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"Textos e Contextos de Dostoiévski à Geração Sacrificada"

A revolução que mudou o mundo moderno.

1. Os preparativos (1870/ 1905)

A década de 1870 marcou pela primeira vez o encontro da intelectualidade com o povo. Em 1876, uma pequena multidão invade uma praça pública de Petersburgo e, empolgado, o jovem Giorgi Plekhanov faz um discurso saudando a revolução social, ao mesmo tempo em que uma bandeira vermelha é desfraldada: “Terra e Liberdade”. A polícia age com uma ferocidade poucas vezes observada até mesmo na própria Rússia, espancam e prendem a todos os que lhes caem às mãos; seguem-se sessões bárbaras de tortura, quando muitos enlouquecem, outros desaparecem e centenas são banidos para a Sibéria.

I. Kazan, um dos presos executados, escreveu antes de morrer: “A Rússia é conduzida à liberdade política não por liberais, mas por sonhadores que organizam manifestações infantis e ridículas, por homens que ousam enfrentar a lei, serem espancados e condenados.” Suas observações certeiras já marcam um princípio de maturidade no próprio movimento de contestação.

Com forte inspiração no anarquismo de Bakunin, falecido também em 1876, um grupo de intelectuais sobreviventes após este massacre, fundará uma organização clandestina denominada Vontade do Povo. Abandonam, então, as cidades e buscam nos campos alguma segurança para pregar a revolta junto aos camponeses.

A tentativa de levantar os mujiques e convencê-los a invadir e tomar propriedades de latifundiários realizada por intelectuais citadinos, que estavam totalmente fora de seu meio ambiente, motivou a desconfiança quando não com o ódio dos próprios camponeses, e, em decorrência, facilitou a ação sempre eficaz da repressão política. Em pouco mais de um ano de atividade, a maioria dos militantes da organização Vontade do Povo estava presa. Foi quando os membros ainda em liberdade do grupo partiram para a ação direta, para o terrorismo nas cidades.

Os presos da organização Vontade do Povo aguardavam seu julgamento no dia 24 de janeiro de 1878; neste mesmo dia, a militante Vera Zasulitch (que posteriormente abraçaria o marxismo, mas seria oposição aos bolcheviques) executa num atentado a bala o general Trepov, governador de Petersburgo.

Vera que acabou sendo detida por já haver cumprido prisão devido a cartas trocadas com anarquistas, tivera tempo de desfazer-se da arma após o atentado, e quando foi presa e torturada nada fala, dizendo-se inocente. As testemunhas vacilam e a polícia e os juízes entram em dúvidas sobre a participação no atentado de uma moça tão bonita, de origem aristocrática e que nada confessara sob a tortura. Ela é absolvida num primeiro julgamento. Livre, Vera parte para a clandestinidade e, posteriormente, se juntará aos exilados que viviam na Suíça, sendo responsável pela tradução de diversos materiais marxistas para a língua russa.

Mas a morte do governador desencadeará brutais ações repressivas e outros atentados ocorrerão; estes somente se esgotarão por absoluta exaustão. “Morte por morte”, proclama o intelectual Serguei Kravchinski, o qual mataria o general Mezentisov, o chefe da polícia política russa.

Poucos meses após, o reformista Alexandre II cria a Okhrana, a arma mais eficaz de terrorismo de Estado que até então havia sido montada. Entretanto, após sobreviver a dois atentados, o próprio Alexandre II é assassinado pela “Vontade do Povo”, em 1881.

Sofia Perovskaia, Jeliabov, Rissakov e demais companheiros envolvidos na execução do Czar são presos, torturados e enforcados. No momento da execução, Jeliabov caminha sorrindo para a forca. Sofia, sua amada, beija-o e aos demais companheiros de martírio, virando às costas a Rissakov, o único que vacilara na tortura porque enlouquecera, mas que também seria enforcado.

Em 1903, já sob o Império de Nicolau II, forma-se outra organização de combate direto, o Partido Socialista Revolucionário Russo. Um primeiro atentado contra o grão-duque Sérgio falhou, pois o poeta Kaliaiev se negou a colocar em risco as crianças que o acompanhavam. Em outra ação o escritor Savinkov se opôs ao atentado contra o almirante Dubassov, dado o risco de morte de inocentes no vagão que deveria ser dinamitado. Quando Savinkov foi preso, poderia ter fugido da prisão, mas negou-se a atirar contra os guardas do presídio. Foi enforcado.

O grupo levou adiante ainda as execuções do chefe de polícia czarista Viacheslav von Plehve e a do grão-duque Sérgio Alexandrovich, irmão do finado Alexandre III e governador de Moscou, odiado por sua extrema crueldade.

Podemos dizer que o poeta Kaliaiev foi o símbolo deste movimento desesperado. A clandestinidade obrigara-o viver na solidão e ele é preso e enfocado aos 26 anos de idade. “No que me diz respeito, a condição indispensável à felicidade é preservar para sempre a consciência de minha perfeita solidariedade com vocês”, escreve a seus companheiros de cárcere. Torturado, jamais delatou ninguém e antes que o executassem proclamou: “Minha morte irá consumar tudo, minha causa será irrepreensível e perfeita”.

A respeito dos terroristas do Partido Socialista Revolucionário Russo, Camus os define como “assassinos delicados”, pois “aquele que mata só é culpado se consente em continuar vivendo, ou se para continuar vivendo, trai seus irmãos”.

A exaustão dos atentados terroristas será a marca de uma nova era, a da participação das massas populares e este terá um marco: o ano de ruptura de 1905!

 

As pregações anarco-libertárias de Bakunin influenciaram sobremaneira as gerações de jovens anteriores à virada do século XX. Os conceitos marxistas por seu lado, tão disseminados no restante da Europa desde as décadas de 1850 e 1860, chegaram com atraso de mais de vinte anos à Rússia Czarista. Somente em meados da década de 1870 surgiu a primeira tradução de “O capital” e sua disseminação entre a intelectualidade se difundiria basicamente após o assassinato de Alexandre II (1881), já sob o reinado de Alexandre III, aquele que reestabeleceu a absoluta repressão e anulação de todas as medidas reformistas do pai morto.

Na Rússia Czarista de Alexandre III (1881/ 1894) e, posteriormente, na do igualmente brutal Nicolau II, a essência de qualquer revoltado era livrar-se de um absolutismo e de uma aristocracia feudal que nem de longe admitiria a existência de qualquer Constituição, dos direitos das gentes e que fortalecera o Estado vinculado à Igreja Ortodoxa.

Por esses motivos, enquanto na Alemanha os preceitos marxistas haviam adquirido uma formatação acadêmica, aberta e parlamentar, na Rússia eles desde o princípio, foram obrigados a serem clandestinos e estreitos cultivados à luz das sombras, dos exílios, das execuções e torturas. Logo, foi graças à brutalidade daqueles que o combatiam, que o marxismo russo adquiriu algumas características próprias do movimento terrorista dos anos 1870/80, expressos, por exemplo, no “O que fazer?”, livro escrito por Lênin em 1902. Diferentemente da Europa, diante das massas russas ignorantes e analfabetas, Lênin propôs com todas as letras que elas deveriam ser dirigidas por um núcleo duro de intelectuais revolucionários profissionais, o que jamais fora previsto por Marx. Afinal, a Rússia era “um Estado escravizado no qual 99% dos habitantes foram corrompidos até a medula pela subserviência política e pela total incapacidade de entender o que são a honra partidária e os vínculos partidários.”

O Marx das últimas décadas do século XIX fora o profeta da produção, do progressismo. O progresso essencial, que só deixaria de ser torturante após o apocalipse industrial, quando chegasse o dia da reconciliação universal. Então o proletariado vitorioso usaria toda a sua riqueza para o bem e as classes, assim como o Estado repressor como o conhecemos, entrariam em extinção. “Só os proletários totalmente excluídos dessa afirmação de sua personalidade são capazes de realizar sua completa autoafirmação. Por suas dores humanas ele será o Cristo a resgatar o pecado coletivo da alienação.” A sociedade solidária chamar-se-ia comunista, para isto “a ação comunista só pode existir como realidade histórica planetária”. A humanidade teria seu agente emancipador, pois “se o juiz é a história, o executor da sentença, o proletariado”.

Logo, a exigência ética é tanto a base do sonho marxista, quanto sua verdadeira grandeza. Marx colocou o trabalho, sua degradação injusta e sua dignidade profunda no centro da reflexão. Rebelou-se contra a redução do trabalho a uma mercadoria e do trabalhador a um objeto. Lembrou aos privilegiados que seus privilégios não eram divinos, nem a propriedade um direito eterno. Denunciou uma classe cujo crime não é tanto ter tido o poder, quanto tê-lo utilizado para os fins de uma sociedade medíocre e sem verdadeira nobreza. Ao exigir para os trabalhadores a verdadeira riqueza, que não é a do dinheiro, mas a do bem-estar, do lazer e da criação, o marxismo reivindicou a qualidade de vida do homem.

E em termos de política em ação, Marx sentenciou implacável: “Um fim que tem necessidade de meios injustos não é um fim justo”.

Os primeiros anos do século XX foram marcados por debates acirradíssimos envolvendo principalmente alemães, franceses e russos exilados, sobre as perspectivas do marxismo na Europa. De um lado, por exemplo, Edward Bernstein propôs uma revisão da teoria marxista. Ele, ao contrário de Marx, julgava evidente que a expectativa de eliminação da classe média fora totalmente frustrada. No futuro, dizia Bernstein, a pequena burguesia somente tenderia a crescer sob o capitalismo. Os capitalistas se expandiriam e as crises cíclicas próprias do capitalismo se tornariam menos sérias, pois o sistema possuía capacidade de absorvê-las. Que a catástrofe final do capitalismo, prevista por Marx, jamais ocorreria, pois o capitalismo monopolista desenvolveria ferramentas para evitá-la. Além disso, ele levantava questões que o marxismo não abordara, pois o ponto de vista científico tão arguido pelo marxismo na realidade não fornecia motivações éticas, e na verdade, ocultava uma doutrina dos direitos naturais do homem. Enfim, propunha o crescimento da consciência e da conciliação em oposição ao da revolução proletária.

Lênin reagiu contra toda a proposta revisionista de Bernstein do modo mais furioso. Para ele essas teorias somente fariam abalar as convicções dos revolucionários russos e tornou-se, então, a cabeça mais influente dentre aqueles que denunciavam como heresias as teorias que ousassem questionar aspectos do marxismo, resguardando, entretanto, para si mesmo, uma reinterpretação toda original do mesmo. Pese a isso tudo, Bernstein seguiu sendo considerado um legítimo socialdemocrata, e foi até a morte o editor oficial de todas as obras de Marx e de Engels.

