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"Textos e Contextos de Dostoiévski à Geração Sacrificada"

Conclusão.

Ao traçar um paralelo entre as duas maiores revoluções já realizadas pela humanidade, a Francesa e a Russa, Albert Camus, em “O homem revoltado”, nos diz que os jacobinos acreditavam nos princípios e na virtude, e morreram por terem tido que negá-los, enquanto que os revolucionários russos apenas acreditavam na revolução e na virtude da eficácia, embora ambos agissem imbuídos de que suas ações permitiriam a reconstrução de um novo mundo, mais solidário, fraterno e livre.

A Revolução Francesa inaugurou a época da moral formal moderna no mundo ocidental. O que é a virtude? É viver em conformidade com a natureza e com a lei. Logo, toda desobediência à lei ocorre por uma falta de virtude do cidadão refratário, assim como toda corrupção política também consiste numa falha moral. “Saint-Just era honesto no seu desejo de idílio universal”. Desde o início da revolução, Saint-Just e Robespierre, os mais incorruptíveis dos revolucionários, eram contra a pena de morte, mas impunham que os assassinos se vestissem de preto por toda a vida. Apesar disso, sonhavam com uma república do perdão. “É  uma coisa terrível atormentar o povo”.

Mas a partir do momento em que as leis não fazem reinar a concórdia, em que a unidade a ser criada pelos princípios é destruída, quem são os responsáveis? São as facções! Então, todas as facções deverão ser combatidas. Quem são os facciosos? Aqueles que negam por sua própria atividade a unidade necessária. Logo, a facção divide a soberania e abre brechas para os inimigos internos e externos. Ela é, portanto, blasfema e criminosa. Mas e se houver muitas facções? Todas serão combatidas sem remissão.

Saint-Just exclama: “Ou a virtude, ou o terror!” E será Saint-Just quem proclamará o grande princípio das tiranias do século XX: “Patriota é todo aquele que apoia a República no geral; quem quer que a combata no detalhe é um traidor... Quem a critica é traidor; quem não a apoia ostensivamente, um suspeito.” Cria-se o espírito do policial no coração do revolucionário francês. “Uma revolução como a nossa não é um processo, conclui, mas uma tempestade sobre os maus.”

A outra Grande Revolução, a Socialista de 1917, surgiu como fruto da revolta popular; no entanto, a mesma revolta que permitiu a tomada do poder por um grupo de vinte a trinta mil pessoas organizadas, transformou-se em um Estado burocrático e repressor. Tal qual a primeira Revolução, a francesa, ela teve também seu Termidor num certo dia 9, o de novembro de 1989, com a queda do muro de Berlim e a desintegração da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

 

Quando eu despertei para a vida política nos anos 60 do século passado, mais de um terço da população mundial vivia sob o regime socialista, capitaneado por um lado pela União Soviética, de outro pela China Maoísta, frutos tanto da Revolução de 1917, quanto da vitória na Segunda Guerra contra o eixo nazifascista.

Vivíamos o auge da denominada Guerra Fria. Às forças militares da Organização do Atlântico Norte, a O.T.A.N., sob as ordens dos Estados Unidos, opunham-se as forças do Pacto de Varsóvia em pé de igualdade em suas capacidades mortíferas por terra e por ar. Bombas atômicas de fusão e fissão nucleares em suas ogivas e foguetes se equivaliam de um lado e do outro. A competição pelo domínio do espaço colocavam lado a lado U.R.S.S. e Estados Unidos, e os soviéticos haviam sido os primeiros a colocarem um homem na estratosfera.

Na Europa capitalista a eclosão do movimento estudantil de 68 e as greves operárias levaram a França e outros países ocidentais a um ponto de quase ruptura. Os Partidos Comunistas em países como França e Itália, os Socialdemocratas nos países nórdicos, estavam entre as duas mais importantes forças políticas e eram de certa maneira garantidores de estado de “bem-estar social”.

Dentro da própria Meca do capitalismo, os Estados Unidos, movimentos contestatórios da  discriminação racial, humanistas, movimentos contracultura, experiências de vida comunitária, manifestações pela paz e contrários à guerra do Vietnã tomavam as ruas e as universidades.

Por outro lado, as forças produtivas dos países socialistas com destaque para a indústria pesada e de infraestrutura, superavam em velocidade de desenvolvimento às dos países capitalistas, que se debatiam em crises econômicas que, se não assumiam as proporções de 1929, era basicamente por haverem trazido da experiência socialista as bases para o planejamento econômico.

O crescimento econômico da U.R.S.S. e a dualidade da guerra fria haviam esfriado os ímpetos de transparência gerados na era Krushchov e os crimes de Stalin, parcialmente denunciados pelo mais próximo colaborador do líder morto, de certa forma haviam sido esquecidos, ou melhor, enquadrados como frutos da necessidade do Estado Soviético firmar-se nos anos de maior dificuldade e avanços do nazismo. A crítica que se fazia sentir em boa parte da esquerda brasileira era ser o tempo pós- Stalin o de um tipo de “revisionismo do marxismo”.

Movimentos e governos que buscavam reformas e a oxigenação democrática do socialismo, assim como a afirmação das nacionalidades sob o domínio da Rússia Soviética, como foi o caso da “Primavera de Praga” (na década anterior havia sido a experiência húngara), eram reprimidos a ferro e fogo pelas tropas do Pacto de Varsóvia e a ordem burocrática “ortodoxa”, reimplantada.   

