exceto por breves períodos históricos. O primeiro desses períodos foi marcado pela aliança entre Alexandre I e Napoleão Bonaparte, quando se permitiram iniciativas liberais no interior da burocracia imperial. Com a ruptura da mesma e a invasão da Rússia em 1812, seguida pela desastrosa fuga e destruição do exército francês, a Rússia transformou-se no principal baluarte do atraso e da contra revolução em todo o continente europeu.

A experiência desta guerra, magistralmente retratada em “Guerra e Paz” por Tolstói, no entanto, permitiu o contato direto do exército czarista com o mundo ocidental e com a França, aportando em segmentos da oficialidade, assim como em setores da burocracia de Estado, anseios liberais. Estes iriam eclodir na década seguinte quando da morte prematura por febre amarela do Czar Alexandre I, o qual não deixou filhos para sua sucessão natural.

Em dezembro de 1826, uma revolta de oficiais do Exército, conhecida como Decembrista, tentou impedir a posse de Nicolau I, o irmão mais novo de Alexandre I. Reunidos em volta da estátua de Pedro o Grande, símbolo do progresso e da modernização, oficiais realizaram uma manifestação exigindo que fosse proclamado imperador o grão duque Constantino, irmão mais velho do czar morto, adepto de ideias menos ortodoxas.

Constantino, que vivia fora da Rússia negou-se a assumir o trono, e os militares reformadores foram derrotados a ferro e fogo. A repressão bárbara se abateu sobre mais de vinte mil oficiais e funcionários públicos, e, com isto, Nicolau I manteve a autocracia repressora, avessa a absolutamente qualquer progresso até sua morte em 1855, no decorrer da desgastante guerra da Criméia.

Talvez a “contribuição” mais duradoura de Nicolau I tenha sido a criação da primeira polícia política no mundo, sob a denominação de Terceira Divisão. Seu governo não somente foi cruelmente repressivo, mas estabeleceu um arquétipo do Estado policial. Durante seu império de quase trinta anos, mais de seiscentas sublevações camponesas foram massacradas sem que nenhuma notícia delas se tivesse, tanto na Rússia quanto no exterior. Todas as instituições como escolas e universidades possuíam agentes infiltrados, forçando que todo o pensamento e cultura não ortodoxa fossem condenados à prisão, ao exílio ou à clandestinidade.

O intelectual russo exilado, Alexander Herzen traçou com maestria um panorama do Império de Nicolau I: “Sem se tornar um russo, ele deixou de ser um europeu... Não havia motor em seu sistema, pois ele se limitava a perseguir qualquer anseio de liberdade, qualquer ideia de progresso... Durante seu longo reinado, ele deturpou quase todas as instituições, introduzindo em todos os lados a paralisia e a morte.”

A insistência de Nicolau I na “santidade” da servidão, o que agrilhoava o homem à terra e a seus proprietários, se por um lado desencorajava os senhores a modernizarem suas fazendas, por outro impedia a mobilidade e liberdade dos trabalhadores e com isto amplificou o atraso russo. Ao mesmo tempo, na Europa ocidental as economias capitalistas se desenvolviam.

O intelectual russo Vissarium Belinski, falecido precocemente em 1848, diagnosticou numa frase preciosa um dos fatores mais preponderantes da estagnação que a Rússia vivia sob Nicolau I: “Países sem classe média são condenados a serem insignificantes.”

De todos os modos, 1826 foi um marco no processo de modernização da Rússia. Pela primeira vez em toda a história de séculos do poder da dinastia dos Romanovs, ocorreu que na cidade mais ocidentalizada da Rússia um pequeno segmento da população tomasse posse do espaço público e ousasse contestar a posse de um Czar! Desta forma, após a rebelião e a repressão aos Decembristas, o atraso representado pelas relações sociais baseadas no servilismo e na propriedade feudal, serviram como fermento para o surgimento gradual do germe da revolta, a busca por valores mais liberais e menos autoritários em seguimentos intelectualizados da própria aristocracia russa.

Três jovens representantes da baixa aristocracia intelectualizada: Mikhail Bakunin, Aleksandr Herzen, filósofo, escritor e jornalista, e Vissarium Bielínski, crítico literário realista que acreditava no papel revolucionário da literatura, foram as mais importantes personagens que encarnaram a revolta dentro do intelectualismo russo. Cada um deles, a seu modo, dedicou sua vida em pró de mudanças políticas ou sociais, pela liberdade e, até mesmo por uma sonhada revolução social. Representaram o espírito de seu tempo.

 

Bakunin e a revolta que ultrapassou as fronteiras russas.