Marx, como o excelente estrategista que era, colocara primeiramente a questão da tomada do poder. E Lênin acreditava na revolução e na eficácia! E o líder russo lutou todo o tempo contra as formas sentimentais de moral revolucionária. Negou a espontaneidade das massas, pois a doutrina socialista supõe uma base científica que só os intelectuais podem aportar. Quando diz que é preciso apagar qualquer distinção entre o intelectual e o operário, é preciso traduzir: pode-se não ser proletário e conhecer melhor que os mesmos seus interesses. A revolução antes de ser econômica ou sentimental, ou mesmo política, é militar, aliás, daí advém o termo “militante”, por Lênin adequadamente utilizado.

No ambiente específico dos exilados russos, Lênin exercitou ideias propriamente russas. Em primeiro lugar combatia os denominados populistas, que acreditavam na capacidade revolucionária de um campesinato unificado.  Mais tarde teve que combater os assim chamados “marxistas economicistas”, que propunham a luta sindical como prioritária à política.

 

Vladmir Ulianov, que passaria à história como Lênin, tinha uma origem humilde, honrada e letrada. Seu pai, diretor de escola da província de Simbirsk, recebera um título de nobreza graças às reformas educacionais promovidas por Alexandre II. Com o novo Czar, o digno pai de Lênin, que com enorme esforço pessoal estabelecera mais de quatrocentas escolas rurais, foi colocado para fora do ensino devido às suas ideias liberais.

Vladmir tinha um irmão mais velho, Alexander, que estudava na Universidade de São Petersburgo. Enquanto Vladmir era reservado e pouco sociável, Sacha era brincalhão, emotivo, aberto para o mundo. Social- revolucionário e principiante no marxismo, Sacha envolveu-se com os poucos sobreviventes da organização terrorista que executara Alexandre II e planejava, agora, a execução de Alexandre III. Foi preso com material explosivo e enforcado em 1886. Perante o tribunal, o valente Sacha Ulianov afirmou: “Não possuímos classes sociais unidas que possam restringir o governo... Nossa intelligentsia é tão desorganizada e fisicamente tão fraca que no momento não possui condições para partir para a luta aberta... só pode defender seu direito de pensar através de atos terroristas.”

De todo modo, a conspiração da qual Sacha participara foi o último gesto político do grupo “Vontade do Povo”, desde então totalmente aniquilado.

O pai Ulianov faleceu logo após o filho, vítima de um acidente vascular cerebral e Lênin, aos vinte anos foi obrigado a tornar-se o chefe da família. Um ano após, ele teve que enfrentar outra tragédia. No dia mesmo do aniversário da execução de Sacha, sua irmã Olga morre de tifo.

Cursava, então, direito na Universidade de Kazan. Ao participar de uma manifestação estudantil foi preso e enviado exilado à Sibéria. Ao ser libertado, por ser irmão de um terrorista morto, foi proibido de frequentar qualquer universidade em território russo. Foi nesse período de extremas dificuldades que Lênin se aproximou do marxismo, dele extraindo um aprendizado distinto daquele de seu irmão mais velho. Esses fatores forjaram no futuro líder soviético uma personalidade forte, determinada e pouco flexível.  

Desde o princípio, assinala Górki, a motivação essencial de Lênin era o ódio pelo sofrimento do povo, associado a uma paixão pelo combate que assumia uma forma curiosamente impessoal, fazendo-o a si mesmo considerar-se uma força histórica em conflito com outras do mesmo tipo. De certa forma estes fatores impediriam que o futuro líder da Revolução jamais se entregasse ao cepticismo, à autocomplascência ou à indiferença.

Em 1893, com vinte e três anos, Vladmir deixa Samara e reside em São Petersburgo. Lá conhecerá uma jovem militante marxista, Nadja Krupskaia, que será sua companheira por toda a vida. Desde então, sempre assumirá a liderança nos grupos socialdemocratas nos quais participa, sob a alcunha de Lênin.

Vladmir Ulianov, aproveitando uma visita a Plekhanov  exilado na Alemanha, viajou nos idos de 1895 até um sanatório em Davos ( o mesmo que inspiraria “A montanha mágica” de Thomas  Mann) para o tratamento de uma tuberculose esofágica, a qual jamais o abandonaria em vida. No retorno à Russia, foi preso simplesmente por serem descobertos livros proibidos num fundo falso da mala. Enviado ao exílio siberiano, juntou-se a ele Krupskhaia, presa logo depois do mesmo.

Lênin tinha então trinta anos e procurava manter-se hígido, fugindo da bebida e dos cigarros, sempre se preparando para futuras tarefas importantes. Sobre os mexericos e discussões entre os exilados assim se pronunciou: “Não há nada pior que esses escândalos entre os exilados. Para nós são um retrocesso terrível. Esses velhos (os antigos militantes de “A Vontade do Povo”) estão com os nervos em pedaços. Imaginem o que já sofreram, os anos de cadeia, tortura... Não podemos permitir que escândalos desviem nossa atenção. O nosso trabalho, o verdadeiro trabalho, está por vir.”

Utilizando como tinteiro frascos feitos com pão envelhecido e escrevendo com o sobrenadante do leite, ele jamais deixou de se corresponder com seus companheiros em liberdade ou no exterior. Até mesmo sua mãe, Maria Aleksandrovna, serviu-lhe como correio.

Foi libertado em condições restritivas.  Acontece que a partir de 1900 o risco de um militante político conhecido ser preso na Rússia era altíssimo e Lênin decide, então, partir para Munique e lá editar um jornal de resistência, o “Iskra”, a Centelha, e estabelecer os caminhos pelos quais a publicação entraria clandestinamente na Rússia. Como escritor e propagandista revolucionário, observou seu companheiro Mirski: “Ele é talvez o escritor revolucionário que nunca disse mais do que quis dizer.” Seu estilo era impessoal, seco, duro, com o dom de produzir epítetos e slogans que se incrustam na memória das pessoas.

Disse Górki: “Os discursos falados ou escritos de Lênin sempre me davam a impressão de um brilho frio de raspas de aço, dos quais emanavam com simplicidade surpreendente as formas evidentes da verdade.”

O segundo congresso do Partido Socialdemocrata Russo aconteceria no exterior, no ano de 1903. Foi quando se formou uma maioria que passaria para a história como os Bolcheviques e uma minoria, os Mencheviques. Líder da maioria, o Congresso ocorreu sob a liderança de Lênin, num velho paiol infestado por ratos e sob a vigilância da polícia secreta czarista.

Em busca de uma maior segurança, em 1904, os Ulianov, assim como centenas de intelectuais e socialdemocratas russos, foram residir em Genebra, na Suíça.

 

Enquanto isso, o descontentamento com o absolutismo czarista só fazia aumentar na Rússia, prenunciando o decisivo ano de 1905. Os camponeses espoliados pelos latifundiários invadiam terras e destruíam propriedades, a classe operária emergia nas piores condições de trabalho imagináveis e a agitação por reformas conduziram a uma gigantesca greve geral no sul da Rússia, como jamais se havia visto. E em 1886, Petersburgo foi surpreendida por uma primeira greve: o setor têxtil parou a cidade por dois dias!

Embora tardia, a industrialização da Rússia czarista adquiriu impulso impressionante nas décadas de 1890 e de 1900. A região onde a industrialização mais floresceu foi a de Petersburgo, onde se concentrou quase 60% do parque industrial russo, com suas metalúrgicas e fábricas têxtis. A maior das empresas era a metalúrgica Putilov, que chegava a empregar mais de sete mil trabalhadores.

Petersburgo, graças ao fluxo migratório do campo de lavradores arruinados em busca de trabalho nas fábricas, alcançou seu meio milhão de habitantes na virada do século, e, praticamente dois milhões nos anos da Grande Guerra de 1914, o que a inseria dentre as maiores cidades do mundo.

É necessário salientar que aos lavradores tornados operários, era-lhes permitido exclusivamente se estabelecerem nas margens industriais das cidades, onde viviam sem as famílias, de modo absolutamente precário, muitos em barracões coletivos improvisados, de todos os modos, numa forma bastante diferente, por exemplo, da industrialização ocorrida em muitas cidades europeias, em que se formavam bairros operários próximos às fábricas. Logo, em Petersburgo, a incorporação dos proletários à população da cidade era apenas formal, dado que os trabalhadores das indústrias não pertenciam e nem se inseriam em nenhuma comunidade urbana, produzindo-se o fenômeno de que a cidade imperial, no espaço de poucos anos, foi cercada por um vasto cordão de indústrias e de “acampamentos proletários” .

Chegamos, então, ao decisivo ano de 1905. Ele começou marcado pelos desastres russos na guerra contra o Japão, o final de uma guerra vergonhosamente perdida para um exército muito menor e pior equipado. Já no princípio do ano surgiram espontaneamente grandes levantes populares nas cidades, assim como a invasão e destruição de propriedades rurais por camponeses famintos em fúria.

Depois deste ano, nem a Rússia e nem o czarismo dos Romanovs voltariam mais a serem os mesmos.

Sob a liderança de um sacerdote comprometido com as lutas populares, o padre Gaspon, uma enorme massa de manifestantes, mais de duzentos mil homens, mulheres e crianças, surgida de todos os pontos da Capital, postou-se em frente ao Palácio do Czar Nicolau II. Misturadas com bandeiras religiosas, surgiam aquelas que reivindicavam jornadas de oito horas, reforma agrária e constituinte. Preocupado com que a manifestação fosse pacífica, os auxiliares de Gaspon vigiavam para que ninguém estivesse armado, nem mesmo com paus ou pedras.

Por ordem pessoal do Czar Nicolau II, que estrategicamente viajara, vinte mil soldados abriram fogo sobre a multidão desarmada. Foram fuziladas e massacradas por baionetas, espadas ou coices de cavalos, milhares de crianças, mulheres e homens. Pela Perspectiva Niévski rios de sangue rolavam e coagulavam. Os corpos tardaram mais de três dias para serem todos recolhidos e atirados em fossas rasas cavadas nos pântanos.

Quando o czarismo pela barbárie cometida julgava ter vencido a batalha, ocorreu a revolta dos marinheiros do encouraçado Potemkin, seguida pelo hasteamento de uma bandeira vermelha na nau capitânia no Mar Negro. Logo depois, ocorreu a greve operária que parou Odessa.  Em seguida, uma greve dos ferroviários começou em Moscou e a eles se juntaram os telegrafistas e telefonistas que terminou por paralisar toda a Rússia.

Ao grande massacre de 22 de janeiro seguiu-se o surgimento de conselhos populares, os “sovietes”, o mais forte deles o dos trabalhadores de Petersburgo, que, afinal, colocariam o czarismo de joelhos.

