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"Textos e Contextos de Dostoiévski à Geração Sacrificada"

A incrível geração dos escritores da segunda metade do século XIX.

As décadas de 1850 e de 1860 foram claros divisores de águas na vida russa. A crise decorrente da derrota na Criméia forçou o czarismo a realizar algumas reformas como a abolição gradual da servidão. Os camponeses, agora nominalmente libertos, permaneceriam economicamente dependentes dos senhores feudais. Logo, ao lado da nascida esperança, surgiu nos campos uma enorme amargura. E esta frustração marcará profundamente os camponeses russos até mesmo a Revolução de 1917.

O czarismo de Alexandre II também permitiu a organização de governos locais, os zemtvos, assembleias comandadas pela aristocracia e dependentes de sanções centrais. Outra reforma importante foi a judicial, com a criação de tribunais especiais para camponeses, com jurados e juízes eleitos. Realizou igualmente reformas no Exército, como a redução do castigo por chibatadas imposto aos soldados, que não raro os levavam à morte. Ao mesmo tempo, instituiu o serviço militar obrigatório.

Enquanto o regime czarista se permitia medidas liberalizantes, inclusive com uma redução significativa da censura, nos meios intelectuais o niilismo e a revolta da primeira metade do século se expandiam e surgiam associações anarquistas e social-revolucionárias.

Data dos anos 1860 o surgimento dos “raznochintsy”, filhos de artesãos, padres, baixa oficialidade, emigrados do campo, que constituiriam os germes de uma classe média, que quando entra em cena o faz com grande estardalhaço. Serão eles os herdeiros dos Bezarovs de Turguêniev, mas dispostos a agir sob a realidade político-social, ao estilo Bakunin.

Num dia de setembro de 1861, um cavaleiro misterioso distribuiu na Perspectiva Nevski, coração de Petersburgo, um panfleto destinado à “Geração Jovem”: “Queremos no poder um homem simples do campo, capaz de compreender a vida das pessoas e que seja um líder eleito e que receba salários pelo seu serviço”.

Três semanas mais tarde, a multidão da Nevski assistiu a algo ainda mais inusitado. Centenas de jovens saíram da universidade e caminharam em direção à residência do diretor da mesma. As bolsas de estudo que permitiam a entrada de “raznochintsy” no sistema de ensino haviam sido suspensas. A demonstração foi espontânea, mas gritos de “revolução, revolução” faziam-se ouvir.

Nos dias que se seguiram centenas de estudantes foram expulsos da universidade, muitos presos, outros desapareceram. Seguiram-se greves de alunos e professores e várias manifestações eclodiram pela cidade de Pedro o Grande. A Universidade de Petersburgo foi fechada por dois anos.

Fora Rousseau quem dissera que “casas fazem um burgo, cidadãos, uma cidade”. Pois Petersburgo tornou-se a primeira “cidade russa” e assim permaneceria até a Revolução Soviética de 1917, o centro político, comercial, intelectual e de contestação cultural de toda a Rússia.

De tal forma que na segunda metade do século XIX, a Rússia feudal do despótico czarismo e do capitalismo insipiente gerou uma estirpe de criadores em todos os campos intelectuais, que se colocaram dentre os maiores de toda a história da humanidade!

O teatro, a poesia e a literatura viram surgir gênios da estatura de Dostoiévski, Tolstói, Tchekhov, Turguênief, Lescow, Górki, que uns primeiro que outros ultrapassaram as fronteiras russas e se difundiram por todos os continentes, influenciando outros artistas e angariaram incontáveis multidões de leitores.

De modo assertivo o crítico George Steiner afirma que três foram os principais momentos da literatura ocidental: num primeiro, os dramaturgos atenienses e Platão; depois, na época elisabetana, Shakespeare, e, num terceiro quando do florescimento do romance russo, nos últimos cinquenta anos do século XIX, tendo por principais expoentes Dostoiévski e Tolstói. Pois a eles nos dedicaremos agora.

A. Fiodor Dostoiévski

 

I. Ao encontro de Dostoiévski

“Um livro é de fato descoberto apenas quando for compreendido” (Goethe).

O conjunto da vastíssima obra de Dostoiévski é tão atual quanto possam ser os tormentos da alma e os escaninhos de nosso subconsciente. De alguma forma, a ele foi dado, como a poucos, o conhecimento do coração humano, cujas veleidades mais ocultas e mais criminosas são postas a nu nos seus personagens. E isto Dostoievski realizou encarnando tanto a própria alma e suas doenças físicas, quanto expondo as chagas da pobreza e da vilania mais infamante que quase sempre o envolveu.

Dizia Merejkovski: “Ao lermos Dostoiévski nos deparamos com nossos próprios pensamentos ocultos, aqueles que não confessaríamos nem a um amigo e nem a nós mesmos... porque contêm uma arrepiante revelação: a revelação das profundezas da consciência, os mistérios do subconsciente”.

Nietzsche jamais ocultou o quanto bebeu em Dostoiévski.  Chamava-o mesmo de “aquele meu mestre, com seu profundo e criminoso rosto de santo... possuidor da grandeza religiosa dos amaldiçoados, do gênio como doença e da doença como gênio, do tipo atormentado e possesso, no qual o santo e o criminoso são um só…”.

Nessa introdução é nosso dever sinalizar que a arte de Dostoiévski não se direciona a todos os tipos de leitores. Ela se volta basicamente para espíritos que sejam ansiosos, que vivam sob as tensões existenciais paralelas àquelas dos personagens, ou, dito de outra forma, somente para leitores capazes de vivenciarem as paixões que chegam até eles pela literatura. E estes, ao descobrirem-no, sentirão que seus romances agem de uma maneira hipnotizadora sobre si próprios. “Com uma volúpia consciente, diabólica, Dostoiévski retarda o momento em que seremos conquistados, levando-nos ao paroxismo da angústia interior”, sublinha Zweig.

Ao iniciamos a leitura de qualquer de seus livros, deparamo-nos com um escritor que em meia dúzia de frases descreve todo o ambiente onde o enredo se desenvolverá. Vestuários, mobiliário e praticamente todo o espaço dedicado por outros à natureza, é aqui ocupado pela humanidade, tudo estará repleto do humano, daquilo que é profundamente humano. O ambiente apenas fornece uma base material restrita para que os personagens nele se locomovam.

Por outro lado, provável herança de Balzac, a quem idolatrava, Dostoiévski buscava nas características e expressões faciais e corporais a identificação de aspectos do caráter e do estado de alma dos personagens e graças a esse recurso cada um deles se torna, uma vez vivenciado, inconfundível para toda a vida do leitor.

Acontece que todos os personagens de Dostoiévski são impalpáveis, compostos quase que exclusivamente por espírito. Todas as suas atividades fisiológica como comer, beber, dormir, são desenvolvidas tendo como referência o significado na ação espiritual do drama, no desenvolvimento das paixões que eles encarnam. E eles se envolvem em controvérsias incessantes, onde cada qual alcança uma espécie de auto emulação, ansiando por interpretar a não somente a si mesmos, quanto a todos os outros personagens, ao mundo e, até mesmo a Deus. E nas paixões transmitidas pela fala de cada personagem encontraremos toda a essência de sua própria existência.

Essas paixões nos ensina Bakhtin, se desenvolvem quando o autor ultrapassa a ideia do diálogo e chega ao que ele denomina de multivocalismo ou polifonia. “Após Shakespeare, talvez Dostoiévski seja o maior e mais polifônico de todos os dramaturgos”.

E Bakhtin vai além. Esses personagens frutos das paixões não têm uma clara identidade unitária e, neste sentido, a visão de mundo do escritor torna-se um espaço controverso, contraditório e sem unidade, despedaçado. As paradas, as repetições, o gaguejar no narrar são indispensáveis, porque “debaixo dessa palavra que falhou existe uma vibração, uma comoção secreta, e nós saberemos não somente o que uma personagem discursa, mas também o que dissimula”.

A própria sensualidade amorosa, por ser paixão, nunca nele é um sentimento doce, terno e harmonioso; pelo contrário, muitas vezes ela é uma tentação monstruosa que, ao invés de conduzir à felicidade, leva à loucura e à ruína da personalidade. Sofre-se por tudo isso muitas vezes ao mesmo tempo, e serão as dores e os sofrimentos que resgatarão do mal e do pecado cada um de seus personagens.

Quanto ao estilo, Dostoiévski é essencialmente um romântico trágico. E este sombrio metafísico nos transmite a impressão de que escrevia seus livros como se fossem peças teatrais, onde, durante a noite desenhava a estrutura essencial do diálogo e, durante o dia, ao ditá-los para a estenografia, expandia as direções de cena.

Pois tal e qual no teatro trágico, nos momentos em que suas “personnas” ultrapassam suas medidas, transformam-se em seres “possuídos”, o que no descrever de Zweig, “quando extravasam seus sentimentos já incandescentes é quando desnudam toda a verdade da alma”.

De todo modo, os mundos de Dostoiévski são esferas de dor, onde todos sofrem quer na doença, quer na miséria, quer nas injustiças sofridas, ou em decorrência das paixões. Se na tragédia grega buscava-se a “katarse”, ou seja, a limpeza dos heróis e do público que a presenciava, em suas obras temos um correspondente: a “confissão”, que leva através da humilhação à purificação da alma.

Os romances de Dostoiévski são dramas colossais, cênicos  em quase toda a sua estrutura; neles, as ações são compactadas em uns poucos dias. Em “Os Irmãos Karamazovi”, até o julgamento de Dmitri, tudo se passa em apenas cinco dias; a primeira parte e a mais volumosa de “O Idiota”, em 24 horas e “Crime e Castigo”, numa semana.

II. A religiosidade e o conceito de liberdade em Dostoiévski.

“Cuidando essencialmente do homem e da finalidade de sua existência sobre a Terra, procurando desvendar os motivos e as consequências ocultas de todos os nossos atos, ansiando perpetuamente por resolver o secular problema do determinismo e do livre-arbítrio, fundamentando toda a sua obra na discussão metafísica do problema da liberdade, Dostoiévski fundou uma antropologia, que é, antes de tudo, uma gnose”. Esta definição de Wilson Martins equaciona um dos aspectos essenciais de Dostoiévski como um escritor religioso, para quem Cristo sempre está presente, mesmo quando nem é pressentido na narração.

Acontece que a antropologia tendo Cristo como referencial somente se plasma por este ter uma imagem diferente, profundamente ortodoxa e eslavófila: trata-se de um Cristo destituído da liturgia e encarado única e exclusivamente como homem, como o homem em sua perfeição. E é neste sentido, que Ele simboliza a Verdade oferecendo a nós, mortais, a verdadeira Liberdade, na fórmula de uma liberdade final.

Pois em Dostoiévski, tanto a liberdade quanto o bem e o mal sempre estão presentes, mas estes possuem quase que exclusivamente um aspecto metafísico nunca se manifestando do ponto de vista político. Nesse caminho, Berdiaev distingue dois aspectos desta liberdade. A liberdade inicial sempre carrega limites necessários, e cabe ao homem posicionar-se por seu livre-arbítrio; quando esta liberdade não reconhece limites e se dá como valor absoluto, ela é destruidora e abre as portas ao niilismo, ao orgulho e ao individualismo, que a tudo nega e corrompe.

E entre o bem e o mal, na afirmação da liberdade, os sentimentos tornam-se complexos, instáveis, os homens se confundem, atropelam-se e se combatem com extremado vigor. Zweig observou que, por isso tudo, “a  alma em Dostoiévski é um puro caos; pois bem, encontramos ora bêbados por desejo de pureza, ora criminosos por desejo de arrependimento, ora homens que violam virgens por respeito pela inocência, ora blasfemos por necessidade religiosa”.

Ainda Zweig assinala que na ausência de unidade nesse psiquismo humano, o que subsiste é uma psicologia analítica que dissocia e desfibrila. Como comparação literária nos diz que se em Homero, “Ulisses é esperto, Aquiles, corajoso, Ajax, irascível e Nestor é prudente”, em Dostoiévski todos os personagens são ambíguos e suas condutas são imprevisíveis. De tal forma que, de conflito em conflito, eles chegam a estados de desdobramento de suas personalidades e temos o surgimento de duplos, como o Príncipe Michikin e Rogogin, que são verso e reverso da mesma moeda, em “O Idiota”.

III. Messianismo e conservadorismo.

Se a fé dostoiévskiana em Cristo é o referencial onde aportarão todos os anseios de máxima humanidade, a crença em Deus é muito problemática. Seus personagens confessam, por exemplo, que Deus torturou-os a vida inteira, o que simboliza o conflito persistente entre a razão do autor a negar um porto seguro e sua sensibilidade a afirmar a necessidade deste porto, local onde se abrigaria a pureza, o amor e a paz.

Esta dúvida atroz empurra Dostoiévski para o abrigo de um Cristo que se torna russo, e é da Rússia que ele crê que surgirá a salvação para toda a humanidade! Somente o povo russo possuiria a capacidade de compreender os outros povos e por isso seria até mesmo necessário “que todos os homens se tornem russos”. Nesse sentido, ler Dostoiévski significa penetrar no universo de um grande nacionalista, onde o próprio destino da humanidade passa pelo destino de seu povo.

Esse messianismo, na verdade, constitui uma nova ambiguidade: se Dostoiévski chega a desprezar as influências ocidentais, racionalistas, democratas e socializantes em pró de um novo eslavismo, a preferir a ordem à luta pela liberdade política, por outro lado, ele jamais se aliou aos poderosos, em nenhum momento frequentou os aristocratas, sempre se revoltou contra aqueles que atacassem os “humilhados e ofendidos”, ou seja, a infinita maioria do povo russo.

Na verdade, a visão de mundo de Dostoiévski condena os germes de uma revolução social que já fermentavam em terra russa, na medida em que ele presume que qualquer revolução que se fizesse contra a autocracia russa redundaria em uma nova autocracia russa, ocorrendo apenas uma mudança de senhores e o povo permaneceria reduzido à servidão, na situação de rebanho. Prevê que, em nome de uma futura felicidade social, o princípio religioso também seria sacrificado e, novos crimes, praticados.

Sem dúvida, Fiodor Dostoiévski era um conservador, mas um conservador de talhe profundamente humanista. Ele propugna pela dignidade do ser humano, pelo amor ao próximo, pela fraternidade universal, expressando como ninguém o sentimento de com- paixão pelos fracos e oprimidos e pela redenção dos degradados sociais. Da mesma forma, satiriza e ridiculariza como ninguém as vaidades, a corrupção social e a mediocridade das altas rodas.

Segundo André Gide, Dostoiévski “tem sempre qualquer coisa para desagradar a todos os partidos” e na mesma linguagem do século XX, a todas as correntes ideológicas.

IV. O escritor em seu contexto.

Fiodor Dostoiévski nasceu em Moscou em 1821, filho de um médico de origem nobre e instruído, mas empobrecido, altamente depressivo e com acessos de cólera. A mãe era uma simples camponesa e dela pouco sabemos. O seu primeiro lar foi um hospital militar.

Aos dezesseis anos morreu-lhe a mãe e o pai tomou a decisão de mudar-se com os filhos para o campo. Entregou-se logo após à bebida e em um de seus acessos coléricos terminou assassinado pelos próprios servos.

Fiodor estava matriculado na Academia de Engenharia Militar em S. Petersburgo. Considerado um jovem de poucos amigos, impetuoso e sensível, perdulário e ambicioso, saíra de algum modo ao pai. Era um leitor tão ardente quanto seu irmão Mikhail e não tardou para que se desinteressasse pela carreira militar e abraçasse a literária. 

Em 1844, aos vinte e três anos, já o encontramos vivendo na pobreza daqueles que, sem fortuna, se dedicam aos livros. “Gente Humilde”, o primeiro romance, é inserido no romantismo da época e foi uma grande descoberta para a intelectualidade petersburguense. Na expressão do poeta Nekrassovi, endossada pelo crítico Bielínski, surgia um novo Gogol!

Incentivado por todos a seguir a carreira literária, ao publicar seu segundo romance, “O Duplo”, onde principia a escrita sobre temas psicológicos, no caso a paranoia, sentiu que o êxito obtido principiava por escapava-lhe das mãos.

A infância de Dostoiévski passou-se sob a autocracia do Czar Nicolau I, celebrizado por Tolstói como Nicolau “Palkine”, o homem da palka, o espancador. Reinado marcado por uma política imperialista agressiva e guerras frequentes, assim como por uma repressão implacável. Época também de estagnação econômica e avanço de uma burocracia que perpetuava privilégios e impedia avanços burgueses e liberais.

Em 1833, o Czar fez formular aquele que seria seu programa de governo: "Autocracia, Ortodoxia e Nacionalidade". Estipulava que as pessoas deveriam mostrar lealdade à autoridade ilimitada do Czar, às tradições da Igreja Ortodoxa e, de uma forma mais vaga, à nação russa. Ademais, praticamente abolia a existência das diversas nacionalidades dentro do hemisfério russo.

Chegamos, então, ao ano de 1848 e o espírito do tempo era o da revolta. Denominado de “a primavera dos povos”, o ano foi marcado por sublevações em quase toda a Europa. Neste mesmo ano, ocorre o lançamento do Manifesto Comunista de Marx e Engels: “Um fantasma ronda a Europa: o fantasma do comunismo”.

Dostoiévski, assim como muitos outros intelectuais russos, entusiasmou-se pelos temas libertários e foi fundada uma associação literária: o Círculo Petrachevski. Também é certo que, ademais do grupo literário, Dostoiévski participou de uma organização radical secreta, liderada por Nikolai Spechniev. Essa sua associação, por sorte, jamais chegaria a ser descoberta pelas autoridades czaristas.

Na Rússia aumentavam as perseguições aos intelectuais que clamavam por reformas liberalizantes. Nada melhor para o czarismo que inventar uma conjuração contra o Império, denominando-a de “Conspiração Petrachevski”. Desencadeada a repressão, esta redundaria no episódio mais terrível na vida de Dostoiévski, o qual marcou claramente todas suas obras futuras. O grupo Petrachevski foi preso e confinado na Fortaleza de Pedro e Paulo.

Dostoiévski manteve-se corajosamente calado em todo o interrogatório e ainda subscreveu uma petição reafirmando seus princípios liberais. Após oito meses em solitária, surgiu a principal acusação: haver lido em público uma carta aberta do escritor social- revolucionário Bielínski, então falecido, ao escritor Nikolai Gogol, na qual o autor de “Almas Mortas” era criticado por suas visões políticas e sociais conservadoras! E por esse único fato, Dostoiévski foi condenado à morte!

Já vendado, a comutação da sentença capital pelo Czar ocorreu no último momento. Dostoiévski foi, então, enviado à Sibéria para quatro anos de trabalhos forçados. A Bíblia foi o único livro que lhe permitiram levar no longo martírio da casa prisional, onde será uma sombra entre as sombras, sem nome, apenas um número, esquecido dentre tantos outros “mortos sem sepultura”.

Quando chegando à Sibéria os soldados tiraram-lhe das pernas feridas as correntes que as prendiam, o condenado de vinte e oito anos havia mantido intocável e indestrutível o desejo de vida, de escrever e de tudo anotar em sua prodigiosa memória para um dia servir-lhe de material de criação. E como lhe serviriam! Anos após, em 1862, surgiria o romance autobiográfico “Recordações da Casa dos Mortos”, um libelo contra a tortura e o genocídio nas prisões czaristas!

Em carta a seu irmão, Dostoiévski comenta sobre o calvário vivido: “Não me abati e nem senti desânimo. A vida é vida em qualquer lugar, a vida está em nós mesmos e não fora de nós. Ao meu lado há pessoas e permanecer sempre, quaisquer que sejam os infortúnios, sem perder a coragem e cair no desânimo- eis em que consiste a vida, em que consiste seu objetivo.”

Os quatro anos de trabalho forçado mudaram física e intelectualmente o escritor. Ele desenvolveu os primeiros sintomas da epilepsia que o acompanharia até a morte, e sua visão de mundo e dos homens tornou-se amarga e complexa, sepultando antigos ideais liberais.

Ao final do período, ainda cumprirá mais cinco anos como soldado na fronteira com a Mongólia, sendo-lhe proibida qualquer publicação.

No exílio, casa-se com a viúva de um amigo suboficial, Maria Dmitrievna, construindo um relacionamento desde logo conflituoso. Na própria noite de núpcias Dostoiévski foi acometido por ataque epilético. Anos mais tarde, Maria em seu leito de morte, confessa-lhe que sempre o havia traído, até mesmo naquela noite.

Decorridos nove anos, com a esposa e um enteado, Dostoiévski tem autorização para retornar do exílio à Petersburgo, já sob o reinado do novo Czar. Era o ano de 1859 e o clima intelectual na metrópole mudara. Havia um pouco mais de abertura, um novo nacionalismo de cor eslavófila se afigurava.

O período de 1859 a 1865 foram transformadores para Dostoiévski. Junto com seu irmão Mikhail, fundou a revista “O Tempo”. Em formato de folhetim, publicou seu novo livro: “Humilhados e ofendidos”.

Em 1862, pela primeira vez, aos quarenta e um anos de idade, Fiodor viajará à Europa onde descobrirá duas paixões: uma pela roleta e outra por Pauline Suslova, uma estudante russa liberada de preconceitos. Suslova, com seus dezesseis anos, torna-se amante do escritor que principiava a ser famoso. Mas a moça, rapidamente o troca por novo amor e ele, um ano após a partida, retorna à Rússia. Dostoiévski contrai dívidas e quem o socorre com um empréstimo, que somente será pago nove anos depois, é o escritor Turguêniev.

Na volta à Petersburgo, aguarda-o a esposa tuberculosa, Maria Dmitrievna, e meses após, falece seu irmão Mikhail.  A revista “O Tempo” é fechada pela censura. No entanto, o espírito inquieto de Dostoiévski decide abrir nova publicação: “A Época”. E o faz sob o assédio permanente de censores e de credores.

O destino reservava ao escritor um tempo de profunda solidão. Em 1864, após o irmão falece a esposa enfermiça. Dostoiévski, que sempre teve dificuldade de desenvolver relacionamentos interpessoais, encontra-se agora totalmente só. Solitário e com dívidas, tendo de cuidar do sustento de si mesmo, da família do irmão morto e do enteado.

É quando escreve “O homem do subterrâneo”, uma obra antirromântica, de um pessimismo azedo, influência de seu estado de espírito depressivo e absoluto isolamento. Ora, surgia um obra absolutamente moderna, princípio de uma nova forma literária confessional e irônica, prenunciando o Existencialismo com antecipação de meio século!

De todo os modos, as reformas de Alexandre II, apesar de modestas, eram uma prova evidente que o paquiderme- crocodilo do Estado Czarista poderia mover-se. E é nessa conjuntura que, surge “O crocodilo”, no qual Dostoiévski assinala mais uma nova senda literária futura: o Surrealismo. E será a ele que Kafka recorrerá ao escrever a “Metamorfose”.

Se por um lado, “O crocodilo” assinala o princípio da fase de maturidade criativa, em poucos de seus tantos escritos observamos um Dostoiévski mais livre, sarcástico, irônico e por que não dizer, bem humorado! Acontece que ele vivia uma realidade pessoal de todo modo nova: um novo casamento, em 1867, com a moça que ele contratara para a taquigrafia de “O Jogador” e das primeiras páginas de “Crime e Castigo”, a jovem Ana Grigorievna.