Na China, Mao Tsé- Tung e o Partido Comunista em reposta aos fracassos econômicos do “Um salto adiante” de 1958 e do rompimento político com a U.R.S.S., que haviam produzido milhões de mortos por fome, desencadearam o processo populista da Revolução Cultural, que para pasmo de nós ocidentais de esquerda praticamente aboliu o ensino universitário por dez anos no país, baniu desde a música clássica a tudo o que culturalmente não se enquadrasse na ortodoxia maoísta.

No entanto, no Extremo Oriente, graças ao apoio chinês e soviético, nações e povos alinhados ao socialismo como o Vietnã do Norte, travavam uma luta de vida e morte contra o império americano e dela sairiam vitoriosas.

Na África, as lutas anticolonialistas se alastravam e as batalhas contra o “apartheid” eram cada vez mais importantes. No Oriente Médio, desde o Egito surgia a perspectiva terceiro-mundista capitaneada por Gamal Abdal Nasser, disseminando-se para quase todo o mundo árabe.

O importante reposicionamento da Igreja Católica após o Concílio Vaticano II, que deu ensejo à Teologia da Libertação, elevou as esperanças por um mundo mais solidário, com democracia social.

E na América Latina, Cuba surgia como um farol a iluminar na nossa utopia, uma forma de futura pátria socialista latino-americana: lá um grupo de guerrilheiros tornara possível a derrubada de uma ditadura sangrenta e corrupta, implantando as bases do socialismo a oitenta quilômetros da sede do Império!

Movimentos de contestação político e sociais, experiências reformadoras e nacionalistas se expandiam nos países de Centro-América e na América do Sul. E foi numa perspectiva de luta que o melhor de nossa juventude engajou-se das mais diferentes formas e com objetivos que iam desde movimentos de base reivindicatórios até os revolucionários. O engajamento passava por lutas sindicais, estudantis e camponesas, e seguia até a opção pelas ações armadas, nas formas das guerrilhas urbana e rural.

Logicamente compúnhamos um conjunto absolutamente heterogêneo de crenças e práticas. Aos movimentos culturais de vanguarda mesclavam-se grupos com forte ideologia cristã, outros agnósticos, marxistas, marxista-leninistas, trotskistas e maoístas, ditos ortodoxos e heterodoxos, quase todos, entretanto, objetivando a construção de um mundo mais justo e acreditávamos piamente que ele estava ao alcance da mão. Era o renascer das esperanças por um novo mundo em gestação.

De todos os modos, a geração dos anos 1960 reeditou a experiência do final do século XIX e de princípios do XX. Foi o surto de uma modernidade tardia que desabrochou, se expandiu tomando cor na rebeldia, na necessidade de reencontrar-se num ambiente de aventura, vanguardismo, poder, alegria, desenvolvimento coletivo e pessoal e de transformação da realidade. Foi de todos os modos, um instante na história que também nos conduziu a heroísmos e desmedidas, a desintegração e mudanças, repleto de contradições, ambiguidades e angústia.

 

Somente duas décadas após os anos 1960, assistimos o capitalismo oligopolista globalizante vitorioso. A perspectiva denominada neoliberal acompanha o desmoronar de todo o bloco socialista europeu, assim como o massacre da Praça da Paz Celestial em Pequim.

Mais do que nunca se pode ao longe ouvir a voz modernista de Marx: “tudo o que é sólido desmancha no ar, tudo o que é sagrado é profanado, e os homens são levados a enfrentar as reais condições de suas vidas e das relações com outros homens”.

A sociedade líquida do contemporâneo pós-moderno sob a liderança do neoliberalismo, o qual nada possui de liberal, simboliza o capitalismo sem peias. Oligopolista, centralizador, destruidor de estado de bem estar social dos países centrais, de conquistas sociais de países emergentes, de desestruturação de países periféricos, a globalização do capital consagrou-se à desintegração do espaço público, à transfiguração do coletivo em nome do individualismo, explodindo até mesmo o último reduto gregário: o núcleo familiar.

O consumismo sem freios, o lucro a todo custo pese a todos os avanços tecnológicos, faz-se acompanhar de uma exclusão social poucas vezes vista nos últimos dois séculos.

Atitudes de desrespeito aos diferentes e desprezo confesso pelas conquistas civilizatórias, que na definição de Hobsbawm, conduzem à “destruição do passado- ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam nossa experiência pessoal às gerações passadas- é dos fenômenos mais característicos e lúgubres deste final de século”, são as formatações que são impostas às sociedades contemporâneas.

As mentes tornam-se obnubiladas pela violência dos mercados, pelas gangues, pela comunicação banalizada nas mídias sociais, pela corrupção que ao mesmo tempo em que se generaliza torna a política uma arte menor de produzir privilégios, pelo narcotráfico, pelas guerras, pelo terrorismo e pelas bestialidades oficiais que marcaram também o último século e que seguem o mesmo padrão de perda de humanidade no século XXI.

Paira no ar, entretanto, uma séria questão: quanto os tempos pós-modernos ainda guardam de sua herança modernista? Como duvidar de, como dizia Marx, aquilo que num instante parece sólido se desmanche novamente ar? Por que não poderemos ainda um dia viver um renascer da esperança e dos ideais de uma sociedade mais saudável, harmoniosa, humanizada, tal qual ocorreu nos anos 1960? Onde estão os sonhares, onde certo romantismo irmão gêmeo da utopia, que possam despertar atitudes coletivas, preservando a integridade de cada indivíduo, tanto na liberdade do pensar quanto no do agir?

Ou infelizmente, quem o sabe teremos realmente que ouvir até o dia do Juízo Final a frase-epílogo de “Crime e Castigo”: “a destruição em massa se espalhou pela terra.” E como ex- cidadão somente nos restará irmanarmo-nos a Ivã Karamazovi exigindo “nosso bilhete de volta”.

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