O escritor simbolista Andrei Biéli, escreveu um romance denominado de “Petersburgo”, em que genialmente combina o real com o imaginário, o grotesco com o lírico, o trágico com o cômico ao retratar a cidade e o ano de 1905. Pertence a ele a descrição do clima que se estende até o final do ano, tempo de esperanças radicais e eventos terríveis.

“Petersburgo está rodeada por um anel de fábricas de muitas chaminés. Como um enxame, muitos milhares de pessoas a elas se dirigem pela manhã, e os subúrbios ficam vazios. Nos dias de hoje (outubro), todos vivem em permanente agitação. Os trabalhadores se transformaram em sombras tagarelas e entre elas circulam pistolas Browning. E alguma coisa mais”.

“A agitação que cercava Petersburgo então começou a penetrar no próprio centro da cidade... Ouviam-se agora brados perturbadores contra o governo por parte de garotos de rua que a toda velocidade corriam da estação de trem ao Almirantado, agitando trapos imundos.”

Calcula-se que durante o ano de 1905 mais de três milhões de pessoas se manifestaram contra o czarismo. Em outubro, mais de um milhão de trabalhadores cruzaram os braços e muitas das greves tiveram, inclusive, o apoio de patrões absolutamente insatisfeitos com o czarismo.

Para se manter no poder, o czarismo realizou algumas concessões, ao mesmo tempo em que fortalecia as tropas que retornavam da guerra perdida contra o Japão, dispondo-as para a repressão. O Czar Nicolau II foi convencido a não ordenar outro massacre que era seu instinto fazê-lo, pois os soldados poderiam se confraternizarem com as multidões.

Em outubro, o governo divulgou um manifesto prometendo pela primeira vez na história da Rússia eleições e uma Constituição, a qual, entretanto, nunca foi estabelecida sob os Romanov. Permitiu a criação da Duma Nacional (um parlamento) e a existência de partidos políticos, destacando-se os Partidos Socialdemocratas como o Menchevique, que defendia uma reforma gradual com o apoio da burguesia, e o Bolchevique, que defendia a ação revolucionária.

Os partidos, entretanto, mesmo legalizados formalmente, eram sistematicamente vigiados e a Duma era controlada pela aristocracia e pelo próprio Czar, que poderia dissolvê-la a qualquer momento. De todos os modos, o czarismo com estas medidas conseguiu seu objetivo de sobrevivência por mais uma década.

Ao final do ano tivemos o refluxo do movimento popular e muitos líderes oposicionistas foram presos ou exilados, e os sovietes colocados na ilegalidade e fechados. Mas a Revolução de 1905 havia, apenas formalmente fracassado. O czarismo havia perdido todo o apoio popular. Os mujiques que viam o czar como um pai, um protetor do povo, que acreditavam que ele era mantido na ignorância pela nobreza corrupta e gananciosa que o cercava, após o Domingo Sangrento, esse sentimento desapareceu. E ao Domingo Sangrento se somaram fatores que faziam crescer o descontentamento da população. O clímax desse processo seria atingido anos depois, durante a participação da Rússia na carnificina da Guerra Mundial.

Referindo-se a esse momento histórico, disse Lênin posteriormente: “Foi só então que a velha Rússia rude, patriarcal, religiosa, submissa livrou-se do passado; só então o povo russo conseguiu receber uma educação verdadeiramente revolucionária.”

Após 1905, Lênin foi o líder mais importante dentre os socialdemocratas russos a crer que a história se faz com homens, atitudes e as classes sociais em luta. “Das massas surgirá um número cada vez maior de revolucionários profissionais... Num sistema despótico como o russo não se pode ter democracia em um partido revolucionário, como não se pode tê-la em qualquer instituição... Os socialistas alemães podem se dar ao luxo da democracia, pois até seus congressos são públicos.”

“1905 é um brilhante precursor da História, o arauto da Grande Revolução”, diria o brilhante  jovem revolucionário e futuro comandante do Exército Vermelho, Liev Trotsky.

 

2. A grande Revolução

 

Nos anos de 1915 a 1917, a Suíça era um pequeno país a desfrutar a paz em meio ao grande conflito mundial. Por isso mesmo, lá se concentravam milionários que preferiam não correr riscos com suas fortunas, em meio a espiões e contraespiões de todas as potências beligerantes. Da mesma maneira, haviam- se estabelecido colônias de exilados políticos, expulsos de países autocráticos como a Rússia czarista. Alguns dos exilados viviam “à la larga”, a maioria, entretanto, muito pelo contrário, levava uma vida difícil e feita de espera por mudanças que lhes permitissem voltar às suas Pátrias.

A ordem do dia dentre as grandes potências era a da beligerância imperialista, logo os exilados estrangeiros cujos focos de atuação fossem a paz e a revolução proletária, não eram considerados muito relevantes pelas autoridades e tão pouco pelos serviços de espionagem.

Dentre estes havia um homem especial que residia em Zurique. Ele não frequentava hotéis elegantes, jamais aparecia nos bons cafés de época, tão pouco se expunha a reuniões abertas de propaganda política. Na verdade vivia mais que discretamente na companhia da esposa, hospede na modesta casa de um sapateiro, que alugava quartos na Spiegelgasse, em frente ao Limmat. Seu quarto ficava no segundo andar da velha construção com as paredes externas sujas, graças à fumaça expelida por uma pequena fábrica produtora de salsichas. Ora, se a fumaça pouco incomodava ao casal, o mesmo não se dava com o cheiro que ela trazia.

Este casal possuía como companheiros de refeição outros hóspedes: um padeiro, um italiano e um ator austríaco. Mesmo após meses de convivência, graças a um temperamento retraído, sabia-se quase nada a respeito do mesmo, exceto que eram russos educados, cordiais, com nomes complicados e que recebiam poucas visitas, quase sempre das mesmas pessoas. Tão somente a esposa do sapateiro conhecia parcela da verdade: ela sabia que eram refugiados políticos, que viviam pobremente, alimentavam-se de modo frugal e que tinham muito poucas roupas que, apesar de sempre limpas, eram muito usadas e em tal quantidade que mal preenchiam a mala com que os hóspedes haviam chegado à sua casa.

Como todo russo instruído ele adorava música e literatura. Amigos de alguns anos, o escritor Máximo Górki um dia foi visita-lo e encontrou sobre sua mesa de trabalho um exemplar muito manuseado de “Guerra e Paz”. Disse-lhe Lênin: “É Tolstói, sim. Que colosso, hein? Isso é que é um artista. E sabe o que é o mais espantoso? Até esse conde aparecer em cena era impossível encontrar um mujique russo de verdade na literatura!”

Após o parco jantar, os amigos foram ao quarto do casal escutar a “Appassionata” de Beethoven e Lênin comentou: “Não conheço nada mais glorioso, eu a ouviria todos os dias. Ela é sobre-humana... sempre penso de que maravilhas o ser humano é capaz”. E acrescentou: “Mas não posso ouvi-la com muita frequência, pois afeta os nervos, faz a gente querer dizer bobagens simpáticas e passar a mão na cabeça das pessoas... Além disso, não se deve passar a mão na cabeça de ninguém: pode-se levar uma mordida e ficar sem a mão. Temos que, quando necessário, golpeá-los na cabeça sem nenhuma piedade, embora nosso ideal seja não usar a força contra ninguém. Ideal infernalmente difícil!”

Este homem tinha hábitos de vida absolutamente disciplinados: regularmente, dia após dia, às nove horas da manhã, caminhava da casa do sapateiro até a biblioteca pública, onde imergia em livros até o final do expediente matinal, às doze horas. Às doze retornava à Spiegelgasse, da qual saía à uma, sendo um dos primeiros a retornar à biblioteca, permanecendo lá até as seis da tarde.

Pouca gente na cidade conhecia o verdadeiro nome de Vladmir Ilich Ulianov, Lênin, o homem de baixa estatura e corpulento, que residia na casa do sapateiro com sua esposa Krupskhaia. Nem mesmo nos círculos socialistas sabia-se muita coisa a respeito daquele leitor e estudioso fanático; era sabido que ele editara em Londres um periódico de pequena circulação, que pertencia a uma determinada corrente revolucionária e circulava de maneira muito restrita entre os refugiados russos; sabia-se também que antes de deixar Petersburgo, fora o chefe de uma facção do Partido Social Democrata Russo.  Além disso, possuía princípios rígidos e sempre tratava política como algo muito duro e sério, sendo praticamente impossível conciliar opiniões que fossem contrárias às suas.

Ao estudo persistente sobrevinham as noites quase sempre preenchidas com reuniões, que ocorriam em pequenos cafés frequentados por operários e intelectuais; a elas compareciam grupos entre dez a quinze pessoas, em geral mais jovens. Para os atendentes do café, essas reuniões que transcorriam em um idioma incompreensível, pareciam intermináveis. Eles consumiam pouco e falavam muito.

No dia 15 de março de 1917, havia uma surpresa reservada para o bibliotecário de Zurique. Pela primeira vez, em anos, o leitor russo não comparecia à biblioteca assim como jamais a ela retornaria. O que ele não poderia imaginar é que o leitor fiel, o senhor Ulianov, acabara de receber a notícia de que irrompera uma revolução em seu país.

As notícias lhe caíram como um raio de sol na fria manhã suíça. A princípio, Lênin não acreditara nas novidades que corriam pela boca dos exilados, mas ocorrera sim uma revolução e esta verdade se firmava de modo glorioso à medida que o tempo passava.

Acontece que na Rússia, tão logo os reveses militares dissiparam o entusiasmo patriótico inicial, o desgaste provocado pela guerra tomou conta do país e o regime czarista mostrou-se incapaz de mobilizar apoio público e, mesmo, o das próprias tropas.

Depois de um século e meio de vitórias militares e de expansão, a partir de meados do século XIX, a Rússia tornara-se vítima de sucessivas derrotas: na guerra da Criméia; a perda dos frutos de uma vitória sobre os turcos; a ruína na guerra contra o Japão; as derrotas frente aos alemães na Primeira Grande Guerra. E as derrotas russas detonaram as tensões sufocadas com toda a barbárie em 1905.

A uma manifestação de operárias industriais no Dia da Mulher em 8 de março, juntaram-se os metalúrgicos da Putilov em greve, e o centro da capital do Império foi invadido pelas pessoas da periferia basicamente exigindo pão para comer!

Quando as tropas foram convocadas por Nicolau II para a repressão, mesmo os sempre bárbaros cossacos, eles recusaram-se a usar as armas contra o povo. Sucedeu-se após quatro dias de caos, de as tropas se confraternizaram com a multidão. Chamado o exército, os recrutas camponeses se negaram também a reprimir os grevistas. Agora as exigências haviam aumentado: pão, paz e liberdade!

Enquanto a família real, sob a influência de Rasputin, tentava uma paz em separado com a Alemanha, os donos de terras e muitos capitalistas estavam interessados na continuidade da guerra, e desejavam se livrar da autocracia que emperrava os negócios.