Fiodor logrou alcançar com Ana uma relação afetiva harmoniosa. Fugira da Rússia pelas dívidas que poderiam leva-lo à cadeia, e residia agora em Dresden com a família. Ana engravida pela segunda vez e nem os credores ou os censores oficiais lhe batiam mais à porta. Há algum tempo também deixara as roletas e os baralhos, considerando-se curado do antigo vício.

No tempo certo retorna a Petersburgo e seus últimos romances tiveram uma “editora” e “distribuidora” especial, a própria esposa. Dostoiévski não precisava mais vender direitos autorais antecipados; Ana administrava suas contas, já não surgiam credores e a família podia até mesmo dar-se ao luxo de passar férias em uma dacha.

A cada palestra proferida pelo grande russo maior era o público, suas edições se esgotavam rapidamente. Surgiram um a um seus maiores trabalhos, considerados como os da maturidade artística, em ordem cronológica: “Crime e Castigo”, 1866/ 1868; “O Idiota”, 1869; “Os Demônios”, 1872; “O Adolescente”, 1875; “Os Irmãos Karamazovi”, 1881. Todas elas trabalhos monumentais que, literariamente, deram forma à espiritualidade do homem moderno.

Em 1880, participou da inauguração do monumento a Aleksandre Pushkin em Moscou, onde proferiu um discurso memorável sobre o destino da Rússia no mundo, premonitório da própria revolução de 1917. Em alta voz destacou a importância da união da humanidade, definindo-a como o único caminho para a sobrevivência harmoniosa. “Eles prometeram que não iriam mais odiar, mas simplesmente amar uns aos outros”, escreveu Fiódor Dostoiévski emocionado em carta à esposa Anna Dostoyevskaya, em junho de 1880. Em novembro deste mesmo ano, terminou de escrever "Os Irmãos Karamazovi".

Sua morte ocorre em Petersburgo no dia 10 de fevereiro de 1881, por hemorragia pulmonar associada ao enfisema. Um momento de dor muda varreu toda a Rússia. Das cidades mais distantes surgem enviados para prestarem uma última homenagem. A Rua do Ferreiro, sua residência e onde foi posta a câmara ardente, foi insuficiente para uma multidão de mais de sessenta mil pessoas que se comprimiu em cortejo até o Monastério de Alexandre Nevski, onde os restos mortais repousam.

Três semanas após seu enterro, o Czar Alexandre II sofreu um segundo atentado terrorista e também morreu. Foi coroado czar seu filho, Alexandre III que, ao estilo arqui reacionário do avô Nicolau I, se encarregará de reverter a maioria das reformas liberalizantes realizadas pelo pai.

Essa foi a vida e o contexto histórico em que viveu Dostoiévski.

V. A literatura de Dostoiévski

 

  1. “Recordação da Casa dos Mortos”

  • Um libelo contra a tortura e genocídio

A temática de todo o livro é a experiência de preso político com trabalhos forçados na Sibéria. Como ex-condenados eram proibidos de escrever memórias, o autor disfarçou a obra como ficção, dizendo-a ser o diário de um homem preso por um crime passional.

O romance causou tal impacto na Rússia, que até mesmo o próprio Czar Alexandre II mandou que se divulgasse que ele havia chorado ao lê-lo. O caminho de Dostoiévski como escritor de prestígio acabava de reabrir-se e o genocídio siberiano ganhava pela primeira vez lugar na literatura.

Na “Casa dos Mortos” ele terá como companheiros de jornada criminosos, ladrões, pobres, homens do povo que um dia haviam se revoltado contra a fome, alguns aristocratas degradados e uns poucos presos por motivos políticos, aliás, como ele próprio.

“Estou no presídio e esta vai ser minha vida por anos, o lugar em que irei sentir tão inverossímeis, tão mórbidas impressões. E quem sabe, ao deixá-la, sinta saudades – com uma mescla dessa maliciosa impressão que às vezes degenera na necessidade de remexermos propositalmente na ferida, desejo de distrairmo-nos com nosso próprio sofrimento reconhecendo que no exagero de toda infelicidade há também prazer”.

Logo descobrirá que na prisão existiam as mesmas diferenças sociais que vivenciara no lado de fora. Relatará como os camponeses zombavam dos intelectuais por sua falta de destreza física nos trabalhos forçados, pois ao fim e ao cabo, embora todos comungassem do mesmo pão amargo, carregando pedras, telhas, limpando neve, cortando madeira e rochas, aos “nobres” cabiam os trabalhos não tão rigorosos.

Tal qual nos nossos dias de hoje, os presídios nada mais eram que depósitos de escravos a serem destruídos física ou espiritualmente, uma forma clara de sinalizar aos marginalizados do processo econômico e político o que os aguardava se transgredirem determinadas normas. Temos, então, uma coletânea interminável de suplícios físicos e psíquicos que o poder, através de seus esbirros, aplica aos pobres condenados. Afinal, “os presídios e o sistema de trabalhos forçados não melhoram os delinquentes, aos quais apenas castigam”.

“Não é em vão que em toda a Rússia, o povo chama desgraça ao crime e desgraçado ao criminoso”, nos relata o sensível narrador.

Como “quase todas as manifestações espontâneas da personalidade de um preso são consideradas como crime”, os motivos para a tortura e aniquilação física de um prisioneiro são banais. Como concluiria  Arendt, um século após, o mal radical e a banalidade do mal têm o mesmo significado, pois dizem respeito ao mesmo fenômeno: o das massas tornadas supérfluas, quando os seres humanos na sua distinção, singularidade e pluralidade se tornam supérfluos. E quem é mais supérfluo que um presidiário pobre e esquecido?

Dostoiévsk escreveu: “A natureza do verdugo encontra-se em germe em quase todo homem contemporâneo. Mas as qualidades brutais do homem não se desenvolvem por igual.” O narrador identifica dentre os torturadores dois tipos de verdugos: os voluntários e os obrigados por força da burocracia. “O verdugo voluntário é, sob todos os aspectos, muito pior que o obrigado”.

Aquele que tortura por “dever de ofício”, embora o bater lhe cause algum nível de prazer, não sente ódio supérfluo contra a vítima. Ele se esmera na destreza do golpe, no conhecimento do ofício, “em seu desejo de destacar-se ante os seus camaradas que esporeiam o amor-próprio”. “Esse torturador ‘de ofício’ esforça-se na função, pois sabe muito bem que é um réprobo para a sociedade, que em todos os lados encontrará um terror supersticioso que o seguirá por toda a parte e que isto tem sobre ele a influência de fomentar o seu ardor, as suas inclinações bestiais”.

Já ao referir-se aos verdugos voluntários, Dostoiévski força nas tintas e os compara a “tigres ávidos de beber sangue humano”. São seres sádicos que saem da literatura e instalam-se no mundo real.

Independentemente do gênero de torturadores, ao final, “quem exerceu esse poder, esse ilimitado domínio sobre o corpo e a alma de semelhante seu... converte-se em um escravo de suas sensações.” Toda tirania torna-se um costume que possui a faculdade de desenvolver-se e degenerar-se numa doença. “O melhor dos homens pode embrutecer-se e, embora por efeito do hábito, descer ao nível de uma fera enlouquecida”.

Dostoiévsk, na descrição do comandante do presídio, um major do Exército Imperial, diz que “a um homem como ele era absolutamente necessário oprimir sempre alguém, tirar algo qualquer de outro, despojar um terceiro de seus direitos, em suma, alterar a ordem de qualquer maneira... O castigo fez-se para a insolência- assim pensam esses indivíduos- Estes inflexíveis cumpridores da lei não compreendem que a sua aplicação estrita, sem discernimento, nem compreensão da sua alma, conduz diretamente à desordem.”

O poder absoluto sobre o outro destrói o escravo e modifica o seu senhor: “O homem e o cidadão morrem para sempre no tirano; é lhe quase impossível regressar à dignidade humana, ao arrependimento, a uma nova vida.”

Numa clara crítica às sociedades autoritárias, o personagem diz que “a sociedade que contempla com indiferença esse espetáculo está minada pela base. Em resumo: o direito de impor castigos corporais, outorgados a uns sobre os outros, é uma das pragas sociais, um dos meios mais poderosos para aniquilar nela todo germe de civilidade e a base completa para a sua dissolução inevitável e infalível.”

Os condenados quando eram castigados deviam, infalivelmente, gritar e pedir compaixão ao verdugo. “Quanto o preso está por sofrer um castigo, esse é outro caso. Os momentos que antecedem o castigo são terríveis para o presidiário… Esforçava-me por imaginar o estado psíquico daqueles que se encaminhavam para o suplício... Raro era aquele que conservava o sangue frio. Quase sempre o condenado sentia um medo terrível, puramente físico, involuntário e inevitável, que afetava todo o ser moral da criatura.”

O narrador descreve a ação reservada ao médico do presídio no processo da tortura: “O médico só mandou suspender a execução quando viu que se prolongassem o suplício, o sentenciado corria o risco de morte”. A continuidade da tortura, entretanto, far-se-ia após a recuperação física do sentenciado. “Quando por acaso a pessoa encontrava presos sentenciados à espera do retorno à tortura, jamais se esqueceria  dos rostos espantados, consumidos e pálidos, de seus olhares de delírio.”

Dois dentre os maiores escritores russos de seu tempo, Tolstói e Turguêniev, classificavam “Recordação da Casa dos Mortos”, como uma obra colossal. Sem dúvida o mais tolstóiano de todos os trabalhos de Dostoiéviski! E como, em sua essência, permanece atual!

 

2. “Crime e Castigo”

  • O primeiro romance absolutamente moderno.

 

“Crime e Castigo”, a obra mais famosa de Dostoiévski, é ao mesmo tempo um dos romances mais bem escritos de toda literatura mundial. Marcel Proust ao escrever que todos os romances desse escritor poderiam ser denominados de “crimes e castigos”, prestou um tributo àquele que é um marco na formatação do pensamento moderno.

Quando o romance genial ainda era tão somente anotações, desenhos, um plano, Dostoiévski enviou a um editor uma carta oferecendo-lhe a venda antecipada dos direitos autorais. Nela encontramos uma resenha do futuro romance:

“Será o estudo psicológico sobre um crime. Um romance da vida contemporânea... Por sua instabilidade mental, um jovem ex-universitário, completamente sem dinheiro, fica obcecado por essas ideias amalucadas que estão no ar. Resolve fazer alguma coisa que o livre imediatamente da situação desesperadora. Decide matar uma velha agiota. A velha é estúpida, gananciosa, surda e doente, pessoa sem maior valor, cuja existência é aparentemente injustificável, etc.. Todas essas considerações desequilibram o rapaz... Praticado o crime ele não se torna suspeito, não seria possível que suspeitassem dele, e é aqui que todo o processo psicológico do ato se desenvolve. De repente, o assassino se vê frente a frente com problemas insolúveis e sensações inauditas começam a atormentá-lo. O próprio assassino resolve aceitar o castigo para espiar a sua culpa”.

“Farei a narração do ponto de vista do autor, uma espécie de ser invisível, porém onisciente, que jamais abandonará o herói... O narrador observará tudo do ponto de vista de Raskholnikov, reagirá a tudo o que ele fala e pensa, sem deixar de vê-lo do ponto de vista do mundo exterior”.

O romance foi aclimatado na moderna Petersburgo da segunda metade do século XIX, cidade onde proliferam seres estranhos, os muros das ruas e das paredes das casas se dissolvem em visões terríveis, “uma cidade de gente desequilibrada, cheia de influências sombrias, cruéis e estranhas”.

Pela pena implacável de Dostoiévski desfilará a vida miserável que prolifera nos espaços públicos e cortiços escuros, induzindo o herói do livro a um “estado psicológico extremo”. Raskholnikov perambula refletindo que “mesmo a magnificência (de Petersburgo) é a encarnação de algum espírito vazio e morto”.

Pois se a cidade mais ocidentalizada da Rússia é um lugar de doenças e febres, suicídios e mortes súbitas, acidentes de ruas e brigas violentas, repleta de gente humilhada e ofendida, também é o lugar em que brota a revolta na juventude, assim como ideias novas e incendiárias.

Raskholnikov origina-se do termo “raskholnik”, uma pessoa cindida, dissidente. Como um intelectual moderno, o personagem central explora a liberdade de um mundo que perdeu raízes, onde a injustiça é a tônica e a sociedade é um lugar de sofrimento universal. Ele acredita na “ideia napoleônica” do indivíduo que influi na história do mundo, no homem excepcional cujos poderes lhe conferem o direito de cometer qualquer ato que se justifique no futuro.

Raskholnikov é, no dizer de Porfiri, o juiz de instrução do caso, “um caso típico de nossa época, em que o coração dos homens torna-se imundo. Temos aqui sonhos intelectuais, um coração exacerbado por teorias”.

“Crime e Castigo” se divide em seis partes e um epílogo. O crime é cometido logo na primeira, e as seções subsequentes abordam o castigo, que por sua vez é essencialmente um processo de crise psicológica e de autoacusação, que culminará na confissão do criminoso, primeiramente em privado, depois na polícia.

Raskholnikov, no princípio da narrativa, está encerrado em seu quarto que fica embaixo de uma escada. Ele tem o hábito de ficar na cama “pensando um mar de absurdos”. Acaba alheando-se de tudo e de todos, não deseja mais ver ninguém, nem mesmo a filha da senhoria que andara cortejando por estar atrasado no pagamento do aluguel.

Despreza todos os que não ousam uma “palavra nova, uma atitude nova”. Ele mesmo não sabe ainda bem o que deseja fazer. “Fosse o que fosse era preciso tomar uma decisão ou renunciar completamente à vida. Aceitar o destino docilmente tal como é, de uma vez para sempre, abafar tudo no meu íntimo, o que significa renunciar a todo o direito à ação, a viver, a amar.”

Os acontecimentos terminam por fazerem parte de seu estado mórbido e alucinatório, misto de repulsa, terror, angústia e autoconfiança. Visita uma velha agiota, deixa algo penhorado e sai. Entra em um bar. Ao sair conhecerá Marmieladov, um ex-funcionário público destruído pela bebida. Nos olhos desse homem brilham num misto de inteligência e loucura. Diz, ambiguamente, que se acalma com a bebida. “É por isso que bebo, porque na bebida encontro o sofrimento... bebo porque quero sofrer em dobro... não é de alegrias que tenho sede, mas de tristezas.”

A história familiar que Marmieladov conta é trágica: a família toda entra em declínio por sua degradação no álcool: Sônia, sua filha, prostitui-se para sustento da mãe, de uma irmã aleijada e dele próprio. Raskholnikov antevê no alcoólatra uma faceta de si próprio, dele se apieda e o leva para casa de cômodos onde conhece Sônia, sua futura confidente e amparo.

O livro segue no mesmo ritmo de acúmulo de misérias humanas que cercam Raskholnikov e lhe atormentam o espírito. Sua irmã Dunia é perseguida pelo ex-patrão, o cruel e insaciável Svidrigailov, que deseja seduzi-la.

Dunia, tanto quanto Sônia, busca o sacrifício por amor a seus familiares: a irmã de Raskholnikov resolve casar-se com um pretensioso senhor autoritário, Luznin, a quem despreza, mas deseja o seu dinheiro para sustentar o irmão na ilusão dos futuros frutos de seus propalados estudos. No fundo, o casamento com Luznin é a reprodução socialmente aceitável da prostituição a que se submete a filha de Marmiedalov.

Tudo se articula para que a mente do jovem busque “alguma solução imediata”. A situação é trabalhada por Dostoiévski na forma de um terrível sonho que o jovem tem: um mujique açoita um cavalo que não consegue andar na lama, principia a tortura pelos olhos do animal até matá-lo a chibatadas. Nosso psicólogo assinala: “Num estado doentio os sonhos costumam distinguir-se pelo seu extraordinário colorido e clareza e pela estranha semelhança com a realidade.”

Chegamos agora à tremenda cena do crime. Depois que Raskholnikov mata a velha agiota, a irmã desta, Lisavieta, uma semi-idiota, retorna da rua e ele também a assassina. “Quando chegou a hora, tudo aconteceu como ele não tinha previsto, assim como por acidente, quase inesperadamente”, nos diz o narrador.

Após o assassinato, Raskholnikov transforma-se num amontoado de contradições, febres, sentimentos de ira, sonhos e alucinações, considerando-se ora um ser heroico, ora um verme. O leitor é envolvido à medida que o assassino vai traçando um círculo ao redor de si mesmo, sendo ele próprio seu próprio caçador.

A investigação do duplo assassinato é conduzida pelo juiz Porfiri, outra das imortais criações do romance. Porfiri é uma figura absolutamente extraordinária, um interrogador moderno, um psicólogo ao nível de um assassino também da modernidade.

Só ao final do romance saberemos que o juiz suspeitava do assassino antes mesmo que o ato fosse perpetrado, pois lera em jornal uma crônica em que o jovem Raskholnikov dizia que “um homem excepcional tem o direito de cometer grandes crimes a favor da História e da humanidade”.  Ele exige que este descubra o seu próprio castigo através da confissão.

“Esperei por você com impaciência, pois toda essa maldita psicologia é uma faca de dois gumes”. O crime, o juiz diz, foi psicológico. O roubo praticado jamais seria encontrado pela polícia, pois o assassino jamais tocara em seus valores. Escondera-o e somente voltaria a buscá-lo para confessar o crime às autoridades.

A purgação do crime, seu castigo e a busca da redenção é um longo processo que o assassino deve assumir. Começa logo após o ato criminoso com os pesadelos que passa a ter. A partir dai, visita a cena do crime e o comenta com amigos. No seu inconsciente deseja que o culpem pelo assassinato.

Restam dois caminhos: a independência arrogante ou o arrependimento humilde. No primeiro estará em companhia do cínico Svidrigailov, que, no passado, matara a própria esposa por dinheiro, “num desespero cínico”. Svidrigailov, aquele que considera o bem idêntico ao mal, num último ato teatral entrega todo seu dinheiro à Sônia e suicida-se. No segundo, é a trilha que conduz a Sônia, a filha de Marmieladov, “a esperança mais irrealizável”.

Raskholnikov buscará o caminho indicado por Sônia, a meiga e compreensiva testemunha da primeira confissão do jovem. Sônia lenta e pacientemente mostra-lhe que a redenção passa pela confissão pública do crime, por se ajoelhar e beijar o chão pelo qual passa a humanidade, da qual ele se considerava um ser superior. Será essa maravilhosa mulher quem entrará com Raskholnikov na delegacia de polícia e que, depois da condenação judicial, o acompanhará aos trabalhos forçados na Sibéria, e tomará conta não somente daquele que ama, como de todos os demais companheiros de infortúnio que estejam próximos.

No exílio siberiano, expresso no epílogo do romance, mantém-se todo o clima de crise psicológica. Raskholnikov se crê com a consciência livre dos crimes, mas ainda mantém sonhos alucinados como os de uma peste que levará a humanidade à crença de que a libertação depende apenas dos próprios homens! Conserva seu orgulho intelectual e nega-se a ler com sua protetora uma passagem bíblica: a do renascimento de Lázaro.

“Crime e Castigo” não é um romance totalmente concluso. Dostoiévski encerra propositalmente o livro afirmando que “Raskholnikov terá que encontrar a regeneração em outro local, numa outra realidade, até então por ele desconhecida”, quem sabe, em outro mundo?

3. “O Crocodilo”

  • O conto que, ao lado de “O Nariz” de Gogol, é um dos marcos fundadores do Surrealismo.

“O Crocodilo” é um conto satírico sobre o comportamento da burocracia czarista, assim como o do funcionário público quando engolido pela máquina administrativa.

Um mero funcionário, com passagem marcada para viajar com a esposa pela Europa, vai por insistência desta, a uma exposição de animais organizada por um alemão. Num pequeno descuido, o crocodilo do alemão engole o rapaz, que, ao invés de morrer encontra abrigo numa enorme barriga extensível. E será desse abrigo que o Jonas de Dostoiévski principiará a filosofar, a sonhar e a até mesmo se acreditar um “ser superior”.

O crocodilo é o animal de estimação do estrangeiro, próprio para exibições públicas, possuindo um nome e gozando do status de filho (do mesmo modo que tantos pets na atualidade). Quando engole o pobre funcionário Ivan, o alemão teme é pela saúde do paquiderme e brada por indenização, enquanto a esposa do funcionário grita para que se retire do animal o marido engolido.

O espantoso é que ninguém acompanha a esposa na pressão contra o proprietário- negociante, pelo contrário, ela é até mesmo ameaçada de maldição por um jornal, um tal de “Crônica do Progresso”.

Nova surpresa aguarda o leitor quando Ivan, o engolido, fala de dentro do crocodilo e declara estar muito bem e que lá poderia viver os próximos mil anos.

Logo, engolidor e engolido tornam-se uma atração pública e o preço do ingresso cobrado pelo alemão para a visitação quintuplica. Diz o funcionário de dentro de sua maquinaria: “É preciso considerar as coisas do ponto de vista econômico...”

O capitalista alemão com sua engenhoca já se crê um futuro milionário, enquanto o funcionário engolido, apesar de preocupado em como será visto pelos chefes o contratempo de estar na barriga do paquiderme, em seu delírio já se antevê dentre Ministros de Estados, aconselhando-os, participando de dentro do crocodilo em um salão mundano a ser inaugurado com toda a pompa por sua esposa, a doce e volúvel Eliena.

Após o susto inicial, Eliena, a mulher “bombom”, feita para ser degustada, preocupa-se apenas consigo mesma, com o divórcio e em como ficará a pensão do marido. Na verdade a esposa se ocidentalizou e perdeu as perspectivas da mulher russa. E na mesma noite do infortúnio do marido, diverte-se num baile de máscaras, mantendo a seu lado um amante. Dostoiévski, rejeitado na vida real pela linda, mas volúvel Pauline Suslova, espelha-a em Eliena.

O conto possui um narrador. Ele é amigo de Ivan e também funcionário público. Depois do ocorrido visita um colega mais experiente, Timofei, em busca de alguma solução para o amigo. Mas deste outro burocrata não ouve qualquer tipo de indignação pelo fato de Ivan ter sido engolido pela máquina paquidérmica, afinal, por que tanto espanto “por algo tão normal?”

Timofei vai além. O alemão-expositor é um agente indispensável para o progresso! Que o aporte de capital estrangeiro no país deveria ser de tal monta que todas as terras russas pudessem ser compradas pelos alemães e, com lucro, posteriormente divididas, exterminando-se assim as propriedades comunitárias, tão pouco produtivas!

O amigo do engolido ainda possui certa esperança de solução em artigos que possam surgir na Imprensa. Nova decepção! “A Folha” publicou o assunto de uma maneira tão destorcida que levava o leitor a crer que um grande glutão ingerira num banquete pedaços de um crocodilo em exibição. O amigo do engolido sente-se estupefato com a insensibilidade geral afinal, quem se importa com o fato? Ivan tornou-se apenas um insignificante parafuso da máquina que engole gente: a burocracia estatal!

A inserção da Rússia agrária no capitalismo aprofundava as profundas contradições entre os liberais, que defendiam o “progresso do ocidente” com a entrada do capital estrangeiro para a exploração das riquezas russas e a criação de sua própria burguesia, em contraposição aos “conservadores”, que buscavam uma solução originalmente russa para os problemas russos, dentre eles, nosso escritor.

 

4. “O Eterno Marido”

  • O momento literário de inversão da moral corrente.