                                                                                     

Mikhail Bakunin nasceu no dia 18 de maio de 1814, em uma família rica e de linhagem nobre. Do pai, que se identificava com o liberalismo europeu e com a Revolução Francesa, herdou uma educação baseada nestes ideais. Depois do levante Decembrista e da repressão que se abateu sobre os liberais, o pai com medo do futuro para o filho, enviou-o para que seguisse uma carreira militar.

A displicência do jovem, entretanto, influenciado pelas ideias libertárias da infância, faria com fosse desligado rapidamente do Exército. Aos vinte e um anos, mudou-se para Moscou com o objetivo de estudar filosofia.

Engajou-se no estudo sistemático da filosofia idealista. Primeiro Kant, depois progrediu para Schelling, Fichte, e finalmente, Hegel. Realizou a primeira tradução de parte da obra do grande filósofo idealista alemão para o idioma russo. Conheceu na universidade dois outros intelectuais, os socialistas Herzen e Ogarev e com eles travou uma amizade de toda a vida.

O jovem Bakunin tinha ânsia pelo saber. De Moscou foi a Berlim em 1840. Tomou parte em um coletivo de estudantes denominados de "a esquerda hegeliana" e terminou por unir-se ao movimento socialista. Em seu ensaio “A reação na Alemanha”, publicado em 1842, ele argumentava a favor da ação revolucionária da negação, resumida na frase “a paixão pela destruição é uma paixão criativa”, pois se torna impossível criar o novo sem primeiro destruir-se o velho, um conceito que prenunciava o surgimento do vanguardismo modernista ocidental.

Nessa época trava relações com outro intelectual e aristocrata russo, o escritor Ivan Turgueniev. Dessa relação, Tuguenief extrairá o perfil do personagem central do romance “Rudin”, uma obra de arte a retratar a intelectualidade aristocrática em revolta.

Bakunin era muito conceituado no meio universitário, mas terminará por recusar-se a seguir na carreira acadêmica para devotar-se à promoção da revolução. Em 1844, vai a Paris, considerada a Meca das ideias socialistas, onde estabelece um primeiro contato tanto com o também jovem Karl Marx, quanto com o anarquista Proudhon.

Mesmo Bakunin não tendo exercido qualquer ação política na Rússia, em dezembro de 1844 o imperador Nicolau I, por decreto, retirou-lhe todos os privilégios, destituindo-o de seu título de nobreza e de todos seus direitos civis, confiscando suas posses e condenando-o à prisão na Sibéria para o resto da vida, caso as autoridades russas conseguissem pegá-lo. Do dia para noite um “barin” rico fora transformado em um pobre imigrado e com ordem prisão e de degredo. Esta era a marca dos Romanovs!

Bakunin  respondeu ao decreto com uma longa carta pública denunciando o imperador como déspota e fazendo um chamado à democratização da Rússia. Em consequência da mesma foi expulso da França e fugiu para Bruxelas. Lá em 1848, realizou um discurso profético sobre o grande futuro reservado aos eslavos, cujo destino seria rejuvenescer a Europa Ocidental.

Desde então, não havia local em uma Europa Ocidental em chamas onde Bakunin não procurasse estar. De certa forma, podemos dizer que ele e Karl Marx disputavam a liderança de um movimento político que abrangia a maior parte dos países europeus, com reflexos inclusive na América do Norte.

Nesta disputa, Marx chegou a alegar publicamente que Bakunin seria um agente infiltrado do imperialismo russo, graças a uma denúncia feita por George Sand. Marx, entretanto, se retrataria publicamente depois que George Sand se confessou equivocada a respeito (aliás, não foram poucas as vezes em que esta senhora se equivocou sobre pessoas com as quais não concordava politicamente).

Incansável, Bakunin teve um papel de destaque no levante de maio de Dresden, em 1849, ajudando a organizar barricadas contra as tropas prussianas, lado a lado com o compositor  Richard Wagner e com o poeta Wilhelm Heine.

Bakunin terminou preso pelos saxões em Chemnitz e foi entregue às autoridades russas. Na Rússia terminou trancafiado na terrível Fortaleza de Pedro e Paulo, símbolo da repressão política de Petersburgo. Um emissário do Imperador visitou-o na cadeia e comunicou-lhe que o Czar Nicolau I queria uma confissão sua por escrito. Ele escreveu-lhe: “O senhor quer a minha confissão; mas precisa saber que um criminoso penitente não é obrigado a implicar ou revelar as ações de outrem. Guardo apenas a honra e a consciência de que jamais traí quem quer que tenha confiado em mim, e é por esse motivo que não lhe entregarei nada e nem ninguém.”