Nicolau II tentou como última jogada dissolver a Duma, mas os deputados se recusaram a se retirarem de cena e nomearam, por sua vez, um Governo Provisório, sob a batuta de Kerenski.

Durante a noite, em fuga, toda a família real tentou deixar a capital, buscando refúgio em Moscou, mas seu trem terminou aprisionado por ferroviários em greve e o Czar Nicolau II foi obrigado a renunciar ao trono por telegrama!

Ora, a corte, a burocracia e a maior parte do corpo de oficiais do exército e da marinha consideravam a Rússia uma espécie de domínio privado do Czar. Também entre os camponeses, inúmeros acreditavam na autoridade forte e indivisível e tinham a terra como propriedade do soberano. Estas, em largos traços, foram as bases porque o Governo Provisório de Kerenski, ainda empenhado em chegar a uma vitória militar sobre os alemães, ao aceitar a renúncia do Czar, terminou por causar a derrubada de toda a superestrutura que sustentava o Estado Russo. E tudo desabou de repente, como da noite para o dia.

Os comitês de representantes de soldados, operários e camponeses, os Sovietes, que haviam desaparecido com a repressão de 1905, voltaram a se reorganizar e logo se espalhavam por todas as grandes cidades do país. É claro que quando o Czar caiu, somente uma proporção muito pequena do povo russo sabia qual era a significação e o que desejavam os partidos políticos. O que eles sabiam era que não aceitavam autoridade alguma- nem mesmo a dos revolucionários que diziam saber mais do que eles.

De todo modo, agora o poder real dividia-se entre um fraco Governo Provisório, representando a burguesia e parte dos senhores de terras e o Soviete de São Petersburgo, o mais importante de toda a Rússia.

Os prisioneiros políticos foram libertados e anistiados: o primeiro sinal de liberdade fazia-se sentir! Afinal, os milhões de mortos tombados na guerra, os políticos aprisionados, torturados e assassinados pelos czares talvez não houvessem, afinal, perecidos em vão. O povo passava a sentir o gosto da liberdade!

Lênin parecia embriagar-se com estas notícias que lhe chegavam. Elas significavam que ele poderia, junto com tantos outros exilados voltar à Pátria e empunhar as bandeiras de novas etapas revolucionárias. Os jornais russos que chegavam ao exílio publicavam um lacônico chamado do escritor socialista Máximo Górki: “Voltem todos à Pátria!”

Quando os exilados e dentre eles Lênin já preparavam suas malas, chegaram novas notícias: a revolução que ocorrera e que colocara no poder o Governo Provisório, já não se escrevia com letras maiúsculas. Estava mais para um motim palaciano, articulado por diplomatas ingleses e franceses, prevendo a manutenção da Rússia na carnificina da guerra contra a Alemanha, o Império Austro- Húngaro e seus aliados, “mudando algo para que tudo permanecesse o mesmo”. Ela nada tinha a ver com os anseios populares de paz, terra e liberdade.

E os convites oficiais para o retorno à Pátria não incluíam exilados como Lênin e seus companheiros, os bolcheviques do Partido Socialdemocrata. Miliukov, o novo chefe de governo, dera, inclusive, ordens específicas para a polícia de fronteira não permitir a entrada dos bolcheviques no país.

Enquanto a jovem águia política, o bolchevique Liev Trotsky, permanecia preso em Halifax, Plekhanov e outros mencheviques eram agora muito bem recebidos pelas autoridades em São Petersburgo. Miliukov sabia perfeitamente com que tipo de socialistas poderia talvez contar para o prolongamento da guerra imperialista e com quais, não.

Lênin sentiu-se desesperar. Após treze anos de autoexílio, precisava, custasse o que custasse, até mesmo ao preço da própria vida, retornar à Pátria e tomar as rédeas de um processo revolucionário que poderia conduzir à verdadeira revolução, aquela com letras maiúsculas!  Pensou até mesmo em conseguir um passaporte falso sueco e, na alfândega russa, passar-se por surdo-mudo. Desistiu pelo absurdo. Aí buscou um aeroplano que transpusesse a Áustria e a Alemanha e parasse diretamente em território russo. Outra insensatez para a realidade aerotransportável da época.

De todas as possibilidades, a única alternativa que se apresentou com alguma viabilidade foi a de convencer o governo alemão, inimigo da Rússia na frente de batalha, permitir que o grupo de bolcheviques atravessasse num trem o seu país. Ora, aqueles que desejavam a paz poderiam liderar a resistência contra a guerra na Rússia: assim pensou o império alemão. Por outro lado, os Estados Unidos estavam a ponto de declarar guerra ao Império Austro-Húngaro e à Alemanha e isso forçava o imperador Guilherme a tentar realizar a paz em separado com a Rússia. Então, o Imperador Alemão, pessoalmente, resolveu permitir que Lênin e seu Estado-Maior atravessassem o país a bordo de um trem.

Lênin tomou suas precauções. Afinal, poderia ser tido como um agente inimigo em sua própria Pátria. Seu partido poderia ser comprometido, assim como a causa. Lutou como um leão contra os receios de seus companheiros e desafiando a história, engolindo alguns de seus próprios preceitos morais, dado que jamais deixara de denunciar o arqui reacionarismo do Império de Guilherme, negociou pessoalmente com o embaixador alemão, impondo algumas condições: viajariam em dois vagões de trem com direitos de extraterritorialidade. Não haveria controle de passaportes e ninguém sairia ou entraria no trem após o embarque. Cada emigrado pagaria de seu bolso todas as tarifas e custos.

Em 8 de abril de 1917, o trem lacrado que partiu de Zurique e atravessou a Alemanha trazia no vagão de segunda classe as mulheres e filhos dos revolucionários inclusive Krupskaia, a esposa, e Inês Armand, uma comunista francesa poliglota, extremamente ligada a Lênin. No de terceira classe viajariam os outros homens que mudariam a face do mundo.

Após percorrer o território alemão, o trem chegou à Suécia onde os exilados foram festivamente saudados. Famintos, foram alimentados com os melhores pratos que os operários e intelectuais suecos poderiam prover. Conseguiram até mesmo coletar algum dinheiro, o que possibilitou a Lênin a troca de suas botas de anos de uso por sapatos e a aquisição de uma muda de roupa adequada, com a qual pudesse se dirigir ao povo russo.

Mais quilômetros foram percorridos e o trem lacrado chegou à Finlândia, então território russo. Ao pisar o solo pátrio, antes mesmo de abraçar os soldados e os operários que o aguardavam, Lênin apossou-se de todos os jornais que poderia ler. Acima de tudo queria ler o Pravda para constatar se ele mantinha o que via como a correta linha do internacionalismo proletário. Irou-se, amarrotou-o e jogou-o ao chão, pois o periódico de seu próprio Partido não estava enérgico o suficiente, não conclamava o povo, os sovietes de soldados, operários e camponeses, à luta pelo poder. Enfim, não expressava exatamente o seu modo de ver o momento político. Disse à Krupskaia, sua esposa, e aos companheiros mais próximos que haviam ido recepcioná-lo na primeira estação após a fronteira: “Já era tempo de voltar. Tenho que tomar o leme e dirigir o barco para a vitória ou para a destruição”. 

O trem aproximou-se de Helsinque na noite de 16 de abril e Lênin ainda temia por sua prisão. Mas a praça da estação ferroviária estava tomada por enorme multidão de soldados de todas as armas e trabalhadores que o aguardavam. Milhares de homens e mulheres acotovelados na praça e apertados em todas as ruas transversais. Quando o líder assomou à porta de seu vagão, a uma só voz todos se puseram a cantar o hino de “A Internacional”.

Dirigindo-se ao comitê que o cercava, Lênin fez de imediato pouco caso dos planos de reforma agrária e outras medidas legais propostas pelo Soviete de Petersburgo, e afirmou que os próprios camponeses deveriam se organizar e se apossar da terra sem intervenção governamental. Que nas cidades, os operários armados deviam assumir o controle das fábricas.

Repreendeu severamente os próprios bolcheviques, dentre eles Stalin e Kamenev, que o recepcionavam. “A revolução proletária é iminente, não se deve dar o menor apoio ao Governo Provisório... Não precisamos de nenhuma república parlamentar. Não necessitamos de nenhuma república burguesa. Não precisamos de nenhum governo além do Soviete dos delegados de trabalhadores, soldados e camponeses.”

Ao sair da estação ferroviária, um oficial aproximou-se e bateu-lhe continência. Lênin, surpreso, retribuiu-lhe o cumprimento.  O oficial deu ordens e um batalhão de fuzileiros navais perfilou-se à passagem do líder. De um microfone instalado na estação ouviu-se o hino “A Marselhesa”.

O homem que até três dias antes era hóspede de um humilde sapateiro suíço foi, então, erguido por centenas de mãos e transportado em triunfo até um carro blindado. Da fortaleza de Kronstadt as luzes dos holofotes se concentravam nele e Lênin fez seu primeiro discurso público.

“Caros camaradas, soldados, marinheiros e trabalhadores, tenho o prazer de congratulá-los pela vitória da revolução russa, saudá-los como a vanguarda do exército proletário internacional... A guerra do banditismo imperialista é o começo da guerra civil na Europa... Na Alemanha tudo está fermentando! Não hoje, mas qualquer dia pode ocorrer o colapso do capitalismo europeu. A revolução russa que vocês realizaram deu o golpe inicial e inaugurou uma nova era: Viva a Revolução Proletária Internacional”!

Lênin sabia, como ninguém, falar ao povo, ao seu povo. Em sua trajetória rumo ao poder concentrado que agora se abria, não havia nem o egoísmo do gênio, menos ainda o desejo de honrarias do líder. Não fazia questão que seu nome fosse escrito em letras garrafais, não se importava com a aparência, jamais faria pose para fotos especiais. Por isso, tão poucas foram as fotos difundidas repetidamente por décadas.

Somente para que a esposa escutasse, segredou: “Aqueles que não presenciaram a revolução jamais poderão imaginar a sua beleza solene e grandiosa”.

 

3. Um repórter americano e a narrativa não ortodoxa dos “Dez dias que abalaram o mundo”.

Jack Reed nasceu numa influente família de políticos e magistrados do Oregon. Inteligente e astuto, amante de livros, muito prometia desde a infância e por isso foi enviado a Harvard, destinado a ser um cortejado advogado, quiçá um congressista.

Estávamos em 1910, na aurora do século XX, o dos grandes paradoxos. É claro, que jamais seus parentes imaginariam que o jovem Reed um dia seria escritor, jornalista e, sobretudo, um socialista!