Trata-se de um dos romances curtos da maturidade de Dostoiévski, escrito em 1870, que se insere num ambiente de costumes sociais e literários em mutação, sendo o eterno marido aquele que complementa a mulher, o reverso da mulher submissa e esposa socialmente aceita.

A Revolução Francesa de 1789 erguera a mulher-cidadã ao mesmo patamar do homem-cidadão. A Restauração pós-napoleônica (a partir de 1815), a Santa Aliança sob a liderança da Alexandre I, fizera a condição feminina retroagir à condição anterior à revolução burguesa: submissão ao marido, mulher objeto e procriadora. Somente após 1830, ao mesmo tempo em que na Europa ocorre um abrandamento da repressão política, gradualmente, a mulher irá reiniciar um longo processo de reconquista de seus direitos.

Na literatura, Balzac, foi entre os anos 1830 e 1840 o primeiro a romper as cortinas da hipocrisia. No ciclo de Vautrin, em “As Ilusões Perdidas”, apodera-se da homossexualidade masculina e define um perfil de mulher que se torna independente do machismo dominante. Em “Pai Goriot”, a mulher busca seu futuro à custa do antigo terror familiar – um “eterno pai” tornado “manso” e escravizado pela ambição filial. Em “A Menina dos Olhos d’Ouro”, Balzac expõe claramente a homossexualidade feminina, no que é seguido, em 1850, pelo próprio Dostoiévski com “Nietochka Nezvanova”.

Flaubert, em 1857, rompe radicalmente com preconceitos e padrões sociais e “Madame Bovary”, romance que lhe acarretou um processo na França, é a mulher que escolhe seus amantes. Carlos Bovary prenuncia o “Eterno Marido” de Dostoiévski.

Do outro lado do mundo, em Norte América, Hawthorne publica “A Letra Escarlate”, ou a mulher que ousa ter um filho fora do casamento, acoberta o amante e cria a criança, enfrentando todo o puritanismo, mesmo à custa da letra A de adúltera bordada em vermelho sobre a camisa.

Dostoiévski em “O Eterno Marido” transfere às suas mulheres dons tidos como masculinos. O caráter decidido e dominador da esposa faz com que as infidelidades femininas jamais pesem em sua consciência. A esposa do “eterno marido” o trai com os amigos em comum, estando, entretanto, sempre pronta a “denunciar a depravação dos costumes alheios, jamais a sua própria”. 

Além dessa problemática, muitos dos temas mais caros ao autor estão inseridos no romance de uma maneira compacta: o mau trato a crianças no interior dos lares, o tormento psicológico dos seres carregados de culpas, as figuras jocosas e ao mesmo tempo trágicas de “eternos maridos”, que chegam ao extremo da submissão e da degradação humana sem conseguir “se curarem”.

O eterno marido é como “o cão que guarda o feno”. Não come e não quer, apenas conscientemente, permitir que outros o façam, embora permita à mulher uma vida socialmente cômoda, assim como a aproximação de rapazes mais jovens.

De alguma forma, “O Eterno Marido”, carrega traços biográficos do autor. A mulher de Trusotski sempre o traíra. Será após sua morte, por tísica, que o eterno marido descobrirá um pequeno cofrinho (um substituto do coração de Maria Dmitrievna na vida real) e nele as correspondências trocadas entre ela e os seus ex-amantes. Também fará a tremenda descoberta de que Lisa, a filha que tanto amava, não era biologicamente sua, mas de Vielthananinov, um dos amantes da falecida e antigo amigo do pobre Trusotski.

Desde então, ao saber que seu lar alicerçava-se na mentira, ele desmorona em vícios. Abandona as posses e sua cidade e vai residir num pardieiro de Petersburgo, numa “dvorniks”. Entrega-se ao alcoolismo, busca aventuras com prostitutas que estejam ao seu alcance, passa a atormentar a pobre criança que trouxera consigo, desejando destruí-la numa contrapartida de sua própria degradação. Torna-se, enfim, um homem sórdido.

Ao mesmo tempo, numa atitude ambígua e paranoica, anseia por encontrar e conviver com os amantes de sua falecida mulher. Encontrará novamente Veltchaninov, um homem que leva uma vida de esbanjamento e desregramentos, o verdadeiro pai de Lisa.

A degradação moral pode ocorrer quando se perde a crença, quer seja numa ideologia, numa pessoa ou numa instituição como o casamento. Proust assinala que Otelo não assassinou Desdêmona por ciúmes, mas pela quebra de uma crença, de um ideal que ela como esposa representava. Dostoiéviski ao nos expor o eterno marido, apresenta-o não como um ciumento, mas como um homem que perdera a crença.

No “dvornik” onde estão hospedados pai e Lisa, Veltchaninov tem a certeza de que a menina é sua filha, e o pai biológico sofre com a culpa de ter deixado a amante grávida, e seu sofrimento é mimetizado pela depressão e por seu niilismo. Encanta-se com a garota e encontra um objetivo para viver. Depois de retirá-la das mãos do padrasto e levá-la para um lugar seguro, Vielthananinov sofrerá com a morte natural da pequena garota, vítima de febre desconhecida. Ao mesmo tempo, se sentirá renascer por tê-la socorrido ainda em vida.

Após a morte de Lisa, Trusotski, com seus sessenta anos, volta à casa de Veltchaninov e anuncia que vai se casar com uma jovem de quinze anos e convida o “amigo” para acompanhá-lo à casa da noiva. Prepara-se para encenar pela segunda vez o “eterno marido”. Mas a tentativa soçobra.

Dois anos se passam e os personagens irão ainda uma vez se encontrar, agora, num trem. Veltchaninov, curado de sua depressão, defende num vagão uma jovem e atraente mulher, vítima de uma humilhação. Os dois conversam e ela o convida para que realize uma visita em sua casa. Nesse momento, ela apresenta seu marido, ninguém menos que Trusotski.

Espantado ao ver o ex-amante de sua primeira esposa, e pela maneira doce com que sua atual mulher trata um estranho, ele se sente ameaçado novamente pelo antigo conhecido. Mas é a Veltchaninov que não interessa a reprise de uma tragicomédia  conhecida. A visita nunca se ocorrerá.

 “O Eterno Marido” , romance extremamente envolvente, nos surpreende a cada momento. Uma pequena obra-prima que muitos críticos, como André Gide, consideraram um dos mais importantes romances curtos de Dostoiévski.

 

5.“Krotkaia, a esposa dócil”.

  • Um dos pilares da literatura de psicopatologia na relação a dois.

Escrito em 1875, “Krotkaia” aporta a problemática da relação a dois: o egoísmo, o orgulho, a vaidade, a arrogância e a mesquinhez. Ao mesmo tempo, opiniões e ideais que exigem sacrifícios e, muitas vezes, a utilização de meios ilícitos dentro de uma relação conjugal.

Pouco antes da primeira publicação de “Krotkaia”, Dostoiévski redige no seu “Diário de um escritor” comentários a respeito de uma notícia jornalística: uma costureira, recém-casada, atingida pela miséria, suicidara-se em Moscou jogando-se da janela de um alto edifício agarrada a uma imagem da Virgem, um ícone sagrado. Era o mote do qual se originaria “Krotkaia”.

O conto é o monólogo interior de um homem diante da esposa morta, a qual se jogara da janela do quarto, suicidando-se agarrada a um ícone.

Ele, nobre, Ela, plebeia. Ela, dezesseis anos, Ele, quarenta e um, um homem solitário, autoritário, que vive da usura e do penhor. O próprio Dostoiévski, de tanto depender dos “penhoristas”, passara a odiá-los e aqui ele expressa este sentimento.

Ele tem um passado que é desdenhado pelos que o conhecem (covardia num duelo, expulsão do regimento, decadência moral e financeira da qual fora salvo por uma herança). É contumaz no jogo do silêncio, da sedução e da contradição.

Ela, uma professora desempregada, órfã, miserável, submissa, com arroubos doentios, que se arvora o “o direito de amar”; por ignorar muito da vida, é ao mesmo tempo dócil e submissa. Docilidade e submissão que poderão leva-la à tirana impetuosa, quando se torna agressiva e desvairada, nervosa e histérica.

Desempregada, vive assustada, pensativa, e está para ser “vendida” pelas tias para um gordo comerciante de mais de cinquenta anos. A busca desesperada por emprego leva-a a realizar anúncios em jornais, e, para tal, penhora o pouco que possui. Por último lhe restará um ícone com o qual, um dia, morrerá abraçada.

Chega ao escritório do Narrador. O início da relação surge. Utilizando-se da fraqueza financeira da moça miserável, o agiota “culto” decide- se impor como gerenciador do casamento e dos sentimentos da ingênua moça. “Compra-a” em casamento e tira-a, da casa das tias. Prepotente, parodia Mefistófeles de Goethe. Lhe diz: “Eu, sou aquela parte do todo que quer fazer o mal, mas gera o bem”.

“O senhor é um salvador, caiu do céu, obrigada por estar levando a senhorinha”, confessa-lhe uma das tias.

Após o casamento, o casal irá residir no quarto anexo à casa de penhores. Ele possui um ideal: juntar dinheiro em três anos para libertar-se tanto da profissão que o oprime, quanto de um mundo que despreza e onde odeia estar.

No princípio era ele quem ditava todas as normas e ela era só silêncio e resignação. Ele mesmo se achava o tirano com uma moça doce e mansa, mas não conseguia mudar de atitude. Esta é uma das contradições com que Dostoiévski trabalha: o homem tem consciência, mas não a atitude para mudar seu caráter, seu instinto e suas ações.

Segue uma longa série de acontecimentos que contribuem para aumentar as tensões cotidianas do casal. A mesquinhez do agiota, a dependência financeira da esposa, a discordância na avaliação dos penhores, os arroubos sentimentais de Krotkaia na tentativa de enlace afetivo, o silêncio que se estabelece entre ambos, e, afinal, a rebeldia da moça, o encontro secreto que ela buscará ter com um inimigo do marido.

Desde então é o marido tirano quem enfrentará dificuldades para submeter a esposa, pois a jovem o enfrenta com desdém, principalmente com o silêncio, embora seja ele quem se autodenomine “mestre na arte de falar em silêncio”. Numa peripécia ela se transforma: de dócil, em algoz e tirânica. Irá torna-se impetuosa, orgulhosa, temperamental, e dentro do silêncio compartido, as relações tornam-se cada vez mais extremas e agudas. As desavenças, as diferenças, a severidade, o enigma, o dinheiro, as pequenas intrigas, a verdade sobre o passado, as mentiras, a revolta, a desconfiança sobre uma suposta traição, a recusa do marido ao duelo com o rival, levam ao extremo aquela esposa que passa a desejar a morte de seu antigo herói e “salvador”.

A intensidade psicológica da narrativa ganha força extrema, pois as desconfianças e conclusões do narrador redobram na busca de explicações para seu relacionamento e sua “tática” para voltar a ter o domínio perdido da esposa. A moça por sua vez, busca a desordem e vira tudo pelo avesso.

Ela prepara um encontro secreto com o grande inimigo do marido, aquele que o fizera abandonar a carreira militar. Uma das tias, entretanto, vende o segredo ao narrador. No momento do encontro este se coloca à espreita no quarto ao lado da casa de rendez-vous. Mas Krotkaia não tem coragem suficiente para ir até o final. O marido que a tudo escuta surpreende-se: viera para flagrá-la na traição e redescobre uma mulher que nada mais tinha a ver com a moça de dezesseis anos. Ele a tira das mãos do rival-inimigo, mas sua covardia o impede de bater-se em duelo. Ela, que já o desprezava, a partir deste momento passa a odiá-lo e a si própria por não ter conseguido se entregar à aventura amorosa.

A cena seguinte se passa no quarto do casal. O marido adormece. Ela pega um revólver e por duas vezes encosta a arma na cabeça do mesmo. Ele está desperto e ela o sabe, mas falta-lhe a coragem de apertar o gatilho. O ato da esposa e a decisão de enfrentar a morte sem reagir, terminam por libertar a alma do marido de seus traumas, de sua covardia e produz um efeito redentor.

Nova peripécia: ele vê a esposa com outros olhos e busca penitenciar-se. Ela enfrenta a febre e o delírio por semanas. A mente do opressor passa por um processo de amaciamento, de flexibilidade e de expansão sentimental por vê-la “tão esmagada, tão arrasada”.

Em estado contemplativo, o esposo passa a tecer sonhos de uma vida feliz ao lado da mulher. Confessa-lhe seus ressentimentos, o ódio pela sociedade e declara ser Krotkaia vítima de sua vingança. Logo, a desigualdade entre o casal se inverte com as atitudes do homem: se outrora o fascínio pela ingenuidade dela o comovia e o alimentava em seus objetivos tirânicos, agora sua fragilidade o compromete, pois, ela, assustada, entra em histeria nervosa.

O que resta à mulher neste contexto? Ela já é incapaz de amá-lo. E não encontra energias para libertar-se. Assustada, opta pela destruição. Uma reflexão com a cabeça encostada na parede do quarto, um ícone apanhado, uma janela aberta e se jogar para a morte como alternativa a um amor que não pode cumprir, ou mesmo para castigar definitivamente o marido a quem odeia. Atira seu vestido de noiva pela janela e, depois, a si própria, libertando-se.

Com a morte trágica da “esposa dócil”, o marido encontra a solidão em um mundo ordenado que se decompõe; esbraveja contra tudo e todos numa ruminação desoladora. “Eu a esgotei, isso sim… quando a levarem amanhã, o que vai ser de mim?”

Logo, sob a tensão dramática, que reflete a penetração do herói na autoconsciência ocorrida no presente trágico e na lembrança do passado, ele transforma-se num ser humano profundamente despedaçado, cindido.

O espetáculo finaliza com a fusão das imagens da lamparina acesa junto aos ícones, símbolos da elevação espiritual obtida através da dor e do dilaceramento do próprio Narrador.

6. “Os Demônios.”

  • O mais complexo dos dramas dostoiévskianos.

Neste romance Dostoiévski atingiu a totalidade do movimento dramático. A inspiração básica foi o momento histórico e filosófico vivido pela juventude russa nos anos 1870 do século XIX que, partindo de uma crítica romântica da realidade russa e do desejo da construção de uma sociedade igualitária no futuro, chegavam muitas vezes ao niilismo e ao terrorismo político.

Um contemporâneo, o próprio grão- duque e futuro Czar Alexandre III pediu que o autor o esclarecesse sobre a que vinha o livro. Respondeu-lhe: “A minha tentativa de representar, por meio da arte, um dos mais perigosos males da civilização atual- civilização estranha, sem caráter nem originalidade, mas que, até o presente momento, dirige a vida russa.”

“Ateus convictos”, afirma Isaiah Berlin, os socialistas russos fundiam na realidade o socialismo aos valores cristãos ortodoxos. Tendo por perspectiva um futuro utópico sob a luz da razão e da ciência, dispunham-se ao auto sacrifício na busca da construção de um paraíso terrestre, substituto do cristão, mesmo que fosse necessária a utilização do terror jacobino na forma de ação autoritária, da qual o povo sofrido se beneficiaria num futuro, mesmo que não os compreendessem de imediato.

Tal tipo de autoritarismo e a negação de Deus dariam margem, de acordo com Dostoiévski, à destruição. E isso porque os idealistas da revolução estariam partindo de um equívoco básico: o ser humano, falho por natureza, através do racional e da consciência limitada, seria incapaz de promover, sem recorrer “ao sublime religioso”, a salvação sua e de seus semelhantes. Ao buscar erguer um paraíso na Terra e na tentativa de impor esse paraíso às outras pessoas, Dostoiévski aponta o dedo para o “demônio assassino”, que com sua arrogância e seu autoritarismo, conduziria isto sim, à destruição do próximo.

Além deste protótipo de demônio- assassino, o autor ainda aponta outros demônios, aqueles de uma estirpe moderna, seres que sofrem um profundo atordoamento ao não mais encontrarem o divino e nem reconhecerem nas potencialidades humanas princípios capazes de nortear ou aliviar o sofrimento do próprio viver. Ao se situarem no nada, no niilismo, buscam formas de autodestruição que podem chegar tanto ao assassinato quanto ao suicídio.

O caso real que propiciou o foco narrativo foi o assassinato do estudante Ivanov, participante de um núcleo anárquico-socialista. Seu assassinato ocorreu por ordem do niilista Nechaiev, sob a desculpa de possível traição à causa. Na verdade, soube-se depois que Ivanov não reconhecia a autoridade revolucionária de Nechaiev e por isso foi assassinado.

Ora, Nechaiev era discípulo de Bakunin e com ele havia escrito o “Catecismo de um Revolucionário”, obra exemplar de maquiavelismo político, no dizer de Engels. Após o bárbaro assassinato de Ivanov, Bakunin rompeu politicamente com Nechaiev e realizou uma profunda autocrítica. Na maior parte dos esboços que Dostoiévski realizou, o personagem Piotr Verkhovenski, que encarna o “principal demônio assassino”, é simplesmente denominado de Nechaiev.

Ainda outros fatos da vida real serviram de pano de fundo ao autor, como os incêndios nos bairros operários ocorridos durante a Comuna de Paris de 1871 e os de São Petersburgo, de 1868. Destes fatos ele extraiu a destruição pelo fogo do bairro operário que, ao final do romance, leva à morte da personagem Liza.

O livro “Os Demônios” foi considerado pela intelectualidade soviética e pelos bolcheviques da Revolução de 1917 de diferentes modos. De acordo com o intelectual, crítico literário e primeiro Comissário para a Educação, Lunatcharski, o romance juntava-se para compor a obra “do mais atraente escritor russo de todos os tempos”. Lênin, por seu lado, considerava-o um romance “repulsivo, porém colossal”, confessando havê-lo lido quatro vezes.

A data que marcou o centenário do nascimento de Dostoiévski foi comemorada com honras oficiais em 1920. Antes, em 1918, Lênin e Lunatcharski haviam inaugurado o busto de Dostoiévski ao lado do de Tolstói, como símbolos maiores da literatura e do espírito russo.

Na era de Stalin, juntamente com “Irmãos Karamazov” e “O Idiota”, “Os Demônios” se tornará um livro proibido. Até a década de 1960, os três romances foram considerados leitura “perniciosa” e “não construtiva” para o proletariado russo; especificamente “Os Demônios”, visto como o cúmulo da heresia.  Somente por volta de 1970 ele voltaria a ser impresso, circulando livremente após um século ter sido escrito.

Muitos buscam na interpretação da obra um alerta contra o socialismo. E ele realmente existe tanto do ponto de vista do ateísmo quanto do poder! Dostoieviski, como um profeta cristão, visualiza muitos dos desvios que o socialismo real viria a apresentar até o seu esfacelamento, na década de 1980. Um dos dogmas ocultos de Piotr Verkhovenski, o verdadeiro “demônio”, confessado a Stavroguin, seu mestre inspirador é: “Mas eu não sou socialista, sou, sim, um assassino”. E ele vai além e descortina que num futuro, “essa canalha democrática (os grupos de ação que ele próprio buscava construir)..., é um mau sustentáculo: aí se precisa de uma vontade magnífica, vontade de ídolo, despótica, apoiada em algo que não seja ocasional…” Dostoiévski se aventura no tempo e sua profecia encontrará, cinquenta anos após, esse déspota na figura de Stalin!

Os demônios são niilistas e esse modo de encarar um mundo que se desfaz termina com que a tudo neguem, até mesmo o amor, a amizade, a honra e a verdade. Negando Deus interior eles falsificam o bem, e creem que somente o mal poderia conduzi-los ao poder político. Iludem as pessoas fazendo-as crer que falam em nome de uma enorme organização política, quando na verdade falam exclusivamente por si próprios e daqueles que eles conseguem, por algum tempo, iludir.

Homens e mulheres rendem-se ao Príncipe Stavroguin, mas este nem honra e nem devolve a dedicação que lhe têm. Esta falta de reciprocidade é enraizada em sua desumanidade essencial, que cria a desordem e o ódio. E o Príncipe, seguido por Verkhovenski, um falso profeta, vai abandonando os apóstolos num patético e sinistro vazio de espírito.

As sessenta horas culminantes de “Os Demônios” iniciam-se na festa de Iulia Lembke, esposa do governador. A “quadrilha literária” que encerra a miserável festa é interrompida pelo fogo no quarteirão que margeia o rio, e que destrói todas as casas de madeira dos operários. A “quadrilha” serve como a figura retórica do niilismo intelectual e da irreverência da alma, nos quais Dostoiévski discernia a origem de futuros motins.

O fogo é sempre o arauto da insurreição, uma ofensa à normalidade da vida, que buscaria arrasar as velhas cidades para imporem a fundação de uma “nova cidade”, uma Nova Jerusalém. Num clima apocalíptico, o governador Lembke enlouquecido, corre para o fogo e grita à sua comitiva: “É tudo niilismo! É tudo incêndio!... O fogo não está nos telhados, mas na cabeça das pessoas.” Esta frase poderia ser o prólogo do romance, pois as ações que Dostoiévski descreve são gestos da alma quando ela se encontra em dissolução. E os demônios entram pelas gretas da dissolução social e por mero contágio com os mesmos as chamas se propagam dos cérebros aos telhados das casas!

Se todos os quatro grandes romances do autor possuem em seu âmago um assassinato, aqui ele é múltiplo. Quando as chamas se amainam, Lebiadkin, sua irmã Maria, e uma velha criada estão mortos, pois foram esfaqueados. Tudo indica que o incêndio fora provocado para encobrir crimes, crimes comuns, assassinatos de gente humilde.

E estas chamas que ardem na margem do rio, nos encaminham como um farol para uma janela: a da mansão de Stavroguin! No auge da trama é madrugada e Liza observa o brilho ao longe. Stavroguin está junto dela e seu vestido está amarrotado, alguns botões desabotoados. A noite havia sido desastrosa. Se Dostoiévski não é explícito sobre a incompetência sexual de Stavroguin, o impacto da esterilidade da noite é fragrante. Liza, que viera quase publicamente se entregar a ele explode: “É esse Stavroguin, o vampiro Stavroguin, como te chamam?” “Sempre achei que você me levaria a algum lugar em que viveria uma enorme aranha má, do tamanho de uma pessoa e que lá passaríamos toda a vida a olhá-la com medo”.

Piotr Verkhovenski se delicia com o fracasso daquela noite que ele engendrara, trazendo Liza para Stavroguin. Seu sadismo se completa na observação da moça. Mas ele subestimou o “cansaço” de seu deus, pois Stavroguin, referindo-se aos operários mortos quando do incêndio, diz à moça: “Eu não os matei, fui contra, mas sabia que eles seriam mortos e não impedi os assassinos”.

Liza é salva das garras de Verkhovenski por um antigo noivo, que a espera nos jardins e ela insiste com que ele a acompanhe à cena do assassinato. Quando eles chegam a multidão se agita. A moça é identificada e a assassinam.

O narrador comenta que “tudo aconteceu de modo absolutamente acidental… eles estavam bêbados e irresponsáveis.” Entretanto, a impressão que nos causa é que Lisa buscou a própria morte num ritual de expiação; morre ao lado dos corpos assassinados pela desumanidade de Stavroguin, o homem que a atraíra.

Corre, então, o boato de que Stavroguin abandonara a cidade e seguira para Petersburgo. Horas após, Verkhovenki se encontra com a célula de cinco conspiradores. E ele os convence da necessidade de assassinarem um sexto elemento, Chatov, dizendo que este estaria por entregá-los às autoridades. Quando caminha com Liputin, outro conspirador, este se conscientiza de que “em lugar das muitas centenas de quinhentos em toda a Rússia, somos o único grupo e não existe rede nenhuma”.