Depois de três anos na Fortaleza, ele passou mais quatro anos acorrentado pelas pernas e pelos braços nas masmorras subterrâneas do castelo de Shlisselburg. Acometido de escorbuto, teve a perda de todos os dentes. No desespero pediu ao irmão que lhe trouxesse cianureto para suicidar-se. Não foi atendido.

Quando os russos foram derrotados na guerra pela Criméia, tendo falecido Nicolau I, seu sucessor, graças à desastrosa situação econômica que o país atravessava, foi impelido a determinadas aberturas políticas. Alexandre II exigiu, entretanto, que o nome de Bakunin ficasse fora da lista de anistiados políticos. No entanto, dois anos após, o Czar atendeu ao apelo da mãe e decretou o exílio de Bakunin na Sibéria Ocidental.

No degredo, Bakunin casou-se. Em agosto de 1858, recebeu uma importante visita que iria propiciar-lhe mais uma conspiração e, finalmente, a fuga para a liberdade: era a de seu primo em segundo grau, o conde Nikolay Muravyov, que fora nomeado governador-geral da Sibéria Ocidental.

Muravyov era liberal e Bakunin enquanto parente, tornou-se seu primo favorito e protegido. Logo este logo organizou um círculo de discussões políticas no quartel da colônia de Muravyov. Deste grupo emergiu a proposta para a criação dos “Estados Unidos da Sibéria”, independente da Rússia, seguindo o exemplo dos Estados Unidos nas Américas.

Quando em Petersburgo tomou-se conhecimento daquilo que sucedia na Sibéria, o primo Muravyov foi forçado a se aposentar do cargo de governador-geral tanto por sua conduta liberal, quanto pelo temor de que ele pudesse levar a Sibéria a um movimento de independência, sob a influência do indomável Bakunin.

Bakunin estava para ser enviado novamente para a prisão quando conseguiu convencer o capitão de uma nau americana a dar-lhe fuga. À bordo escapou disfarçado da vigilância e chegou ao Japão onde, por um acaso, encontrou o poeta Wilhelm Heine, um de seus  camaradas de armas de Dresden. Com o mesmo partiu para São Francisco e aportou a Nova York, tudo isso em menos de um mês.

Bakunin admirava a democracia norte-americana, mas tinha volúpia de reintegrar-se ao movimento revolucionário europeu. Partiu para Londres onde reviu um antigo colega, o socialista russo Alexandr Herzen e tornou a mergulhar no movimento.

Deixou Londres em fins de 1863 chegando à Itália onde, pela primeira vez, se declarou anarquista e expôs suas ideias enquanto tal. Foi lá que concebeu o plano de forjar uma organização secreta de revolucionários e preparar o proletariado para a ação direta. Recrutou italianos, franceses, escandinavos, e eslavos para uma Irmandade Internacional, a também chamada Aliança dos Socialistas Revolucionários. Nos dois anos seguintes, sua sociedade secreta iria se expandir, possuindo membros na Suécia, Noruega, Dinamarca, Bélgica, Inglaterra, França, Espanha, Itália, Rússia e Polônia.

A organização gerou a Liga de Paz e Liberdade que enfatizava que a liberdade deveria ocorrer conjuntamente com o socialismo já que: “Liberdade sem socialismo é privilégio, injustiça; socialismo sem liberdade é brutalidade e escravidão.” Da conferência de Genebra da Liga participaram em torno de 6.000 pessoas. Quando Bakunin se ergueu para falar, escutou: “Bakunin!” Era Giuseppe Garibaldi, que se levantou da plateia e o abraçou. O encontro solene de dois velhos e experientes guerreiros pela liberdade produziu uma impressão estonteante… Todos os presentes se levantaram e houve um prolongado e entusiasmado bater de palmas.

Entre os anos de 1869 e 1870, Bakunin esteve envolvido com Sergey Nechayev, personagem que inspiraria Dostoiévski em “Os Demônios”, na personagem de Piotr Verkhovenski. Em conjunto, os dois teriam escrito o "Catecismo de um revolucionário", obra exemplar de maquiavelismo político, atitude da qual Bakunin iria publicamente se arrepender. Pouco mais tarde, após Nechayev coordenar à morte um estudante russo que não reconhecia nele a autoridade revolucionária, Bakunin rompeu com o mesmo, “devido aos seus métodos sem honra”. Desde então, renegou para sempre a ideia “que todos os meios são justificáveis para atingir os fins revolucionários”. Antecipando Sartre, afirmou: “são os meios que justificam os fins.”