Reed era um jovem que gostava de conviver com as pessoas, comer, escrever, beber, nadar, jogar futebol americano, poetar. E gostava de gente do povo, por isso distanciava-se de seus colegas de “família” e curtia mesmo encontrar-se com vagabundos, trabalhadores, gente distanciada da roda da fortuna. E, profissionalmente, Jack adulto foi mudando... Após concluir seus estudos deixou a advocacia pelo jornalismo, começando por participar em uma revista política, a "Masses" e no jornal “Metropolitan Magazine”.

Em Massachusetts, mais de vinte e cinco mil operários estavam em greve, exigindo jornada de oito horas de trabalho! A repressão policial não economizava cacetadas e espadadas. Reed repórter juntou-se aos manifestantes. Aprendeu com os grevistas, com eles esteve preso e foi um dos organizadores do desfile de mais de uma centena de milhares de manifestantes no Madison Square Garden, em defesa do direito de greve. Jack Reed buscava “a vida, a liberdade e a felicidade”, aquela da declaração de Independência Americana.

Foi enviado ao México para cobrir a Revolução Mexicana de Pancho Villa. Em pouco tempo, tornou-se próximo do líder revolucionário. Os relatos apaixonados de Reed ajudaram a espalhar a notícia da revolta. Em contrapartida, foram os cactos, as montanhas rochosas, as morenas risonhas, a maldita poeira, a horrível cadência dos tiroteios na noite, os peões de voz delicada morrendo e matando, que ensinaram Jack Reed a descrever as sublevações!

Assim que Reed regressou aos Estados Unidos, no Colorado ocorreu um massacre. Mineiros em greve foram abatidos pela Guarda Nacional a mando da família Rockefeller. E lá estava Reed e os acontecimentos, uma verdadeira guerra de classes, foram para sempre registrados no livro "A Guerra do Colorado".  Foi num comício de denúncia dos crimes praticados que Jack conheceu Emma Goldman, e ela seria sua fonte permanente de inspiração feminista e anarquista. Reed tornou-se, então, membro do Partido Socialdemocrata.

A Primeira Guerra Mundial encontrou Reed na Europa. Escreveu: “Aqui estão nações que se lançam aos pescoços umas das outras como cães… e a arte, a indústria, o comércio, a liberdade individual, a própria vida são taxadas para sustentar monstruosas máquinas de morte!" Mesmo porque "as guerras são feita pelo lucro, não por ideais.”

John Reed foi, sem a menor sombra de dúvidas, o melhor escritor- jornalista de seu tempo. Se alguém quisesse saber como era a guerra bastava ler seus artigos presenciais acerca da frente alemã, da retirada da Sérvia, por trás das linhas do abalado Império Czarista.

Acontece que Reed não tinha um lado! Seu lado era o dos alemães, dos franceses, dos russos, dos búlgaros, de todos aqueles que tinham seus corpos estraçalhados... Por que afinal, que importava para que lado armas destruidoras de vidas apontassem? Os "donos da guerra" só queriam poder e dinheiro!

Em 1916, de volta aos EUA, escutou os incessantes discursos sobre os preparativos militares contra "o inimigo" e escreveu para o “The Masses” que o verdadeiro inimigo para o trabalhador eram os 2% da população que recebiam 60% da riqueza nacional. "Nós defendemos que o trabalhador prepare-se para se defender do inimigo. O inimigo está aqui, em Norte-América. Esse deve ser nosso preparativo."

Foi naquele ano que John Reed conheceu Louise Bryant, escritora e, também, libertária; eles se apaixonaram imediatamente. Louise separou-se do marido e foi morar com Reed em Nova Iorque.

Quando em abril de 1917, o Presidente Wilson pediu que o Congresso declarasse guerra à Alemanha, John Reed escreveu: "A guerra significa histeria coletiva, crucificando os defensores da verdade, sufocando os artistas… Esta não é nossa guerra."

Ao mesmo tempo, chegavam da Rússia as mesmas notícias que haviam pegado Lênin de surpresa: o Czar fora deposto e uma revolução estava em marcha! "Finalmente, toda uma população se negou a continuar a carnificina e se revoltou contra a classe governante" escreveu Reed. Com Louise Bryant, partiu para a Finlândia, onde foi preso e todos os seus papéis roubados. Por interferência dos socialistas russos, conseguiu novo visto e seguiu viagem para Petersburgo.

Agora era coisa séria! A revolução avançava à sua volta com operários tomando o poder nas fábricas, soldados recusando-se a combater, manifestando-se contra a guerra e organizando seus próprios sindicatos. O Soviete de Petersburgo elegeu uma maioria bolchevique. Afinal, entre seis e sete de outubro, ocorreu a tomada das estações ferroviárias, telégrafo, telefone e correios, e os trabalhadores e soldados concentravam-se junto ao Palácio de Inverno. Era nem mais nem menos, a Revolução Socialista!

“As janelas do Smolny ( onde se instalara o Soviete) refulgem, ao rubro branco, como a bocarra de um forno, pois não se dorme em Smolny.  Smolny, o laminador gigante, funcionando vinte e quatro horas, laminando homens, nações, esperanças milenárias, impulsos, temores”.

Jack tornara-se próximo dos dois maiores líderes soviético: Lênin e Trotsky. E correndo de cena em cena, tomou notas com uma velocidade incrível, reuniu cada folheto, cartaz e proclamação e, então, no início de 1918, voltou aos EUA disposto a escrever sua maior história.

Com o prefácio de Lênin, o livro “Os dez dias que abalaram o mundo” ganhou uma primeira edição americana. “Os dez dias que abalaram o mundo” é não somente um testemunho vivo, narrado no calor dos acontecimentos da Revolução Russa de 1917, como também a obra que inaugurou a grande reportagem do jornalismo moderno, eleito pela Universidade de Nova York como um dos maiores livros do século XX. Um ano após, surgiria a edição soviética, prefaciada também por Lênin e Krupskaia.

Reed percorreu os Estados Unidos de ponta a ponta palestrando tanto sobre a guerra quanto sobre a Revolução Russa, ambas por ele vivenciadas. Em setembro de 1919, depois de falar a uma plateia de quatro mil pessoas, Reed foi preso por desencorajar o recrutamento obrigatório nas Forças Armadas.

Livre, Jack Reed tornou-se elemento ativo na formação do Partido Comunista dos Trabalhadores Americanos e viajou à URSS como um de seus delegados para um  encontro internacional, era a formação da Terceira Internacional.

Em Moscou, Reed encontrou sua grande amiga e companheira política Emma Goldman e escutou seu desabafo em relação a certos rumos que a revolução tomava. Logo, ele se incorporou àqueles que se preocupavam com rumos do governo bolchevique, com a necessidade de eleição de novos sovietes, a qual, aliás, jamais ocorreria, pela inclusão de partidos socialistas e grupos anarquistas nos novos sovietes, com a necessidade de maior liberdade econômica para camponeses e operários, assim como a restauração de direitos civis para os trabalhadores.

A Reed repugnava que a ditadura exercida em nome do proletariado russo persistisse uma vez vencida a terrível guerra civil. De certa forma pressentia no ar a possibilidade de uma revolta como a de Kronstadt, a insurreição dos marinheiros soviéticos, que aconteceria em menos de dois anos. Reconhecia, entretanto, que de todos os modos, a primeira república dos trabalhadores estava e permanecia em pé! Vencia uma pugna de morte contra quase todas as potências mundiais! E isto era o mais importante!

John Reed correu de reunião a reunião, de uma conferência em Moscou a uma reunião no Mar Negro e foi em sua passagem por Petersburgo que contraiu o impaludismo. Ficou doente, febril e delirante. Em outubro de 1920, aos trinta e três anos, morreu em um hospital de Moscou.

Após a morte de Lênin, em 1924, o livro “Os dez dias que abalaram o mundo” foi condenado ao ostracismo por dezenas de anos, graças ao seu não ortodoxismo político. Nele torna-se claro que, contrariando a historiografia oficial soviética, Lênin e seu partido não criaram e tão pouco dirigiram o movimento de massas revolucionário de Petersburgo, mas souberam reconhecer o potencial da revolta espontânea, assumiram uma posição de liderança e ascenderam ao poder graças a isto, repetindo as palavras de ordem que o povo queria ouvir: pão, terra e paz!

O livro permaneceria, entretanto, sendo um dos ícones da literatura de esquerda mundial. Nos anos de 1960 ganhou um enredo teatral e foi encenado pelo grupo Taganká, em Moscou, sob a direção de I. Liubimov. O sucesso obtido foi tão grande que o tempo mínimo para se conseguir um ingresso chegou a ser de três meses, e isto por mais de dois anos. Calcula-se que meio milhão de espectadores assistiu ao espetáculo teatral.

“Reds”, produzido por Warren Beatty, foi uma das maiores bilheterias de 1981, quando trouxe às telas a vida e a carreira do escritor-jornalista e revolucionário John Reed. Beatty, que personifica Reed, contracena com Diane Keaton e Jack Nicholson, num verdadeiro épico cinematográfico moderno.

4. O poder soviético, 1917 a 1930.

“Conduziremos a humanidade à felicidade pela força!” Máximo Górki.

Cabe uma observação inicial. Este é um livro, na sua essência, de análise e historiografia  literária, que justapõe aos textos a realidade histórica e os autores nela inseridos. Desta forma, a análise do poder soviético no período de treze anos, da Revolução de 1917 até o ano 1930, será feita de modo não abrangente, bastante resumido e voltado para a inserção literária; seguramente cometeremos omissões e injustiças involuntárias, pois o objetivo da mesma é estar voltada para a contextualização dos autores da geração que influenciou e foi influenciada pelo processo revolucionário.

A Revolução de Outubro foi um dos eventos políticos, sociais e econômicos mais significativos da história da humanidade, talvez o único evento que haja influenciado todo o desenvolver de um século e em esfera global. Eric Hobsbawm olhando desde o final do século XX, diz que “uma das ironias é que o resultado mais duradouro da Revolução Soviética, cujo objetivo era a derrubada global do capitalismo, foi salvar o seu antagonista, tanto na guerra (contra o nazi-fascismo) quanto na paz, fornecendo-lhe o incentivo na forma do medo- para reformar-se após a Segunda Guerra Mundial e ao estabelecer a popularidade do planejamento econômico estatal, oferecendo alguns procedimentos à reforma do capitalismo”.

Sob a liderança de Lênin e dos bolcheviques, em outubro de 1917, o Governo Provisório foi derrubado, sendo substituído pelo poder dos Sovietes. A facilidade com que o Governo Provisório foi derrubado– segundo Lênin, foi como “erguer uma pluma” – convenceu muitos historiadores da “inevitabilidade” da Revolução. No entanto, o próprio Lênin considerava o desfecho incerto, não existia nenhuma inevitabilidade por conta de qualquer tipo de “destino histórico”. Em cartas ao Comitê Central, em setembro e outubro de 1917, ele insistia em que o sucesso dependia inteiramente da velocidade e da coragem com que a insurreição armada fosse executada. “Atrasar o levante é morte... tudo está suspenso no ar”. Mais tarde, Trotsky afirmou que “sem que Lênin (e ele próprio) estivéssemos em Petersburgo, não teria havido Revolução de Outubro”.