As trinta e seis horas restantes são ocupadas pelo assassinato de Chatov, pelo suicídio de Kirillov, pelo nascimento do filho de Stavroguin com a antiga companheira de Chatov, pelo acesso de loucura de Liamshin e pela desintegração do pretenso grupo revolucionário.

Esse ato final de “Os Demônios” contém uma das maiores realizações estéticas de Dostoiévski. O encontro entre Piotr e Kirillov, quando estes discutem o suicídio do último, que deixaria uma carta assumindo todos os crimes do grupo de Piotr Verkhovenski. O episódio da morte de Kirillov ilustra o mecanismo que nos conduz ao efeito trágico. Piotr precisa assegurar-se de que o discípulo realmente cumprirá o prometido de suicidar-se assumindo todas as responsabilidades. Kirillov, afinal, após dilacerar um dedo de Piotr, se suicida em desespero abjeto, porque não consegue se matar como uma afirmação de sua própria libertação.

Ao final, de todos os cúmplices de Piotr, apenas o jovem Erkel ainda nele acreditava como percursor de uma “nova sociedade”. Piotr, em companhia de Erkel, chega à estação ferroviária. Dez minutos depois, convidado, sem nem ao menos despedir-se de seu “companheiro” fiel, ele entra na primeira classe. O trem engata e ganha velocidade. Piotr, o demônio, escapa via Petersburgo para o exterior jogando cartas com outros passageiros.

 

7. “Os Irmãos Karamazovi”

  • A maior obra literária da humanidade, segundo Freud e Nietzsche.

Skotoprigonievski, cidade depósito de animais.

Stefan Zweig, ao terminar de escrever seu livro “Os Construtores do Mundo”, foi convidado a realizar um resumo comentado da última e principal obra do grande escritor russo: “Os Irmãos Karamazovi”. Infelizmente, uma série de circunstâncias como o advento da Segunda Guerra Mundial e seu falecimento prematuro impediram que executasse tal projeto. O título provisório para o trabalho seria o mesmo que o próprio Dostoiévski designara para o local onde se passa a tragédia dos Karamazovi: “Skotoprigonievski”.

Dostoiévski tinha por hábito justapor palavras em russo. Skotoprigonievski tem o significado de “um depósito de animais”. O grande depósito de animais que simboliza um universo, microcosmo de nosso mundo de humanidades, no dizer de Ivan Karamazov, repleto de “focinhos humanos”.

Karamazov é originário etimologicamente de kara (castigo) e mazat ( sujar). Desde o título ele nos dirige para “aquela pessoa cujo erro o leva à própria punição”, ou se o quisermos dentro do trágico, aquele que ultrapassa suas medidas e caminha para a própria condenação, uma etapa necessária à redenção ou à perdição.

A cidadezinha de Skotoprigonievski, onde a trama se desenvolve, é um “depósito de animais”, onde todos nós poderemos de um modo ou outro encontrar nossa “isbá”, o nosso lar. Uma aldeia que arde pelas paixões, ódios, desmedidas, mas que também é capaz de gerar um Alieksei , um homem que procura a verdade e a fraternidade.

Hoje como no passado, os habitantes de nossas imensas Skotoprigonievski, o que tanto desejam? Serem felizes, possuírem riqueza, poder e, quem sabe, acima de tudo, consumir e poderem se exibir socialmente. Pois os personagens de “Irmãos Karamazovi” nunca aspiram a nada disso diretamente, mesmo porque eles não se estabelecem em lugar algum, nem mesmo diante da própria felicidade. Necessitam seguir um caminho, têm uma espécie de alma interior que  tortura a si mesma num eterno seguir em frente. Desprezam a fortuna ainda mais do que a desejam, talvez porque nada almejem de particular neste mundo; mas se nada querem de particular, no geral aspiram a tudo, à plenitude dos sentimentos, à vida inteira.

Os  Karamazovi, para Zweig, têm músculos de aço, sede de vida brutal, “essas bestas ferozes de sensualidade, de alegria do viver”, indecentes e fanáticas, que sorvem as últimas gotas do cálice antes de o quebrarem. São do tipo que querem o tudo e o nada, desejam o bem e o mal e tais quais os heróis das tragédias gregas excedem seus limites, mesmo porque estão permanentemente a testá-los.

Essa inquietude e ansiedade são do mesmo modo suplícios e o sofrimento dilacera a todos; quando se embebedam, não buscam o prazer ou o sono, mas na embriaguez tentam o esquecimento da loucura;  jogam um dia inteiro para matar o tempo e entregam-se à dissolução, não por prazer, mas para perderem o controle nos excessos que cometerão.

Não por acaso o romance, por ser religioso, é dividido em quatro partes, totalizando doze capítulos, e um epílogo. Dostoiévski expressa da maneira mais acabada sua religiosidade cristã e ortodoxa. O número de capítulos simboliza a atuação de Deus sobre o espírito, na dualidade das coisas e do homem. O doze simboliza Jesus, sendo ainda o número dos apóstolos de Cristo, o número de estações de sua Via Crucis, das tribos de Israel, assim como a base dos cento e quarenta e quatro mil salmos bíblicos.

O patriarca da família é Fiódor Karamazov, um velho devasso, palhaço e mesquinho, que fez fortuna devido aos dotes de suas duas mulheres mortas precocemente. Teve três filhos aos quais abandonou. Com a primeira, Dmitri, criado primeiramente pelo seu criado e depois por Miússov, parente de sua falecida mãe. Com a segunda mulher, mais dois: Ivan e Aliêksei, que terminaram sendo criados por outro parente.

Enquanto Ivan que cresce na cidade grande e se torna um intelectual atormentado por sua inteligência, Aliêksei se transforma numa pessoa mística e pura, entrando para um mosteiro em Skotoprigonievski.

Será Ivan quem transportará para a obra polifônica muito mais do autor que qualquer outro personagem; seu alimento não é o pão, a carne e ou vinho, mas as reflexões; ele não age impulsionado nem pelo amor, nem pelo ódio, na medida em que somente luta por ideias, mesmo ao custo de o alucinarem.

Dmitri ou Mitia, o primogênito, torna-se homem na devassidão; incorporado ao Exército, do mesmo é expulso. Seu nome deriva de Demeter, fruto da mãe Terra e como tal possuidor de força brutal e ingênua, agindo sempre infantilmente e em desespero, possuindo até mesmo a capacidade de amar simultaneamente duas mulheres, cada qual a seu modo.

A partir da disputa financeira pela herança materna, entre o pai e Mitia, nasce o conflito por uma mulher, Gruchénka, que levará ambos a brigas e até ameaças de morte. Gruchénka é uma das personagens dramáticas que são mulheres “decaídas”. Se ela devota aos homens que por si se apaixonam apenas o ódio travestido de boas maneiras, possui também um coração de ouro para aqueles a quem chega a amar, o que ocorrerá quando apaixona por Dmitri.

Além dos três filhos legítimos, Fiódor também agrega como servo o filho fruto do estupro de uma mulher amalucada, estupro que cometera na mocidade. Trata-se de Smerdiakov, um ser trágico, que simboliza a dissuasão, a hipocrisia, a inveja incontida dentro de uma vida sem sentido. Smerdiakov é niilista, feio, bastardo e “eunuco” e será o instrumento da morte paterna, do parricídio que, entretanto, ambos os irmãos, Ivan e Mítia, no subconsciente gostariam de haver cometido.

Encontramos desenvolvida nesse romance, com toda profundidade, a problemática essencial da existência ou não de Deus, questão que tanto angustiou a vida do autor. A existência de um Deus que esteja lado a lado com as questões como o bem e o mal, assim como a consequente responsabilidade humana no livre-arbítrio, na liberdade de salvar-se e de libertar-se.

Por isso mesmo Dostoiévski impulsiona todo o drama para um momento superior, religioso, em que personagens procuram a fraternidade universal no mistério da reconciliação geral e no reconhecimento fraterno. Ao final do romance uma propensão para o alto, para a redenção. Os “criminosos e pecadores” de certa forma são penetrados pela divindade, buscando no sofrer e no arrependimento se elevarem espiritualmente.

Se Cristo pedia “deixai vir a mim as criancinhas”, o mesmo o faz Aliocha, sempre rodeado por elas, buscando que cultivem as memórias de seus momentos felizes na pureza da infância, essenciais à felicidade do futuro adulto. As crianças que constituem o símbolo da pureza, da capacidade de redenção do homem e, no dizer de Ivan, “o maior dos crimes consiste em agredi-las, degradá-las”.

  • A Revolta em “Os Irmãos Karamazovi”

A Revolta é o décimo quinto capítulo do romance de Dostoiévski, aquele que antecede e prepara o leitor para o “O Grande Inquisidor”. Trata-se um longo colóquio entre dois irmãos Ivan, o livre pensador e Aliocha, o seminarista.

A revolta de Ivan vai ao encontro de um mundo que se desfaz em injustiças e violência. Primeiramente ele avança contra o preceito cristão do “amais-vos uns aos outros”. “Jamais pude compreender como se possa amar o próximo. Não se pode amar o próximo, a não ser que ele esteja distante; para que se possa amar alguém é preciso que ele esteja oculto, pois desde que ele se mostra, o laço se desfaz… O amor de Cristo pelos homens é uma espécie de milagre impossível na terra, pois nós não somos deuses… Pode-se, isso sim, amar as crianças de perto, mesmo sujas, mesmo feias, aliás, eu nunca as acho feias. Já os adultos, esses comeram o fruto proibido, discerniram o bem do mal, tornaram-se semelhantes aos deuses. Mas as criancinhas não, são inocentes”.

Prossegue Ivan dizendo que comparar a crueldade humana com a dos animais silvestres seria uma enorme injustiça para com esses, pois as feras jamais atingiriam os refinamentos do homem na maldade. “Se o diabo não existe e foi criado pelo homem, este deve tê-lo feito à sua imagem e semelhança.”

Ivan Karamazov, ou melhor, Dostoiévski, relata a Aliocha cinco casos reais publicadas em jornais, na forma de cinco pequenas “histórias” ilustrativas da maldade a que pode chegar o homem:

Episódio 1. A história trata de um adolescente que se converteu ao cristianismo antes de morrer. Havia sido “dado”, aos seis anos de idade, por seus pais a uns pastores que o “educaram” para o trabalho, ou seja, para ser um escravo. Richard crescera como um pequeno selvagem faminto, sem roupas, a pastorear desde os sete anos de idade. A fome o obrigara a comer até mesmo a lavagem que era dada aos porcos, embora quando era pego surravam-no sem piedade. Ao tornar-se jovem, ele passou a roubar e chegou mesmo ao assassinato. Na prisão cercou-o uma multidão de almas caridosas, pastores calvinistas e senhoras da sociedade. Ensinaram-no a ler e a escrever, assim como todo o Evangelho. Catequizaram-no e, em decorrência da fé adquirida, ele confessou seu crime ao Tribunal dizendo-se um monstro, mas que Deus o esclarecera de toda a sua maldade. Toda Genebra filantrópica e pia emocionou-se com o caso.

Julgado culpado, no dia da execução, Richard chorava e repetia que aquele era o dia mais lindo de sua vida, pois iria arrependido até Deus. Toda a sociedade genebrina segue a carreta que o conduz ao cadafalso. “Morre irmão, morre no Senhor”, gritavam. E, coberto de beijos, Richard sobe ao cadafalso e a sua cabeça rola com a graça divina.

Episódio 2. “Entre nós, torturar batendo constitui uma tradição histórica, um gozo pronto e imediato”.  O poeta Nekrassov relata como um mujique bate com seu chicote nos olhos de um cavalo que não consegue atravessar um lamaçal. “É um bom russo. Quem já não viu isso? Ele bate encarniçadamente, sem saber muito bem o que faz e os golpes chovem numa espécie de embriaguez. A besta sem defesa se debate desesperadamente enquanto seu dono açoita seus olhos doces, de onde rolam lágrimas… Mas por que as pessoas se chocariam com o caso? Não se trata apenas de um cavalo que Deus criou para ser chicoteado? Afinal, os tártaros nos legaram o chicote para quê?  Para isso.”

Episódio 3.  As pessoas também podem ser espancadas. Um senhor culto e sua mulher sentem prazer em açoitar com varas sua filhinha de sete anos. E o pai está feliz porque a vara tem espinhos. Há seres que se excitam a cada golpe e chegam, progressivamente, ao sadismo. Bate-se na criança um minuto, depois cinco, após dez…, sempre mais e mais forte. O caso torna-se escandaloso e chega ao Tribunal. Toma-se um advogado, mas “há muito tempo o povo russo chama ao advogado de uma consciência de aluguel”. Trata-se apenas de um caso em família, o rábula argumenta. E o júri absolve o marido e a mulher e o povo o aplaude.

Episódio 4. Existe um pendor especial, em muitos, para o prazer de açoitar crianças. Pois cada homem oculta em si um demônio: acesso de cólera, sadismo, paixões ignóbeis, doenças contraídas na devassidão. No caso, os pais eram instruídos, mas praticavam sevícias numa pobre menina. Açoitavam-na e seu corpo vivia repleto de equimoses. Refinaram, então, sua crueldade: nas noites de inverno encerravam a menina na privada para que ela não perdesse tempo urinando na cama. Esfregavam os excrementos na pequena face e a mãe obrigava-a a comê-los. E essa mãe dormia tranquila, insensível aos gritos da pobre criança. E o pequeno ser, sem saber ao certo o que acontece, bate em seu pequeno peito, chamando o bom Deus em socorro! “Ora, toda a ciência do mundo não vale as lágrimas de uma criança”, conclui Ivan.

Episódio 5. No começo do século XIX, um general rico proprietário vivia em uma fazenda com mais de duas mil almas de servos. Tratava a todos com desdém e tinha uma centena de capatazes e matilhas  de cães amestrados. Um dia, um pequeno servo de oito anos acertou uma pedra em um de seus cães favoritos. O general ordenou arrancar a criança dos braços da mãe e jogou-a numa masmorra. No dia seguinte, ele, em uniforme de gala, montado para ir à caça e cercado por seus parasitas, reúne todas as almas “que lhe pertenciam”, para “dar um exemplo”.

Trazem a mãe e o menino. “O general ordena que, na manhã fria, tire-se toda a roupa do garoto que tremia de medo, sem dizer palavra”. “Façam-no correr, ordena”. Nisso ele açula a matilha e os cães que estraçalham a criança diante de sua mãe.

Ao terminar de contar esses casos, Ivan conclui: “Aliocha, limitei-me às crianças. Nada disse sobre as lágrimas humanas de que a terra está encharcada. Não compreendo esse estado de coisas. Os homens são os únicos culpados... Não merecem, pois, compaixão.”

Ivan prossegue: “Os carrascos e torturadores sofrerão no inferno, tu me o dizes, Aliocha. Mas de que serve o castigo se as crianças já tiveram seus infernos? Aliás, de que vale essa harmonia que comporta um inferno?” E prossegue Ivan: “Querer o perdão, o beijo universal, a supressão do sofrimento. Mas se o sofrimento das crianças serve para perfazer a soma das dores necessárias à aquisição da verdade, afirmo que ela não vale tal preço. E se o direito de perdoar não existe que vem a ser a harmonia? Pelo amor pela humanidade é que eu não quero essa harmonia. Prefiro conservar a minha indignação persistente mesmo se não tiver razão. Aliás, deram excessivo valor a essa harmonia, cujo preço nos é demasiado caro. Entrego meu bilhete na entrada. Como homem de bem tenho o dever de entregá-lo o mais rápido possível. Não recuso admitir Deus, mas muito respeitosamente, devolvo-lhe o meu bilhete”.

Aliocha, o seminarista, não encontra argumento para refutar o raciocínio de Ivan. Resta-lhe repetir o que quase sempre se fez: retruca que “tudo isso não é nada mais que revolta, uma revolta contra Deus”!

Ivan contra argumenta: “Pode-se viver revoltado? Ora, eu quero viver. Imaginas que os destinos da humanidade estejam em tuas mãos e que para tornar as pessoas definitivamente felizes, seria necessário torturar um ser, um ser apenas, tu o consentirias?” Eu, jamais.

  • A “lenda” de O Grande Inquisidor.

No dizer de Steiner, “O Grande Inquisidor” é prometeico: prenuncia os regimes totalitários do século XX, o controle do pensamento e o prazer brutal das massas na Revolução Cultural, nas Danças de Nuremberg, no Palácio dos Esportes de Moscou. A visão do Santo Inquisidor também aponta para as recusas de liberdade real nas sociedades capitalistas e as formas tão somente exteriores das denominadas “democracias representativas”.

Situa igualmente para as recusas de liberdade, invasão das privacidades, as parvoíces hipócritas das democracias formais. Sinaliza a vulgaridade espantosa da cultura de massas, o consumismo desmedido, os homens que buscam líderes, mágicos ou pastores que retirem de suas mentes as reações selvagens de busca por liberdade.

O Inquisidor acusa Cristo de ter superestimado a estatura do homem, sua habilidade em suportar o livre-arbítrio, argumentando que “os homens preferem a calma bruta da escravidão”. Para o Inquisidor os homens conhecerão a felicidade somente quando um reino perfeitamente regulado for estabelecido sobre a terra, sob os auspícios dos milagres, da autoridade e do pão. 

Dostoiévski também traçou um retrato de “seu Cristo” na lenda do Grande Inquisidor. A beleza e graça inefável são sutilmente evocadas em um Cristo redivivo que perante o Grande Inquisidor nada responde nada fala. Esse silêncio, no dizer de D.H. Lawrence, é um sinal de aquiescência, da humildade do artista em contraposição à derrota da linguagem de seus seres polifônicos, como o Inquisidor. Cristo se cala na contramão da polifonia humana.

O fulcro da lenda é a liberdade do homem. Homem que é completa e terrivelmente livre para perceber o bem e o mal, optar por um deles e encenar sua escolha.

No Inquisidor também se incorpora a ideia do Anticristo, a daquele que também viveu no deserto, alimentou-se de gafanhoto e mel e ofereceu a Cristo a tríplice tentação: os milagres, o pão e a autoridade, dos quais seriam decorrentes as Igrejas e o Estado. Mas Cristo rejeitou, em nome da liberdade do homem, todas as tentações. Se o corpo de Cristo tivesse descido da cruz ou se Zózima, o starietz do romance, não exalasse os odores  da putrefação de seu cadáver, o homem deixaria de ser livre, seria forçado pela evidência a crer, da mesma forma como os escravos que obedecem ao poder da força e não por uma livre escolha.

Logo, as Igrejas são as principais responsáveis por privarem os homens  de sua liberdade essencial, interpondo entre Deus e a agonia da alma individual, a segurança da absolvição e dos mistérios dos rituais.

Se por um lado, o Inquisidor era a seu modo, um “progressista”, que possuía uma crença radical no progresso humano através de meios materiais, uma crença na razão pragmática, uma rejeição da experiência mística e uma total absorção pelos problemas do mundo, a ponto de quase excluir Deus de seu Universo, por outro, o Cristo dostoiévskiano não é um santo, mas  humano, profundamente humano, parafraseando Nietzsche.

Toda a ação ocorre em Sevilha na Idade Média, onde sob o comando do Grande Inquisidor, acendiam-se fogueiras em glória a Deus e os hereges ardiam em “atos de fé”.

Cristo teria surgido dentre a multidão reunida na praça em frente à Catedral, docemente, quase sem se fazer notar. No entanto, todos O reconheceram de imediato. Ele caminha com um sorriso de compaixão infinita. Sobe os degraus da igreja no momento em que trazem o caixão de uma menina de sete anos. A mãe lança-se a seus pés e diz: ”Se és Tu, ressuscita-a”. Ele a contempla e apenas diz “talita kumi”, incontinente a morta levanta-se e sorri. No meio da turba há agitação e choro.

Naquele instante passa ao largo um ancião quase nonagenário, de elevada estatura, rosto ressecado, olhos cavados, o Grande Inquisidor. Ao entender a atitude de Cristo, um brilho sinistro clareia seu olhar; ele aponta-O à guarda e ordena que O prendam. Tão grande é seu poder, tal o medo de uma multidão acostumada à submissão, que os esbirros prendem- nO sem nenhum trabalho. Como um só ser, toda a multidão, esquecendo a quem louvava, inclina-se agora para o Cardeal que a abençoa.

O Prisioneiro é levado para a masmorra do Santo Ofício. À noite, o Inquisidor vem só e com um facho de luz ilumina a Santa Face. “És tu, não és? Cala-te, aliás, o que poderias dizer? Não tens o direito a acrescentar uma palavra ao que disseste outrora. Por que nos vieste estorvar? Amanhã Te condenarei e serás queimado como o pior dos hereges e esse mesmo povo que hoje te beijavam os pés, trará a lenha em que arderás. Tens por acaso o direito de revelar um só dos segredos do mundo de onde vens? Todas as revelações novas feririam a liberdade da fé, pois pareceriam miraculosas; ora, tu punhas há quinze séculos essa liberdade acima de tudo! Pois bem, viste os “homens livres”, diz com sarcasmo.

“Isso nos custou muito caro, mas levamos a cabo aquela obra em Teu nome; foram séculos de grande trabalho para instaurar a liberdade, mas está feito. Tu me olhas com doçura, sem mesmo fazer-me a honra de Te indignares! Mas saiba que jamais os homens se sentiram tão livres como agora, pois sua liberdade eles a depositaram humildemente a nossos pés. Só agora (com a Inquisição) que se pode pensar na felicidade dos homens. Eles são naturalmente revoltados e, revoltados podem ser felizes?”

“Tu estavas advertido, conselhos não Te faltavam, mas não os levaste em conta, rejeitaste o único meio de proporcionar felicidade aos homens. Felizmente, ao partires, nos transmitiste Tua obra, concedendo-nos o direito de ligar e desligar e, decerto, não podes imaginar em retirá-lo agora. Por que vieste nos estorvar?”

“O Espírito terrível e profundo da destruição e do nada falou-Te no deserto e as Escrituras relatam que Te “tentou”. É verdade? … quem tinha razão: Tu ou aquele que Te interrogava? Lembra-Te do sentido da primeira pergunta? Queres ir para o mundo de mãos vazias, pregando aos homens uma liberdade que lhes causa medo... Vês as pedras do deserto árido? Muda-as em pães e atrás de Ti, correrá a humanidade como um rebanho dócil e reconhecido. Mas Tu não quiseste privar o homem da liberdade e recusaste, estimando que ela era incompatível com a obediência cobrada com pães. Replicaste que nem só de pão vive o homem, mas sabes que em nome desse pão terrestre o Espírito da terra se insurgirá contra Ti, lutará e Te vencerá. Séculos passarão e a humanidade proclamará pela boca de seus sábios e de seus intelectuais que não há crime e, por conseguinte, não há pecados, só famintos.”

“Eles nos procurarão e depositarão sua liberdade a nossos pés dizendo: ‘reduzi-nos à escravidão, mas alimentai-nos’. Compreenderão que a liberdade e o pão da terra à vontade para cada um são irreconciliáveis, pois jamais saberão reparti-lo entre si. A impotência para a liberdade ocorre por serem fracos, depravados, nulos e revoltados. As multidões sendo fracas e, embora depravadas e revoltosas, tornar-se-ão dóceis.”