Bakunin participou da fundação da Primeira Internacional Social- Democrata até ser expulso por Karl Marx e seus seguidores no Congresso de Haia, em 1872. As discordâncias entre Bakunin e Marx ilustram a crescente divergência entre aqueles que advogavam a ação e organização dos trabalhadores de forma a abolir o Estado e o capitalismo, e os que, sob a batuta de Marx, defendiam a conquista do poder político pela classe operária e a implantação da ditadura do proletariado.

Bakunin criticava de forma efusiva o que chamava de "socialismo autoritário" e o conceito de “ditadura do proletariado”. “Se você pegar o mais ardente revolucionário, e investi-lo de poder absoluto, dentro de um ano ele seria pior que o próprio Czar”.

As palavras de Bakunin soam absolutamente proféticas em relação à Revolução Socialista de 1917: “Assim, sob qualquer ângulo que se esteja situado para considerar esta questão, chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo da imensa maioria das massas populares se faz por uma minoria privilegiada. Esta minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários. Sim, com certeza, de antigos operários, mas que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, deixarão de ser operários e se colocarão a observar o mundo proletário a partir do Estado; não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo. Quem duvida disso não conhece a natureza humana.”

Bakunin ainda previu que, se os marxistas tivessem êxito em ocupar o poder, eles iriam criar uma ditadura de partido "em tudo mais perigosa porque ela se apresentaria como uma falsa expressão da vontade do povo." Ele insistia que qualquer "elite iluminada" só deveria exercer influência discreta, jamais se impondo na forma de uma ditadura a outrens e nunca se aproveitando de quaisquer direitos oficiais, em termos de benefício ou significância.

Em 1870, Bakunin atuou como articulador de um levante na cidade francesa de Lyon, que precedeu a Comuna de Paris, com a qual compartilhou princípios e modelos. Bakunin elogiou os homens e mulheres da Comuna de Paris, de 1871, que posteriormente ficaram conhecidos como “communards”, por rejeitarem não só o Estado, mas também uma "ditadura revolucionária", mesmo a custas dos próprios pescoços.

Liberdade para ele consistia no "desenvolvimento pleno de todas as faculdades e poderes de cada ser humano pela educação, pelo treinamento científico, e pela prosperidade material." Tal concepção de liberdade é "eminentemente social, porque só pode ser concretizada em sociedade, não em isolamento”.

A forma de socialismo que Bakunin concebia era um "anarquismo coletivista", condição na qual os trabalhadores poderiam administrar diretamente os meios de produção através de suas próprias associações produtivas. Assim haveria "modos igualitários de subsistência, fomento, educação e oportunidade para cada criança, menino ou menina, até a maturidade, e recursos e infraestrutura análoga na idade adulta para dar forma ao seu bem estar através do próprio trabalho."

Defendia que o Estado deveria ser imediatamente abolido após a revolução porque todas as formas de governo, eventualmente, levariam à opressão. “Nenhuma ditadura pode ter qualquer outro objetivo além de sua autoperpetuação; ela pode apenas levar à escravidão o povo que tolerá-la; a liberdade só pode ser criada através da liberdade, isto é, por uma rebelião universal de parte das pessoas e a organização livre das multidões de trabalhadores de baixo para cima.”

Apesar da oposição veemente à proposta marxista de revolução, ele considerava as análises econômicas apresentadas por Marx extremamente importantes, tanto que foi ele próprio, o primeiro tradutor do “O Capital” para o idioma russo.

Bakunin retirou-se para a cidade suíça de Lugano em 1873. Mesmo doente funda uma editora na qual parte de seus livros são publicados sob o título de “Estadismo e Anarquia”. Em 1876, com a saúde muito deteriorada, Bakunin é levado por um amigo para um hospital em Berna. Lá encontrou seu fim.

Seu corpo foi enterrado no cemitério de Bremgarten. Seu túmulo foi mantido por muitos anos graças às doações de um suíço anônimo, sendo visitado por anarquistas vindos de todo o mundo. Segundo o diretor, não era incomum que em algumas noites grupos de jovens entrassem no cemitério e se reunissem para beber junto ao seu túmulo.

A vida e a obra de Bakunin formataram a base do anarco- sindicalismo, de enorme importância nas conquistas dos trabalhadores nos séculos XIX e XX. Ainda influenciam diversos movimentos como os grupos ambientalistas e aqueles que utilizam a tática de ação direta das “massas”. Movimentos cooperativistas, de ocupação e de reforma urbana, grupos e locais de trabalho de autogestão, também carregam em si o germe da ideologia anarquista e o pensamento de Bakunin.

E para além de seu legado político e filosófico, Bakunin tornou-se um símbolo do antiautoritarismo no mundo das ideias e segue sendo uma referência presente entre os anarquistas nossos contemporâneos, dentre eles Noam Chomsky.

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