Talvez uma das razões mais importante do sucesso dos bolcheviques tenha sido a capacidade de militarização da política. De fato, nenhum outro partido político antes deles havia tratado a política como guerra, no sentido literal da palavra e com objetivo não apenas de compelir o inimigo a render-se, mas de aniquilá-lo. E esta inovação deu-lhes vantagens significativas sobre seus oponentes, para os quais a guerra era a antítese da política ou a política feita por outros meios.

Outra razão foi o discernimento político. Ao compreender que a 80% da população russa interessava a divisão e a posse das terras; que para o proletariado o fundamental era ganhar o suficiente para comer; que o exército se desgastara e passara a odiar o oficialato pelos maus tratos, os bolcheviques levantaram as bandeiras de “pão, paz e terra”, embora como após pode-se ver, jamais houvessem seriamente pensado em distribuir terras aos camponeses, mas, sim, em coletivizá-las forçosamente.

De todos os modos, os bolcheviques que em princípios de 1917 tinham poucos milhares de ativistas, ao final do ano possuíam em suas fileiras um quarto de milhão de militantes. Eram, então, a única força política de importância no momento da revolução.

Finalmente, um último fato decisivo para a vitória revolucionária foi o comportamento das forças armadas. Naquele momento histórico, o poder bolchevique era o único possível sustentáculo capaz de manter a integridade territorial do velho império czarista. Era ou o socialismo ou a desintegração. Assim o grosso do Exército e da Marinha optou pela manutenção de uma Rússia una e multiétnica.

Em 1918, um fator importante que marcaria os rumos futuros da recém-realizada revolução aconteceu. A cidade de Petersburgo, o grande polo proletário da U.R.S.S., foi cercada em três frentes pelo Exército Alemão e deixou de ter condições de abrigar o Governo Revolucionário. Este se deslocou oitocentos quilômetros para a ortodoxa Moscou e, de certa forma, distanciou-se dos proletários a quem buscava representar, justamente do proletariado mais consciente e independente do mundo, e o poder, desde agora emanará da eslava Moscou.

E a revolução sobreviveu a uma paz imposta pelos alemães, meses antes que os mesmos fossem derrotados pelos antigos aliados dos russos. Também sobreviveu ao cerco promovido pelos vários exércitos vencedores que queriam a destruição da subversão que a Rússia Soviética representava. Setores do antigo exército imperial se reorganizaram como Exército Branco e juntando-se ao Exército Polonês, com armamento francês e inglês, desencadearam uma guerra civil contra o Exército Vermelho e o Governo Soviético. A luta travada foi de incrível ferocidade e capacidade destrutiva e teve a duração de quatro anos.

Embora os reacionários e seus aliados terminassem derrotados em 1921, o recém-construído e vitorioso Estado Soviético teve que lidar com uma situação econômica e social caótica, o que o levou a suprimir toda e qualquer atividade espontânea das massas. Imperavam a fome, as doenças, a destruição no campo e o desemprego, indigência e desabrigo nas cidades. O sistema de transportes estava arruinado, a produção agrícola somente em 1927 atingiria os níveis de 1914, no pré-guerra. Estima-se que entre os anos 1921 e 1922, cinco milhões de russos tenham morrido de fome.

Como dois milhões russos dentre eles aristocratas, funcionários públicos e intelectuais haviam emigrado da Rússia Socialista, o Estado recém-nascido viu-se na contingência da falta absoluta de pessoal administrativo qualificado.

Ou seja, nenhuma das condições que Marx ou que quaisquer de seus seguidores sempre haviam considerado como essenciais para o estabelecimento de uma economia socialista estavam presentes nessa enorme massa territorial, de enorme atraso e pobreza generalizada. A firme esperança de Lênin e dos bolcheviques era que, cumprindo-se as previsões marxistas, as revoluções proletárias fossem desencadeadas em todo o mundo, principiando pela Alemanha, onde se abrigava o partido socialista mais forte de toda a Europa. Logo, tomado o poder na Rússia, o fundamental era que o Partido e o povo russo se aguentassem enquanto uma onda revolucionária mundial modificasse o mundo. E o novo regime se aguentou! Mas as previsões marxistas falharam redondamente. O capitalismo não se abriu para um apocalipse e a Revolução Russa se viu cercada internacionalmente por países conservadores e antissoviéticos.

Apenas em 1922, cinco anos após a revolução, o poder soviético principiou a estabilizar-se. Somente a mão de ferro do Partido Bolchevique e uma vontade inquebrantável de reconstrução de parcela do povo permitiram a sobrevivência da Rússia como nação independente. E este espírito de guerra, com a intolerância e a repressão a ela inerentes, mesmo quando a situação já se havia definido e gradativamente melhorado, permaneceu.

Dois anos após, em 1924, morre o grande líder de todo o processo: Lênin. As dificuldades objetivas da implantação do socialismo em um único país, e justamente num dos mais atrasados economicamente do mundo, foram os alicerces dos conflitos internos que resultaram em lutas fraticidas entre os antigos camaradas revolucionários. De todos os modos eles realizaram uma revolução socialista num país economicamente subdesenvolvido, de base essencialmente rural, em que o capitalismo mal dera seus primeiros passos. Foi sobre essa base frágil que se instituiu um sistema de propriedade estatal e de coletivização forçada. Necessitavam transformar sua economia e sua sociedade em avançadas, o mais rapidamente possível, custasse o que custasse.

Stalin não tomou o poder pós-Lênin com um golpe de Estado. Pelo contrário, ele após dois anos antes haver assumido a Secretaria Geral do Partido, com a aprovação de Lênin, era o candidato mais próximo a sucedê-lo, representante legítimo da burocracia que se organizava junto ao poder em nome da ditadura do proletariado.

É absolutamente certo que os objetivos finais dos bolcheviques eram de natureza humanitária, democrática e antiburocrática, mas a lógica da situação geral, a não ocorrência das esperadas revoluções na Alemanha e na Europa, o risco de novas agressões externas, foram fortes demais para que aqueles ideais resistissem.

A Revolução não começara como um governo de partido único, nem com um governo que excluísse a oposição. O isolamento da Rússia no mundo, a violência da guerra civil, a necessidade imperiosa de decisões duras e difíceis, levou os bolcheviques a construírem um governo em que imperava o centralismo democrático, que rapidamente se transformaria exclusivamente em centralismo sob Stalin, com a exclusão de toda e qualquer oposição e a supressão dos demais partidos políticos que, junto com os bolcheviques, haviam realizado a revolução. Lênin ainda tentou, mas suas condições físicas ao final da vida impediram-no de impedir a ascensão do ex-seminarista georgiano ao poder central do Partido e do Estado.

Desse modo, a beligerância converteu-se num traço característico do regime socialista, culminando na fase stalinista, segundo a qual a aproximação de sua vitória final seria marcada pela intensificação dos conflitos sociais. Os bolcheviques passaram não apenas a desejar a anuência das massas, mesmo à custa da eleição de cultos a personalidades, e de atitudes intolerantes, como rejeitavam todas as manifestações de iniciativa independente, toda e qualquer dissidência política e até mesmo artística, como “atitudes contrarrevolucionárias”. No extremo, só sabiam lidar com opiniões diferentes das suas por meio de injúrias e da repressão. Tudo o que sabiam era que o partido estava sempre certo e que as decisões tomadas pelas esferas superiores tinham de cumprir-se na defesa da revolução. Em nada se assemelhavam com a velha cultura de esquerda, semeada desde Bakunin e cultivada por Marx e Engels.

Stalin que, em 1926, assumiu com mão de ferro a direção da U.R.S.S. e manteve-se no poder até sua morte em 1954, provou ser um autocrata de ferocidade, crueldade e falta de escrúpulos excepcionais, únicas. Ele dirigiu o Partido, como tudo o mais ao seu alcance, pelo poder e pelo medo. Não temos dúvidas de que sob a liderança de outrem, os sofrimentos pelos quais passaram o povo russo e sua intelectualidade, teriam sido muito menores, assim como o número de vítimas dos planos acelerados de desenvolvimento. Somente a guisa de exemplo, somente entre 1934 e 1939, entre 4 a 5 milhões de membros e funcionários do partido foram presos por motivos políticos; entre 400 e 500 executados sem julgamento; dos 1827 delegados do congresso do Partido Comunista de 1934, apenas 37 permaneciam vivos em 1939.

Por outro lado, os extraordinários recursos naturais da Rússia muito contribuíram para o desenvolvimento dos Planos Quinquenais. Se ao final dos anos 1930 o consumo mantinha-se ainda muito baixo, o povo tinha trabalho, comida, roupa e habitação a preços controlados e subsidiados pelo Estado, aluguéis, pensões e assistência médica, e, sem dúvida, educação. O analfabetismo foi praticamente erradicado. E o sistema de recompensas e privilégios da “nomenclatura”, importante desde a morte de Lênin, apenas perdeu seu controle após a morte de Stalin.

 

5. A Moscou Soviética, pelas lentes de Walter Benjamin.

Antes de iniciarmos uma resenha das imagens vistas por Benjamin, vamos traçar algumas linhas sobre o jovem filósofo que visitou Moscou dois anos após a morte de Lênin, no decurso das contradições da Nova Política Econômica Lêninista (N.E.P.), a qual substituíra o comunismo de guerra dos anos 1917/ 1921, que reestabelecia a livre iniciativa de pequenos proprietários e comerciantes no campo e nas cidades, e que antecederia ao coletivismo e à reestatização forçada dos meios de produção da era de Stalin (a partir de 1928). 

Para aqueles que classificam as diferentes filosofias da história de acordo com seu caráter progressista ou conservador, Benjamin escapa a tais definições. Trata-se de um crítico revolucionário da filosofia do progresso, um adversário marxista do "progressismo", para alguns, um nostálgico do passado que sonha com o futuro.

A filosofia da história de Walter Benjamin inspira-se tanto no romantismo alemão, quanto no messianismo judeu e, principalmente, no marxismo. Seu objetivo teórico foi o de radicalizar a oposição entre a análise marxista e as filosofias burguesas da história, na medida em que considerava as filosofias responsáveis pelo historicismo identificadas com as classes dominantes, em detrimento do ponto de vista dos vencidos. Logo, os conceitos de vencido e vencedor só podem ser entendidos dentro do contexto da luta de classes.