“Acreditarão que somos deuses pondo-se sob nosso comando e reinaremos sobre eles, os quais terão medo de serem livres. Mas lhes diremos que somos Teus discípulos e reinamos em Teu nome. E esta, a mentira, será a origem de nosso sofrimento.” “Não há para o homem que fica livre,  preocupação mais constante e mais ardente que procurar um ser diante do qual se inclinar”.

“Para dispor da liberdade dos homens é preciso dar-lhes paz de consciência... nisto Tu tinhas razão porque o segredo da existência humana consiste não somente em viver, mas ainda em encontrar um motivo pelo qual viver. Sem uma ideia nítida de sua finalidade, prefere o homem a ela renunciar e se destruirá embora cercado por montes de pão. Esqueceste-Te de que o homem prefere a paz e até mesmo a morte à liberdade de discernir o bem do mal? Não há nada de mais sedutor para o homem que o livre-arbítrio, mas também, nada de mais doloroso.”

“Há três forças que podem subjugar para sempre a consciência desse fraco revoltado: o milagre, o mistério e a autoridade. Tu rejeitaste os três… sobretudo é o milagre que o homem procura e como não saberia passar sem ele, forja novos, os seus próprios, inclinando-se perante o prodígio dos magos, dos sortilégios de uma feiticeira, ainda que sejam revoltados, hereges, ímpios confessos”.

“O homem é mais fraco, covarde e vil do que pensavas. A grande estima que tinhas por ele fez mal à tua compaixão. Que importa que no presente se insurja por toda parte contra nossa autoridade e se mostre orgulhoso de sua revolta? É a alegria infantil que lhes custará caro. Derrubarão templos e incendiarão a terra. Mas perceberão, por fim, que são crianças estúpidas, fracas, incapazes de se revoltarem por muito tempo”.

“Corrigimos Tua obra baseados no milagre, no mistério e na autoridade. E os homens se regozijaram por serem de novo levados como um rebanho e serem libertados do dom funesto que lhes causava tormentos. Não tínhamos razão? Não era amar a humanidade compreender sua fraqueza, aliviar seu fardo, tolerar mesmo o pecado de sua fraca natureza, mas com a nossa permissão?”

“Por que vir agora entravar a nossa obra? Por que guardar silêncio com Teu terno olhar? Eu não Te amo. Cada um de nós sabe com quem fala. Não estamos Contigo, mas com Ele há muito tempo. Aceitamos Roma e o gládio de César e declaramo-nos os únicos reis da Terra”.

“Amanhã, queimar-Te-ei, pois ninguém mais que Tu mereceste a fogueira. Dixi”.

O Inquisidor se cala, espera a resposta do Prisioneiro. Este se aproxima em silêncio do nonagenário e beija-lhe os lábios. É toda sua resposta. O velho estremece, seus lábios tremem, caminha até a porta e abre:  “Vai-Te e não voltes nunca mais!” O Prisioneiro sai.

Aliocha se insurge contra o irmão: “Mas teu Inquisidor não crê em Deus!”

Ivan: “Adivinhaste!”

Aliocha Lievanta-se e beija o irmão nos lábios. Este sorri: “é plágio!”

Tal qual na essência da profecia de Dostoiévski os homens inclinam-se voluntariamente aos seus guardiões, exceto um pequeno número de rebeldes. “Mas podem os revoltados ser felizes?” Podem?

B. Tolstói

  1. Liev Tolstói, o homem e o escritor.

  1. A coerência entre o pensar e o agir.

O Conde Liev Tolstói tinha como ser humano e escritor a dimensão do final do século XIX, que talvez tenha sido um dos períodos mais ricos em experimentações científicas e descobertas espirituais de toda a história da humanidade. Como poucos ele encarnou os fados épicos de seu tempo grandioso, pese a influência rude do empirismo e do determinismo cientificista. Época que seguramente não aceitaria muito do que nosso empobrecido século XXI admite com complacência: o desprezo pelas ideias, pelos valores éticos e pela dignidade humana.

Pois o Conde Tolstói simbolizou a força espiritual da resistência pacífica, a certeza no porvir de uma sociedade mais humanizada, parametrizada pela dignidade humana. Foi, sem dúvida, o escritor que maior influência exerceu nas gerações que contestariam o czarismo, o latifúndio rural e que, finalmente, realizariam a primeira Revolução Socialista da história, em 1917, somente sete anos após sua morte. Aliás, Tolstói aplicou adequadamente a frase de Joseph Glanvil na abertura de “Guerra e Paz”: “O homem não se curva aos anjos, nem mesmo com sua morte total, exceto pela fraqueza de sua frágil vontade”. Esta frase, mais que qualquer outra, aplicava-se a ele próprio.

Foi em determinado momento de sua maturidade, já então o escritor mais famoso da Rússia, que seu espírito inquieto viveu uma enorme crise de identidade na busca por respostas a questões sobre o sentido da vida. Após desistir de encontra-las na filosofia, na teologia e nas ciências, deixou-se guiar pelo exemplo de Cristo e dos simples camponeses. Foi ele mesmo quem, por volta de 1880, definiu a sua “conversão”. Essa “conversão espiritual” levou-o a recusar a autoridade de qualquer governo organizado e da Igreja. A negar o direito à propriedade privada e pregar o conceito de mudanças sociais pela não violência.

Desde então, o insubmisso, o homem revoltado, é para o escritor “o homem cristão”, um cristianismo de foro íntimo, em que os dogmas e a liturgia da Igreja estão abolidos.  O Jesus de Tolstói não é mais o Filho de Deus, mas o homem- mártir, aquele que foi exemplar e morreu por seus ideais, “o maior homem que a humanidade já produziu”, e dentre seus mandamentos, quiçá o único, teria sido “ama ao próximo como a ti mesmo”.

À medida que amadureciam essas premissas filosóficas, Tolstói também transformava a própria vida. O autor de “Guerra e Paz” e de “Anna Karenina” abriu mão de diversos direitos autorais para tornar seus livros mais acessíveis. Ao mesmo tempo, libertou os servos de suas propriedades antes mesmo da reforma czarista. Foi além dividindo glebas, onde organizva cooperativas de camponeses. Reservou para si um pedaço da terra que herdara, o qual lavrou pessoalmente. Abandonou os hábitos da juventude e abandonou a caça; por respeito à natureza mais tarde se tornou vegetariano, pois comer carne pressupunha “a matança de seres vivos”.

“Os homens somente podem se libertar por meio da educação”. Em decorrência desse princípio, construiu em sua propriedade de Yasnaia Polyana, uma escola destinada aos filhos dos mujiques; também contratou professores para as crianças e para a alfabetização de adultos.

Fez ainda mais: distribuiu o próprio dinheiro aos mais necessitados que acorressem à sua  propriedade e, ao final da vida, leiloou até mesmo suas roupas sociais, cujo dinheiro distribuiu.

Desde sua “conversão” o Conde Liev Tolstói jamais negou apoio a movimentos intelectuais ou populares que contestassem as injustiças sociais; entretanto, peregrino da resistência pacífica, nunca auxiliou os revolucionários e “regicidas” que utilizavam a violência nos atentados. Idealizava um movimento de emancipação realizado pelo povo e para o povo. Foi, sem dúvida, um inspirador de Mahatma Gandhi, com quem travou longa correspondência.

Considerado um ícone por toda a intelectualidade russa, Tolstói foi excomungado pela Igreja Ortodoxa em 1901 e somente não foi preso pela polícia czarista porque ele era adorado pelo povo e reconhecido em todo o mundo. Esta foi uma batalha que o Czar Nicolau II preferiu não travar.

2. Pensamentos sociais de um cristão anarquista.

Para Tolstói, na construção de uma sociedade fraterna, o homem deveria considerar a guerra, o patriotismo, as nacionalidades, o ódio entre raças e os preconceitos étnicos, assim como a política e o militarismo, como ramos da árvore do mau, portanto, formas de pecado. E se a terra é um bem comum, ela deveria pertencer a todos.

Logo, seu ideal econômico é uma espécie de comunismo agrário- anarquista. O próprio progresso civilizatório isola os homens uns dos outros e da mãe terra, provocando um processo de degeneração física e espiritual. “A propriedade é, hoje em dia, a raiz de todo o mal. Ela causa o sofrimento dos que a possuem e dos que não a possuem… O perigo de conflitos entre os que dispõem do supérfluo e os que vivem na pobreza é inevitável.”

O Estado encarna o princípio da propriedade privada, e passa a ser visto como um dos maiores obstáculos à harmonia entre os homens, pois, “sendo o Estado o grande esteio do latifúndio, ele assume a responsabilidade por toda uma injusta organização social; transformou-se num criminoso que estabeleceu um sistema de violências com numerosas malhas, leis, homens da lei, prisões, juízes, policiais, políticos, exércitos”.

Estado este que não se perpetua somente pela força, mas também por uma espécie de “encantamento”, obtido “graças a uma organização das mais artificiais, inteiramente forjada em favor do aperfeiçoamento científico e propagandístico, que faz com que os homens estejam sob um encanto do qual não podem se libertar”.

Ele define quatro pilares como vigas-mestras desse encantamento:

1. “A hipnotização do povo”: é disseminada a opinião segundo a qual o estado atual das coisas é imutável e que deve ser mantido; na realidade, ele só é imutável precisamente por ser mantido. A hipnose se faz por meio da implantação de várias superstições, sendo a religião e o patriotismo as mais importantes.

2. “A corrupção”: é a ação de retirar a riqueza das classes que trabalham por meio de impostos e taxas, e distribuí-las a funcionários públicos, de forma legal ou ilegal, de tal maneira que eles perpetuem a subjugação do povo.

3. “A intimidação”: representa a ordem dirigente do Estado – quer seja o mais liberal, o republicano ou o despótico- que ameaça com os castigos mais atrozes aqueles que se negam a obedecê-la ou mudá-la.

4. “O Exército”: a instituição do serviço militar obrigatório constitui um crime de lesa-humanidade. Ela embrutece os jovens mais pobres da população, que serão adestrados através de procedimentos dos mais autoritários e bestializadores, transformando-se em instrumentos prontos a cometer todas as brutalidades e crueldades que seus superiores lhes ordenem.

Tolstói prega um retorno à natureza, a uma vida simples e humilde, onde os homens possuam laços estreitos de fraternidade e paz interior e, na alvorada do século XX, foi o primeiro escritor a possuir uma clara visão da necessidade da preservação do meio ambiente.

3. A revolta dos “lutadores do espírito”.

Em 1895 a Rússia foi agitada pela ação de um grupo de cristãos contestadores denominados “dukhobors”, os “lutadores do espírito”. O grupo negava a propriedade privada, o governo, o Estado, o dinheiro, a Igreja e a Bíblia como fontes de revelação; praticava um estilo de vida comunitário em convívio com a natureza, estritamente democrático e despojado, em que o consumo de carne fora banido. Pregava a paz e recusava-se a servir ao Exército.

Logo, alguns de seus líderes foram presos e banidos para a Sibéria. Em protesto contra as prisões, milhares de “dukhobors” queimaram todas as armas de autodefesa que possuíam, proclamando a recusa em participar de qualquer ato de violência. Os cossacos enviados para reprimi-los submeteram-nos a espancamentos, expulsaram mais de sete mil homens, mulheres e crianças de suas casas, arrasaram colheitas e confiscaram terras, prendendo os líderes do movimento.

O grande escritor já os apoiava e organizara uma rede de denúncias no exterior; ao tomar conhecimento de que mais de quatrocentas pessoas haviam morrido de frio, fome e sede depois da ação repressora, decidiu dedicar todo o seu tempo, por meses, a angariar apoio aos perseguidos. Graças à influência internacional que seu nome exercia, seu representante no Canadá logrou convencer este país a receber como exilados todo o grupo dos “dukhobors”, dando-lhes uma gleba de terra.

Acuado interna e externamente, o Czar recuou e permitiu que mais de duas mil pessoas emigrassem. Tolstói encarregou-se da arrecadação financeira dentre os intelectuais e aristocratas liberais. Decidiu também cobrar direitos autorais de seu último romance, ainda não impresso, “A Ressurreição”, e doá-lo aos revoltados. Ao final, os “dukhobors” viajaram e se instalaram nos novos lares canadenses, desenvolvendo uma experiência comunitária socializante que sobreviveu aos anos.

4. Uma voz contra a banalização do mal.

Liev Tolstói, tal qual o fizera Dostoievski,  legou-nos material literário precioso, onde os princípios da “banalização do mal” encontrados por Hanna Arendt ao analisar o caso Eichmann já haviam sido por eles descritos com precisão, com mais de sessenta anos de antecedência.

O mais representativo é o conto denominado “Nicolas Palkine”, referindo-se a Nicolau I com o termo originário de palka, vara, que era utilizada revestida por ponta de metal e aplicada em espancamentos de soldados, prisioneiros e nos suspeitos de crimes, muitos vezes até à morte. O conto, ao traçar o perfil do executor da tortura e de massacres, assim como o ambiente que torna propício o surgimento desses indivíduos, foca literariamente as principais conclusões finais do relatório de Arendt.

O conto desenvolve-se a partir do diálogo que o narrador mantém com um velho suboficial, que servira no Exército Imperial. O velho declara que estava carregado de pecados e o que mais desejava antes da morte era arrepender-se e comungar, livrando-se do castigo divino!

São tantos os seus pecados, pergunta-lhe o narrador, ao que ele responde: “Não sabeis que servi sob Nicolau? Comecei o serviço sob Alexandre; os soldados o elogiavam, diziam que ele era muito bom…” Ao que o narrador retruca: “Lembro-me dos últimos tempos do reinado de Alexandre, quando vinte por cento dos soldados convocados para o exército apanhava até morrer; como deveria ser com Nicolau se o tempo de Alexandre era tido como muito bom?”

O velho sargento se abre dizendo que para cinquenta açoitadas, nem mesmo a calça do torturado se tirava; davam-se duzentos, trezentos golpes… espancava-se até matar. Ao empolgar-se, o soldado falava com desgosto e horror, mas não sem orgulho da antiga bravura… de espancador obediente!

De tempos em tempos, surgem no velho sargento pequenos pecados de consciência! Por exemplo, quando se condenava um soldado por má conduta a cento e cinquenta golpes de vara “e nós aplicávamos duzentos”; isso muitas vezes não bastava aos oficiais, “batíamos para valer nos jovens soldados, com a coronha, com os punhos, no peito e na cabeça; o soldado morria e nem ao menos sofríamos uma repreensão”. “Morria porque apanhava e as autoridades escreviam no prontuário: morreu pela vontade de Deus”.

O pecado e a necessidade do perdão cristão advêm, na narrativa do velho, exclusivamente do fato de se exceder no cumprimento do “dever”, não por haver cumprido o ordenado pelos superiores, mesmo que o resultado também conduzisse o supliciado à morte, pois, enfim, somente “cumpria ordens”.

Contava essas minúcias sem remorso, como se tratasse de bois destinados ao matadouro. Lembrava-se perfeitamente de como o homem ferido resiste e depois cai; percebem-se os sulcos sangrentos; o sangue que corre; a carne que se desfaz em pedaços, até expor os ossos. O infeliz grita, depois urra surdamente a cada pancada e, por fim, se cala, já não tem mais forças nem para gemer.

Chega o médico-inspetor, examina o pulso do supliciado e decide se pode continuar a bater nesse homem sem matá-lo ou se é preferível esperar que ele se recupere para recomeçar o castigo. Recorda-se o velho de “como eles imploravam pela morte”! E os grandes crimes eram, por exemplo, haverem fugido do regimento, terem tido o atrevimento e a ousadia de protestar contra a má qualidade da alimentação ou falar que os chefes roubavam.

Ao terminar a narrativa o velho se revolta contra o intento do narrador buscar nele o arrependimento: “Era a lei, estava certa, pois era executada depois de um julgamento, de que posso eu ser culpado?” Estava, pois, em paz consigo mesmo e em tudo aquilo no que se ativera ao cumprimento de uma lei. Somente seus atos, que considerava pessoais, o afligiam como haver, por conta própria, aumentado o sofrimento de homens.

O conto vai além e o velho soldado recorda a invasão da Polônia, fala da matança de crianças, de prisioneiros que deixavam morrer de fome ou frio, e nesses casos, em absoluto demonstrava qualquer tormento de consciência, pois o genocídio do qual participara fazia parte da guerra: tudo dentro da Lei, pelo Imperador e pela Pátria!

Para ele, não eram atos que dependessem dele e mesmo lhe parecia ter sido outro e não ele o autor disso tudo. Apenas e tão somente porque “era a lei” e mandaram-no fazer! Enfim, o velho soldado passara a vida a torturar e a massacrar homens e “ele não se acreditava culpado de todas as terríveis coisas que praticara”.

“Muitos dizem que esse tempo, o de Nicolau I é passado, já passou. No tempo de Nicolau se disse o mesmo de Alexandre; no tempo de Alexandre, o mesmo de Paulo, o mesmo de Catarina, dos furores de sua depravação, da loucura de seus amantes; no tempo de Catarina se disse o mesmo de Pedro, o Grande… Em todos os tempos houve coisas das quais nos lembramos com horror, indignação. Lemos descrições das fogueiras para hereges, das torturas, açoites, suplícios de varas e sentimos horror pela crueldade de que é capaz o ser humano. E declaramos que tudo isso passou…”

Concluindo, o narrador pergunta:

“Onde se encontram nossas salas de torturas, nossa escravatura, nossos açoites? Temos a impressão de que desapareceram que não mais existem, mas eles apenas estão acobertados...”

Mais de sessenta anos após a publicação de “Nicolas Paukine”, a filósofa Hanna Arendt analisou o caso do criminoso de guerra Adolf Eichmann, preso em Israel e acusado de comandar genocídio em campos de concentração nazista na Segunda Guerra Mundial. Em suas conclusões encontramos o mesmo sentido de banalização do mal descrito pelo escritor russo:

O nazista carecia inteiramente do senso de ser, tal qual o velho soldado; ele ficava perturbado com temas emocionais de agressão, tal qual o suboficial quando o narrador questionava-o sobre os massacres por ele praticados; o que importava ao nazista era reduzir toda a vida à ordem, de modo a que toda a vida pudesse ser controlada. Tal e qual o velho suboficial, era um funcionário calmo, “bem equilibrado”, imperturbável, desempenhando seu trabalho de forma burocrática, às vezes com pequenos deslizes de ordem sádica.

Ambos sentiam profundo respeito pelo sistema, pela lei e pela ordem, funcionários fiéis de um grande Estado, por um lado, do Czarismo Russo, por outro, do Nazismo Alemão. Arendt conclui que o foco real na vida de um destruidor “talvez não seja a destruição como tal, mas a imposição da ordem e a uniformidade em tudo”.

Liev Tolstói há mais de um século deixara claro que o genocídio é um tema do presente, do passado e do futuro! É o tema que revela a natureza real de nossa espécie, capaz do trabalho mais vil que pode sair de mãos humanas: matar outros seres sem defesa!

5. O ato final.

Quando completou oitenta anos, pouco restara de toda a sua fortuna distribuída. Tolstói preocupara-se apenas em reservar à sua esposa e aos filhos que o sobreviveram, um rendimento mensal digno para quando morresse.

É emocionante ler no diário desse grande homem, a resposta a uma pergunta que ele se faz, quase ao final da existência: “Dize-me, Liev Tolstói, vives segundo os princípios de tua doutrina?” E a resposta amargurada: “Não, morro de vergonha. Sou um culpado e mereço o desprezo”.

Foi aos 82 anos de idade que Tolstói decidiu abandonar a esposa com quem trazia uma velhice em permanente conflito e deixar o estilo aristocrático. Queria, ao final, levar uma vida simples, sem riquezas, em conformidade com o que pregara, em perfeita paz de consciência.

Tomou um trem para seguir viagem. Primeira parada seria Riazan. Não chegou, entretanto, a ir muito longe. Esse esforço desproporcional à idade levou-o a contrair uma pneumonia, e o Conde Liev Tolstói faleceu no alojamento do chefe da estação ferroviária de Astapovo.

O governo russo proibiu que trens especiais trouxessem milhares e milhares de pessoas que desejavam se despedir do grande homem. Isso, entretanto, não impediu que o caixão fosse transportado por mais de três mil camponeses e os restos mortais depositados embaixo de uma árvore, de acordo com seu desejo testamentário, em Yasnaia Polyana.

Ainda hoje, um viajante encontrará uma pequena elevação de terra circundada por uma simples corrente, e uma pequena placa de mármore a assinalar o local de descanso de Liev Tolstói, aquele para quem “todos pensam em mudar o mundo, mas ninguém pensa em mudar a si mesmo”.

 

2. A literatura de Tolstói.

O sempre modesto contista Anton Tchekhov, que muitas vezes visitou o mestre em sua propriedade rural, escreveu: "Quando a literatura possui um Tolstói, torna-se fácil e agradável ser escritor, mesmo quando você sabe que não foi bem sucedido e que continuará fracassando. Isso não soa tão terrível, pois Tolstói já foi bem-sucedido e é o suficiente por todos nós”.

Mais que obra de arte, cada página de um livro de Tolstói é um pedaço de vida. Thomas Mann foi feliz ao dizer que "raramente a arte trabalhou tanto quanto a própria natureza".

Tolstói nasceu em 1828, descendente de uma das mais nobres e ricas famílias do Império Russo. Órfão ainda criança cresceu, entretanto, num ambiente familiar harmônico, de conforto físico e psicológico, com a atenção de uma tia que realmente o amava. Em 1844, começou a estudar direito e línguas orientais na Universidade de Kazan, mas seus professores o descreveram como "incapaz e sem interesse pelo aprendizado". Abandonou a Universidade no meio do curso.

Em 1851, depois de ter acumulado muitas dívidas de jogo, ele e seu irmão mais velho foram ao Cáucaso, onde se juntaram ao Exército. Foi a partir dessa experiência que ele principiou a escrever sobre os horrores da guerra, que muitos anos após foram decisivos para fomentar seu pacifismo.

Sua primeira publicação foi autobiográfica, em um estilo desde sempre realista: “Infância, Adolescência e Juventude” (1852-1856). A análise delicada da alma infantil em relação ao mundo circundante reflete-se na alma em formação; ela é sequenciada pela análise circunstanciada da juventude, a passagem pelo Exército, sua vivência no Cáucaso. Enfim, é a história de um filho de rico proprietário e a sua lenta percepção do abismo social que o separa de seus servos. Aqui já se discernia o artista genial!

Tolstói prosseguiu até a maturidade expressando experiências vividas, criando personagens à sua imagem e semelhança, incorporadas tanto em Pierre Bezukhov e no Príncipe Andrei (“Guerra e Paz”), em Lievin (“Anna Karenina”) e até certo ponto, no príncipe Nekhlyudov (“A Ressurreição”).

 

1. “Guerra e Paz”.

  • A epopeia de uma nação.

O gigantesco romance, escrito com dedicação exclusiva entre 1865 e 1869, talvez tenha sido o ponto mais alto do imenso trabalho criativo de Tolstói, alicerçado em pesquisas, farta documentação histórica e até mesmo em visitas aos campos de batalha. Nele retrata-se toda a epopeia russa, vivida entre os anos 1805 a 1812, tempo entremeado de paz, de guerra e de paz.