Desse modo, o materialismo histórico de Benjamin substituiu a ideologia de progresso preconizada pelo materialismo histórico mecanicista, pois sua visão atacava a concepção de evolução automática e contínua da civilização. Rejeitando o culto moderno da deusa Progresso, Benjamin coloca no centro da filosofia da história o conceito da Catástrofe: "A catástrofe é o Progresso, o progresso é a catástrofe. A Catástrofe é o contínuo da história".

Seu pessimismo em relação às catástrofes geradas pelo otimismo sem consequências da ideologia do progresso se demonstraram absolutamente justificáveis e até mesmo proféticas, tendo-se em vista os desastres ocorridos no século XX e a sequencia dos mesmos no século XXI.

E será através das lentes deste marxista heterodoxo que visitaremos a Capital dos Sovietes.

Moscou, 1926.

A visita durou de princípios de dezembro de 1926 até fevereiro de 1927, e foi repleta de expectativas pessoais, filosóficas, políticas e literárias. Benjamin queria conhecer a Pátria do Socialismo por dentro e de perto.

Vamos a alguns de seus relatos:

  1. Moscou invernal é uma cidade silenciosa. A enorme movimentação de suas ruas, onde mal se consegue caminhar sem empurrar ou encolher-se, é silenciosa. Ao contrário de Berlim, em Moscou existem poucos automóveis que são usados somente em matrimônios, falecimentos e pela apressada administração pública. Abundam, em compensação, os cavaleiros e os trenós. Com tudo isto, a cidade é rigorosamente limpa.

  2. A variedade do comércio ambulante o impressionou. As mercadorias irrompem por todas as partes das casas, penduradas em cercas, no calçamento. A cada cinquenta metros, vendedoras de doces, cigarros, frutas. Outros com cestos cheios de brinquedos de madeira, carrinhos e pás, todos amarelos ou vermelhos, muito bem feitos, sólidos, de clara origem camponesa. Artigos de primeira necessidade, roupas íntimas, tudo se vende e compra, recordando uma cidade como Nápoles. Mas aqui, em plena rua abaixo dos 25 graus negativos!

  3. Vendem-se bolos ainda quentes, rodelas de linguiça frita, mas tudo em silêncio! Aqui, ao contrário de Nápoles, não se grita. As pessoas se dirigem aos transeuntes com palavras sóbrias, senão sussurradas, nas quais existe a humildade do pedinte. Talvez pelo fato de o comércio ambulante ser em parte ilegal, evita-se qualquer sensacionalismo.

  4. No panorama das ruas de todos os bairros proletários as crianças são muito importantes. Elas aqui são mais numerosas que o usual, se deslocam convictas de seu destino e são muito ocupadas. Entre as mesmas existe uma hierarquia comunista. Os konzomoltses, por serem mais velhos, estão no topo. Têm seus clubes e são a verdadeira descendência instruída do Partido. Os menores, lá pelos seis anos, são os pioneiros. Também se reúnem em clubes, usam gravatas vermelhas com o emblema “somos de outubro”, e, finalmente, os lobos, crianças pequenas que já aprenderam discernir até mesmo qual é a figura de Lênin.

  5. Além dessas crianças, existem os besprizornie, decaídos e tristes, desconfiados e amargurados, os sem nome. Durante o dia são vistos solitários, na própria guerra pela sobrevivência. À noite se reúnem em bandos e aos turistas se recomenda se precaver de encontra-los. O Estado instala por toda parte áreas de reeducação infantil e nomeia educadoras para que se aproximem dos garotos e organizem distribuição de alimentos e jogos. Métodos pedagógicos tradicionais não poderiam dar certo com essas crianças. É necessário que a instrutora se ligue às senhas da rua e quando o consegue, a área sob sua responsabilidade pode chegar a congregar até 200 crianças! E como o orgulho do proletariado se faz sentir com cada besprizornie agrupado a uma coletividade!

  6. Numa ronda de estudos por museus moscovitas nada surpreende mais agradavelmente que observar como nessas salas, em grupos, muitas vezes com guias, crianças, jovens e operários se movem com toda naturalidade. Na Rússia, na realidade, o proletariado começou a se apossar da arte burguesa. Ademais de Museus de Arte, existe o Politécnico e o do Brinquedo. Como sabiamente diz Proust, a educação não é fomentada exatamente por obras-primas.

  7. A mendicância aqui não é agressiva como na Europa meridional. Existe como que uma corporação de moribundos. As esquinas de muitos bairros estão tomadas por embrulhos de fardos, camas ao ar livre. Longos discursos suplicantes acompanham os transeuntes. Moscou seria preciso conhecê-la como a conhecem estes mendigos! Sabem de que lado de uma loja lhes é permitido se aquecerem por dez minutos, sabem onde e quando irem buscar pães e onde existem abrigos com vagas para se amontoarem. Com centenas de esquemas e variantes, os mendigos aqui transformaram a mendicância numa arte. Acontece que na União Soviética a mendicância perdeu seu fundamento mais forte: a má consciência social, que mais que a compaixão abre os bolsos e as esmolas são raras.

  8. Existe uma vontade inexaurível de experimentar. Poucas coisas definem a URSS com mais vigor. Ocorre um estado de mobilização incondicional. Dia e noite o País está mobilizado e, à frente de tudo, o Partido. Por exemplo, o atual diretor do Teatro da Revolução foi outrora general; mas antes de se tornar um comandante vitorioso, fora crítico literário! Outro, o porteiro do hotel em que Walter se hospedara. Até 1924 estivera no Kremlin, foi então acometido de forte dor ciática. O Partido enviou-o à Crimeia para repouso e aos melhores médicos. Ao retornar necessitava de uma posição aquecida e que não demandasse muitos movimentos. Enviaram-no como porteiro do hotel, e se melhorasse, retornaria ao Kremlin.

  9. Oposição como se define no Ocidente já não existe. Ou ela contraiu algum compromisso com os bolcheviques ou foi exterminada. Fora do Partido já não se admite política.

  10. O bolchevismo aboliu a vida privada. A natureza dos serviços públicos, a atividade política, sindical, coletiva, e a imprensa, são tão poderosas que não sobra tempo para interesses que não confluam com elas. Tão pouco espaço. Casas com seus cinco a oito cômodos que antes abrigavam uma família, abrigam sete, oito famílias inteiras. De dentro de casa as pessoas suportam a existência, pois devido ao seu estilo de vida, alhearam-se a ela. Seu tempo fora do trabalho é o clube, a rua, as reuniões.

  11. Os dias dos moscovitas são repletos de atividades. Reuniões e comissões são marcadas a todas as horas nas fábricas, nos clubes, como se o conjunto social as esboçasse, planejasse e convocasse.

  12. Pela moradia paga-se de acordo com o salário. Toda a propriedade é estatizada. Quem pode paga 1 rublo por mês; os mais abastados, até 60.

  13. O trabalhador sindicalizado tem toda a cobertura possível para assuntos de saúde sem gastar um centavo. Já o não sindicalizado pode ir mendigar e se degenerar na miséria se, como membro da nova pequena burguesia (fruto da N.P.E.), não estiver em condições de pagar até milhares de rubros por tratamentos mais sofisticados.

  14.  “Tempo é dinheiro”, esta frase é atribuída a Lênin e ela é absolutamente genial, pois o espírito dos russos é dispersivo, perdem tempo com tudo, discutem por tudo. A unidade de tempo perante qualquer pedido é “imediatamente”. Acontece que o imediato aqui nada significa, pois geralmente nada acontece. O raro de ouvir-se é um “não”, o que não significa que o solicitado seja possível. As coisas terminam indeferidas por decurso de prazo.

  15. Sob o capitalismo, poder e dinheiro são grandezas mensuráveis. Qualquer quantidade de dinheiro pode ser convertida numa quantidade mensurável de poder. Nesse sentido só se pode falar em corrupção quando esse fenômeno se torna excessivamente manuseado. O Estado soviético interrompeu esta comunicação entre dinheiro e poder. O Partido reserva o poder para si; o dinheiro deixa, por enquanto, para o homem da N. E. P., a renascente pequena burguesia incentivada pela política Lêninista do pós-guerra. Aos membros do Partido Comunista assegura-se o mínimo dos mínimos para a existência, e fixa para os escalões mais altos um máximo 250 rublos mensais. Acima disto, somente com uma atividade extra, além do horário de trabalho, por exemplo, a literária. Neste sentido, a Rússia de hoje não é um Estado de classes, mas de castas. O valor do cidadão é definido exclusivamente pela sua relação com o Partido. Para aqueles não filiados, desde que não reneguem o Partido, abrem-se alternativas laborais. Mas um homem da N.E.P. é condenado ao ostracismo social.

  16. Todos os russos se unem na edificação do trabalho nacional. Uma vida isolada de eventos, mas repleta de perspectivas, todos buscam fatias de poder. Se um dia, a correlação dinheiro e poder voltar a se implantar na Rússia, tudo estará perdido, o Estado ruirá e ficará nas mãos daqueles que saberão realizar o câmbio negro do poder.

  17. O Partido se propõe equacionar o nível de consumo do povo russo ao de toda a Europa. Conseguirá?  Este será o seu inconteste certificado de vitória.

  18. Existem milhões e milhões de analfabetos e sobre eles deve se assentar uma educação genérica. Essa a missão essencial. Já a educação superior pré-revolucionária era europeia; e essas características europeias e nacionais da educação elementar buscam seu ajuste. No setor tecnológico, apesar dos desvios dos primeiros anos é de se supor que o sucesso estará garantido no futuro.

  19. Com relação à produção artística, é o conteúdo e não a forma que decide se ela vem a ser revolucionária ou contrarrevolucionária. O intelectual é, antes de tudo, um funcionário. Trabalha no Departamento de Censura, de Justiça, de Finanças. Quando não cai em decadência é um sócio do trabalho, o que na Rússia significa sócio do poder. Um membro da casta dominante. A associação mais avançada é a União Geral dos Escritores Proletários.

  20. Quem entra pela primeira vez numa sala de aula russa fica paralisado pela surpresa. As paredes estão tomadas por quadros, desenhos, modelos de papelão, onde as crianças depositam seus trabalhos para a comunidade. O tom vermelho prevalece e os trabalhos são impregnados pela foice e o martelo e por cabeças de Lênin. O mesmo se pode ver em clubes, empresas, sindicatos, na medida em que também para os adultos são esquemas de manifestação coletiva. Cada um dos chamados cantos de Lênin tem seu jornal mural. A ingênua alegria é uma constante e a ela se misturam exortações e propostas de melhorias dos serviços públicos.