O quadro é grandioso. O que faz a História, diz o homem de Yasnaia Polyana, é o movimento das grandes massas populares. Em “Guerra e Paz”, a importância de indivíduos como Napoleão Bonaparte e Alexandre I, primeiro parceiros e amigos, após inimigos, é apenas relativa; a História é, sim, um processo repleto de acasos e circunstâncias. “Um evento em que milhões de homens se mataram uns aos outros, não pode ter como causa a vontade de um único homem. Onde então residem as causas? Certos historiadores as procuram no ânimo conquistador dos franceses e no patriotismo dos russos... Então por que milhões de homens se entremataram desde que nenhum deles nada ganharia com isso, quando seriam todos capazes de piorar suas situações?... Por que os homens se matam quando se sabe desde sempre que isto é proceder mal moral e fisicamente?”

Como a guerra é tratada em toda a sua brilhante e exuberante ferocidade como também em sua dor, a filosofia que permeia o romance é anti-heroica. Para Tolstói a carnificina cega é consequência da gloria vã, do poder, da presunção e da estupidez daqueles que ocupam altos escalões no Estado. E ele é claro: nem mesmo o destino da Pátria ou o tema marcial devem nos cegar para o fato de que a guerra não passa de uma matança inútil, na qual alguns procuram tirar proveitos pessoais e de poder.

O romance começa nos tempos de paz, durante a qual cinco famílias aristocráticas interagem tanto na Corte Imperial de Petersburgo, quanto em Moscou, ou em suas imensas herdades rural. Com a guerra, a vida das mesmas irá rechear-se de separações e de dores, de mortes e de renasceres, de amores e de ódios. Ao lado destes personagens fictícios existem também os históricos, e entre eles estabelecem-se relações: “Em toda parte onde, no meu romance falam e agem personagens históricos, nada inventei; utilizei somente materiais encontrados nas minhas pesquisas, que constituem uma biblioteca completa; se me parece desnecessário citar obras, a elas sempre me poderei referir.”

O romance atravessa as primeiras conquistas napoleônicas na Europa Central, os acordos de Napoleão com Alexandre I, avança pela invasão da Rússia, até a fuga em massa do exército francês, que se transforma em debandada em pleno inverno russo.

Os sangrentos campos de duas batalhas constituem dois momentos decisivos em tempos de guerra: a de Austerlitz, na atual República Tcheca, em 1806, quando as tropas napoleônicas enfrentaram vitoriosamente a coligação dos Impérios Austro- Húngaro e Russo, e a de Borodino, dentro do território russo, que abre as portas de Moscou para Napoleão, em 7 de setembro de 1812.

Em Austerlitz, Tolstói  introduz os principais personagens históricos de seu romance: Kutuzov, Alexandre I, Napoleão Bonaparte. A própria batalha descrita alicerçada em fatos históricos é ficcional, povoada pelos personagens criados pelo autor. Seu desdobramento em ações diplomáticas permite um desenlace feliz para todos os personagens: o príncipe Andrei e o conde Rostov retornam às suas famílias e à vida seguirá em certa paz pelos próximos seis anos.

Tolstói como escritor e historiador jamais é oblíquo, não tergiversa, sempre direto vai ao ponto. Como disse Romain Rollan: “Na arte de Tolstói, uma determinada cena nunca é percebida de dois pontos de vista, sempre de um só; as coisas são como são e não de outro modo”.

Em 1812, entretanto, Napoleão que desde sempre desejara a ruptura dos interesses entre a Grã- Bretanha e a Rússia, ao não ter êxito rompe com Alexandre I e declara guerra à Rússia. Não marcha para tentar conquistar sua capital, Petersburgo, não quer destruir o Império, apenas deseja colocar de joelhos o czarismo ocupando Moscou; logo, com a invasão, a frágil paz se transforma em uma guerra desesperada.

Os russos são batidos em todos os cantos, até a monumental batalha de Borodino, que, embora também vencida pelo exército de Napoleão, terminará sendo a própria causa de sua derrota na guerra, enfraquecendo-o sem destruir o exército russo, que se retira negando combate e buscando se reorganizar.

O invasor imponente chega a Moscou, mas não tem nem a quem render ou de quem receber o poder. A cidade está abandonada, sem alimentos e, logo, em chamas. Os incêndios de uma Moscou abandonada pela aristocracia e por parte da população fora deixada totalmente desabastecida aos invasores.

As linhas de comunicação do exército francês inexistem. Estamos em outubro e o inverno  russo não tardará a chegar. Um mês após a entrada triunfal de Napoleão, começa o desmoronamento de um exército invasor de meio milhão de homens.

A fuga desordenada do Imperador Francês de Moscou e de toda Rússia, Tolstói a credita não somente ao exército, mas principalmente ao camponês e ao povo russo. Na narrativa, até os próprios principais personagens aristocratas criados pelo autor, como Andrei, Pierre e Natascha, ligam-se ao povo e à pátria nos momentos de maior dramaticidade. De tal forma que nenhum deles terá outro destino que não esteja ligado aos acontecimentos cujos desenlaces serão os campos de batalhas. A vida em família se ela é particular nos tempos de paz, torna-se inseparável da coletiva num tempo que é  guerra.

Dentre os personagens históricos somente um deles representará, para o autor, o verdadeiro e profundo povo russo. O general Kutuzov, comandante em chefe do exército czarista, nomeado por Alexandre I a contragosto e contra a opinião da maioria da alta aristocracia. “Kutuzov tinha o sentido do sentimento do povo”. Ele tinha a capacidade de lidar com o espírito das tropas, a arte de animá-las quando necessário, era o único que confiava no sentimento do povo e demonstrara ser digno dele!

 “Unicamente Kutozov poderia propor a batalha de Borodino, somente ele era capaz de entregar sem luta uma Moscou abandonada e desabastecida aos invasores; somente ele poderia permanecer no estado de passividade, de uma atividade sábia, embalando Napoleão com o incêndio de Moscou e aguardando o momento fatal”.

Com relação a Napoleão, Tolstói o descreve como um ator presunçoso e um maníaco de sua própria grandeza; em nenhum momento vê encarnar-se no Imperador da França quaisquer dos predicados e conquistas da Revolução Francesa, muito pelo contrário. Por outro lado, o Czar Alexandre I e sua corte são representações da frieza e falsidade da “alta sociedade”, uma vida sem finalidade que não seja a aparência e o poder, com o carreirismo desmedido dos homens de Estado, os interesses pessoais mesquinhos, que provocam o total descolamento da maioria dos chefes militares e da burocracia de Estado do povo russo.

Em Tolstói a vida sempre transborda e o faz sem pedir passagem, até mesmo num campo sangrento de batalha. Se a individualidade de cada batalha é sempre caótica, e se a violência cria e se alimenta do caos, Tolstói busca sempre trazer alguma luz trazida pelo acaso, por uma impossibilidade que se torne real, como um dos fatores maiores na vida dos homens.

Ao considerar Homero e Tolstói como símbolos da escrita épica, Steiner destaca que ambos possuem a suavidade de comunicar o máximo de terror e dor em perfeito equilíbrio de tom. Nos dois autores está a crença centralizada no homem e na permanente beleza do elemento natural. Guerra e mortalidade trazem devastação ao mundo de Homero e de Tolstói, mas o fulcro da vida é o mesmo: a afirmação de que a vida é, em si, algo belo, que os trabalhos e os dias dos homens valem à pena de serem registrados e que nenhuma catástrofe- nem mesmo o incêndio de Troia ou de Moscou é definitivo.

“Mantenha seus olhos firmes para a luz, são assim que as coisas são”.

“Olhe, as estrelas cintilam”, responde um personagem enquanto outro amaldiçoa a natureza. O Homem, integrado à Natureza, é o pivô e a medida de toda a existência. Importa o reino desse mundo, o aqui e agora! Deus, apesar de sempre ser citado nos diálogos, tal quais os deuses olímpicos na Ilíada, é um personagem ausente e perfeitamente dispensável.

Nos últimos capítulos, o Tolstói historicista esboça ainda uma tentativa de investigar as causas da Revolta Dezembrista, a primeira contra o Nicolau I, barbaramente sufocada. Agora ele trata de uma temática da geração à qual pertence e não mais da distante história. Logo aqui sua pegada ainda é leve em relação às barbáries dos czares. Ao escrever “Guerra e Paz” Tolstói é ainda jovem, homem aristocrático e mundano, o Conde pertencente a uma das mais ricas e antigas famílias eslavas. E somente a partir deste romance se tornará um símbolo!

Finalmente, se faz sempre presente uma temática à qual voltará em Anna Karenina, e que percorrerá toda a sua obra posterior. Trata-se da vida saudável e sadia do campo, em contraponto a das cidades prenhe de vícios, que contribuem na definição moral entre o bem e o mal. De um lado os códigos artificiais e desumanos da civilidade, de outro o bucolismo sincero da vida agropastoril, onde ressoam os “ritmos mais profundos da vida”.

Enquanto Lukacs foi feliz ao assinalar que “a natureza foi para Tolstói a garantia efetiva de que existe, além do mundo das convenções, uma vida real”, Lescow foi o primeiro a definir “Guerra e Paz” “como uma epopeia da grande guerra popular, que teve seu historiador, mas jamais um glorificador”.

 

2. “Anna Karenina”

  • Um dos maiores romances sociais do século XIX.

Serão duas as frases basilares com as quais o romance se anuncia. A primeira é: “Minha é a vingança, e a recompensa” (Deuteronômio, XXVII), que poderia ser complementada: “e eu a executarei!” Prenúncio que poderia ser o mesmo de uma tragédia clássica, “Medeia”, com toda a sua desmedida, e seu sentido ambíguo na traição. Tolstói, nesse livro monumental, exerceu a mesma ambiguidade de Eurípedes, condenando a sociedade hipócrita que persegue Anna até a morte, ao mesmo tempo em que invoca as punições inexoráveis da lei moral. Thomas Mann, ao citar a cena inicial da recepção dos Oblonski, diz que nenhum outro romance inicia com tanta bravura e firmeza, mirando na segunda frase basilar: “As famílias felizes todas se parecem; as infelizes o são cada uma a sua maneira”.

“Anna Karenina”, a primeira verdadeira novela de Tolstói, foi finalizada em 1877. Conta-nos algumas histórias, que, pese à sua importância, são paralelas àquela que é central: uma mulher adúltera presa pelas convenções e falsidades de uma sociedade hipócrita e decadente, que toma a decisão de abandonar o próprio lar e o filho para viver com um amante bem mais jovem, o mundano Conde Vronsky, um oficial da cavalaria.

Será justamente uma infidelidade trivial para Stiva Oblonski, irmão de Anna Karenina, o fio detonador da trama. Ele pede que a irmã Anna venha de onde reside com marido e filho, na ortodoxa Moscou, para Petersburgo, a cidade mais ocidentalizada e moderna da Rússia. Precisa de sua ajuda para reparar seu casamento que ameaça naufragar. A história que se desenvolverá será uma ironia que cheira os dramas de Shakespeare, o qual Tolstói dizia odiar, pois as discussões entre Stiva e Dolly, sua esposa, serão a faceta cômica das discussões duras e tristes que ocorrerão futuramente entre Anna e seu próprio marido, o traído e profundamente infeliz Conde Alexi Karenin, um burocrata moscovita de alto coturno.

Tal qual Dostoiévski, Tolstói possui enorme fixação pelas ferrovias, que em seu tempo abrira tantos caminhos ao homem, tornara as pessoas mais próximas e o próprio mundo se encurtara ao seu roncar. A mãe de Vronski  é companheira de viagem de Anna, que chega de trem naquela visita ao irmão e à cunhada. Ao descer à plataforma encontra-se com Vrosnki e Anna lhe diz: “Eu e a Condessa conversamos o tempo todo, eu do meu filho e ela do filho dela.” Aqui se traça uma divisória que fundamentará o desenrolar da trama: Anna e Vroski não pertencem à mesma geração e daí a catástrofe do relacionamento futuro.

Neste mesmo episódio, um vigia da estrada de ferro desatento, é esmagado por um trem, um prenúncio para o final do livro, que terá Anna a suicidar-se e Vronsk, partir para a guerra da Criméia. Mas não nos adiantemos tanto. Vronski, nesse momento, não tão modestamente que não pudesse ser visto por Anna, estende dinheiro para ajudar a viúva do vigia morto, deseja que seu gesto seja observado.

Anna é linda e possui o esplendor da mulher madura. Ela incentivará a jovem Kitty, irmã de sua cunhada, em relação ao jovem oficial Vronski, e, então, quando ocorre um grande baile elas irão juntas. Entretanto, quem brilhará no salão, tal qual Helena de Menelau na Ilíada, será Anna, pois a beleza madura costuma ser sempre mais astuta e cruel que a beleza ingênua: a formosura sensual de Anna farão Vronski ceder a seus encantos! Ele desconhecerá Kitty e esta reagirá com ódio à Anna, crendo-se, por seu turno, apaixonada por rapaz.

Tolstói, até para seu tempo, não desperdiçava palavras e, por isso, jamais em “Anna Karenina” o namoro ou mesmo a simples paquera, é apenas passatempo banal. Ou surge como uma espécie de prelúdio ao autoconhecimento, o que ocorrerá com Kitty após o impacto do baile, ou, em determinadas circunstâncias, é o preâmbulo de uma paixão avassaladora, tal qual se desenvolverá entre o Conde Vronki e Anna, paixão total e demoníaca que impele os homens à irreflexão e ao desastre.

Naquele mundo de seres superficiais e mundanos, tais quais Anna, Stiva, Kitty e Dolly, Tolstói planta um herói e este é Kosntantin Lievin, antigo amigo do irmão de Dolly. Lievin é um homem forte como a natureza dos campos onde vive, é contrário à reforma agronômica que o oficialismo inspirado no ocidente quer impor aos proprietários rurais e rejeita a convivência e a cultura urbana de Petersburgo.

Lievin também ama Kitty, a cunhada de Oblonski. Kitty e Lievin são ainda somente amigos, mas quando patinam juntos ocorre o envolvimento mútuo, de tão forte que até a luz incide de modo resplendente sobre o pátio de patinação no gelo. E quando Lievin a pede em casamento, Kitty sentirá o desabrochar da felicidade, mas, ao se recordar de Vronski, por quem se acreditava apaixonada, não lhe pode, nesse momento, dizer sim. Mas algum tempo após ela adquirirá o autoconhecimento suficiente para amá-lo.

Lievin, por seu turno, é profundamente monogâmico e “repugnam-lhe as mulheres decaídas”. Possui sentimentos profundos por saber perdoar e exercer a compaixão pelo próximo. No futuro, será nele que Anna encontrará um apoio seguro em seu desespero.

Pois muito de “Anna Karenina” está centrado no dilema do conflito entre monogamia e liberdade sexual, nas inconsistências entre os ideais pessoais e o comportamento interpessoal, a inserção das pessoas na vida preconceituosa e cínica da vida em sociedade.

Ao encerrar-se a primeira parte do livro, Anna consegue interferir e apaziguar o conflito conjugal entre o irmão e a cunhada. Como um presságio do que virá, diz a Dolly em confidência: “Todos temos os nossos segredos na alma, como dizem os ingleses...”

Quando retorna a Petersburgo, Anna é seguida por Vronski no mesmo trem; numa parada do comboio escuta o que seu coração desejava, mas que lhe repugnava à razão: a paixão urgente do Conde por ela.

Chegando a Petersburgo, o marido está à sua espera. Ela observa as orelhas feias que ornamentam a cabeça de um homem bem maduro. Jamais reparara nelas anteriormente. Ao chegar a sua casa, o filho já não lhe parece tão encantador. Mas Anna se contém e retorna à vida doméstica.

Uma cena marcante é a de Alexi Karenin indo até o quarto da mulher que chega de viagem; ele carrega um livro em baixo do braço; a hora de entrada e a da saída é precisa e o autor nos conduz à monotonia essencial da relação vivida pelo casal.

Por seu lado, Vronski retorna ao quartel e à frivolidade de um ambicioso oficial, que é o que ele realmente era. Buscará, entretanto, na sua paixão não saciada, todos os modos de reencontrar Anna, primeiro em sociedade, depois em particular. Como frequentam os mesmos círculos aristocráticos os dois se reencontram e terminam por se apaixonar mutuamente.

E a paixão que se desencadeia é poderosa. O marido a princípio tenta se ocultar na cegueira voluntária, mas chega a um ponto em que Anna torna tudo muito evidente socialmente.

Alexi é generoso e nada o horroriza mais que o escândalo. Ele estaria disposto a perdoá-la, mas a mulher não deseja perdão, quer amar e ser amada. Não mais lhe atrai a comodidade do lar. Alexi faz, então, com que ela renegue ao próprio filho e ela o faz.

Ele confessa a uma única e velha amiga que possuía: “Não posso nem sequer perdoar! Considero isso injusto. Fiz tudo por essa mulher e ela tudo jogou na lama, onde se sente feliz. Não sou um mau homem, nunca odiei ninguém. Mas a ela odeio-a com todas as forças e nem sequer posso perdoá-la, pois a odeio pelo mal que me causou.”

Anna passa a viver com o Conde, primeiramente no exterior. A sociedade hipócrita a evita por ter assumido um relacionamento perfeitamente aceitável e corriqueiro, caso se mantivesse encoberto.

O jovem Vronski, de certo modo, sente-se responsável e acorrentado pelo amor possessivo de Anna. Mas o casal, findo um tempo, retorna à Rússia, ele retoma suas amizades. Vronski se manterá fiel à amante, pois a ama e respeita. Mas em breve, o ciúme passa a corroer a relação, na medida em que Anna se sente mais velha.

Anna somente consegue se avistar com o filho mediante enganos, mas o próprio menino já se lhe distancia. Distante do filho, insegura, isolada socialmente, ela termina por adoecer e se vicia no uso do ópio.“Pode salvar-se uma pessoa que não quer perecer, mas quando a natureza está tão deformada e pervertida que só a própria perdição se lhe afigura a salvação, o que podemos fazer?”, pergunta-se o narrador.

Por outro lado, Ketty e Lievin se reencontram e descobrem o amor e o respeito mútuo, residindo no campo em contato íntimo e harmônico com a natureza e com os mujiques da propriedade do marido.

Anna se desespera, passa a seguir o amante e, no desvario, buscará a fuga à sua triste realidade no suicídio, atirando-se à frente de um comboio na linha férrea. Vronski, que lhe era sincero em seu amor, no ato final, parte como voluntário para a guerra no Cáucaso.

Torna-se meridianamente claro que, mesmo num romance de profundo cunho social da segunda metade do século XIX, a afinidade entre os pontos de vistas de Tolstói e de Homero é impressionante. Steiner traça as comparações entre o cenário arcaico e pastoril, a poesia de guerra e da agricultura, a primazia dos sentidos e do gesto físico, o pano de fundo luminoso que harmoniza tal quais os ciclos da natureza; o reconhecimento de que a energia e a vida são por si mesmas sagradas; a aceitação de uma corrente de existência que une as estrelas ao lugar que cada homem possui; a determinação de seguir a longa estrada da vida.

Tudo isto e muito mais está em num romance que despertou, desperta e despertará a comoção de milhões de seres humanos, em todos os continentes, e ao final, os leitores terão enorme compaixão por Anna e louvarão o amor de Lievin e Kitty, num processo de autoconhecimento e aceitação dos diferentes.

3. A Morte de Ivan Illich

  • A terrível busca por um significado na vida.

Por volta dos cinquenta e cinco anos de idade, Liev Tolstói interrompe toda a sua produção artística e chega mesmo a renegá-la. Atravessa uma crise existencial em que tudo perde valor e sentido, percebe o nada imenso de seu destino, assim como o de todo o ser humano.

“Por que viver? Qual a causa de minha existência e a dos outros? Que finalidade tem minha vida e a de todos os seres vivos? O que significa a dualidade entre o bem e o mal que sinto em mim? Como devo viver? O que é a morte? Como poderei salvar-me?” São as frases que anotou em uma folha de papel, e que se tornou sua companheira pelo resto da vida.

Livra-se de toda literatura e em seus estudos somente têm lugar os filosóficos. Como nos filósofos tão pouco encontra respostas, afasta-os e debruça-se sobre um único livro: a Bíblia. Mas como lograria tão complexo objetivo aquela mentalidade aberta e desafiadora em textos míticos e históricos? Afasta-se da Bíblia, mas modifica seu proceder. Participa com os camponeses das colheitas, começa por desfazer-se de bens materiais, acentua-se o clima de “guerra sem paz” com sua esposa Sônia, e com a maioria de seus filhos.

De seu leito de morte, em 1886, o grande Turguêniev lhe escreveu a lápis por não ter mais forças para empunhar uma pena: “Por favor, volte à literatura, você não tem o direito de privar a humanidade de seu talento imaginativo.”

Liev Tolstói talvez tenha ouvido o amigo; retoma a escrita, embora esta jamais voltará a ser a mesma arte “descompromissada e livre” de antes.

A morte torna-se elemento central, quase uma obsessão do autor. Não que isto refletisse um desejo de morrer, era mais uma vontade de entender a morte tanto movida por temores quanto pelo estranhamento, tal como relatou um de seus filhos: “Embora durante mais de trinta e cinco anos Liev não deixasse de falar um só dia na morte, meu pai não a desejava”.

Na verdade, a morte se torna um elemento catártico para o próprio autor. Rebela-se contra o paradoxo da mortalidade, sofre com o fato de que a vida dos homens é submetida por doenças e pelo furor do tempo.

Após a carta de Turgueniêv, surge “A morte de Ivan Ilitch”, uma pequena-grande novela, verdadeira epopeia sobre a vida e a morte, altamente concentrada, sem desvios nem distrações, a própria sobriedade no trato da finitude humana.

“A morte de Ivan Ilitch” principia nos introduzindo no mundo burocrático da Rússia czarista, em seus escritórios cheios de advogados e juristas, membros da melhor estirpe dentre as elites eslavas, aqueles cujo poder podem determinar o destino dos cidadãos comuns.

Ivan Ilitch é um desses importantes funcionários da máquina estatal. Com um casamento arranjado e um gordo salário, ele é o que comumente se considera um homem bem sucedido. No entanto, aos quarenta e cinco anos, uma misteriosa doença o pega de surpresa. Como a medicina não lhe dá respostas, só resta suportar a dor. E esta criatura medíocre, egoísta,  somente se enobrecerá na tenacidade de seu desespero perante a morte.

“O sofrimento maior de Ivan Ilitch provinha da mentira, aquela mentira por algum motivo aceita por todos, no sentido de que ele estava apenas doente e não moribundo, e que só devia ficar tranquilo e tratar-se, para que sucedesse algo muito bom. Mas ele sabia que, por mais coisas que fizesse nada resultaria disso, além de sofrimentos ainda mais penosos e morte… E esta mentira atormentava-o, […] via que ninguém haveria de compadecer-se dele, porque ninguém queria sequer compreender a sua situação”.

Dentre todos, somente Guerrássin, o camponês que dele cuidava e um filho o compreendiam, e se permitiam dele se compadecer.

“E se minha vida tivesse sido errada?”, perguntava-se em seu leito de morte. As dores morais, reproduzindo as mesmas incertezas da consciência do autor, “eram infinitamente maiores que as físicas”.

Na espera pelo último suspiro, ele se conscientiza de toda a miserável vida que construíra e nunca quisera enxergar: uma vida de engodos e aparências. “Não havia nada a defender, nem os deveres profissionais, nem a vida regrada, nem a ordem familiar, ou o consumismo e os interesses mundanos. Tudo eram grandes mentiras.”