  21. São comuns os debates pedagógicos na formatação de “debates judiciais”. Juntam-se entre 200 a 300 pessoas numa sala forrada de vermelho e no palco um busto de Lênin sobre um pedestal. No cenário, figuras de operários e camponeses sublimam a união do campo com a cidade. No palco três mesas. Numa um juiz, noutra um promotor e na outra, um defensor. De costas para o público a ré, toda de preto. A encenação julgará um caso de uma camponesa acusada de curandeirismo com desenlace fatal, uma intervenção errada na hora do parto. O perito da o seu laudo: responsável pelo falecimento da parturiente; o defensor apela por não ter havido má fé e no interior do país há falta de instrução e higiene. O promotor pede a pena de morte. No estrado surge um konsomol que exige castigo sem complacência. O tribunal se retira e ao final a acusada é condenada a 2 anos de prisão. O juiz esclarece que é necessário estabelecer em todo o interior, centros de higiene e instrução. O efeito destas sessões é excepcional!  Não pode haver meio mais eficaz para mobilizar o público para questões da moral bolchevique segundo a ótica do Partido!

  22. Todos os dias alguma festa é organizada nos diferentes bairros da cidade. Além disso, Moscou é cheia de restaurantes e teatros. Sentinelas com guloseimas patrulham as ruas, muitas lojas de gêneros alimentícios só fecham à meia noite e nas esquinas se abrem salões de chá e cervejarias. Em certas tabernas pode-se além de comer, alegrar-se com músicas folclóricas ao som de cantos, violinos e acordeões.

  23. Hoje é aniversário da morte de Lênin. A maioria das pessoas carrega uma tarja preta no braço. Para os bolcheviques, o luto por Lênin é também um luto por um tempo heroico, um luto pelo comunismo de guerra. Por todos os lados encontra-se com o retrato do líder, mas o mais frequentemente exibido é o de Lênin à mesa, inclinado sobre um exemplar do Pravda representando a tensão dialética de sua existência: o olhar voltado para a distância, mas a incansável preocupação com o momento.

  24. Nesses tempos se explica a cada comunista que o trabalho revolucionário agora, não é mais a luta, não é o fratricídio ou a guerra civil, mas a construção de canais, a construção de pontes, a eletrificação e construção de fábricas.

​Essas foram as impressões mais importantes da visita de Walter Benjamin à Moscou de 1926. Retornando à Alemanha, manteve-se próximo, mas jamais pediu sua filiação ao Partido Comunista Alemão.

6. Os ícones revolucionários e Larissa Reisner.

 

Constitui um tema muito interessante e ainda pouco explorado, o entendimento dos processos de mitificação que se desenvolveram na Rússia, a partir de 1917, e que se propalou para a maior parte dos países que optaram pelo socialismo posteriormente, tendo como exemplo mais destacado a China de Mao Tsé-Tung.

O primeiro e mais importante ícone masculino tornado mito após a Revolução Soviética foi a figura de Lênin. Uma imagem que muitas vezes se transformava num tríptico, agrupando as de Marx e a de Engels.

A construção do mausoléu de Lênin, na Praça Vermelha, onde o corpo embalsamado do líder ficaria exposto ao público por toda a eternidade, jamais expressou qualquer desejo do fundador do Estado Soviético e nem derivou de nada que tivesse a ver com a tradição revolucionária russa ou internacional. Foi sim, tal qual a presença de sua figura em milhões de cartazes e murais, uma tentativa óbvia de mobilizar o apelo dos santos e relíquias cristãs para um povo atrasado, em benefício do regime que se impunha. Criava-se um novo tipo de ícone: o socialista.

Logo após 1928, àquele tríptico associou-se outra imagem, agora a de um dirigente vivo, candidato a tornar-se um símbolo, a de Stalin. Lado a lado dispuseram-se Marx e Engels, assim como Lênin e Stalin*. E essas figuras-símbolo permanecerão unidas como emblemáticas da Revolução e do Povo Soviético por 30 anos até 1956. Deve-se destacar que, sob Stalin, o processo de mitificação atingiu seu ápice visando a uma espécie deificação do líder, “aquele que nunca erra”, o chamado “pai dos povos”, eufemizado pelo termo “culto à personalidade”. 

No entanto, o que bastante gente desconhece ainda hoje é o fato de que existiu também uma figura feminina escolhida para ser a mulher-mito do processo revolucionário. Ela existiu e teve certa importância como símbolo por quase uma década.

Na iconografia da Revolução de Outubro ela é Larissa Reisner, a mulher que pousa sempre linda, e ela o era realmente, com o sorriso confiante e o olhar claro para o futuro, vestindo um longo vestido vermelho, muitas vezes alçada ao convés de um navio em chamas. Esta imagem da mulher símbolo perdurará até o final da década de 1920.

Larissa, polonesa de nascimento, era filha de aristocratas. Ainda muito jovem, ligou-se a grupos revolucionários russos no exterior. Depois que os Reisner passaram a residir em Petersburgo, em 1905, Larissa cursou com o brilhantismo de primeira aluna as Faculdades de Direito e de Filologia.

Nesta época começou a escrever para jornais libertários. É quando travou correspondência literária com Górki, e ingressou no Partido Comunista no ano de 1917. Durante o Governo Provisório de Kerenski, de sua pena saiam os folhetos mais incendiários e quando chegaram os “dez dias que abalaram o mundo”, foi uma militante incansável.

Após a revolução, trabalhou nos primeiros tempos com Anatol  Lunacharsky, Comissário para a Educação, no Instituto Smolny. Foi a responsável pela catalogação dos tesouros artísticos da antiga Capital Imperial.

Casa-se, então, com o dirigente comunista Fiodor Raskholnikov e a seu lado atua como Comissária Política na Guerra Civil, enquanto o marido dirigia a Esquadra Vermelha do Volga. Daí a imagem do navio em chamas associado à sua figura.

A seguir, serviu sob as ordens diretas de Trotsky, do qual se tornou amiga até o final da vida. Ele se referiu em suas memórias a Larissa como a “Palas revolucionária: uma deusa do Olimpo, que sulcou os céus da Revolução como um meteoro em fogo”.

É de autoria de Larissa o livro “Outubro”, escrito e publicado em 1920, nos primeiros tempos da Revolução, que teve a honra der ser considerada a obra literária mais adequada ao espírito do tempo pelo Partido, já que o livro de John Reed não fora muito bem aceito pela ortodoxia partidária.

Uma vez terminada a Guerra Civil, Larissa lançou-se na luta proletária da Alemanha, militando na reestruturação do Partido Comunista Alemão, após a desastrada deflagração da revolta espartaquista de 1919. Graças a seus dotes literários deixou livros escritos e travou amizade com intelectuais modernistas como o poeta Rainer Maria Rilke.

Chamada pelo Partido volta à U.R.S.S. em 1921, e parte com a primeira embaixada soviética que irá se estabelecer no conflituoso Afeganistão, disputado à época aos ingleses . Uma de suas funções era como agente de informações, pertencente à Tcheká, dirigida à época por Felix Dzerzinski, controlar as ações dos diplomatas.

Estabilizada a situação no oriente, Larissa volta à Alemanha em 1923, como representante do Comintern  (comitê diretor da III Internacional Comunista), e uma de suas responsabilidades era convencer os líderes comunistas alemães da necessidade de isolarem-se dos socialdemocratas, o que levou a um gradual isolamento dos comunistas na sociedade e contribuiu, em certo sentido, para a ascensão política do nacional socialismo.  Nessa época publica “As Barricadas de Hamburgo”, e, logo a seguir, “Berlim, outubro de 1923”.

Liga-se sentimentalmente a Karl Radek, membro do Politburo do PCURSS, ainda pertencente à ala esquerda dirigida por Trotsky. Retornando à U.R.S.S. em 1924, rompe o casamento com Roskolnikov.

Nadiejda Mandelstam, viúva do poeta Ossip Mandelstam, apresentou em escritos que vieram à luz com a glasnost, Larissa como a mulher que soube construir atrás de si a imagem de um mito. A própria Larissa assumiu-se perante Nadie: “Se a Revolução Francesa criou seu tipo feminino (referia-se ou a Marie Dèschamps, a modelo utilizada por Eugène Delacroix em alguns de seus quadros, ou às mulheres citadas por Michelet? ) por que não a Russa?” E Larissa se candidatava a isto. Nos escritos de Nadie, esta diz: “Era necessário criar um protótipo e este foi Larissa. ”

Larissa era intelectual, educada nos antigos padrões aristocráticos, sabia ser doce quando queria e dura como uma rocha quando devia; militante sempre disponível, linda e desejada, sexualmente liberada, ao mesmo tempo líder e obediente a todas as palavras-de-ordem e disposições do Partido.

Pese haver-se ligado e identificado com o simbolismo modernista apenas um par de anos antes, tornou-se uma das primeiras intelectuais defensoras da ortodoxia nas artes, a qual viria a sufocar toda e qualquer liberdade de expressão artística nos anos vindouros. Atacava literariamente tudo e todos que ousassem inovar fora dos padrões de “utilidade revolucionária”. Por exemplo, acusou através do Izvetia, o genial escritor simbolista Mikhail Bulgakhov de traição por suas concepções místicas, no artigo intitulado “Contra o banditismo literário”.

Larissa Reisner faleceu prematuramente em Moscou, aos 31 anos de idade, vítima de tifo, no ano de 1926. Boris Pasternak, que até a morte de Stalin manteve um comportamento nos limites do alinhamento aos ditames do “realismo socialista”, dedicou um poema à musa morta: “No meu réquiem para Larissa, digo que ela foi, dentre as mulheres, a Primeira da Revolução Russa... a geração que se educou na beleza das ruínas.”

Por outro lado, coincidentemente com a morte de Larissa, em segredo, Pasternack começara a escrever o livro “Dr. Jivago”, possuindo como cenário de fundo a Revolução de 1917. Este livro somente seria completado e viria a público em 1956, após a morte de Stalin e a ascensão de Nikita Kruschev. Seus contemporâneos afirmaram o que Pasternak jamais negou que a figura de Lara inspirara-se na musa da Revolução, Larissa Reisner.

Entretanto, a partir dos anos 1930, todas as fotografias em que apareciam Trotsky e Larissa juntos começaram a ser borradas e nenhuma das imagens comuns deles sobreviveu.

Também a imagem da primeira mulher-símbolo da Revolução se esvaneceu. Afinal, até a morte, fora amiga de Trotsky e Stalin desejava ocupar para si todo o espaço disponível no imaginário popular russo. E nele não haveria espaço para outra mulher símbolo.

  • Obs.: Ao contrário das imagens de Marx, Engels e Lênin, quase sempre reproduzidas com verossimilhança, a de Stalin foi sempre retocada. O georgiano tinha a face profundamente marcada por cicatrizes de varíola e a forte maquiagem se encarregou de alisá-la tanto nas fotos quanto nas aparições públicas. Suas fotos publicitadas sempre foram retocadas. Além disso, nas aparições, Stalin que possuía 1,59 metros de altura, os usos de estrados e de plataformas faziam com que parecesse muito mais alto do que realmente o era. 

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