Enquanto os amigos não se importam realmente com a eminente morte do colega e sim com o cargo que ficará vago em menos de três meses, sua presença agonizante é motivo de angústia e tristeza para a esposa e família, em espera ansiosa pelo desenlace que tarda.

A arte de Tolstói em “Ivan Ilitch” celebra a completa realidade do mundo, única vida real que nos está destinada. Conforme Steiner, ele, em contraponto ao “Homem do Subterrâneo” de Dostoiévski, desce ao fundo do corpo e não da mente, às entranhas, aos lugares mais sombrios do organismo.

Mas, se por um lado, “A morte de Ivan Ilicht” é um poema atormentado, ele é muito mais que uma lágrima de lamentação pelo destino inexorável: é um estrondoso grito para que a vida tenha significado e que o desperdício não seja a norma geral ou sinônimo de uma passageira felicidade!

Nos seus últimos três dias de enorme agonia, o moribundo sentiu, obnubilado pela morfina e pelo ópio, que alguém lhe beijava a mão. Viu o filho e a seu lado a mulher a chorar. Deixou, só então, de ter pena de si mesmo. Teve compaixão pelo sofrimento daqueles que até mesmo chegara a odiar, pois lhe sobreviveriam. “Estou a atormentá-los, estarão melhor quando eu tiver morrido. Nesse momento começou a sentir que todo o seu tormento se ia dissipando, escoando de seu corpo pelos poros, e já não teve medo da morte, em lugar dela via a luz.”

Ouviu que alguém a seu lado dizia: “Acabou a morte. Ele morreu”. E Ivan Ilich morreu!

4. Khadii Murat

  • Um brado contra o imperialismo e contra o terrorismo

Poderíamos imaginar que um escritor genial tal qual Tolstói necessitaria de ocupar os últimos vinte anos de vida para escrever um livro, seu “Khadii Murat”?

Quando ele, aos 82 anos, abandonou a casa familiar em Yasnaia Polyana, carregava consigo mais de duas mil páginas, e dentre elas o original desta colossal novela, ainda inconclusa. Seria o trabalho final: enquanto a inspiração ao escrevê-la advinha de memórias da juventude, os propósitos do livro eram descortinar na alma humana tudo o que ela tem de digno e de covarde, de honrado e de abjeto.

Em meados do século XIX a Rússia czarista, procurando a expansão de seu império, guerreou contra as tribos muçulmanas da Tchetchênia. A memória de Tolstói trazia reminiscências do serviço militar prestado por ele próprio na juventude. E “Khadii Murat” talvez seja ao alvorecer do século XX o mais claro berro de horror contra o despotismo, contra o terrorismo e à guerra na literatura, num século que tornaria menores todas as guerras já desenvolvidas na história da humanidade.

A personagem Maria Dmitrievna, esposa de um major russo, assim se expressa a respeito dos bravos oficiais czaristas: “Vocês são assassinos, não os suporto, são uns verdadeiros assassinos. Não me venham dizer que os massacres sejam coisas da guerra, vocês são assassinos e é tudo.”

Uma das questões centrais é se existem diferenças significativas entre o fanatismo religioso, sectário e tribal, que propaga a violência, vinganças e a intolerância por um lado e o ateísmo real, travestido de uma religiosidade oficial que incendeia aldeias, mata população civil, com os soldados regurgitando o bafo de vodka, de outro. A resposta para Tolstói é sim e não, ou seja, a responsabilidade maior pelas desumanidades da guerra é do invasor, daquele que quer impor o poder despótico do Czar. Os tribais reagem e aglutinam a violência sectária, inclusive contra seu próprio povo. Agressores e agredidos se desumanizam na guerra!

Khadii Murat foi, na vida real, um guerrilheiro separatista bem sucedido e famoso, que abandonou a luta e mudou-se para o lado dos invasores russos na esperança de salvar sua família. Esta fora sequestrada pelo líder tchetcheno rival. Khadii Murat, além de salvar a família, quer também vingar as mortes dos membros de sua tribo leais a ele, assassinatos perpetrados por Shamil, o comandante dos guerrilheiros muçulmanos do Cáucaso. Ao juntar-se aos russos no desespero pessoal ele trai seu povo, que, por sua vez, antes já o traíra. Mas, ao final, ele buscará a libertação e será assassinado pelo exército russo.

Sobre o herói de seu livro escreve Tolstói: “Khaddji-Murat  defende a vida até o fim; sozinho no meio de um vasto campo, mas mesmo assim ele a defende!”

Surpreendemo-nos durante toda a leitura com o um preciosismo narrativo extremado. Comentando a última obra de Tolstói, comentou Máximo Górki: “Como o velho escreveu bem!”

A narrativa nos conduz ao respeito pelos regionalismos, assim como pelas idiossincrasias de cada povo. Como Tolstói dizia “para cantar num tom que seja internacional, cante primeiro naquele de sua aldeia” e que “para cada povo são bons os seus próprios costumes”. A Tchetchênia, uma cultura totalmente diferente da Rússia eslavófila, é quase paradigmática em relação a esta em seus valores, exceto na própria violência que ambas engendram.

De certa forma, o personagem Khaddji-Murat  se associa aos dons proféticos do Profeta Jeremias, de Michelangelo, que baixa a cabeça e se remói em tormentos ao prever o que o destino reserva à humanidade, à sua humanidade, à sua gente dominada por um lado pelos russos, por outro, pelo tribalismo radical e impiedoso.

E o asceticismo quase monástico de Khadii- Murat contrasta com a devassidão da vida dos soldados russos, sua banalidade e falta de sentido de suas ações. Na realidade, ele tenta se separar de todos os lados em luta, das torpezas e tibiezas, símbolos do desprezo do homem pelo seu semelhante. Pois a coragem somente é verdadeira quando não é fruto do álcool e da soberba, quando exercida por alguém que, de certa forma, situa-se acima do bem e do mal, por um Khadii- Murat.

Com relação ao invasor russo, Tolstói centra-se não somente na brutalidade dos soldados e seus oficiais, mas trata de decompor o papel de quem comanda uma sociedade perversa, o próprio Czar: “Por mais habituado que estivesse Nicolau I com o terror que despertava nas pessoas, este lhe era sempre agradável e ele gostava, às vezes, de deixar espantado o súdito a quem infundira tal sentimento, dirigindo-lhe, por contraste, palavras afáveis”.

O Czar, na verdade, acreditava que roubar era inerente ao funcionário público e a obrigação dele era castigá-los. A lisonja permanente, asquerosa e sem rebuços dos que o cercavam, reduzira-o a tal estado que não via as próprias contradições. “Mesmo quando condenava alguém a mil bastonadas, sendo que com menos de quinhentas qualquer homem morreria, agradava-lhe ser inexoravelmente cruel e, ao mesmo tempo, saber que, entre nós, não existia a pena de morte (formal)”.

No outro lado, o dos tchetchenos , quando após num avanço de tropas russas uma vila inteira era destruída, os velhos se reuniram. Ninguém falava sequer em ódio ao invasor. O sentimento que experimentavam todos os tchetchenos era mais forte que o ódio. “Não odiavam, mas não reconheciam como gente aqueles cães russos”. “Era uma sensação de asco e estupefação ante a crueldade absurda daquelas criaturas, e o desejo de destruí-las, a exemplo do desejo de destruir os ratos, as aranhas venenosas e os lobos, era um sentimento natural, como um instinto de conservação”.

Os habitantes das aldeias não tinham mais que duas alternativas: permanecer  nos próprios lugares e reconstruir, com um esforço tremendo, tudo o que fora destruído tão fácil e inutilmente, esperando a qualquer momento uma nova  destruição, ou contrariando a lei religiosa e o sentimento de repulsa e desprezo pelos russos, submeterem-se a eles.

“Secar-se-á a terra de minha sepultura e hás de esquecer-me, minha mãe! A erva dos túmulos há de crescer no cemitério, abafará o teu desgosto, meu velho pai. As lágrimas secarão nos olhos de minha irmã, e o sofrimento fugirá de seu coração... Mas  não me esquecerás, meu irmão mais velho, enquanto não vingares minha morte. E não me esquecerás também, meu segundo irmão, enquanto não te deitares a meu lado... És fria, ó morte, mas eu fui teu senhor. A terra tomará meu corpo, o céu receberá minha alma.”

Naquelas duas mil páginas manuscritas que Tolstói carregou consigo e, nas quais trabalhara e retrabalhara tantas vezes “Khaddji-Murat”, muitos textos foram suprimidos do livro, e só posteriormente seriam publicados.

De tal maneira que, ao morrer, o fabuloso escritor também nos tornou herdeiros de uma galeria da família Romanov, donas por três séculos do trono russo e descrita com esmero em sua sexualidade travestida de ortodoxia religiosa e de suas perversidades. Pedro, o Grande, fora “o bêbado contumaz, devasso, sifilítico e ateu, que decepava pessoalmente cabeças de opositores somente para entreter-se”; Catarina, a Grande, sua avó, “assassina do próprio marido, pecadora movida pela vaidade e por uma repugnante sexualidade senil; Pedro III, o avô de Nicolau, “o alemão estúpido, que enlouquecera à força de sua autoridade e que fora assassinado pelos amantes de sua depravada mulher”.

“Para que, naquele tempo, um homem estivesse à altura do comando do povo russo, precisava ter perdido todos os atributos humanos: tinha de ser uma criatura mentirosa, ateia, cruel, ignorante e estúpida, e precisava não apenas sabê-lo, mas estar convencido de ser o paladino da verdade e da honra e um sábio governante, benfeitor de seu povo. Assim era Nicolau I. E nem podia ser diferente. Toda a sua vida for a uma preparação para isto.”

E por fim, Tolstói conclui: “Não é por acaso que os grandes perante os homens, aqueles que estão nas alturas da grandeza, possam ser os piores homens do mundo; constitui uma lei eterna e indubitável: aquele que está nas alturas deve ser um homem profundamente pervertido e não pode ser de outro modo. O destino de cada Czar, antes mesmo dele nascer, já estava traçado.”

C. Ivan Turguêniev.

A literatura do inconformismo e da desesperança. 

                                              

Nascido em 1818, Turguêniev foi um dos símbolos da intelectualidade russa a expressar, por meios literários, tanto o inconformismo quanto a desesperança. Contemporâneo de Dostoiévski e de Tolstói, foi um crítico tanto do otimismo anarco-cristianismo deste último, quanto da crença da liberdade metafísica redentora do primeiro. Pessoalmente, Turguênief realizou uma ponte inter-pessoal entre Dostoiévski e Tolstói, que aliás sempre evitaram se conhecer e mesmo comentar os trabalhos um do outro.

De toda forma, talvez o único ponto em comum entre os dois gigantes era a crítica acerba que faziam ao agnóstico Turguêniev: seu excesso de “ocidentalismo”! E isto porque este jamais deixou de comparar a Rússia com a Europa, de vê-la dentro de uma perspectiva histórica de enorme atraso e autoritarismo, não sendo nem um pouco sensível aos entusiasmos visionários eslavófilos de um, ou de exaltação do mujique russo, de outro. Para Turguêniev havia um único caminho, inevitável e universal, o da civilização. Qualquer tentativa de um “russianismo” e de independência não passava de estupidez e loucura.

Embora não tendo sua obra o alcance dos dois contemporâneos, seu conjunto impressionante de produção representa um dos maiores feitos literários de todo o século XIX. Sabemos que quase todo escritor possui seus pontos altos e baixos; este, entretanto, não é o caso de Turguêniev, cuja leitura jamais se mostra medíocre e que pode ser lido de ponta a ponta com uma admiração constante. E algo que se destaca é o fato de ele ser um verdadeiro mestre na sua língua pátria! Interessa-se pelas palavras, pela correta construção de frases. Nessa perspectiva, a arte de Turguêniev possuiu como único continuador Anton Thekhov, uma geração posterior a sua. Aliás, ambos esmeram-se em seus textos e observam a vida a sua volta sem nenhuma ilusão ou esperanças num futuro imediato.

Um ponto de destaque é o modo como Turguêniev foi respeitado pela intelectualidade ocidental, tornando-se o primeiro escritor russo a ser reconhecido como um abridor de sendas literárias. Flaubert, Zola, Mérimée, Maupassant, os Goncours, Taine, Renan e George Sand tratavam-no por “mestre”. E quase todos buscavam suas opiniões e amizade. E ele jamais se furtava a colaborar, desde que os amigos se posicionassem à distância. Buscava sempre o seu canto e evitava a sociedade. Disse sua companheira de quase toda a vida, Pauline Viardot: “Ivan é o mais tristes dos homens”.

Tristeza de espírito que, entretanto, sempre primou pela compaixão por seus semelhantes. Não havia intelectual russo no exterior, quer exilado político ou não, que não recorresse a seu auxílio financeiro quando necessário. E ele jamais se negava.

A origem de seu estado de espírito, vamos encontra-la em sua infância, numa mãe que conseguia odiar-se a si própria e aos filhos. A família Turguêniev espelha de forma exemplar a bestialidade dos grandes aristocratas russos, riquíssimos por pilhagem e possuidores de uma história repleta de escândalos.

A mãe, Varvara, fora abusada quando jovem pelo padrasto, surrada pela própria mãe e tivera que exilar-se com um tio que também a espancava. A avó de Ivã, mãe de Varvara, que velha vivia sobre uma cadeira de rodas, chegara a agredir a pauladas um servo que a desagradara e o menino desmaiou. Ela o faz arrancar do chão e o sufocou até a morte sentando-se sobre o mesmo.

Varvara, quando adulta, torna-se dona de mais de dez mil almas, as quais dirigia com uma brutalidade digna apenas do Czar Nicolau I. Fazia-se chamar por czarina e comandava pessoalmente espancamentos e ordenava o exílio siberiano. Ainda não consentia que suas servas tivessem filhos, pois isto reduziria a produtividade. As mães de todas as crianças, uma vez nascidas, eram obrigadas a atirarem-nas no lago da propriedade.

Não somente aos servos Varvara tiranizava. Também aos filhos, particularmente a Ivã a quem desprezava por seu empenho em intelectualizar-se. “Ninguém a igualava na arte de insultar uma pessoa, de torna-la desditosa”, escreveu Ivan ao amigo Pavel Anekov. Pois foi nesse meio e com essas influências familiares que nasceu e cresceu o espírito sensível de Turguêniev.

Quando muito jovem Turguêniev teve uma filha com uma cozinheira que servia na mansão da mãe Varvara em Spasskoie. A menina foi tiranizada até a idade de sete anos pela avó e somente isto se interrompeu quando Ivan conseguiu resgatá-la, assumindo-a formalmente como filha, leva-la a Paris e coloca-la aos cuidados de Pauline Viardot.

Até a morte da mãe, Ivan e seu irmão mais novo tiveram de viver de seus próprios ganhos, apesar da fortuna familiar. Varvara falece quando Ivan tinha trinta e quatro anos. Ele escreve a Pauline: “Nos seus últimos tempos de vida minha mãe não pensou em outra coisa que não fosse arruinar a mim e a meu irmão. Em sua última carta ao administrador das herdades deu-lhe ordens claras de vender tudo a que preço fosse, mesmo que tivesse de a tudo queimar”.

Estudante de filosofia precoce, Turguêniev foi bacharel na Universidade de Moscou aos 19 anos. Prosseguiu os estudos em Berlin, onde se tornou discípulo de Hegel. Lá, conheceu e muito estimou outro russo, Mikhail Bakunin, um de seus modelos básicos para o primeiro romance, “Rudin”, em 1856.

Em “Rudin” este autor com sua delicadeza delineou o “homem supérfluo”, ou seja, o intelectual, filho da baixa nobreza, culto, com tendência a um liberalismo idealista, que não consegue inserir-se no sistema e, nem tão pouco produzir ou, mesmo, revoltar-se efetivamente. O “homem supérfluo” é o jovem da década de 1840, imerso numa profunda nuvem de depressão, sucedânea do ambiente criado por Nicolau I em seu império. Anos após, no entanto, “Rudin” precisou ser modificado pelo autor. Bakunin, seu principal modelo, deixara de ser um “homem supérfluo” e tornara-se um revolucionário. Na literatura, morreria junto a uma barricada francesa.

Foi em Paris que Turguêniev encontrou o amor de toda a vida na espanhola Pauline Viardot, o maior soprano da ópera francesa em seu momento. Não era bela, mas sensual, autoritária e centralizadora, de certa forma reproduzia sua própria mãe. Ela era casada com um aristocrata e mãe de quatro filhos. Turguêniev tornou-se o preceptor de todos eles, sempre com a cumplicidade do sr. Viardot, o esposo, vinte e cinco anos mais velho que Pauline. Viveriam em casas vizinhas pelo resto da vida.

Em contraste com Tolstói e Dostoiévski, cujas obras são cheias de alto tom, rancores e arrebatamentos, Turguêniev, o escritor desesperançado com a sociedade de seu tempo, era por demais amável; seu trabalho revela um profundo conhecimento da natureza humana, deslizando pelos olhos do leitor em um estilo elegante. A narrativa se desdobra em sucessivos diálogos, por meio dos quais os personagens ganham voz e também, aos poucos, existência concreta. Personagens da modernidade que se erguem diante do leitor e suscitam, de forma vívida, questões que em grande parte continuam atuais.

Ainda sob o império de Nicolau I, Turguêniev escrevera uma obra que o tornaria uma pessoa mal vista e o condenaria a passar quinze meses de reclusão forçada em Spasskoie. “Memórias de um caçador” é um livro de contos, um grito de revolta sobre as condições desumanas da servidão, que espelhava literariamente o tratamento dado pela mãe Varvara aos seus servos; alguns anos após, o livro o encheria de orgulho ao saber que Alexandre II o havia lido e que se emocionara a ponto de antecipar o decreto de abolição formal da servidão.

Um de seus principais trabalhos foi o romance “Pais e Filhos”. Nele o autor se firma como um clássico, divisor de água, abridor de sendas, dos mais belos romances de cunho social já escrito, trazendo a marca permanente de uma experiência angustiante e permanentemente desesperançada.

Tempo histórico de “Pais e Filhos”: a década de 1860. A Rússia agora sob Alexandre II gerava nas camadas mais esclarecidas um grande clamor por reformas. Turguêniev analisa um quadro político e social de mudanças no momento mesmo em que estas começavam a tomar forma, inclusive o sempre renovado conflito de gerações entre pais e filhos.

Turguêniev deu nesta obra ampla circulação ao termo niilismo (embora não o tenha inventado). O niilista, explica Turguêniev pelas palavras de Bazárov, seu personagem revoltado, “é uma pessoa que não se curva diante de nenhuma autoridade, que não admite nenhum princípio sem provas”.

Vamos a uma rápida resenha sobre a narração. Arkádi, um estudante, retorna à casa do pai, Nikolai, em companhia de seu amigo Bazárov, estudante de medicina de origem plebeia, que associa a crença no progresso científico a um profundo pessimismo em relação à cultura e à sociedade. Turguêniev falava de uma situação concreta: eram comuns à época, sobretudo na universidade, jovens para os quais um bom sapateiro seria mais útil que um Goethe – “pois a humanidade precisa mais de sapatos do que de poesia”.

“Quem é Bazárov? Quer que lhe diga quem é de fato? Ele é um niilista”, diz Arkádi ao tio Pável. Niilista vem do latim, retruca-lhe o pai, “nihil significa ‘nada’… quer dizer que esta palavra refere-se ao homem que em nada crê ou nada reconhece?” “Pode dizer o homem que nada respeita”, atalha o tio. “Aquele que tudo examina do ponto de vista crítico”, sugeriu Arkádi, “niilista é o homem que não se curva perante nenhuma autoridade e que não admite como artigo de fé nenhum princípio, por maior respeito que mereça”.

Na história, o niilismo à moda russa acabaria evoluindo para um movimento revolucionário de cunho anarquista, resultando num dos fundamentos do terrorismo; no romance, entretanto, Bazárov não chega a tais extremos. Seus conflitos são, sobretudo, de natureza emocional.

Alguns diálogos entre o pai de Arkádi e seu irmão, Pavel, são emblemáticos do conflito entre gerações, tão fortes desde o alvorecer do homem moderno. Pável: “ A gente se esforça para não esquecer o que aprendeu e eis que se verifica que tudo nada vale, porque lhe dizem que os homens de responsabilidade não tratam de ninharias. Só falta acusarem-nos de sermos homens acabados. O que se pode fazer? Parece que a juventude é mais inteligente que nós”.

Seu irmão: “Herdeiros, repetiu tristemente, com um suspiro. Sabe do que me lembrei, mano? Uma vez discuti com minha mãe. Ela, zangada, não me queria ouvir… finalmente eu lhe disse que não podia compreender-me porque pertencíamos a gerações diversas… chegou agora a nossa vez. Os nossos herdeiros ou descendentes poderão dizer: vocês não são de nossa geração”.

Bazárov afinal retorna à casa dos pais, fere-se em uma necropsia da qual não precisaria ter participado e contrai uma infecção mortal: ironicamente, a paixão pela ciência iria custar-lhe a vida. Em seu delírio, na escuridão, ele não tinha muito sono; de olhos arregalados fitava com ódio o escuro. As reminiscências da infância não tinham poder sobre sua pessoa, numa tentativa do autor de desvencilhar-se de seu próprio passado de dor, sem recordá-lo.

“Eu só sinto aborrecimento e ódio… a formiga na qualidade de irracional  tem o direito de desprezar quaisquer sentimentos de compaixão e amor ao próximo… nós homens somos tão diferentes… Quando encontrar um homem que seja igual ou superior a mim, mudarei de opinião a meu respeito. Odiar! … Princípios não existem, apenas sensações. Sou negativista por força da sensação. É-me agradável negar. Todo o meu eu sente o prazer de negar e basta… A honra também é uma simples sensação.”

Mas “Pais e Filhos” tem um final conciliador: “Seja qual for o coração apaixonado, pecador e revoltado que se esconda em um túmulo, as flores  que crescem sobre ele nos fitam tranquilas, com seus olhos inocentes. Elas não falam apenas da calma eterna, da grande, da infinita calma da natureza “indiferente”. Falam também da paz e da reconciliação eterna…”

Ivan Turguêniev foi literariamente mais fundo que Tolstói e Dostoiévski no trato dos desafiadores problemas sociais da Rússia. No romance “Fumaça” um dos seus personagens comenta: “O governo nos libertou de nossa dependência do sistema servil. Devemos ser gratos por isso. Mas os hábitos da escravidão estão fundamente cravados em nós, não nos livraremos deles tão facilmente assim. Em tudo em toda parte precisamos ter um amo.” E numa crítica direta aos eslavófilos, que se entorpeciam com a crença nas massas camponesas, ele diz: “De conformidade com eles, tudo ainda vai acontecer. Nada jamais acontece no presente e ao longo de dez séculos a Rússia não conseguiu produzir nada de seu- no governo, na jurisprudência, nas artes, na ciência, nem sequer nos ofícios... Mas esperem um pouquinho, já vai acontecer e sabem por quê? Ora, respondem eles, porque as pessoas cultas entre nós são uma ralé, mas o povo, ah! Que grande povo! Está vendo o capote daquele mujique? De lá sairá tudo!”

O último romance de Turguêniev, escrito em 1876 ( ele viria a falecer dois anos após de Dostoiévski, em 1883), foi “Solo Virgem” e seu substrato são os social- revolucionários russos. Ele acredita que naquela altura, as ações eram prematuras e fez com que um de seus personagens antevisse uma revolução para trinta anos após. Profecia que se realizaria na Revolução de 1905. Uma das heroínas do livro é Mariana, uma mulher. Ora, nada mais que um ano após a publicação do livro, foram presas as primeiras mulheres revolucionárias na Rússia.

A polícia tentou acusa-lo de possuir contato com os grupos terroristas. Afinal, como ele poderia adivinhar, desde Paris, que existiriam mulheres na insurreição, coisa que nem a polícia sabia? Perguntava um juiz de instrução: seria Ivan Turguêniev um profeta?

D. Nicolai Lescov

 

Por muitos anos Nikolai Leskov foi ignorado tanto pela literatura ocidental quanto pela russa. De pouca serventia teve o espanto de Liev Tolstói: “É estranho que Dostoiévski seja tão lido…, não compreendo porque não se fale e não se leia Leskov. Ele é simplesmente um escritor fiel à verdade!”

Somente após trinta anos de sua morte e a partir de Máximo Górki, já na Rússia socialista, o grande contador de histórias Lescov foi reconhecido em sua própria terra: “Leskov é o escritor mais profundamente enraizado no povo russo e o mais inteiramente livre de influências e modismos ocidentais.”

Trabalhando como representante de uma empresa inglesa, ele conheceu a gigantesca Rússia até seus confins, analisou crenças, compreendeu as seitas populares e ao residir em Kiev, aprofundou-se em toda a vastidão da mística ucraniana. Nada caracteriza melhor Leskov que o dito por ele mesmo. “Precisamos simplesmente conhecer o povo como a própria vida; não temos que estudá-lo, mas vivenciá-lo, amá-lo.”

No ocidente, foi Walter Benjamin, no final dos anos 30, um dos primeiros pensadores a reconhecer a enorme contribuição narrativa de um dos verdadeiros precursores do naturalismo, e em sua homenagem escreveu o ensaio “O Narrador”. “Todo narrador é um homem que sabe dar conselhos e se nos dias de hoje os conselhos estão saindo de moda é porque as experiências pessoais ou de terceiros estão deixando de serem comunicáveis”.

Se a arte de narrar estava em franco declínio, hoje podemos considera-la praticamente extinta. Dizia Benjamin que isto ocorria porque “a sabedoria- o lado épico da verdade- está em extinção”. Para ele Leskov é um contraponto a essa tendência, o que reveste o autor de “Lady Macbeth” de enorme importância nos tempos do pós-modernos de hoje em dia.

Nikolai Leskov (1831/1895) foi contemporâneo de Dostoiévski e Tolstói; se de Dostoiévski ele nos aportou a religiosidade, já a identificação com a natureza e a simpatia para com o camponês nos conduzem  até o gênio de Yasnaia Polyana. Da mesma forma, o genuíno interesse religioso deste  “narrador” tinha, como um contraponto, a hostilidade recíproca para com a ortodoxia eclesiástica.

Leskov, assim como Dostoiévski e Tolstói, não tinha em grande conta os funcionários públicos. Seus personagens centrais fogem destas pretensões, são homens ativos, justos, que têm a capacidade de aceitarem o mundo sem se prenderem demasiadamente nele. E quando suas narrativas envolvem funcionários, estes primam pela prepotência, quando não pela imbecilidade e corrupção.

Se ao narrar, esse religioso é sempre fiel à vida, ele também jamais esquece o lugar da morte, pois esta para Lescov é simplesmente o desaparecimento das coisas, quer caminhe à frente do cortejo narrativo, “quer como retardatária miserável”, mas jamais a morte representa um escândalo ou um impedimento para narrar. Morrer tanto no século XVIII quanto no XIX, era um episódio público na vida do indivíduo, e, é ainda Benjamin que afirma que “era seu caráter ser sempre exemplar”. Hoje a morte foi expulsa do universo dos vivos. Morre-se na rua, em casa ou em hospitais e abrigos. Mas sempre que possível, higieniza-se a morte. Os últimos momentos ocorrerão sempre que possível fora do lar. O corpo será velado em locais públicos, jamais na intimidade com a qual conviveu o morto.

Mas Lescov, o contrapontista, busca unir a vida e a morte e ao narrar é no momento de morrer que o saber e a experiência vivida são transmitidos e a morte foge de sua “higienização”. Pergunta-se Benjamin: “Seria este o motivo de sua proximidade aos contos de fada?”

Nessa medida, Leskov tem a habilidade de narrar o extraordinário e o miraculoso com a maior exatidão, sem impor, ao contrário de escritores dramáticos como Dostoiévski e épicos como Tolstói, o contexto da ação psicológica. E nós, como leitores, somos livres para interpretar a ação narrada, da maneira como quisermos. Enfatiza Benjamin: “Nada facilita mais a memorização de narrativas que aquela sóbria concisão que as salva da análise psicológica.”

Quem tiver o prazer de ler ‘Lady Macbeth do distrito de Mtzensk’, jamais esquecerá seu enredo, mesmo que, nas palavras de Leskov, “já se foi a época em que o homem poderia sentir-se em harmonia com a natureza.” Na realidade, ainda sem ser moderno, Lescov já preanuncia determinadas perdas da modernidade que virá.

A obra de Leskov é vasta, são contos e novelas da mais alta qualidade artística.

Em “Kotin, o Provedor” e em “Platônica” temos o conto inspirando a compaixão pelos rejeitados e excluídos, pela mulher que sofre constantes abusos e que nunca pode se libertar, e pelo garoto que não conhece sua identidade sexual e é privado da educação pelo escárnio social.

Como Benjamin afirmou, as narrativas de Leskov podem ser tão demolidoras quanto a ira de um Aquiles! De todos os modos, retratam a amplidão do mundo e de suas criaturas. “Lady Macbeth do distrito de Mtzensk” foi escrito em 1864 e publicado em primeira mão pela revista Epoka, de propriedade dos irmãos Dostoiévski. A luxúria desenfreada de uma mulher é uma contrapartida aos dois contos anteriores.

A inspiração de Leskov ao escrever “Lady Macbeth” não veio apenas de Skakespeare (“Macbeth”). Sua releitura teve por pano de fundo um fato da vida real: “Certa vez um velhote vizinho de minha casa que ‘já vivera demais’, foi descansar embaixo de uma groselheira… sua nora, impaciente por tardar tanto a apossar-se da herança, despejou lacre quente em seu ouvido… no enterro, a orelha se desprendeu. Depois, um carrasco torturou a moça na praça e todos admiraram sua brancura.”

Em Shakespeare, a mulher de Lord Macbeth instiga o marido a assassinar o Rei Duncan, seu parente e colocar na própria cabeça a coroa de rei. Mas sangue sempre atrai mais sangue. Em Shakespeare o líquido das artérias é abundante e corre ao lado da ira, da inveja e do medo. Após o assassinato do primo e de posse da coroa real, Macbeth vê inimigos em todos os lados e a sangria alcança outros e outros. O desejo pelo poder instilado pela Lady é paranoico. Quando uma oposição vinda do exterior consegue se articular para enfrentá-lo, a esposa tem a coragem de se suicidar. Lord Macbeth morrerá pelas mãos de Macduff, “aquele que não nascera do ventre de uma mulher”, graças à técnica de partos por incisão cesariana.

No conto de Lescov temos um triângulo amoroso que poderia ser banal. Um rico comerciante, velho, mais voltado para os negócios que para a vida a dois, infértil (embora o povo acreditasse que a mulher seria a responsável pela falta de um herdeiro), unido a uma mulher muito mais jovem, Katarina Lvovna, uma mulher entediada com a vida, aspirando aventuras. Completando o triângulo um jovem empregado, bom de cama e por demais ambicioso. Uma temática que tudo teria para ser banal, mas Leskov tem a habilidade de retrabalhá-la ao sabor de Shakespeare e fornecer o agre tempero russo.

O reino não é a Escócia e seu reinado, mas o uma classe abastada na Rússia da época, os comerciantes! Os grandes comerciantes russos, pequenos reis que o são na mediocridade dos negócios.

Lady Macbeth ou melhor, Katarina Lvovna ( Katia “Leoa”), escolhe por seu amante Seguiei, o belo e sedutor empregado e fará tudo para segurá-lo, garantindo-lhe até mesmo o status de comerciante, verdadeira ambição do mesmo. Para tal, ela assassinará por envenenamento uma testemunha de seus arroubos extraconjugais, o sogro de seu marido, Boris, que a ameaçara de castigos públicos, após descobri-la nos arroubos com o empregado.

O corpo escondido, Katarina estimulará no marido Zinovi o ciúme e ao fazê-lo, “não se sente tomada de pena, mas de um riso perverso.” Quando este é forçado a ver a realidade da traição, a qual não desejava conhecer, os amantes o assassinarão e esconderão também o seu cadáver.

Mas as mortes, como em “Macbeth” de Shakespeare nunca bastarão. Ao surgir uma criança, parente de Zinovi, que herdaria, dado o desaparecimento do tio, parte do que este deixara, esta será sufocada até a morte pelos dois amantes.

Nela não há nunca hesitação, incerteza, reflexão, nenhum retroceder. Nenhum arrependimento, mas pura abstração e dureza de caráter, até quebrar-se. “Vive Katarina Lvovna, reina, e sob seu reinado Serioja será chamado Serguei Filipivich.”

Mas uma turba de fiéis, que retornam da Igreja, tal qual a floresta de Shakespeare que se move  e “caminha até o castelo do rei”, descobre o cadáver da criança, e os assassinos são finalmente presos.

Katarina não se dobra. Quem tudo confessa é o amante, que quer a graça divina pelo arrependimento: “Os lábios de Serguei tremiam, só os de Katarina estavam frios.” E ela não se dobrará nem ao látego do carrasco ou à condenação a trabalhos forçados. “O homem, na medida do possível, se habitua a qualquer situação abominável, e na medida do possível, mantém, em cada situação a capacidade de perseguir suas parcas alegrias.”

Somente quando é repetidamente repudiada pelo amante no barco que os conduzem à prisão, sua personalidade desaba. Reage, entretanto, e ao tornar a matar morrerá afogada, arrastando consigo a nova amante de Serguei.

Este conto é exemplar no conjunto da obra de Lescov. “O narrador figura entre os mestres e os sábios. Ele sabe dar conselhos: não para alguns casos, mas para muitos casos, como o sábio”, no dizer de Benjamin. O narrador assimila à sua substância mais íntima aquilo que sabe por ouvir dizer. Seu dom é poder contar a sua vida, a vida que ouviu contar e sua dignidade é conta-la por inteiro.

Assim, Lescov, no seu contar histórias honestamente, tal quais os contos de fadas feitos para crianças aos afugentar os mitos, abre alas para que o naturalismo floresça.

E. Anton Tchekhov, o contista filantropo.

 

Tchekhov jamais escreveu um romance. Sempre foram contos, no máximo novelas que se fixam em aspectos do cotidiano, uma escrita absolutamente sem floreios desnecessários, onde os textos são modestamente concisos. Assim fazendo, soube como ninguém extrair dos mais distintos aspectos da natureza humana uma diversidade assombrosa de efeitos. E em suas centenas de contos ele logrou elaborar o panorama completo da Rússia da virada do século.

“Todos os grandes sábios são despóticos e mal educados como os generais, pois estão convictos de sua impunidade”. Esta foi a resposta de Tchekhov a seu inspirador e amigo mais velho, Liev Tolstói quando este, em um de seus estados de ira, chamou os médicos de inúteis.

Isto porque Tchekhov era médico por paixão, acreditava na ciência como geradora do progresso, inimiga, pois, das condições miseráveis do camponês russo. Via na “resistência ao mal e na resistência passiva”, assim como no desprezo à cultura propostas pelo gigante criador de “Guerra e Paz”, apenas lorotas reacionárias! “Há mais amor ao homem na eletricidade e no vapor do que na castidade e no jejum”, escreveu numa outra carta a Tolstói.

Agnóstico convicto, não poderia concordar com o cristianismo heterodoxo do mestre. “Proibir ao homem a direção materialista significa lhe vetar a busca da verdade, pois fora da matéria não existe experimento, não existe ciência, e, tão pouco, verdade.”

Mas o progressismo de Tchekhov não é glorificador da exploração. “A servidão foi abolida, mas em compensação prospera o capitalismo, e, mesmo agora, quando as ideias libertárias estão florescendo, a maioria como sempre precisa se alimentar, vestir e se defender de uma minoria, pois a maioria continua nua, faminta e indefesa.”

Tchekhov costumava dizer que se desposara a medicina, a literatura era sua amante. Tanto em uma como em outra atividade, porém, era extremamente dedicado e modesto, sabia que por mais que se esforçasse sempre restaria, perante suas limitações, uma pergunta na mente do médico e do literato: “Mas o que fazer?”

Anton Tchekhov nasceu em 1860, filho de um servo liberto. Enquanto quase todos os grandes escritores russos anteriores à Revolução de 1917 originaram-se da aristocracia, o caso de Puschkin, Gogol, Tolstói, Turguêniev e mesmo o de Dostoiévski, duas grandes exceções foram Tchekhov e Máximo Górki. Ambos eram pobres de nascença; uma atração recíproca de amizade e respeito se desenvolveu entre os mesmos desde que se conheceram.

Mas, ao contrário da obra do amigo Górki, os trabalhos de Tchekhov não revelam apenas a classe dos deserdados, dos vagabundos e marginalizados. Neles estarão presentes também a aristocracia rural e os mujiques, os funcionários públicos, a polícia, a Igreja, os estudantes, a intelectualidade, as minorias como os judeus, a pequena burguesia florescente, os revolucionários e os reacionários, pois “as pequenas misérias do cotidiano, a vulgaridade que sufoca e as baixezas morais, transtornam toda a alma humana”.

Como médico, Tchekhov jamais titubeou em ajudar os que o procuravam. Não teve consultório particular, pois odiaria cobrar por uma consulta e sua vocação era minorar o sofrimento daqueles que buscavam a ação hospitalar pública. Mesmo em meio a epidemias de peste, lá viajava ele tentando salvar vidas. Na força de seus quarenta anos, já doente dos pulmões, arriscou a vida em viagens a ilhas desoladas, onde eram confinados presos em trabalho forçado. Seus relatórios médicos propiciaram a conquista de algumas melhorias para os infelizes condenados.

Com muito esforço conseguiu também mobilizar comunidades e autoridades para a abertura de escolas, adequações hospitalares e habitacionais para os camponeses.

Esse amigo dos homens, verdadeiro filantropo que nunca acreditou em Deus, ainda foi um dos primeiros a utilizar e divulgar a importância da psicologia para tratamento de enfermos mentais.

Tchekhov detestava o czarismo e as injustiças sociais, e, sem dúvidas possuía convicções socialistas, embora, graças a seu sempre presente ceticismo, em todos os seus contos e peças teatrais jamais chegue a conclusões revolucionárias. Ele nunca acusa ninguém e nada, a não ser a própria condição humana. No dizer de Camus, Tchekhov era um revoltado, nunca seria um revolucionário. Por isso mesmo, desde o princípio, seu trabalho literário alicerçava-se no princípio de que juntas, a crítica e a revolta expressariam o desejo de uma sociedade melhor, uma vida mais pura e livre.

Como escritor, principiou elaborando folhetins burlescos, que assinava com um pseudônimo jocoso. Mesmo nessa época, quando escrevia algo engraçado e divertido, seu realismo colocava a dura vida como ela era na sociedade decadente da década de 1880, sob o reinado ultrarreacionário de Alexandre III. E ela era morna, abafada, monótona, de um povo mergulhado no obscurantismo e a história de inúmeros “pobres diabos” que passa a ser retratada em contos. O humorismo na obra de Tchekhov de certa forma atenua tristezas insuportáveis.

Sobre ele escreveria Máximo Górki em 1900: “Em termos de estilo, Tchekhov é insuperável, e o futuro historiador da literatura, ao refletir sobre a língua russa dirá: essa língua foi criada por Puschkin, Turguêniev e Tchekhov.”

Sua primeira novela “séria” causou e causa enorme sensação! Trata-se da obra-prima “Enfermaria n.6”. Um médico já na maturidade, entediado com o mundo abestalhado e miserável que o cerca, faz amizade com um louco interessante, inteligente, que ele mesmo, mais por enfado com a profissão, mandara internar na enfermaria n.6.

O desencanto com o mundo e para consigo mesmo fizera com que tratasse os pacientes com pouco caso e, com isso, desde muito sua medicina se tornara um ofício maçante, burocrático, uma repetição de procedimentos sem envolvimento com os pacientes. Ao mesmo tempo no decorrer da vida, o médico fora-se isolando pessoalmente das pessoas comuns por não suportá-las. Termina assim por admitir uma única exceção: aquele mesmo intelectual amalucado que ele havia mandado internar na enfermaria para alienados!

Ao final, o próprio médico é também colocado atrás das grades da enfermaria número 6. Nessa novela, onde não entra o amor e a compaixão para nada, temos o simbolismo da desesperança, da humilhação do ser humano pela prepotência indolente de outros seres humanos. A enfermaria, que serve de depósito de alienados, fede a morgue, a merda, a túmulos.

Lênin, ainda no exílio, ao terminar a leitura deste conto comentou com sua irmã: “Tive uma estranha sensação, não consegui mais ficar em meu quarto... era como se eu próprio estivesse preso na enfermaria número 6.”

Sobre a novela escreveu Elsa Triolet, a escritora e crítica que um dia se apaixonara por Maiakovski e o perdera para a própria irmã: “A censura é uma dama distraída, pois não se pode de outra maneira, explicar que tenha deixado passar esta novela”. Na época, as pessoas sensíveis viram claramente na “Enfermaria n.6”, uma representação da própria Rússia czarista, onde os homens mais lúcidos eram enclausurados e, quando se inconformavam com a reclusão recebiam os golpes de policiais boçalizados.

A partir dessa novela a capacidade inventiva de Tchekhov demonstrou ser prodigiosa praticamente inesgotável.  Escreveu mais de 500 contos literários!

Ao ler o conto “A crise”, escreveu Górki: “Sinto quase dor física quando se fala de Tchekhov de uma maneira demasiado alto, sem o devido respeito. Depois de “Uma crise”, considero-o um escritor que possui à perfeição um talento humano sutil, uma sensibilidade magnífica à dor e à mágoa dos homens, mesmo estranhando quando me deparo que ele não tenha sensibilidade para as alegrias da vida.”

Realmente, a alegria não pairava no presente em que Tchekhov escrevia seus contos, mas talvez estivesse além, numa esperança indefinida da possibilidade de alguma redenção social.

Um exemplo importante é o conto magistral denominado “Uma história enfadonha”. O relato é feito por um sábio famoso internacionalmente, mas que no fundo de si mesmo possui a autocrítica suficiente para não levar a sério a fama e a devoção que lhe prestavam. O sábio se sabe uma alma desesperançada, sua vida é vazia de sentido, ele é um ser desesperançado consigo mesmo. “Se dentro do ser humano não existir algo mais forte e mais elevado do que todas as circunstâncias exteriores, então basta um resfriado para que ele perca o equilíbrio e todo seu otimismo junto com suas pequenas e grandes ideias se reduzam a sintomas, a mais nada.”

“Acontece que eu não gosto da popularidade de meu nome. É como se ela estivesse me enganando,” diz em confissão o narrador, Nicolai Stepanicht. Ou seria o próprio Tchekhov que se dava conta de que sua fama era crescente tanto na Rússia como no exterior? Sua modéstia era grande demais para vivenciá-la ou pelo menos, aceitá-la.

Tchekhov, em seus últimos anos dez anos de vida, faleceu em 1904 aos 44 anos, lutou todo o tempo contra a tuberculose; mesmo assim, ou talvez por isso mesmo, por ter pouco tempo, nunca se poupou, trabalhou noite e dia. “Desprezo a preguiça, assim como desprezo a fraqueza e a apatia dos movimentos da alma. Para viver bem, como um homem digno deste nome, é preciso trabalhar, trabalhar com amor e fé.”

Revoltado pela remuneração mesquinha que obtinha na venda de suas obras, pelos anos 1900, principiou a escrever peças teatrais. Sua primeira peça encenada foi “A gaivota”. Durante a montagem da mesma, Tchekhov conheceu a atriz Olga Knipper com quem se casaria. Como o público não estava acostumado que se teatralizasse o cotidiano das pessoas, o qual é quase sempre banal, “A gaivota” não foi, inicialmente, nem sucesso de público e nem de crítica.

“Precisamos de novas formas de arte”, diz um personagem da peça. “Há necessidade de novas formas, e, se não há como encontra-las, melhor ficar sem nada”, responde outra.

Mas também o sucesso teatral para Tchekhov tardaria pouco. No ano seguinte surgiria “Tio Vânia”, depois, o enorme sucesso de “Duas irmãs” e, em 1904, sua última peça, o drama “O jardim das cerejeiras.”

O conjunto da obra teatral nos indica que as personagens criadas por Tchekhov, de uma maneira geral, estragam sempre a própria vida, pois, de certa forma, sentem em si a inutilidade do existir, do viver. Em termos teatrais, o pessimismo cético de Tchekhov constitui uma ponte para o realismo de Ibsen e a angústia simbolista de Maeterlinck.

“Ninguém compreendeu tão lúcida e finamente a tragédia das trivialidades da vida; ninguém antes dele mostrou aos homens, com tão impiedosa verdade, o retrato terrível e vergonhoso de suas vidas, no turvo caos da existência cotidiana da pequena burguesia”, escreveu Máximo Górki a respeito das peças teatrais do amigo.

Em 1900, Tchekhov vai a Paris e acompanha pessoalmente o desenrolar do caso Dreyfus e toma posição, ao lado de Zola, o maior dentre os escritores naturalistas ocidentais, contra o antissemitismo e a condenação de um inocente, o coronel Dreyfus preso sob falsas provas, de ser espião do Império Alemão.

Em 1901, retornando à Rússia, abandona a prestigiosa Academia de Ciências em solidariedade à expulsão do Máximo Górki, acusado de subversão pelo próprio Czar Nicolau II. Justificando sua atitude, o coerente Tchekhov escreveu a um amigo: “Uma vida consciente, sem uma visão de vida consciente, não é vida, é apenas um peso e um susto”.

E em tom profético, em um de seus últimos escritos, sentenciou: “Sapos e crocodilos vão em breve reinar na Rússia. Pessoas de visão estreita, com pretensões ilimitadas, gente inteiramente desprovida de escrúpulos literários e sociais farão sua aparição. Tornarão o ar absolutamente irrespirável, aborrecendo-nos da literatura, deixando o campo livre para charlatães.”

E até em seus últimos momentos de vida, Anton Tchekhov seguiu trabalhando, contando histórias de um mundo precário, sempre na dúvida do que fazer para que uma difusa esperança de que a verdade e a maneira serena de ser pudessem, um dia, virem a libertar os espíritos. Quem sabe, preparar o mundo e a sociedade para uma vida melhor, mais bela, mais digna de ser vivida, livre dos sapos e crocodilos de visão estreita e fome ilimitada de poder, quando “a insolência e o ócio dos fortes, a ignorância e a bestialidade dos fracos, e ao redor a pobreza indescritível, o sofrimento, a degradação, a bebida, a hipocrisia, a mentira”, deixem de ser preponderante, pois: “O importante é transformar a vida; todo o resto é inútil.”

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